2 de agosto de 2010

Ano novo

Preciso tirar férias da solidão. Ontem, dia primeiro de agosto, passou-se um ano em terras distantes do berço caetés. A quantidade de proponentes não fora surpreende: sazonalidade de emoção, breve e insignificante. Absurdamente, uma lista desclassificada, como atividade laboral das sensações, para avaliar mentiras, descartar rituais mal intencionados e elencar vários graus de semântica pomposa, mas jamais profunda - por ser tão superficial, como o suor da pele que precisa ser lavado no final de cada dia e não acumular excreções mal-vindas.
Há o que celebrar, entretanto, além da esfera do que passou a ser periférico aos meus olhos: este amor-simulacro que tanto se diz e nada convence. Há, por ora, rejeição do óbvio, porque não se esforçam em metáforas, pois que o conteúdo é sempre o mesmo e não penetra 1cm além da superfície da minha ilusão. Cansaço paulista e mil perdões...
Eu tenho um albúm de recordações e nenhum duodécimo de substância íntegra, presenteada.
Meu trabalho não é aquilo que planejei, mas é o que posso esperar de cegos e decaídos. Eu trabalho em equipe e finjo que a união faz a força, ainda que não deixe me derrubar - ela tenta todos os dias.
Eu tenho um diário sem espelhos para não refletir prantos. Existe apenas um lenço azul, que minha mãe não se esqueceu de pôr na bagagem, para que eu pudesse enxugar meu suor: transferi utilidade (o de tom pastel, reserva, limpou meus pincéis, nas aulas de abordagem e procedimentos plásticos).
Eu tenho um novo número telefônico, para quem quiser me achar por entre essas ondas celulares, para desviar mágoas e, quando quiser, evitar chamadas de consolo.
Apenas uma agenda, na memória, para anotar os antídotos, riscar os antigos e prescever um futuro, com certo dom de acreditar.

Imagem: UOL

26 de julho de 2010

Função Soneca

Eu abandonei o blog por uns dias. Talvez fosse preguiça de escrever ou receio da repetição. O repertório, por ora, esgotou. Foi-se o tempo de hibernar, mas havia uma bendita tecla chamada soneca que me permitiu ativar mais um pouco deste ócio literário maravilhoso. Há um tempo para tudo e eu fugir do home bitter home, claustro cibernético, a fim me entregar aos prazeres hipnóticos do sonho após o cumprimento de Morfeu. Há mais em mim agora do que não havia antes - o contrário é o envelhecimento -, e essa anterioridade é presente, ainda. Do melhor dela, é o que depois da soneca quero transpor em palavras. É impossível abandonar um prazer só por descobrir outros. Bom mesmo é quando o leque aumenta e posso sentir que o repertório precisa de ensaio, preparo, busca de prefeição.
Continuo vivendo entre a cidade baixa e o universo paralelo, passeando de um extremo ao outro para encontrar conforto no ponto intermediário. O despertador já me torturou algumas vezes, amanhã será um bom dia para erguer-me do chão.


Imagem: divulgação

30 de junho de 2010

Hibernação

Quanto mais ao Sul, em direção ao polo, a coisa vai esfriando. Tudo vai congelando: as extremidades, depois um pouco mais ao centro e, no meio do corpo, instala-se a geleira oportunista.
Tempo de hibernar.
Vem aquela sonolência a dominar o corpo; a inércia faz a mão parar de digitar códigos de um bem-querer que, por ora, deixam-se dominar pelo caráter animal à qual somos submetidos desde que optamos por este jogo de oscilação - chamado vida - entre ebulição e condição irreparável em determinado tempo. Não podemos ser diferentes em casos de perda temporária de sensibilidade, como se conhece por letargia. Há um processo metabólico, respondendo aos impulsos do frio, que faz os batimentos do coração diminuírem, e respirar sonhos não é mais incessante.
Recolhemo-nos no mais alto grau da temperatura alcançada, por necessidade de proteção e vigor até o momento em que possamos pôr de novo a cara de fora, a bater, porque é importante reagir ao clima e aí, sim, recomeçarmos com atitudes que partam da vontade, indo além das reações, apenas. Um dia agiremos, claramente, sob o sol vibrante e caloroso.
No entanto, é preciso ainda bombear o sangue, levando necessidade vital a todas as partes do corpo, ainda que com essa geada a qual lança seus cristais de gelo sobre a pele desprotegida.
Nossa relação com a natureza externa é muito mais impressionante do que possamos acreditar. Se o mundo muda, por que não nós?
E quando os lábios ressecados, do extremo frio, cessam suas mais empolgantes articulações, então o pensamento pronuncia, disfônico, sua queixa duvidosa: há algum coração aquecido como abrigo para quem cansou de uma cidade fria?

Imagem: Chema Madoz

26 de junho de 2010

Com qual sotaque você se identifica? Por quê?



Em julho de 2009, apresentei meu Trabalho de Conclusão de Curso, sobre Sotaque em Televisão/Preconceito Linguístico, juntamente com minha companheira de pesquisa, à época, a também estudante Christiane Patrícia, sob orientação do Prof. Dr. Aldir Santos de Paula, do Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a fonoaudióloga, mestre em Letras e Linguística e professora da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Gabriela Sóstenes. A pesquisa avaliou a aceitação do nordestino com relação à sua própria variação linguística (sotaque), quando emitido profissionalmente em Telejornalismo.
O trabalho foi feito a partir de embasamento teórico dessas áreas em torno da Comunicação, gravação de áudios - narração de nota esportiva - por 4 telejornalistas (dois paulistanos e dois maceioenses) e, em seguida, aplicamos questionário, avaliando as impressões que os ouvintes (juízes da pequisa) tinham a respeito do que ouviram. O resultado foi uma mostra do quanto uma estandardização de um tipo de fala em TV - os conhecidos padrões de voz no telejornalismo - pode acarretar em preconceito e autoaversão com o seu modo de falar.
Fiquei muito contente quando soube que a pesquisa rompeu os muros da academia e informou aos alagoanos sobre sua maneira de falar. A pesquisa foi mencionada numa matéria de televisão, apresentada pela TV Educativa de Alagoas, a qual compartilho, neste espaço, com meus leitores.
O Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade foi um critério para obtenção do título de bacharel em Comunicação Social: Jornalismo, como também uma maneira de contribuir socialmente para refletirmos sobre nós mesmo.

24 de junho de 2010

De terra, de fera; quem era e quem pode voltar

Acabo de ler um relato de uma blogueira, por recomendação de uma amiga - quase conterrânea - que conheci pelas bandas de cá. "Muito forte" - ela salientou, após a indicação. Realmente, eu pude ver, pela narração: até que pontos chegamos, quando nos sentimos extremamente sozinhos.
Tenho buscado, com todas as forças, empurrar esta coluna que insiste cair sobre meu corpo; um peso grandioso, quase insuportável; não conseguiria descrever e continuarei lutando para não ter de presenciar ou viver situação parecida, nem comigo nem com um 'vizinho'.
Por mais que eu tente ocupar minha mente, há momentos que aquele pilar me incomoda ardilosamente, porque ele não sustenta nada e, aliás, o que era para ser sustentáculo, passa a ser dispendioso e custa mais caro do que qualquer empenho que eu faça para manter vigas de sustentação mais imponentes do que aquela, no decorrer dos dias que precedem o imprevisível e, com antecedência, parece prenúncio de uma tragédia colossal.
Eu vejo tragédia em tudo - isso é parcial, apenas. Meu pesar tem a fantástica elasticidade de tornar minha alma mais contorcionista do que meu corpo. E quanto a ele, eu já não tenho tanta preocupação, antes de preencher os espaços em branco, com qualquer centelha que saio catando na experiência retirante e desbravadora em detrimento da realidade confortável em longitude e latitude de outrora.
O negócio é impressionante por aqui. Faço parte do mais populoso Estado da nação. É muita gente, mesmo, e ao mesmo tempo são outras vítimas do desprendimento, esforçando-se para manter de pé os pilares dos seus apegos.
Aqui ou ali, pode despencar a coluna mais ameaçadora que existe: a solidão. Ela pende, em favor da gravidade, e quando vem ao chão, sempre cai sobre alguém. Existem homens e mulheres, a todo tempo, querendo impedir tal incidente.
Há quem busque na ocupação profissional uma maneira de desviar o foco, fazendo um plano cruzar outro e expandir possibilidades. Agora, estou com eles! Procuro, nessa abscissa, afastar-me da posição de queda, numa linha, imaginária, ou noutra, cogitar linhas de horizonte, pois elas são imprescindíveis para ir pouco mais além, visando à plenitude, ainda que imaginária.
Há quem busque também amores. Eu já busquei demais, mas eles não estão incluídos em etapa atual. Seria muita responsabilidade entregar-me debilitado às paixões entorpecidas de egocentrismo. Esta parte, não curto muito falar; não depende só de mim...
Assim, e infelizmente, acabarei somando forças à coluna que avança, unindo-me ao lado positivo da solidão, em ter de, em mim, ver apenas todas as coisas, dedicadas, e não esperar dedicação alheia. Não há - salvo exceções cada vez mais raras.
No dia em que eu estafar dentro de um apartamento, sozinho, posso crer: é hora de voltar para casa, porque tem amor de sobra por lá, para receber em abraço e companhia, exemplificando a saudade, que não é medida por palavra em uma rede social qualquer.

Imagem: Chema Madoz

Joanina, minha fia!

O que o Brasil conhece como caipira, na minha terra natal é matuto. E ser matuto no dia de hoje é plausível: comemoramos o Dia de São João em grande estilo. Ô, saudades!
Há festas das capitá ao interior por todo Nordeste brasileiro, muita comida típica, cenografia e músicas regionais (abro parêntese para não esquecer de fazer minha crítica: forró estilizado não me agrada muito). Então, recordo-me mais de minha infância saudosa, onde eu me divertia com as fogueiras nas ruas (hoje, por uma questão ambiental e de bem-estar físico, não tolero tanto). Lembro-me de D. Eunice, minha avó, que vendia fogos de artifício à época e meu avô, Sr. Sebastião, que esquecia do caráter mercadológico e sempre nos ofertava - a mim, minha irmã e meus primos - a possibilidade de iluminar mais a noite junina.
Bons tempos de escola também não passam despercebidos na memória, quando minha mãe comprava trajes típicos e nos enfeitava, com direito a chapéu de palha e maquilagem de simulação dos pelos faciais.
É... agora esta barba não é alegoria. É um estilo; é minha posição de homem que jamais esqueceria velhos tempos no seio de uma família que podia comemorar datas especiais como a de hoje.
Este ano, além de minha saudade cortante, há uma dor dessas águas que ferem, apagando fogos de artifício; ventos fortes que sopram toda devastação de canto a canto, pelo Nordeste.
Já não sei como está a comemoração por lá. Ontem, na TV, eu vi que, aqui no interior paulista, alguns lugares realizam a festa religiosa, algo bem parecido com meu lugar: fogueira, decoração caipira, etc. Acho que enrijeci com a idade, não senti a mínima emoção à coisa. Talvez haja um distanciamento físico, etário, factual, inoportuno a dizer que, em mim, só ficaram boas lembranças e uma vontade tremenda de poder comer milho assado.

Imagem: reprodução de 'Bandeiras de São João', de Yara Tupynambá
(acrílico sobre tela 0,40 m x 0,40 m)

22 de junho de 2010

O rato

O rato quer dizer:
'Não quero mais'.
Ou então que digam a ele.

O maior culpado por querer:
O rato
Porque se ilude.
Porque é sensível demais aos dejetos.
Mas não dá para ser diferente disso,
À essa altura da personalidade roedora.

"Tente abstrair muita coisa",
"Filtrar para não absorver tudo",
O rato escutara.

Não dá para filtrar tanto esgoto;
Ele segue com medo do gato.


Imagem: Divulgação Científica/USP

21 de junho de 2010

Águas que ferem





"Em Alagoas 22 municípios foram atingidos mais fortemente pelas chuvas, resultando em cerca de 70 mil desalojados, mais de 40 mil casas destruídas, 22 mortos e cerca de mil pessoas desaparecidas."
Como nordestino, criado no seio de uma família tipicamente nordestina, sinto muito esta catástrofe: minha sensibilidade está maculada ao encarar e lidar com essas tristes notícias.
O Estado de Alagoas está sofrendo. Pernambuco também chora sua dor.
Sinto-me triste por saber que além da capital, que já foi atingida pelas consequências dessa chuvarada, o interior alagoano é - onde a pobreza é ainda mais latente - o ápice de uma grande tragédia.
Os sites de notícias alagoanos atualizam os números, causando sempre uma pontiaguda lástima em nosso âmago. Hoje, são dezenas de mortos, milhares de desaparecidos, incontáveis desabrigados e um Estado que jamais esteve preparado para as águas de junho. E o inverno está apenas começando: agoniza ainda mais.
Hoje à tarde, felicitei meu pai pelo seu aniversário. Não sei ao certo até que ponto a felicidade dele é independente para celebrar o dia 21 de junho, mas a minha não está na potência máxima, depois de ver imagens e ler os textos que contabilizam mais e mais metros cúbicos de dor e temor.
Não dá para ficar imparcial com essa genética com um quê de mourisca e as doses anuais de sensibilidade familiar, pois elas só me fazem sentir uma agonia estranha e compaixão pelos alagoanos que não veem a "estrela radiosa que refulge ao sorrir das manhãs."
Meu Estado decreta calamidade pública; o presidente o visitará e promete liberar recursos para tentar reconstruir o que foi devastado, sobretudo a autoestima do povo alagoano.
Dói ainda saber que é orçamento paliativo, remediar feridas abertas e lavadas com água de chuva forte; é muita pouca cânfora para alma de quem já chora nos meses que antecedem o doloroso inverno nordestino.
Sensibilizo-me e peço para quem ainda não pode ajudar com donativos, ao menos, divulguem a ideia da doação, em suas redes sociais, com seus instrumentos de solidariedade e trabalho, na esperança de que um dia nasça o sentimento e a atitude preventivos.
E que choremos apenas o que nossos corações e nossa força não puderem precaver!


Lista completa para doações: http://www.asfaltoliso.com.br/donativos/alagoas-e-pernambuco/

Imagens: Assessoria de Comunicação do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas

É inverno, e daí?

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."

Imagem: Chema Madoz
Texto: Caio Fernando Abreu

14 de junho de 2010

14 de junho: Dia do Solista


Consoante Silveira Bueno, Solista é a "pessoa que executa solos musicais.", referenciando, na página 527 de seu Mini-dicionário da Língua Portuguesa.
Desculpem-me solistas do mundo inteiro, não quero tirar o mérito deles, mas me recuso a discorrer mais do que o significado da palavra, e felicitá-los por sua data: de forma mais universal, congratulations!
Peço emprestado, aos músicos, o verbete que a filologia lhes deu, e decido abranger sobre meu solo do cotidiano, ultrapassando à classificação musical, em face à itinerante audiência que, há muito, deixou de ser a complacente plateia à conquista para assumir seu ímpeto maléfico da desafinação. Portanto, meus resultados, quando têm sido de alegrias, somente posso compartilhar por telefone, brindar em sonhos, e não há um abraço in loco, antes das minhas queixas a qualquer parede desta casa.
Todo desafio não deixou de sê-lo mesmo, o marco quase sempre é abandonado antes da parada para descanso, metade do caminho é pouco e, no fim das contas, há mais uma máxima egoísta: há dois pés acusadores e a voz calada por uma carreira solo.
Terminei uma semana cansado de dizer pela metade, de entalar com o predicado; ainda na primeira metade do mês. Acho que meu pai me acostumou a dividir a esperança em quinzenas, mas não lhe ponho culpa pelo simbólico mês de junho. Só espero, na segunda quinzena, não me esquecer de seu aniversário, no dia da chegada do inverno, pois junho já se tornou frio e estrepitante.
Ah, eu jamais esqueceria das datas importantes, no entanto... Dia do Nada a Ver, Dia do Fim do Túnel, Dia do Começo ao Fim, e há tantos dias, sempre para se dizer algo sobre alguma coisa, que se não for a minha agenda do ano passado, vez ou outra folheada, haverá pessoas e a TV para lembrar que eles significam algo mais ou nada, mesmo. Assim, eu nunca esqueceria que estou no último mês da metade deste ano, mesmo que eu não saiba o que isso quer dizer-me. É sempre dia de alguma coisa, "while my eyes go looking for flying saucers in the sky."
Desculpem-me, mais uma vez, os solistas, mas eu prefiro os duetos.