16 de julho de 2017

Acordo

Caso encontrasse espaço,
Quando buscasse a sorte
Da forma que partilho a vida
Igual seria a morte
Partilhada na língua que fala
E que diz mais a respeito de tudo.

Contudo recomendaria a trilha
Com nada de passos atrás daria.
À frente da minha agonia:
Um traço do meu esboço.

Quão grande tenha sido a lacuna
Vacina para esses dias,
Um lugar de qualquer um de nós,
Um lugar para todos nós -
Um lugar qualquer, um quase-lugar.

Andar sem permitir desviar
Olhar perdido que estava;
Daria mais uma volta por cima,
Daria mais um milhão de léguas;
Andaria como quem leva
A sorte sempre por baixo do plano.

Quando eu estiver sem sono,
Quando não me caiba debaixo dos panos
Que eu viva a vida num canto
Em busca dos teus braços;
Quando os olhos cerrados
Encontrem o calor sob o manto
E durma para agir noutro campo.

Do tamanho do meu esforço,
Será sempre depois o talento.
Jogaria no baú o esboço
E viveria o desenho novo
Aquele que dá cabo à moda
E resgata a tradição de busca.

Escuta! Percebe! Responde!
Eu hei de esperar mais uns anos?
Eu já acumulo planos.
Eu já sinto um sono.
Prefiro fazer um acordo:
Faço tudo como proposto,
Enquanto ainda estou acordado.

5 de julho de 2017

Amanhã-passageiro

Tenho uma coleções de papéis num envelope plástico.
São memórias de quem já dedicou a mim algumas palavras.
De vez em quando volto a elas.
Releio para não esquecer com o passar do tempo tudo aquilo.
Como em outras vezes, papéis me deixaram lágrimas de um tempo bom que não volta.
As lembranças têm este poder: tentativa fracassada de viajar;
Na verdade, a viagem fica presa dentro de mim.
O veículo que locomove no tempo sem sair do lugar;
Combustível  que vaza lento e doloroso
Engrenagem que se move incansavelmente;
Movimento não acelera nem para frente nem para trás.
O movimento em si.
Eu não sou condutor.
Eu não sou veículo.
Eu não sou trajeto.
Eu não sou...
Fiquei ali mesmo no que fui, esta viagem parada ali.
Ali é o lugar que não alcanço.
Meus braços não se deixam mais enganar.
Pedem descanso.
Assim como a cabeça precisa descansar.
Não há mais surpresas nem na pele nem por baixo da pele.
Não há meio do caminho, interrupção.
Há em mim uma estação de serviços às palavras.
Porque neste ir e vir só quem transitou foram elas.
O combustível acabou, a última gota acabou de cair.
A máquina finalmente para.
Dorme, agora!
Amanhã será ontem.
Hoje passa...
Amanhã quem sabe serei passageiro.