13 de junho de 2026

Pedido de desculpas a mim

Eu, talvez, tenha me enganado muito mais vezes do que me achei certo. Errei feio e com esses erros, mesmo apreendidos, aprendi muito pouco. São quatro décadas de erros e eles me deixaram acúmulos de muito mais densos, em tese; em teoria tudo ficou meio vazio, mas vasto de respostas que não encontrei. Foi-se o tempo. O tempo é outro. É remédio de longo prazo que não faz sentido ao tempo que tenho, do que ainda me resta - tão jovem - neste caminho à frente, com as mesmas perguntas de sempre, em sentido adiante já me sinto velho. Quanto tempo falta?

Acumulei umas enfermidades por negligência minha. A mente agora está me cobrando todas as respostas e eu sequer as tenho tão breve. Ontem senti a falta de um abraço de quem mais me amou - na falta de mais uma certeza: eu entre os quinze e os 25; certamente mais do que eu naquele tempo nosso, onde elevei mais outro do que meu próprio peso. Não tenho como alcançar pela distância, pelo tempo não retroativo e sua instância; pelo cansaço; e a vergonha de errar novamente. Então hoje decidi me abraçar de uma forma sutil e me pedir desculpas discretamente: em voz baixa, lágrimas secas e verdadeira derrota dos vários dias atrás - todos eles. 

Perdão é o que ficou para mim e também ficou para amanhã. Porque até há pouco instante pensei que tinha progredido, entretanto corri para o lugar mais sensato que encontrei: onde pudesse me olhar por dentro, desde dentro mesmo, porque só via de fora. Como meu olhar saísse de mim desesperadamente para o lugar mais distante, e quão distante fosse mais do que a proximidade, intimidade e admiração as quais me tinha, eu pudesse ser imparcial e mais coeso. Ademais, ainda que pouco, sempre fui míope. Os olhos voltaram(-se) para o lugar certo. Um erro a menos, pelo menos!

Então agora estou com a receita médica para consertar os erros acumulados, e estou com olhos no lugar, contudo todo o resto já está distante. E agora, eu?! Minha pernas por onde andam? Meus braços, há pouco, abraçavam-me; já não alcançam aqui e estão do outro lado deste abismo em minha/sua frente. Meu tronco inteiro, imperfeito, com suas exageradas curvas, fazem-se de sinuosas desistências. E o pescoço que decidiu ir embora suportando a cabeça confusa e já sem olhos, os que ficaram por dó de si e inércia para viajar pelos caminhos duvidosos: estão além do horizonte e quanto de refração somada para enxergarem aonde devo ir buscar todas essas partes minhas que abandonaram esses olhos que agora choram. 

Para além da matéria, já não há nenhuma crença. Faz tanto tempo. Olhos românticos, conservadores, desprovidos de foco... olham dispersos sempre a buscar todas aquelas partes de seu ponto mais cômodo. São, portanto, o que tenho eu, assim, carcomido, e ainda todo despedaçado. Pedaços de mim por aí, se me lerem um dia com outros olhos, já não esses, por favor, desculpem-me por amputar-lhes!

29 de outubro de 2025

Não me ame tanto

 Assim que você saiu da sua zona de conforto e veio provocar a minha, dentro do meu espaço já abarrotado de recordações e sentimentos dispersos, com a mais bonita de todas as promessas. Havia um sinal de alerta, eu já lhe havia dito, todo terreno desconhecido é cheio de histórias que não conhecemos e será tão difícil fertilizar. Não escondi nenhuma ferida, nenhuma crateria, essa sequitude e asperezas de codições adversas, minha fluência por caminhos desconhecidos também me causa medo e angústia; até isso lhe havia avisado. 

Você veio brincar de seu primeiro amor, brincar com alguém que está desacreditado no amor, mas que não é um canalha. Eu não sou um canalha! Você veio bricar com todas as suas idealizações sobre o mundo e sobre mim, com seu jeito e tenra idade, as primeiras aventuras do seu ex-futuro para sempre, conto de  fadas de pouco mais de duas décadas de criação. Amor, eu sou um monstro nesta fecunda história de homens e bichos. Por dentro de mim há uma ruína ainda em chamas, fogo por todo lado, e já não acredito que foderemos até amar-me, desisto!

Fui seu brinquedo de família feliz, um bicho de pelúcia rígido nas malemolências da imaginação. Um parque de estimação, o brinquedo mais generoso e paciente. Tantas horas, tantos sonhos, tantas promessas. E nada de concreto existia até que você veio e como uma criança que chora, corre para o quarto do pânico, escondendo-se do mundo. Até ali, mil histórias que você crio, outras mil inverdades... Poderia ser o cheiro de cigarro, o tamanho do espaço, a falta de planejamento, de conhecimento, de direção. Perdeu-se ali, no quarto do silêncio. Silenciou-se diante de mim e de todas as medidas cautelares. Perdeu-me de vez porque queria perder. 

Deixou-me machucado, já havia mil pedaços que eu já havia juntado e estava colando. Jogou-me um balde de água fria - esta tão mal disfarçada confusão, que você fez! Eu, acostumado a banhos frios, terra fria, solidão, sei juntar o tempo e meu espaço de volta, tudo está escrito na mão, um manual de sobrevivência que desde maio eu já esfregava com ácido sulfúrico, soda cáustica: apaga as linhas tortas que me orientarama  chegar aqui e descobrir que não sou um canalha. É que amor demais me faz tirar os pés do chão, porque meus ímpetos de fantasias sempre me fizeram voar alto e cair da distância de um convite - sempre - de alguém tão distante. 

Daqui para frente, o de sempre: um plano, o plano b, os sonhos enterrados, todos, e o terreno despropriado. Deixou-me aqui aquela peça íntima, já lavada, com cheiro de novo (lavou, está novo!). Deixou-me aqui também espaços que não lhe cabem mais, a minha casa é vazia até de mim. A temida casa do caralho! O lugar que sobrou para mim. Esqueça o amor, "eu tenho algum problema com amor demais..."

9 de junho de 2025

Transbordo

Não cabe ninguém em mim.

Eu estou transbordando...

As abstrações são pesadas e flutuantes,

Meu chão firme que parece me engolir às vezes

Faz meus pés afundarem em imaginações diversas.


Não cabe mais de mim em ninguém.

Sou denso e completamente cheio de mim mesmo.

Transbordo por vastidão de desconhecimentos,

Já que sou apto a conhecer todos os lugares possíveis.

O mundo tem ficado mais apertado,

Mais perigoso e infinito de história.


Não cabe a América Latina em mim,

Com suas tradições invadidas,

Com suas abstrações apagadas.

Não cabem mais memórias destrutivas -

É um novo momento para todos nós.


Não cabe uma gota de orvalho 

Neste mar de lama sob chão firme.

Água e terra se entrelaçam:

Que meleira fizemos da noite para o o dia!

Que sujeira fizemos ao descartar nossas memórias!


Não cabe o oceano de mágoa.

Não cabe o vento que soprou em direções distintas

O muro com tintas escapa à superfície,

O que separa não tem cores.

Ausência de cor, o preto absoluto, acabou a luz.


Não cabe em mim a escuridão.

Todos os dias, de manhã,

O céu é convencimento ditador.

Não cabem coronéis em tempos republicanos.


Não cabem aqui talvez duas dores.

Não cabe um. Não cabe ninguém.

Existem dois lados sempre.

Existem, sobretudo, outros lados.

Não conhecemos muitos lados, nem lá fora.

Este medo constante do lado de lá.

Tempo de enfrentar o desconhecido.


Não cabe, por fim, este drama.

Não serão sorrisos fáceis, piadas superficiais.

Camadas de sonhos, de abstrações, não serão penetradas.

As placas se apertam e se chocam

Para jorrar o magma para o lado de fora:

Este denso peso das dobraduras e movimentos

Que escorre em calor e luz,

Em poeira e cinzas.

O chão será firme com uma camada a mais de história.


2 de junho de 2025

O amor acaba

O amor não é um conto de fadas, em que tudo fica bem no final. O fim, pelo menos, para mim, sempre machuca; é doloroso, como um pedaço pontiagudo de alguma coisa enfiado por trás da unha, que fica dias e dias ali: incomoda, dói, inflama; depois de criar pus e um inchaço horrível, visualmente fica feio, e por dentro continua ferindo. O corpo, pouco a pouco, vai cuidando de expulsar e sanar a ferida. Enquanto isso, a sensação é cruel. Mas, com o amor, é um milhão de vezes pior. A gente não sabe onde dói, e é insuportável. 

Nosso quarto ano de relacionamento recém-completos não houve nenhuma comemoração, não existiu nenhuma palavra da memória... Como se nada houvesse, não é uma data qualquer e ao mesmo tempo foi. Tanto que passou assim despercebido. Com o vazio e o frio que fazia aqui, eu te vi saindo, só; eu fiquei como ultimamente tenho ficado só. Na verdade aquela companhia cotidiana, até em uma sexta-feira - à noite, sempre o teu momento de liberdade. Ainda tinha a gripe que tomava de mim qualquer energia para sorrir ou celebrar, uma mistura desprazerosa de tudo que existe de contrário, como nossos caminhos estavam. 

Dia seguinte, meu comentário foi provocativo. Sei que fiz isso e deveria ter feito há algum tempo, mas parece que o pretexto foi o nosso aniversário esquecido. O-não-tivesse-havido. A inexistência de interpelações nos dias passados, aquele silêncio rigoroso de não-tivesse-havido, ganhou o supiro de um pretexto de um pedaço pontiagudo de alguma coisa; a coragem que veio em meio àquele rigor do excesso da palavra vazia, das abordagens ridículas - uma fofoca ali, outra acolá - e a distração que empurrava adiante tudo que a confusão mental e a decisão interminável que não chegaria. Chegou, enfim. Por mim, e agora a tua vez de dizer que queria estar só, e eu na ânsia do volume de queixas que estavam em algum lugar do meu esôfago, sufocando qualquer ar que eu respiro e que nunca foste tu desde que deixe o conto de fadas a sete palmos na terra onde nosso amor frutificou por quatro anos, finalmente concordei. E agora o ponto final para o que já tinha reticências desculpáveis.

Depois disso, o quê virá, além desse choro incessante com uma perda incalculável e uma decisão sóbria como essa? Assim mais silencioso que sempre como estou, minhas lágrimas têm sido os argumentos omitidos ou os momentos explosivos em que eu reclamava de tudo, porque nada era como antes. Sei que te devo desculpas por isso, minha omissão que durou sei lá quanto tempo. Sei que te devo desculpas porque eu achei que uma queixa, duas ou mais eram o bastante para mostrar que eu não estava satisfeito com nossa vida junta. Lembro que cheguei a ameaçar ir embora se as coisas não mudassem, mas aonde eu iria? Não me perdoaria se tivesse simplesmente ido como um covarde fugitivo mais do que essa tristeza por ter demorado tanto a dizer que já não te amava mais e sei que te fiz sofrer porque silenciei. 

Mais uma vez o amor acaba. Da forma que era. Porque ressignificado já está a caminho faz um tempo enquanto silenciávamos. Restaram a culpa de nós dois por este amor ter chegado ao fim e a minha culpa por não ter escutado tão bem os sinais de alerta desde os primeiros dias nossos. E nesta jornada até o quarto dia e o dia posterior, tudo o que vivemos foi tão maravilhoso e amadurecedor. Foram tantas agonias que descobri junto a ti como acalmá-las no teu abraço, a minha cegueira por falta de bravura foi limpando a visão com os olhos abertos de mão dadas contigo nesses anos em que aprendi a provar de tudo um pouco. Mas o amor acaba. E depois disso vem a dor. E depois disso, sara. E depois disso, surgirá outro amor e o processo sempre será o mesmo, embora com outra forma sempre mais graciosa de quem acumulou outras perdas e até o final de tudo, nós dois só temos a ganhar. 

1 de março de 2025

Carnaval morto

O carnaval brasileiro, mais do que uma festa, é uma celebração da nossa cultura popular. Significa que as ruas estarão cheias, ademais de negócios e cifras que representam os interesses predominantes na mentalidade econômica nacional, é um regaste, uma manutenção de tradições que caminham resilientes ao desenvolvimentismo pregado em tempos atuais. 
Sempre fui carnavalesco, sempre me orgulhei de ver nossas origens brincantes, as alegorias diversas, o desfile de belezas folclóricas, a história viva e resistente a caminho numa trajetória tão iluminada e ruidosa, como um grito de sobrevivência. São descendências eurocêntricas transformadas em mitos e canções que refletem nossa vida em uma aparência mais colorida e vibrante. Tudo revisitado, remendado e apropriado, é um orgulho danado ver tantas ruas cheias de povo, ruas ocupadas, gente celebrando de diversas formas e matizes brasileiras, de misturas de todo lado, uma mesclagem do passado ruim com o bom, projetado do jeito certo: o nosso. 
São muitos carnavais que brinquei aqui e acolá. Muitos, mesmo. Mais um transeunte, mais um folião na multidão... Até que ponto cheguei: a este carnaval de solidão e monocromia. Não, estou cinza, estou sozinho porque quis, porque não quis brincar, porque não me faz sentido este ano brincar diante de tantas outras preocupações, mas não me consome. Não me dei ao consumo. Preferi o silêncio do apartamento, a cama vazia no verão tropical. o espaço só meu, não por egoísmo, mas por necessidade de estar em paz em dias tão barulhentos como esses. 
Decidi não usar máscara. Não me disfarçar de alguma coisa vil por quatro dias. Fui obrigado a aceitar que a economia de outra forma que pudesse apenas encurtar a folia, servir ao patrão para garantir pão, sem circo. Neste lugar não é dia de folga, ainda que haja festa por aí, mas não há outra meta que não produzir os mesmos números, o que é cinza será a quarta-feira, porque estarei cinzento sentado no meu posto produzindo tudo aquilo que me pedem. Decidi não sonhar esses dias. Decidi não me embriagar do frevo, nem da marchinha, nem acompanhar alguém tão carnavalesco como eu fui. 
Não sei que tipo de perigo se corre em correr da massa momesca, no lento apagar de algumas luzes da avenida, as luzes de dentro, acesas a poucos esforços por assim dizer. Silencioso, apagado e monocromático. Deixei de estar de um lado para estar do outro; consciente do meu cansaço, preferencialmente deitado como agora, sob a única luz acesa do meu lar. O barulho apenas de um ventilador refrescando o subtropical efusivo tempo que se faz. Pois todo carnaval tem seu fim, mas o ano que vem haverá sempre outra fantasia desenterrada. 

29 de outubro de 2024

Você é o meu proXeto

 Esses dias me disseste, com o teu acento inconfudível, que seria eu o teu proXeto...

Cá eu com meu incofundível desassossego, que projeto tenho eu, para a vida com tantos sujeitos, com tantos complementos e com este mundo inteiro de objeto? No auge do meu caminho mais certo, com a língua a meu favor, com o argumento a meu favor e como nada disso tivesse sentido, numa crise ou num desvio de atenção, eu me perco todinho em muitos desses meus trajetos. São brutais os atalhos que às vezes eu, desatento, perco-me em passos em falso, rota desiludida, tantos pontos de referência, olhar para trás só para ter uma ideia, por que me faço perder neste olhar: para trás: Quando em frente é que se deve ir. 

Deixa-me situar agora. Hoje, mesmo. Não te tenho ao lado na cama, porque é um lapso - semanas - em que te tens que ir por teus projetos, outros, que não eu aqui, sem que fiques lá, mas sei que voltas. E preciso entender que voltas, porque eu sou este projeto, em que mais confias em mim do que eu mesmo, tenho certeza, pois eu sempre tenho tanta dúvida, quando deveria ter a tua certeza, que é seta e aponta: nós e ir. 

Deixa-me ir, deixa-me ter certeza que estarás, deixa-me querer que vás comigo. 

E eu ainda sei que deixas, e ainda mais que queres. Eu já te vejo com mais quereres do que quero. Perdoa-me por deixar de querer, quando não há mais do que desconfiança em que me perco uma vez mais, em saber o que quero e o que(m) me quer. São possibilidades que vivo cogitando ante a dúvida - ela sempre - e que ela não permita mais uma vez que me desvie como antes, em que eu queria ir e não fui, por desistência, sempre do outro, nunca minha para escolher apenas por mim, primeiro; primeiramente, que fosse por nós, mas o nós como somos faz esses anos que somos nós de um jeito que conseguir ver-te mais sendo-me do que eu mesmo sendo-me.

Espero que eu acorde amanhã como mais certeza do que agora: em ser projeto. É melhor ser projeto do que não ser, pois não sendo nem projeto não há caminho a seguir, pois se deixa apenas ir sem destino. 


20 de agosto de 2024

casa-mãe

Hoje minha mãe faz aniversário. Eu gostaria de estar perto dela no dia de hoje, sei que seria um grande presente de aniversário. Infelizmente não posso estar lá, já que são quase 2500 km de distância. Para somar essa tristeza de estar longe, há mais de um ano e sete meses que não a vejo pessoalmente. Seria um presente e tanto, mas impossível. tenho oito horas laborais para cumprir e uma sessão de psicoterapia para fazer em algumas horas. Talvez isso será o tema presente: minha ausência na vida da minha mãe e a ausência dela e de minha família nos meus dias. No entanto eu escolhi estar aqui.

Hoje, tenho um emprego na área que investir algun s anos de capacitação e um casamento, não oficial para título de registro legal, mas estou vivendo com a pessoa que escolhi e que me escolheu para somar diante de tantas perdas e distâncias que a vida no Sul do Brasil me fizeram optar. Estou ao lado da pessoa que tem sido meu único ente querido, que não é sangue, mas é família,. A família que escolhi e opção única dos laços que apertam a o incômodo de grandes ausências. 

Eu deveria estar grato por ter um casamento estável, o relacionamento mais verdadeiro e longevo que pude viver. Afinal, são mais de três anos de convivências e partilha, e minha mão nunca está sem um toque quando todas as ausências vividas me fazem tocar o nada quando eu tenho tudo que tanta gente gostaria de ter: um lar, uma carreira profissional, um amor equidistante, tão pertinho e tão presente. 

Acho que eu não estarei nunca satisfeito pelos meus feitos pessoais, por conta de um gosto amargo e um sopro vazio que os ventos que cá esfriam relações e outras ausências movimentam ondas de baixa estima, gigantescas, que afogam e encobrem com águas imaginárias, pois também cá me falta o mar. E quando o tinha a minutos da residência reclamava do desespero que eu vivia em ter em falta as coisas que cá tenho e lá não havia. A tristeza muda de lado, endereço e nomes sempre farão falta em qualquer direção aonde esteja eu indo. 

O dia da minha mãe me fez recordar que viva ela está e é possível que ainda tenha em breve seu abraço. Significará muito porque agora, eu que tanto gotava de falar, e conversar, nos últimos tempo tenho preferido o silêncio. A minha voz se calou para minha mãe com a frequência que costumava, ao menos, telefonar. Conversa de qualquer coisa, trivialidade, porque o que importava era a constância do ato e não a substância da prosa, com a densidade merecida. O peso da minha cosciência, que nunca esteve tranquila. 

Acho que o melhor presente para ela no dia de hoje é que eu possa ligar, e que ela me escute falar coisas bonitas, porque, ademais do silêncio que eu optei fazer nesses últimos meses, quando preciso falar são todas as outras diversas queixas, que devem vibrar de forma contrária ao caminho da positivade - espero não ter descarregado tanta negatividade aos seus ouvido. Embora, para mãe, qualquer assunto é uma novidade, mesmo que sejam queixas corriqueiras, porque talvez às mães importa dar os ouvidos, o coração, o sangue e até a vida se precisarem para um filho que se sinta morto ou que a vida não tenha sido igual, à idade madura, aos planos de quando criança compartilhar os quereres a longo prazo. 

Se mãe fosse uma coisa, seria casa. Porque mãe é sempre a sensação de estar dentro de um lar com todo o significado que tem essa palavra, e seu sinônimomais perfeito: casa-lar. Como seria bom estar em casa. 

17 de março de 2024

Morre-se um pouco para poder viver

Não tenho esquecido o dia de agosto, do seu aniversário. Mas como você se calou desde, sei lá, talvez dezembro, no meu dia, retirando-se de uma vez por toda de todas as promessas feitas, do consolo, um prêmio no matter what que denomina a isenção à culpa. 
De lá para cá, dois anos, quase dois, acho, que não tenho notícias suas. Espero que tenha morrido. Desejo com minhas forças nas unhas o pequeno esmagar de uma cabeça de formiga, que se tenha estourado todos os seu miolos ao chão e, por sorte, eu veja sua morte de alguma forma existir. Porque dentro de mim nada morreu e vivo assombrado em qualquer lado que eu estou, a vida passado, todo dia estou morrendo e vivendo um dia de cadáver... cada vez!Ainda que saiba que meu nome já não deve vir à sua boca nem para dizer que espera que eu esteja morto, porque assim me faria vivo em alguma parte de você, até na migalha que você deixou de me dar, que era um pouco da sua lembrança em alguns segundos da sua vida inteira. Nem para isso! Nada mais existe, nem minhas cinzas existem com esses ventos do seu lado. Sopraram tudo dos meus restos, dos meus farelos, misturados àquelas migalhadas que você me dava, bem por acaso, talvez com a preocupação de que eu fosse tirar minha vida por você.
Olhe bem, não tirei minha vida por ninguém, jamais! Nem por você faria isso!
Veja só o quanto morri a cada dia e estou aqui depois de tanto tempo sem escrever algo idiota como eu fazia ao acordar e antes de dormir, esquecendo só um ou outro dia de fazê-lo, mas sempre escrevia, com frequência: para falar qualquer idiotice minha que eu achava que prenderia sua alma num corpo já de tantas outras pessoas, oferecido em vão sacrifício e tesão dos seus 30 e pouco anos.
Mas minha alma já morreu antes do meu corpo naquela missa de alma presente e o corpo ausente, porque depois de você, tive que oferecer meu sacrifício de carne a outras tanta pessoas que tiravam minutos, às vezes, horas do meu dia, e levava consigo os fragmentos da minha alma que ia e vinha de algum lugar por cuja paz ela buscasse. Retornando sempre cada vez mais cansada e morta. Um pouco mais morta cumprindo a penitência que um dia decidi devolver às religiões. Eu matei todas elas para não acreditar mais nessa conversa de alma. E o mais engraçado de todos esses assassinatos, crimes, negligências me trouxeram no dia de hoje: nem um agosto qualquer, tampouco um dezembro. Hoje, março, vivo aqui, olha só! Vivo para mim, como se isso importasse em todo este texto que eu escrevi para você, que já me matou alguns anos atrás!

21 de agosto de 2022

Acidente de percurso

Amanhã fará uma semana que operei o joelho, depois de um acidente me parar à velocidade de 1000 km/h. 

Rompi a patela do joelho esquerdo. Ela se quebrou em dois pedaços. Eu vinha colando uns cacos aí, da vida, mesmo. A gente se restaura a todo momento. 

Estava a 5 dias da defesa do meu mestrado, precisei buscar uma encomenda num shopping há algumas horas da terceira mudança de endereço que faria nos poucos mais de 2 anos morando em Curitiba.

Já estava com novos planos profissionais também, na finalização desta nova etapa - decidi seguir carreira acadêmica depois dos 30 anos - em que eu precisei mudar de cidade,  já na sexta cidade que vivo ao longo da minha jornada.

Os ânimos esquentados por muito sucesso entre percalços por aqui: uma pandemia, uma recaída depressiva, tratamentos medicamentos há pouco mais de um ano.., o inverno subtropical soprou forte, fez-me cir de joelhos, eu levantei com as pernas quentes e sangrando, apenas sentei, não consegui mais mover nada!

Passaram: um homem, que apenas olhou, um sorriso de deboche bem tímido, nada perguntou; uma mulher ao lado, que parecia ter pressa num sábado à tarde, sequer me olhou. Até que a terceira pessoa que passou por mim, finalmente, exerceu a conexão humana um pouco rara, sobretudo no inverno, no shopping, na cidade. Foi atrás de ajuda. Foram quase duas eternas horas dentro daquela sala - bombeiros civis, paramédicos e o Juan, que foi a primeira pessoa que liguei para contar do incidente, segurava a minha mão e repetia que tudo ia ficar bem.

Fui levado de ambulância a um hospital de traumatologia, tenho poucas lembranças do caminho, só vêm flashes do paramédico fazendo brincadeiras pueris para tentar - acho - descontrair.

Descobri, por fim, que a fratura precisava de uma intervenção cirúrgica. Tive medo de nunca mais andar, foi a primeira cirurgia de emergência que faria, foi o primeiro passeio de ambulância que fiz sendo paciente e estando consciente dos meus medos na fase adulta.

A técnica de junção dos pedaços do osso sem uso de pinos ou parafusos com a costura do tendão patelar foram feitas no meu joelho. Quatro canais furados na patela, fios que juntam e se seguram ao ligamento do quadríceps e, logo abaixo, ao tendão patelar. Daí em diante apenas o meu corpo vai regenerar, com a impossibilidade de pisar ou flexionar o joelho pelos próximos 40 dias. E os movimentos comprometidos de agora em diante, só os meses de fisioterapia para responder às muitas dúvidas.

Foi uma pausa. Dolorida. Abrupta. 

Foi um tempo. É um tempo. Avaliar métodos, técnicas, pessoa e a mim mesmo. E não há vontade alguma de ficar parado. Mas precisei diminuir a velocidade. Fecho os olhos e só me lembro das mãos que me seguram neste instante. Tenho sonhado com meus amigos distantes, esses dias. Vontade de ficar em pé e firme, e acho que cheguei a idade de desacelerar.

24 de agosto de 2021

Terra passageira

Talvez eu possa estar avariado das ideias, está muito louco esse tempo... Eu pensei esta noite na insensatez da minha decisão, de querer esquecer-me de uma data e os olhos ficarem fixos no calendário esperando o dia chegar, o aniversário de quem já morreu; não o de morte, senão o de vida: vida distante de todas que eu não tive desde quando subi naquele avião. Dizer o quê da inconsistência dos meus pensamentos? Buscar terreno firme para pisar. Atolar-me na lama, sorrindo, porque você me rouba sorrisos de vez em quando, sujos como duas crianças em dia de domingo. Um parque, toda a gente, pais fingindo serem pais, mães cansadas, mas sorridentes, como nós dois, num típico domingo fora de casa. Aliás, houve uma falha no calendário, não me lembro quando o seu aniversário, sei lá, dia de comemorar quando chegar, mas não lembro, desculpa! Volta e meia, penso o que prometi, faz alguns dias; dessas promessas de quem só fá-las para não cumprir. Uma arte de sabotar; um teste de fracasso. Fracassar para me sentir vivo e querer tentar outra vez. Estou tentando esta brincadeira de novo. Brincadeira de ir para o parque em dia de domingo. E se fizer calor, vou adorar deitar na grama e ouvir novamente o pedido: "posso deitar a cabeça na sua barriga?" O frio na barriga. Sou esse que ainda tenho borboletas no estômago, geleira ártica em todo o sistema digestório; eu regurgito a emoção que excede os limites da minha carteira de identidade. Em tal idade eu deveria apostar menos fichas num sorriso que se rouba ou numa cabeça sobre a minha barriga, mas aposto meio que uma fração do que guardo em meus bolsos cheios de fichas velhas que venho guardando ao longo desses quatro anos. O bolso é o lugar de esconder e ao mesmo tempo está em fácil acesso. Onde escondo minhas mãos quando não as quero dar; onde recolho do frio que faz após o contato com a atmosfera fria, dessa frieza que escolhi me meter. Assim, meto as mãos quando dá, quando posso ou quando preciso. Estou com as mãos livres, em contato com o tempo. Já tem um tempo que você segura a minha mão. E houve dias que você me segurou antes de dormir. O dia em que você veio a mim para eu colocar a minha cabeça sobre sua barriga e chorar até dormir. E assim dormimos no lugar mais seguro que eu achei e apostei: nesse terreno instável. Só de estar pisando com os pés no chão, já me dou por satisfeito. Porque você ainda não me fez voar. Até porque minha asas foram cortadas em última instância. Repito, talvez eu possa estar avariado das ideias. E se minha cabeça anda meio perdida e desfoca, é na outra extremidade onde repousa o meu cansaço: do tempo, da morte, do voo e do ar. Terra em que eu pisar já é uma vantagem tão grande! Fazia já um tempo que eu nem tinha mais chão. Ficou um pouco de poeira, terra rasinha e algum cascalho. Estão no bolso junto com minhas fichas. Tudo está guardado para que saiba que tenho fichas, tenho solo, tenho fragmentos de algumas coisas: suficiente para acreditar. 

18 de março de 2021

Pane no sistema

O impressionante lugar da gente é ambiente imperfeito com suas dilacerações e remendos. Tive que olhar para o conjunto da obra; os detalhes pequenos no tamanho de sua pequenez deve ficar. Um lugar lindo cheio de opostos para lidar, uma sucessiva alteridade a cada ato de fala ou escuta. Entender o outro mais do que contrapor-se, é um desafio, confesso. Décadas de vida me fizeram experimentar aliados e opositores. Quanta ameaça e quanta desunião! Tem gente vindo de todo lado com as armas que têm para matar, roubar e destruir. Ora, um arranhão; ora, um estilhaço, pedaço de mim arrancado com a  falsa fome de quem só quer morder e cuspir fora. Onde estava unido, eu, diplomata da paz e bem, reforcei laços para não sucumbir à prova. Minhas armas brandas de diálogo e contundência para, quiçá, fingir-me de morto, de louco ou de otário. No interior, uma erupção vulcânica de lavas paranoicas, na quentura do delírio e excesso de irracionalidade. Suportei aquele derretimento como a frieza que conseguia, mas a razão das oposições são contraposições. Eu estava sempre tentando o equilíbrio térmico. Não mais que estava sendo eu mesmo, mesmo que perdesse por vezes a racionalidade. Apenas não conseguindo equilibrar o fluxo de energia. Ontem foi um dia assim...

Há um ano em pandemia praticamente, tive meu quarto ataque de pânico. Há bastante tempo sofro de ansiedade e -  menos mal - já tive orientações clínicas para o assunto. Poderia ter tido mais, acredito, no entanto consegui controlar a ansiedade muitas vezes para não ocorrer uma descarga como a de ontem. As notícias sobre as mortes por Covid-19, as pressões profissionais às quais tenho me submetido, a distância dos meu entes queridos e alguns problemas pessoais dos meus dramas cotidianos me fizeram quase no fim do dia acelerar o coração, sentir meus membros dormentes e gélidos por mais ou menos cinco minutos. Senti-me apavorado como se estivesse tomando doses tóxicas de algum veneno. E estava!

Decidi escrever este relato para que possa ajudar outras pessoas que estejam sofrendo da mesma coisa. Se tiver a opção de ter acesso rápido a um profissional de saúde, faça isso. Eu já procurei alguns, revi os meus níveis hormonais e descartei a hipótese de desequilíbrio neles, mas o fator não é apenas bioquímico. Li um livro da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, por indicação de meu psicólogo em Maceió. Acho que o ponto interessante da leitura é a informação de um profissional com conhecimento do tema. Ali encontrei uma geral sobre os transtornos, no entanto algumas característica batia exatamente com a angústia vinha me sentindo. Pois dali em diante, tento evolui no autoconhecimento. Entretanto imagino que algumas pessoas devam ter dificuldades de ter uma acesso holístico a sua saúde. Alguns remédios são possíveis, como enfretamento e solução. Há aqueles de prevenção mais fáceis, como atividade física (sim, estou em dívida), produção ou suplementação de vitamina D (já fiz e acho caro, mas ainda bem que temos sol disponível; é bom sempre procurar se informar do tempo ideal para receber a luz sem danos à pele) alimentação menos agressiva (evitar alimento processados e ultraprocessados ajuda bastante!); e a conversa, um canal de afeto sempre faz bem para colocar pra fora o que esteja sentindo. O equilíbrio emocional é uma expectativa mais difícil, porque, sobretudo, em tempos complicados que estamos vivendo muito foge ao controle e alguma coisa não depende só de nós mesmos. O importante é procurar ajuda se você não souber como vencer isso sozinho.

4 de março de 2021

jiboias em março

nesta manhã não foi o ato de acordar
que me fez acreditar em novo dia;
nada foi tão novo,
pareceu até dia repetido
como tantos outros,
e à noite,
à espreita de minha mão tremida,
sosseguei-me dentro de mim
como uma jiboia após devorar galinha-
há alguns dias sem me alimentar -
mas de onde vem rara energia? -
porque a fome ficou ali no começo da paz,
no fim do sossego por esta mudez,
não se fala de boca cheia! -
e qual semana terei força ao acordar? -
ainda que eu tenha os cacos espalhados
para organizar este vidro partido:
o anel que ganhei no dia já esquecido.

22 de janeiro de 2021

Viver é melhor que sonhar

Alguém que me escuta, que se importa. 
Alguém que me disse uma grande verdade,
Não de satisfação;
Aliás, bem pelo contrário. 
Verdade é a de cada um: 
Engraçado é que a nossa foi parecida. 
Que sorte. 
Estamos vivendo esta verdade.
E é só mais uma, mas é nossa.

15 de janeiro de 2021

Nanopsiqué: 2021

Estou cansado das minhas convicções. Nunca estive tão cansado delas quanto no tempo de hoje. Elas têm me restringido a este mundinho absorto que me faz distrair quando mais preciso ser atencioso - com o outro, sobretudo. Estive tão empolgado com o meu jantar que muitas vezes me esqueci de quem tem fome. Estive tão imerso na minha insônia diária que me esqueci de quem estava dormindo e incomodei com agonias minhas. Sim, foram minhas convicções, os pensamentos - muitos disfuncionais - que me jogaram num comportamento incansável de ser eu mesmo e esquecer-me de quem ao lado esteve. E do lado da lembrança muito mais do outro do que de mim, foi na minha dúvida, esta incerteza que me fazia buscar, portanto, certificar-me da minha ignorância. Eu odeio permanecer na ignorância, no entanto as minhas convicções foram danosas; necessito atualizar todas elas. 

Fui convicto e nunca venci. Seria vaidade estar invicto, mas por quê? Tantas perdas, materiais, por minha mente cansada da convicção e outras questões mais graves: o vírus, o diabo que a gente cria como quiser para ter medo e se esconder debaixo da coberta escura que transfere a escuridão onde fica mais fácil justificar de não ter visto, de não ter mais opções do que sentar ou deitar e corroer até o fim do drama. É finalidade, pois, coerente transmitida pela culpa, um antígeno plausível e mais justificação, e mais, até nos encontrarmos doentes. 

Estou doente faz alguns dias. Mais perdas. Tem a pressão de aqui e de acolá, onde dirija o olhar, os ouvidos para ouvir mais cobrança: um cacho de uva, um casco de cera, um copo de água, uma vela para iluminar o buraco onde vou me meter, cansado, e comer e beber, derreter com o calor do momento e me arrastar pelo chão como lava de parafina que se deslancha no mais ridículo material que resseca e se desfaz com qualquer intempérie. A convicção não me fez forte. É verdade.

Estou com o rei na barriga e falta tanta coisa que nem uma coroa de espinho, nem um trono de folhas secas e armação de gravetos. Nada da natureza eu tenho conseguido reaproveitar para criar um império fajuto, para destronar culpa, segredo, mito ou essas metáforas que vão nos colocando num cercadinho e nos empilhando como discípulos de submissão e temor. A convicção não me fez sábio. 

Agora preciso sanar tantas dúvidas: reavaliar esses dias, essas palavras, essa correria. Tudo escolha minha, tudo, convicção em xeque. Agora ficar uma pulga atrás da orelha, coçar para achar a necessidade vital; e na hora que vencer o cansaço: vem o sono e, ao acordar, arrumar esta bagunça até aqui. 

Obrigado pela tua parceria; e a gente ter se encontrado, convictos, no que restou: novas ideias para novos rumos, bem longe das convicções que nos passou rasteira. A convicção que sobreviveu, que me fez prescrever o remédio para minha cura. Como quem escreve, curado. Será o texto mais importante do que essas lamentações que andei a escrever. Já fechamos uma boa parceira para uma história nova (nem melhor nem pior: nova; basta).

30 de novembro de 2020

Receita de mito cozido

Eu não sei por quanto tempo a gente se interessa por esta vida às pressas para tudo ocorrer e correr bem. Quantas vezes forem necessárias, repetirei os bordões de um cansaço há muito já cozido, ecoando nos versos-grito. 

Da quinta-feira em diante, a de antes, quando eu te falava sobre sangue e sal, passei a discordar de tudo que não fosse contribuir para os ingredientes. Então veio uma disfonia com acordes de resistência, medo, e teus olhos pedindo mais biscoitos da sorte. Na sexta-feira um alcance maior, aquela experiência de gaiato no navio mais sofisticado em seu passeio pelas Bahamas... vieste no sábado, em teoria, mas na prática, o domingo estava na sala de estar - já entrando, mais que estando - quando pediste socorro naquela agonia toda da tua mais-valia, do teu cuidado, do teu carreiro e o teu apego ao destino.

Eu fiquei agonizando na experiência de fronteira: do meu lado certo, já tinha incerteza; do teu lado, eu só queria caminhar... sabes, ouvir tua voz em meio a esses ventos coloridos de tinta em pó incomodando que eu olhe adiante, como a promessa do arco-íris. E não soubeste da metade das agonias, ainda: do domingo, da madrugada, da vida inteira intercalada como furos no navio em que vão doutores, ex-amores, o armário de outrem, o terceiro sentido do movimento de translação. Transladam corpo, alma, crenças: vaivém das chegadas e partidas.

Poderia pensar no futuro com a ansiedade de sempre, em querer criar cálculos de memória, anotar cada moeda que eu investia, citar Camões e algum pretexto. Poderia, mas não. Chamaria o presente tempo dos justos buscando ajustar horários, conciliar as dívidas com o fornecedor de lucro. Já esteve passado mais que cru o envolto tempo em banho-maria. Ouve o relógio na parede rebocada. Só isso.

Quem disse que tua mão não encontra a luva? Quem me disse que a cabidela salgada dos sonhos cozinhou a mais de cem graus? Quem partiu depressa ao Oeste foi atrás do que não tinha. Quem ficou no continente quando eu parti já arrumou dois tamanhos diferentes para seus trajes. 

Não sei de quanto tempo se fez o perecível.  Esta comida pelas beiras foi alcançando o prato frio. Porque andei pra lá e pra cá sem notar a circunferência. Deu-me prazo o oráculo das friezas para que eu devolva cada cubo de gelo que pedi para conservar: eu, a minha verdade e a vontade de te ver fora deste caldeirão. 

26 de agosto de 2020

Dança do foragido

nada prometi pra ninguém,

ainda assim tenho compromisso

guardado em cartas na manga; 

vai que receba golpe às costas

então justificaria meu sumiço:

talvez a última lembrança 

de um verso em branco

pra seguir o baile que cansa.

2 de agosto de 2020

Internet das coisas

Para além da iconografia dos anos 1980, sendo filho desses, talvez mais entusiasta do que deveria, reconheço a comodidade do streaming possível hoje em dia. Minha operadora de telefone celular me deu, no pacote, acesso a uma dessas plataformas de música. Fim de semana é um tempinho de preguiça, a gente se mete no casulo confortável da cortina de fumaça que nos esconde do caralho a quatro: lobo em pele de cordeiro, asno gerindo o Executivo federal, bichos diversos. Padrões de dados conseguem ser mais que gatilhos quando reúnem a matemática com a resolução de sentidos abstratos, algoritmos vêm e... tome, joga "Eternal Flame" bem no centro do marasmo de domingo. 
Havia uma época em que a energia elétrica era mais essencial que sinal de dados móveis. No entanto, quando era interrompida, no aparelho Nokia de tela dicromática, só nos restavam Snake Game e as duas bandas de rádio na penumbra. Quanta falta fazia o led, hein?! O barulhinho insuportável daquele jogo me irritava absolutamente. Modo silencioso. Ligar a rádio, pensava. Eu gostava da Antena 1 (ela ainda existe?); fui abduzido pelo poder do streaming, olha aí! Nem tudo está vencido, algumas coisas dos tempos outros são mais interessantes, digamos, mais profundo que o subcutâneo. A solidez de uma infância marcada mais pela televisão do que o rádio, esse supria em momentos sem eletricidade, porque aquela não funcionava sem ligação aos 220v. 
Gostava desse contato universal que a rádio me dava com os sentimentos universais. A inocência abestalhada daquela época era osmótica. Não fosse isso, jamais engatilharia os pandêmicos 2020 com quase duas décadas atrás. Era uma adolescente inquieto, rebelde no máximo em jogar água oxigenada no cabelo, aos quinze, e ficar com o alaranjado passeando entre o caminho da escola e a minha casa. Não bebia álcool, não fumava planta alguma, não namorava ninguém, não fazia sentido externamente ainda que houvesse já rendez-vous doideira que só saía da cabeça a um caderno Tilibra em que cada folha continha uma dízima, aquela fração de um universo esquisito em que passeavam os mais monstruosos bichos ao som de um ornitorrinco preso num apartamento de aproximadamente cem metros quadrados. Já lia Sartre - As Palavras - e entendia porra nenhuma, mas foi um avanço, porque me deixava curioso e de brinde, veio-me Simone. Casal porreta! Eu não tinha computador em casa. Acho que pouca gente à época tinha. Eu só conhecia os do colégio Marista, mas não estava ainda conectado com o mundo lá fora. Fazia valer cada instante na televisão e, à falta de eletricidade, o rádio. Que pavorosa aquela situação. Ter que suportar aquela geração que me fez usar toda aquela ridiculosidade do tênis camurça preto e desfilar umas mochilas horríveis com meia dúzia de brochuras dentro. Ridículo eu era com aquele cabelo laranja ao entrar na sala ouvir o bullying na canção coletiva de uma dessas novelas da Globo. Estão todos perdoados; deus, inclusive, também o está. 
Ah, deixe-me correr desse tempo, possibilidades neoliberais começavam a perturbar-me ainda mais com a iminência de um tucano governando. Então fico nesse devir, ininterrupções nos fluxos do tempo, que agora tenho, entre a fatídica lembrança de uma escola cristã em que a menina se matou no banheiro com um tiro no peito e, ainda assim, toda semana parecia que a comunhão tinha sucesso. Soube que até hoje fazem uma festa de confraternização, uma pequena micareta para a gente encher a cara e tirar autorretratos com frases de efeito. Até parece... tudo irmão ali, sob a fragilidade dos afetos e uma lógica capitalista cada vez mais ferrenha. 
Voltando à preguiça deste domingo, que junto à covardia, são razões e impedimentos para que humanidade avance. Juro que não vou me furtar de beber a água dessa gôndola, porque ela custa apenas duas moedas do parco dinheiro. Já somou? No fim das contas... tudo líquido se dissolvendo rapidamente. Ficou essa meleira imensa, lamacenta, porque, segundo outro engano, sou signo de terra, regido por Saturno e seus anéis de vidro, hoje todos quebrados. Trago a poeira do barro e sopro na cara de quem desdenha minha situação discursiva de falar "sustenido" em vez de hashtag, e sou metralhado por colocar ponto final depois de cumprimentar, num aplicativo de mensagem instantânea, com um "olá" convidativo para prosa sem fim, se me permitir. Não sei, nunca dura mais que uma estação do ano. Então vamos colocar culpas no papo de otário, como "constam nos astros, nos signos, nos búzios..." e como constam nos manuais da próxima ética aguante e o espírito do capitão. Com certeza, para mim, há algo de mítico no início de tudo, quando ela cantou "close your eyes, give me your hand, darling..."  

31 de julho de 2020

Drama polaco

O coração estava encostado numa parede parede fria de cor cinzenta. Talvez fosse a previsão de um inverno por chegar, e parece que já previam-se dois. A parede era um cenário contínuo numa vida sem sensações adversas ao cotidiano descrente. Dizia-me o terapeuta que valente eu era, e aqui cheguei com essa crença que fazia tempo que não conquistava. Meti então reboco terracota, quente e úmido que trouxe do chão onde nasci, como bagagem especialmente crua, dos orgânicos aos quais me submeti. Fusões de outros lugares acrescentaram mais solidez ao pedaço: a parede e o coração similares, aos remendos, agora oportunidade paliativa para um prazo de um tempo em recuperação. Orgânicos, de sangue, de solo, de músculo e todas as diminutas latências faziam pulsar, quiçá fundirem-se. 
Chegaste com a leveza de quem em idade construtiva somava-se à minha também em construção, mais tardia e também mais severa. Alicerces do tempo contam continuamente em direção ao topo, telhado de vidro - não te esqueças -, essas paredes que levantamos todos os dias e eles vinham sendo há algumas semanas e intensamente levando-me a perceber quatro mãos à obra. E foram planos até sei lá qual ano, essas idiotices que o beijo e o abraço sempre liberam ao pensamento. Destituído deste engano, no entanto, só ria. Lembro-me bem onde estávamos com essa regalia que decidimos nos dar em tempos de tirar de nós o tempo que tínhamos para dedicarmos à coisa alguma, como essa, que existia. Essa coisa sem nome que não nos privou do óbvio, porque nossos sorrisos já diziam até a tampa da garrafa e a ponta do fumo, entre os goles de sumo, a fazer suprassumo sobre a incidência do rótulo de identificação desta bebida. Eu bebi; tu bebeste. Talvez minha necessidade habitual de outros tóxicos e outras drogas não me fizerem ser o mais apto a permitir tamanha rebeldia. Olha a idade que tenho! É a mesma do meu fígado e do coração encostado. 
Responsável por envolver tua família num diálogo aberto, talvez mais esperto que o meu medo de envolver a minha; ora, quanta credibilidade eu tinha?! Mas não seria irresponsável de envolver tantos nomes que eram fadados a uma coleção de histórias que temos, como audiência das tentativas. Quem sabe nada tentamos. Nada cobramos ao passo que nossa presença sempre fora um passo voluntário a caminho da minha ou da tua casa, esses abrigos exclusivos de nos livrar de um olhar impiedoso e de um vigoroso vírus, na pandemia. 
A casa caiu, a minha ruiu porque um ciclone passou por aqui causando danos, inclusive neste nosso abrigo que prevaleceu testemunhando os filmes a que assistíamos, as palavras que líamos, as músicas que compartilhamos e depois disseminamos entre nossos amigos, a pele que se unia, os beijos que apeteciam na quentura contrastante desse tempo frio na cidade, os abraços no momento certo e o sexo que fortalecia. Não era só ele do lado de cá desse terreno minado de coisas que pisas e não sei quais. Haveria de não saber, penso. Talvez eu tenha notado no discurso uma lacuna dessa parte que ruía, ou que causava implosão à maneira em que te escondias atrás das tuas paredes de proteção. De forma que eu não tinha permissão, não invadia. Logo outro momento que chegava, abria a porta com o mesmo sorriso que provocavas com o teu provocado por minha porta aberta e minha mão deserta pedindo a tua. A casa está de pé ainda. danificada pelo ciclone, mas alguma manutenção já feita me preserva de contato com o tempo rude da rua. 
E nesta última vez que vieste, reafirmaste nas palavras e em todos os sentidos que eu via, ainda que aquele teu sorriso me fizesse dar privilégios, mas nunca em detrimento de qualquer pedaço teu que sentia. Abruptamente, sob o céu nessa rua em que vivo, já à noite, notaste alguma decisão tua, mas não disseste. Pretexto da pandemia que fazia nos separar por um tempo de incubação da previsão que manifestava-se no outro dia, ao teus pais socorrerem tua tia, e meus braços disseram "até breve" tão doloroso quanto essa prosa cansativa com aliteração.
A previsão era essa, esse hiato que já vai durar quatorze dias, mas daquele momento até agora nenhuma pronúncia dessas alcunhas engraçadas que vinhas dizendo com o sorriso jovem escutado na tua voz. Quanta seriedade e falta de informação. Não cobrei como nada em todo esse tempo. Concordei com o que parecia um cuidado com a nossa saúde numa expectativa duradoura de uma resposta que já não tenho desde o pretexto. Fiquei com a solidão e algumas instruções: manual de filosofia, passando por Bataille, Nietzsche e outros nomes que me fazem hoje ter medo de até o teu pronunciar mais alto que meu pensamento. Voltei-me à condição constitutiva que me deram os astros da minha justificação. Sim, é teoria. Mas na prática eu fiquei com um pranto entalado, por algumas vezes o soltei, como hoje fiz esperando que seja a última.

28 de julho de 2020

In bocca al lupo

Recomendamos a nova interface para melhor aproveitamento dos recursos.

Matilde me ligou às cinco da manhã. Puta que pariu... cin-co ho-ras da man-hã!
Foi um susto tremendo. Ainda estava escuro e tinha dormido tão cedo que acho que faltavam mais umas duas horas de descanso...
Cinco segundos de quase silenciarem o ring tone e me permitir ao privilégio do quente edredão ainda com aquele clima manso de inverno com todo o silêncio dos arredores.

- Olá. - num cumprimento de espanto e insatisfação - Não me traga notícias pandêmicas, já chega!

Depois dali, a bêbada já soltou a gargalhada habitual e começou a falar da sua viagem a Viena, que fazia falta. Ela sabia que eu adorava ouvir aquela história e tinha um motivo de ela ligar e contar o episódio mais uma vez.
Mulher infeliz, sempre bêbada e confluente em nossas abstrações tão comuns. Reuniam ambos os ébrios da vida numa mesa de bar imaginária que sempre considerávamos a Jugend que habitava o mosaico das folhas que sobreviveram à imaginação fértil do nosso estado de art nouveau. Portávamo-nos como dois jovens errantes trombando acidentalmente na Avenida da Boavista. Em vez de pedir desculpas, olhamo-nos com retinas apaixonadas e dali o sorriso foi uma rotina. Ela estava bêbada; eu, fugindo sempre do lugar anterior.

*****

- "Santé!" Com o cantil à porta do museu, brindava às coisas bonitas e materiais da cena, porque o ambiente, o organismo e os fenômenos físicos são matérias essenciais para a relação dialética fazer sentido pr'aquela visita, que seja. - "Christian Witt-Dörring is here?", perguntou, com um bafo da fermentação de açúcares, diante da entrada ao abrigo da Coleção Permanente Viena 1900. - História hilária! - A louca procurava o curador. E saiu comentando peça por peça para o seu então namorado Joaquim, até chegar defronte ao mosaico que tanto eu quanto ela tínhamos admiração profunda. E soltou um suspiro com a frase mais engraçada que já se ouviu dentro de um lugar dessa estirpe: "Se não fosse Adolphe, qualquer um dos Stoclet poderia me comer!", saindo de cena mais uma vez com a impunidade de quem caça dotes pictóricos. Tirou um pedaço de papel da mão, e entregou à guia: "give this to Christian Witt-Dörring, please!". No pedaço de papel estava seu número de telefone.

*****

Pensei na dimensão da ideia; é a única reflexão que faço toda vez que escuto essa história. A gente tem metas na vida. Elas podem ser descontextualizadas no plano macroscópico. Mas no íntimo, esse Norte sempre vai apontar a direção de nossas escolhas e também de algumas atitudes. Eu compreendi a atitude da Matilde na primeira vez que ela me contou o causo. Não à toa rimos ao acidente que nos uniu pelo resto dos dias, em vez de desculparmo-nos e seguir viagem pós-diplomática - as etiquetas que trazemos de casa à rua para justificar todas as oportunidades que perdemos.
Uma ligação às cinco horas da manhã poderia passar como um intranquilo momento ao telefone com uma bêbada infeliz e com todas sua nostalgie de l'Occupation. Há uma razão em todo pessimismo metódico que nunca mais vai encontrar onde se encontra a justificação largada ao cosmo, sei lá, até aos zodíacos, celtas, astecas. Em Matilde, encontro melhor maneira de sentir o que irremediável.
E ela se despede de mim sempre me chamando de Príncipe Galeotto.

- "Ciao, Principe Galeotto!"

Eu só tenho a sorte de manter o espírito no Jungendstill.

26 de julho de 2020

cálice da indigestão

se há um porquê das circunstâncias
a cada dia, uma instância de exasperar,
vai no todo-meu:
circunstância outra, outra margem,
o fio oculto, a palavra maldita -
outra vez não dita -
o curto-circuito naquela energia,
a noite que se faz dia: e escura
e o desmantelo de andar.
que covardia!

é, por fim, o tamanho do alvo
e o respaldo da referência,
onde brincam nos abrigos de enfermos
respostas tolhidas sob subterfúgio,
esta cera quente enrijecendo mãos.
que não saram até o sol nascer de novo.
derretam-se móveis do cheiro longe
das folhas de chá que secaram na pia!

agora estou na sala
de espera, com exaspero;
gritam antifascistas sei lá onde...
não escuto, há silêncio ou ditadura?
quem dita porquês e dita entre dedos
que não toco, que não me tocam -
formato inválido! -
toco então calcanhar no chão
e meu joelho sinaliza
noventa graus da canela à coxa...
poxa, que agonia!

cantaram esses dias:
chico.
milton.
pediam para afastar o cálice.
eu, órfão de deus
e órfão de crença;
do céu até aqui tudo demora:
subterfúgio, fadiga e doença...
"pai, afasta de mim esse cálice!"
cale-se, pai, mas o silêncio apavora!