17 de outubro de 2010

Rocha

Retirando os pedregulhos,
Porque o que for mais leve,
O vento leva.
E a chuva completará o serviço com a lavagem da sujeira.
Muita coisa podre vai escoar pra fossa.
O que for rocha, fica!

Foto: open4download.com

29 de setembro de 2010

Preferência



Eu prefiro que você me olhe assim:
Como uma Polaroid que resistiu ao tempo.
E não negue sua forma de ver.
E não se perca na escuridão à procura da luz perfeita.

Eu prefiro que você me diga sim,
Mas não estou disposto a negar o seu silêncio.
Jamais substituiria a voz que o destino calou,
Quando você se deu conta
De que não ouvi-la faz tremenda falta.


Eu prefiro seus versos simples e improvisados que,
Há anos, alegorizam as ideias migrantes de nossos anseios.

Eu prefiro que o Brás inteiro ouça seu click de imperfeita sorte
A ficar esperando a imagem perfeita,
Relutante ao azar, o qual tantos correm por medo.
Mesmo que sejam palavras em ruínas,
Não as trocaria por flash algum que nos enganasse de luz inexistente.

Eu prefiro sua amizade livre - a resistência à captura -
À moldura e fotografia do passado,
Que entre caixas ou páginas, perdida continua
E não deixa viver o que o tempo esqueceu de congelar:
Morrer é fração de segundos.


Imagem: Gil Rocha

23 de setembro de 2010

Cefaleia

Foram 24h de ansiedade e sofrimento. Vieram dores de cabeça e pelo corpo, que não senti igual em 28 anos de vida. Para saná-las, analgésicos, chá de boldo, muita água e medo de alimentar-me com comida sobrecarregada. Não era físico o meu problema, era simplesmente emocional.
Hoje, terei uma viagem que dirá o próximo passo do meu destino (por isso a ansiedade). Não que seja crucial o começo, mas a perspectiva de mudança, que tem teores profissionais e afetivos, dita comportamento e reações nervosas que me confundem até o entedimento acumulado sobre mim mesmo.
Aqui, nesta cidade, nos últimos dias, estou tendo aborrecimentos filantrópicos desnecessários. Minha vocação altruísta se esgotou para com gente que tem mais recursos de sobrevivência do que minha falta crescente de paciência. Eu insistia em ver bondade em pessoas que sei que carregam, no âmago, uma cápsula do amor, porém elas se entorpecem de fúria e simpatomiméticos de desajustes, puxando-me cada vez mais ao abismo onde, longe do seio materno, qualquer iminência de escavação, para mim, é apavorante.
Não adianta mais o medo. Não adianta coragem coletiva para uma mão só que puxa para tirá-los. Descobri que a força a qual recebi em palavras e atitudes mínimas é menor do que a perturbação reticente dessa legião enfurecida. E meu gosto avulso pela expressão absoluta da clareza não condiz com esse silêncio, esse grito excluído, essa ciência de absurdos, esse ar oculto de esconder-se em seus próprios enredos e pontuar o fim com um pedido desvalorizado de desculpas.

Pegaram um ventilador na potência máxima e jogaram todo intuito de sedução, sob o discurso do amor louco. Que amor é esse que só fere? Acredito nas dores consequentes do Eros gritante, mas nenhuma permuta cicatrizante fechou a marca exposta da minha ferida complexa.
Então, em 24h, contadinhas de relógio, eu feneci, eu me aliviei; o letárgico incorporou a palavra de perdão, vazia. Eu me machuquei. E desculpei. Tentei outra vez e mais uma vez disse 'não mais'.
Hoje, preciso ver as possibilidades de uma mudança interna e sair da rota da tecla batida diversas vezes - e imperdoável. Eu cuspirei todos os dias para cima, ainda que seja para ficar, dia após dia, desviando da lei da gravidade?
As dores de cabeça permissíveis são aquelas que depois de sanadas não retornam mais.

17 de setembro de 2010

A verdade

A verdade é uma só. Ela não precisa de disfarces nem facetas, porque o único intuito dela é ser ela mesma, e por isso reina, sem absolutez, porque é despretensiosa. A mentira é quem se apresenta de diversas formas, porque ela tem inveja de ser verdade e faz de tudo para se parecer com ela. No entanto, ninguém reina, tentando ocupar o lugar do outro por muito tempo. Uma hora, a semelhança é descoberta pela veracidade, ou a própria mentira, que é dissimulada, não se sustenta com identidade falsa (confunde-se).
Semana passada eu disse algumas verdades que precisavam ser escutadas. Minha familia veio me visitar em Campinas, porque a saudade já prorrogava, cansada, o tempo de se manter ausente do lado a lado. Houve drama. Eu estava empregado irregularmente num estabelecimento que não fazia de mim um sonhador, apenas supria o cotidiano de obrigação e necessidades triviais: comer, transitar, ser, com um pouco de dignidade. E no ápice da falta de dignidade, percebida de antemão, mas levada à parcimônia por acreditar que um dia tudo se ajeita, pedi minha demissão. Foram-me podados os direitos trabalhistas mínimos. Eu não exigi regalias, apenas o que foi estabelecido em convenções muito antes de estar nascido. Eu não quis me vingar; poderia aproveitar meus espaços de reinvindicação e liberdade, publicando meus desafetos profissionais, mas é muito pouco ainda para uma revanche proletária. Não iria ficar bonito, também, cometer terrorismo literário por um passado na vida onde a busca de respeito e credibilidade foi desrespeitada: algo que me importa esquecer ou apenas desclassificar no rol da lembrança, em nível mínimo de estrelas. Quem tiver de ser estrela, nascer para isso, terá seu brilho percebido mais cedo ou mais tarde. Quero eu ser estrela? Sei lá. Quero apenas constar na constelação dos meus sonhos. A minha cabeça sabe bem separar o real do universo criativo e me fazer sentir mais vivo do que estrelas mortas que têm seu brilho visto por nós mesmo depois de seu tempo vivo.
A semana de choques emocionais e térmicos, de tempo seco e cruel, de despedidas, encerramentos e abertura para novos projetos, com semeadura depois de colheita de frutos bons e maus, passou. Quando a sala de embarque de Viracopos testemunhou o amor que lágrimas corridas expressaram os próximos dias de saudade, o acúmulo de fatores meteorológicos e emocionais me legaram gripe, e minha mãe partiu com o multiplicado vírus, que invadiu tanto meu organismo quanto o dela: adoecemos no mesmo dia.
Eu jamais omitiria a minha fraqueza orgânica, porque tudo o que valha toda importância para alimentar de luz minha pequena (ou grande) estrela terá de ser real e pública, não podendo ser apenas semelhança. Minha meta-mor é a verdade, ante às aparências do cotidiano.


Imagem: por René Magritte (reprodução capturada da web)

3 de setembro de 2010

Folk setembro

Não é porque passam três viaturas da polícia em frente à minha casa que começo a pensar em desgraça. No entanto, a tragédia está presente de segunda à sexta-feira e eu só reparo no balanço no fim de semana. A semana não é uma tragédia para quem espera a família que aterriza, no sábado, enquanto estarei sentado numa carteira escolar, estudando a primazia das Artes Visuais. Não se tem, mesmo tempo para tudo, tampouco para se perder, reparando nas tragédias, sem a mínima possibilidade de solução para ela.
Cinco dias de ansiedade, enquanto os fatos ocorriam de maneira aleatória: um sorriso de agradecimento, um puxão de orelha, umas palavras de discórdia, um verdadeiro 'bom dia' e sucessivos horrores calorentos e temperatura de ar condicionado aos 18 graus celsius. É força que nunca seca, paliativa, para aliviar esse suor que escorreu - não foi em vão -, mas sem reconhecimento a curto prazo. Quanto tempo a mais preciso sorrir depois de vinte e tantos anos?
Em cinco dias, fui violento, esnobe, sarcástico, temeroso porque quiseram me assaltar. O que mais querem de mim levar? Não vou comprar briga, porque poupar, enfiar o pouco que se tem no bolso para depois tirar da cartola será oportuno, como matar dois coelhos numa só cajadada, ainda que a morte não seja necessária em face ao deslumbre da vida. Eu recomeço, termino, pinto para dar uma repaginada, em nome da vida, porque ela é preciosa. Quem não tem seus problemas muitos? E pouco mililitro que possa transbordar é desperdício para quem está com sede.
Aí, eu poderia pensar na Etiópia, no Sertão alagoano, na fadinha do tule branco - fantasia morta que não alimenta quem passou da primeira década de vida -, do olhar torto, do policial, cumprindo sua missão, impondo violência para coagi-la... Está tudo errado? Não; apenas muita coisa está errada. Essa quantidade calamitosa pode tirar o sono, entre os bocejos próximos à meia-note: o que menos quereria. Bem-quista semana que só acaba, amanhã. Defino seu fim, hoje, ousando alterar calendário de status quo, para fazer valer um bom começo: mãe e irmã bem-vindas a meu universo campineiro, para nascer a semana que desejo para o resto dos meus dias!

Imagem: Caputurada do portal Comvest/Unicamp

30 de agosto de 2010

Tic-tac do relógio

A ansiedade em contagem regressiva nesta semana. Quantos dias faltam para eu ver minha mãe e minha irmã? São duas mulheres com quem dividi o mesmo teto, sozinhos, durante aproximadamente uma década. Hoje, cada um está sob um teto diferente; e eu fui mais longe de casa.
Esses dias de distância (cerca de 10 meses que não as vejo de perto) foram aliviados pelos e-mails, pelos telefonemas, pelas redes sociais, etc. Falamo-nos sempre que podemos e tentamos suprir os quilômetros que nos separam, contando, cada um, sobre a vida que leva nesses dias longos.
Ao menos uma vez ao dia, minha mãe liga para meu celular: às vezes, sem assunto, até, e pergunta como está a temperatura e se estou bem agasalhado. É uma preocupação, um amor, uma dor, uma palavra e intervalos de nossos silêncios.
Hoje, vendo o Twitter do candidato José Serra, ele comentava:"pedi aos nordestinos que vivem em SP e que me conhecem que enviem cartas aos parentes do Nordeste contando do meu governo.E q peçam voto!"
Puxa, não há nada como um comentário simples, mas que reflete a ideia que se têm da gente! Acham que somos um povo desinformado, sem acesso às tecnologias e sem consciência crítica para conhecer e saber quem bem governa?
A partir daquele comentário, lembrei-me muito da minha família, cuja maioria tem preferência política que está distante de candidatos tucanos e que não usa mais cartas para se comunicar (com exceção de duas que minha mãe me enviou por conta de documentos que precisavam ser mandados). Nossa família, felizmente, levanta outra bandeira, mais soberana. E daqui, onde estou, "não quero medir a altura do tombo, nem passar agosto esperando setembro..."
Fim de semana quando chegar. não estarei em casa, mas meus dois maiores amores estarão, aqui comigo, na minha nova casa. Não vejo o tempo passar.

Imagem: http://ultradownloads.uol.com.br

20 de agosto de 2010

Sobre a flor na boa hora

Eu poderia escolher uma homenagem personalizada e enviar diretamente ao destinatário do meu texto, deste momento. No entanto, aqui na minha casa, não poderia excluir - sem limitar exceções - a mais nobre das visitantes e incentivadoras do meu intento literário: minha amada mãe, de quem eu herdei o gosto pela redação.
Hoje, no dia de seu aniversário, pela sua simplicidade e nobreza concomitantes, eu erraria em dizer que é uma homenagem, mesmo que adjetivasse singelamente meu propósito, porém não cairia num abismo onde o simplório cava para se esconder dos holofotes sociais, negligenciando o alicerce de nossa casa.
Se há alguém para quem eu deva vida, em terra, esta pessoa seria D. Sônia, então ela merece a proeza do meu esforço, ainda que com os olhos e outros sentidos cansados da dinâmica semanal, em final de expediente de pálpebras e olho nu.
Este é o segundo ano em que eu não posso dar-lhe grandes abraço e beijo, comemorando consigo a data em que tantos de nós reservam um tempo para saudar, com alegria, o dom da vida e contabilizar mais um ano de existência.
Lembro-me do meu poema, ainda na adolescência, que escrevi, evocando seu nome, com rimas pobres, mas a riqueza estava na minha intenção. Infelizmente, as palavras não estão aqui, comigo, para eu reproduzir no meu intuito de agrado.
Quão são memoráveis todas as ocasiões em que eu posso lembrar de seu sorriso envergonhado, reclamações que lhe são peculiares e o mesmo pensamento, parecendo um disco riscado, sobre o melhor presente que lhe seria agradável!
Ah, minha mãe possui uma inteligência floral, dessa que desabrocha com o tempo e incrivelmente sensibiliza pela sua imagem colorida e seu odor materno de proteção, onde vejo que um jardim não seria tão bonito se aquela flor faltasse em um de seus canteiros. E eu me desculpo pelo cansaço que me impede de buscar a melhor metáfora, a fim de remeter à tamanha beleza, que as fotos, que os sons, que o abraço e o beijo, os quais impedidos, hoje, estão, mas que o palpite da minha memória sempre acertará e combinará com o amor ovacionado, em múltiplas formas de dizê-lo.
E no mais, a boa hora é sempre a que precisamos um do outro e podemos encontrar a maneira mais fiel de fazermo-nos presentes, do lado de dentro.

Imagem: divulgação

9 de agosto de 2010

Esmagado pela segunda-feira

Eu pedi um cheese burger e um suco de laranja numa padaria qualquer, que eu só havia entrado uma vez. Era a minha segunda passagem por lá; desta vez, para uma refeição. Meu jantar teve a cara da atendente. Enquanto ela preparava meu lanche, eu tive uma ligação - que foi motivada pela minha saudade - rejeitada. Parecia tudo bem normal para uma segunda-feira como tantas outras.
A moça pálida que, friamente, preparou aquele sanduíche sem graça, e espremia com pressa as laranjas no aparelho industrial, e ela parecia querer ir embora o mais rápido possível. Resultado: a falta de prazer em seu trabalho refletiu naquilo que eu comia.
Um começo de semana, para tanta gente, não tem o sabor de um sábado. Realmente, hoje eu fiz parte desse todo que menciono. Foi tudo com sabor que deixou a desejar, no entanto não foi pior do que o mal gosto do sábado, o qual refletia o ápice da 'tranqueira botafoguense' (neste caso, substantivo e adjetivo, referindo à pessoa e bairro campineiros), do que não vale a pena lembrar-me tanto, tampouco escrever demais qualificações.
Acho que apenas, a mim, devo minhas exageradas qualificações, correlatas ao meu intuito de ser bom, de estar bem e de preservar comigo, ainda, valores imateriais, instruídos no seio familiar e desenvolvidos na perspectiva de que se eu for pior do que os ambíguos e proferir maledicência, certamente, estranharia meu próprio ser. Portanto, a estranha sensação é a que prevalece: ter uma ligação rejeitada, esperar a promessa de uma dívida a ser paga no fim de semana - que já passou -, acreditar que tudo está bem e ter a certeza de que segunda-feira, realmente, não é um dia tão legal.

Imagem: Era uma laranja (retirada de Flickr privado)

2 de agosto de 2010

Ano novo

Preciso tirar férias da solidão. Ontem, dia primeiro de agosto, passou-se um ano em terras distantes do berço caetés. A quantidade de proponentes não fora surpreende: sazonalidade de emoção, breve e insignificante. Absurdamente, uma lista desclassificada, como atividade laboral das sensações, para avaliar mentiras, descartar rituais mal intencionados e elencar vários graus de semântica pomposa, mas jamais profunda - por ser tão superficial, como o suor da pele que precisa ser lavado no final de cada dia e não acumular excreções mal-vindas.
Há o que celebrar, entretanto, além da esfera do que passou a ser periférico aos meus olhos: este amor-simulacro que tanto se diz e nada convence. Há, por ora, rejeição do óbvio, porque não se esforçam em metáforas, pois que o conteúdo é sempre o mesmo e não penetra 1cm além da superfície da minha ilusão. Cansaço paulista e mil perdões...
Eu tenho um albúm de recordações e nenhum duodécimo de substância íntegra, presenteada.
Meu trabalho não é aquilo que planejei, mas é o que posso esperar de cegos e decaídos. Eu trabalho em equipe e finjo que a união faz a força, ainda que não deixe me derrubar - ela tenta todos os dias.
Eu tenho um diário sem espelhos para não refletir prantos. Existe apenas um lenço azul, que minha mãe não se esqueceu de pôr na bagagem, para que eu pudesse enxugar meu suor: transferi utilidade (o de tom pastel, reserva, limpou meus pincéis, nas aulas de abordagem e procedimentos plásticos).
Eu tenho um novo número telefônico, para quem quiser me achar por entre essas ondas celulares, para desviar mágoas e, quando quiser, evitar chamadas de consolo.
Apenas uma agenda, na memória, para anotar os antídotos, riscar os antigos e prescever um futuro, com certo dom de acreditar.

Imagem: UOL

26 de julho de 2010

Função Soneca

Eu abandonei o blog por uns dias. Talvez fosse preguiça de escrever ou receio da repetição. O repertório, por ora, esgotou. Foi-se o tempo de hibernar, mas havia uma bendita tecla chamada soneca que me permitiu ativar mais um pouco deste ócio literário maravilhoso. Há um tempo para tudo e eu fugir do home bitter home, claustro cibernético, a fim me entregar aos prazeres hipnóticos do sonho após o cumprimento de Morfeu. Há mais em mim agora do que não havia antes - o contrário é o envelhecimento -, e essa anterioridade é presente, ainda. Do melhor dela, é o que depois da soneca quero transpor em palavras. É impossível abandonar um prazer só por descobrir outros. Bom mesmo é quando o leque aumenta e posso sentir que o repertório precisa de ensaio, preparo, busca de prefeição.
Continuo vivendo entre a cidade baixa e o universo paralelo, passeando de um extremo ao outro para encontrar conforto no ponto intermediário. O despertador já me torturou algumas vezes, amanhã será um bom dia para erguer-me do chão.


Imagem: divulgação