27 de maio de 2018

Vamos viajar?

Trabalhar com o Turismo tem me rendido frutos de esperanças e desgostos ao ver todo o cenário político do País afundar nas contradições a que o Brasil aspirou nos recentes tempos. Olhar para a atividade econômica que envolve interdisciplinarmente questões de muitos vieses com uma capacitação para a indústria turística me dá um fôlego imenso, uma vez que tem sido um setor que vai na contramão da crise econômica. Não dá para vivenciar o fluxo de turistas sem se deparar com os entraves de planejamentos errados, golpe de Estado e com a carnificina capitalista que devora os estratos sociais de baixo para cima.
Num simples trajeto de casa ao trabalho, já tinha visto os seres humanos mais vulneráveis se multiplicarem velozmente nas esquinas e semáforos; pessoas com cartazes escritos em bom português desesperado e pouco educado, denúncia do desemprego crescente e a consequência que os levaram àquele posto de ambulantes quando o sinal vermelho anuncia um pedido de socorro. São famílias perdendo o trabalho e, em consequência disso, as expectativas que proporcionam a ocupação mental no setor produtivo: uma reação em cadeia com a velocidade de uma avalanche de amarguras. Primeiro, brasileiros perdendo seus postos de trabalho; depois tendo que se humilharem nos pedidos de socorro para quem ainda não foi devorado pelas consequências dos jogos nojentos do mercado. A criminalidade que atinge há muito tempo uma população predisposta à violência desde a colonização, agora recruta mais e mais meninos e meninas às drogas, à prostituição, aos desvios de caminhos, à mendicância... Para muitos, isso pode até passar despercebido, porque são os responsáveis pela desocupação dessa gente ao passo que são os mantenedores dessa relação exploradora e frágil para o globalizado escambo da informalidade, sem respeito aos direitos que vêm se afrouxando como desculpa de recuperação da economia brasileira.
Se pensarmos direitinho e questionarmos o serviço a dois senhores - como pode? - foi uma estratégia assertiva e perigosa, porque falhamos sempre no caráter, do mais rico ao mais pobre, mas vínhamos conciliando bem no sistema emoldurado pós-Revolução Industrial. Lembro-me bem do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, na sua estrutura, contemplava também a mobilidade urbana. Eu vinha sendo seduzido pela perspectiva de priorização do transporte coletivo, a atração de tecnologia para produção de energias renováveis, e esperando os resultados que pudessem ajudar a aliviar o caos das cidades cada vez mais abarrotadas de gente. Ficou a maioria na promessa, mas o projeto era elogiável, pois reduzia tempo e traria conforto e dignidade para se mexer no dia a dia já movimentado demais. Nunca tivemos o nosso trem-bala... os metrôs tiveram suas linhas reduzidas e muito dinheiro jogado fora, as obras ainda estão paradas; e eram promessa para um Brasil que se apresentaria ao mundo de um jeito diferente em dois grandes eventos: a Copa do Mundo de  e as Olimpíadas de 2016. Na combinação multifocal do PAC, apareceu o pré-sal nosso, fruto de muitas pesquisas, poderia nos trazer autossuficiência no combustível mais queridinho do mundo, e ainda daria para vender ao mundo e fazer dinheiro para acelerar ainda mais o nosso crescimento. Até que ele foi saqueado e fatiado, e oferecido, é claro, muito interessante para a poderosa Exxon. Vieram os leilões e deixou de ser nosso combustível e motor.
Então, agora, vivemos os dias mais alarmantes sob esses olhos mundiais pelas riquezas do mundo e defloração de quem precisa estar por baixo, subserviente. E começou a ferir a classe média, quem comprou carros novos ao custo de IPI zero com a vantagem dos subsídios governamentais para abastecer seus tanques com combustível mais barato. Já tem mais de uma semana que o preço da gasolina, etanol e diesel subiu, começou a faltar o líquido nas bombas. Já são tantas filas para abastecer e os preço subiram numa velocidade avassaladora. A gente já nervosa agora peleja para meter combustível no carro e sair por aí atropelando a mobilidade urbana e deixar nosso tráfego mais desconfortável.
Essa desestruturação não só afetou transporte individual e cotidiano para pequenas distância. Já chegou aos aeroportos e os aviões começaram a parar também. Voos cancelados, fim de férias (até o começo) com uma frustração de não poder sair de onde estar. Classe média que viaja nas férias, até os mais ricos que viajam sempre a negócios: todos afetados por falta de combustível. Confusão nos saguões dos aeroporto e hotéis, prorrogação de estada, prejuízos, amargos montantes por uma bagunça dos especuladores - tremendos abutres - e pela luta daqueles que pararam porque viver transportando o que move o País tem se tornado perigoso e antidemocrático. Protestos nas rodovias porque também tem gente que depende mais do que para se mover para negócios ou lazer, mas depende do movimento para manter sua vida cotidiana e suas férias, quando der: os operários do transporte.
Então eu volto ao meu dia a dia como operário do turismo, lidando com o estresse de todos, tentando esquecer o meu para sair de casa ao trabalho e melhor servir à agonia dos turistas e homens de negócios. Continuo a ver os pobres nas esquinas, abandonados e esmagados porque lhes fazem desimportantes. Chego ao meu local de trabalho - foi duro encontrar, certo?! - e vejo aqueles que se acham mais importantes sofrendo com o cansaço e a frustração de uma viagem toda interrompida por uma série de erros, mas culpam apenas os caminhoneiros e se esquecem de que a culpa é toda nossa. Por que não cobramos os projetos de aceleração como se deveria? Por que muitos apoiaram o lado que quer sempre ver o outro mais fraco cair do lado onde a corda arrebenta primeiro?
Foram às ruas tirar a presidenta Dilma manipulados pela mídia, e então onde ficou todo o resto mais fácil de resolver? Lula na cadeia, e tudo ainda está do mesmo jeito, como ele ainda estivesse solto, como acusam-no de mentor dessa corrupção, que, na minha modéstia leitura, existe desde os tempos de Brasil Colônia. Muita gente saiu comprado pelo "Fora, corruPTos", gritou e bateu panela. O PT saiu do governo, já tem dois anos, e todo mundo ficou em silêncio até a carne cortar no lobby de um hotel, a cara cansada e as feridas ardendo. Ainda nem acredito que estão gritando que é culpa só de um partido, com a cara cansada, quando estavam pintadas de verde e amarelo, vestindo a camisa da seleção brasileira, apenas produzindo essa situação atual. Agora continuam procurando outros culpados ou culpando quem nem está mais no Poder. E o turismo brasileiro que poderia e vinha sinalizando um fortalecimento tem seus dias mais pesados, enquanto eu ainda estou cansado, mas apenas fazendo parte da equipe operacional. Também estou cansado, mas não frustrado pela minha viagem empacar. Mas com a mesma esperança de ir trabalhar amanhã e tentar ajudar quem está cansado também.

25 de maio de 2018

Terra adorada

Uma bala perdida. Uma pátria amada. Um peso, uma medida, um olho por olho, dente por dente; talvez um homem que plantou semente, semeou-a como quem pacientemente esperava que longos dias, estações adversas, várias delas, tudo sob a lei e a mais importante da honestidade: o fruto de sua semeadura. Justa. Correta. O que vem depois, será por lei, sempre, um filho.
O País que em pecado, no passado, herdou de si mesmo a terra roubada, há séculos, dos filhos que fogem a luta enquanto sofrem os que se armam de fé e remissão, dívida herdada por tabela, pisam forte o chão, uma vez que aperta o coração, e produz a lavoura para alimentar os mesmos caras-de-pau que cometem tudo que são de cometer por tempos, em tempos e tempos.
Filho órfão da União, do terceiro setor, de quaisquer adoções; são filhos cegos, geneticamente influenciados por estúpidas vezes que se deixaram, em nome deles, o pão ir-se esfarelando numa vitrina onde, aqueles que podem e não querem, aqueles que sofrem com fome e não podem, o ar seco e a luz que oscila degradar o alimento de quem plantou e não pôde escolher.
Estou vendo o Brasil há poucas décadas sentir coragem e travar escolhas mais certas, e voltam a repetir o mesmo erro com nuanças de uma moda que passa por colônia, império, república, ditadura e democracia, no pote de mistura, a batedeira faz da força colorida da nossa etnia uma lama escura e horripilante. Estou vendo há três décadas os erros se repetirem conforme minha leitura um dia me mostrou que toda aquela ganância só passar hereditariamente para uns nomes cuja bênção é promulgada por quem se levanta como sacerdote pronunciando seus ritos.
Faz algum tempo que quero, na agonia, partir, vejo mãos por aí, dadas furtivamente, das premeditadamente... vejo mãos separadas, não alcanço de tão longe que estejam aquelas em que um dia achei, por ingenuidade, querer com as minhas andar, dadas, em nossas forças. Faz algum tempo que olho minhas mãos trêmulas quererem apertar as mãos verdadeiras de homens íntegros, que queiram como eu, não fugir à luta, mas sentir um aperto de mão forte e digno. Faz algum tempo que perdi um pouco da memória de ir ou ficar, e permanecer entre aqui e acolá, ligado aos irmãos cujos nomes são tão simples como o meu. Foi na simplicidade que encontrei a solução: eu estendo a mão e a mão que, se a minha se junta, quer andar para onde for sem questões banais de terras em meu ou seu nome, porque a terra fica para todos, afinal. Todos terminam por escolher como tratar a terra sem perceber que a escolha tem feito, do chão, propriedade, sem jamais querer que outro semelhante, seja filho, seja irmão, seja amigo, seja querido ou não, tenha a mesma oportunidade de caminhar num lugar seguro, como um porto em que se lança e se volta, quantos homens passarem e quiserem desbravar. É aqui um lugar seguro? Temos aqui um porto para ancorar nossas barcas desbravadoras de bons corações? Não tenho a resposta, infelizmente, mas tenho um posto e nele aposto com um aperto de mão e, talvez, abraço sem patriotismo medíocre, sem a ganância por terra que o vento leva tão fácil quando poeira.

16 de maio de 2018

Alcunha para um bandido à espreita

Ladrões! Ladrões! Ladrões! Por todas as partes, em qualquer lugar do mundo. É preciso redobrar a atenção, é preciso ter noção e firmeza nas suas palavras. Não reagir, porque, a um passo, são assassinos, pois que estão doentes. Infiltram-se nos escritórios, nas escolas, no Congresso e, sem perceber, sob o olhar doce da dissimulação, lá está o ladrão na sua vida. Roubam projetos, sonhos, dinheiro, paz, fazem pirâmides, fazem qualquer geometria analítica porque tem dimensão de sobra para enganar até satisfazerem suas necessidades. É preciso estar atento, sim; é preciso não se deixar atentar. As tentações são muitos, jogam de todo o jogo da sorte e do azar, usam palavras cheias de emoção, quiçá com um sorriso de felicidade forçada ou um choro de quem pede pena porque precisa da sua, mas não é mais que um ladrão, e se for, adoece e contamina.
Há aqueles que roubam merenda das escolas; outros saciam suas fomes de mentir em busca do que, até pouco que se tenham, impiedosos, tira-o com a mão leve que afaga, quando se há duas, para a segunda, num movimento de distração, retiram a paz, o dinheiro ou a vida.
Há ladrões de ideias, jamais confie nas promessas; nunca se deixe iludir por uma colaboração, pois normalmente eles já têm comparsas. A não ser que sua vocação também esteja para o trabalho sem brilho, com apenas um querer egoísta de se dar bem e passa a perna numa rasteira de qualidade duvidosa. São treinados ao custo de suas vidas dedicadas às sombra e frieza de atos a querer a vantagem sobre todas as coisas. O País está cheio deles; o Planeta é povoado por gente assim. Já levaram ouros, pedras preciosas, mulheres inocentes, homens igualmente ingênuos, dizimaram tribos... A cada época, possuem uma alcunha relativa: ratos, sea dogs, ministros, mestres, até.
À esquina da rua, eu vi um amontoado de gente desfavorecida, repercussão do roubo; a taxa de desemprego nada mais é que o resultado do mesmo caminho terrível de suas práticas. Conheço vários tipinhos, Aparecem na televisão, estampados em outdoors, mesmo ainda o que entram em seu coração com a querência do sossego dele mesmo, mas bagunça cada átrio levantado com uma arma infalível no percurso da História: o discurso. A fala pode ser calma, os olhos podem brilhar como quem se solidariza, mas, não se engane, não... É tudo ladrão, é como um arte equivocada, mas existente. Acima de qualquer suspeita, guarde seus nomes para que não se vingue, mas que se proteja, porque até, essa cega porque já lhe levaram os olhos - que tristeza! - está também infectada com o mesmo mal... Pobre Justiça. Dê-lhe uma alcunha, porque numa lista, isso aprendi com eles, estão todos escondendo seus rostos, seus nomes, mas apelidados de alguma referência. Refira-se a ele, sobretudo, como ladrão, nada além disso, só mudam de tempo em tempo, o nome. Fixe-se nas alcunhas. Esteja à espreita da sua correção.