11 de fevereiro de 2011

Lição enésima

Mais azul impossível para esses dias.
Não por completar a maldita felicidade que se joga no nosso destino como um suicida, desejando ser atropelado por um turbilhão de sensações difusas em cada sorriso dado à vida.
Assim me sinto, não por completude, mas pela perspectiva que veio tímida, mas, a curto prazo, não compromete mais a noção de rumo. Será que os dias de cão acabaram, tal qual ouvi numa música?
Eu não vou impor ao meu caminho que os resultados tenham prazos para ontem. Não é o lema de inimizade à perfeição, é apenas uma estratégia de gradação pela absoluta certeza de que o ancoradouro é seguro demais e, fincado, colherei os bons frutos de um planejamento que começou a ter intuito de sobriedade.
A ansiedade também é algo que preciso mencionar. Ela está em níveis colossais por uma nova função na vida, à qual fui atribuído recentemente: colaborar com o conhecimento de quem está em fase sedenta de aprendizado. Hoje, meu vocativo é professor, meu compromisso é com o ensino e o amor continua sob as rédeas sábias da fraternidade e, claro, daí tirar-se meu ganha-pão. Vem aos poucos, vem pouco, mas dele fazer muito é outra habilidade que o médio prazo costuma legar.
Existem, hoje, a tarde toda, a manhã toda e a noite, criança, para se aproveitar cada minuto e planejar, para sequer reclamar do pouco tempo, porque, faz tempo, a agenda é um auxílio essencial no cotidiano. Eu troquei um diário de queixas por um período de produção, com contribuição dada a mim e aos outros. Eu vou encarar esta jornada com coragem e sabedoria, porque sinto que enferrujaram, devido ao tempo dedicado aos sonhos secos. Há uma umidade incrível para a semeadura de projetos que incorporam outros protagonistas. E como não deixaria de citar Charles Chaplin, meu sonho, antes sozinho, ficou parado ali mesmo, mas a realidade é uma luz ao fim do túnel, posto que a etapa seguinte é o conjunto.

7 de fevereiro de 2011

Agora que estou velho.

Avião que não sai da sua rota
Quem é aqui passageiro?
Passagem: compro de ida e volta.
Eu ando passando mal por esses caminhos.

Carrego um excesso de bagagem
E isso não é vaidade, é precaução.
Levo toda a vida numa só viagem,
Porque onde for melhor, fico;
Porque se tiver silencioso, grito.
O barulho das turbinas não pode intimidar mais.

No saguão, há tantos que passam,
Que discursam e se enganam;
Eles enganam.
Ao embarque, somem.

De volta, sempre desembarco aqui.
Parecem não querer mais transeunte.
Mas se eu vim para ficar...
Como é difícil de entender?

Entendimento nunca foi anfitrião.
Forasteiro não tem espaço para confundir.
Se houvesse discernimento,
Se houvesse mais do que o talento de ser nato,
O fato seria abrir os olhos e receber
Com bom trato desde o portão de desembarque
Até pelos caminhos da cidade que quero dormir...
Em paz.

Imagem: Aeroporto Internacional de Viracopos/Campinas-SP

31 de janeiro de 2011

Três estados

Inauguro meu olhar mais simples sobre a sofisticação humana, com todos os adornos que, desde o nascente sol, reluzem a presunção de um bom dia e, à noite, choram as pitangas porque as horas legadas ofereceram outros sabores de fruta. Nesta geração de dissabores que roga cada poente, a noite parece a mais profana das mentiras inventadas pelo dia, que amanheceu com o peito inflado de vigor e obrigação de luta e, no fim da tarde, faltou-lhe fôlego para um suspiro de dizer apenas 'obrigado'. E quem agradece, sem a culpa, por sentir-se obrigado a não hesitar a contramão? Entre as queixas e a feitura, o que tem pesado na balança é a dor de cada folha do calendário arrancada sem a mínima pena do legado.
A omissão de casos passados e a corrente positiva de olhar à frente e cantarolar projetos não me trouxe sequer a matéria-prima de sonhos adolescentes, esses que as rugas escondem: sentir-se velho demais não é atestado de insanidade ou ficha de inscrição na caravana do rejuvenescimento. Tanta gente a combater os sinais da vida e eu insistindo na posição contrária a saber que envelhecer não é apenas um dom do tempo, senão um compêndio de futuros incertos que já passaram do prazo de solicitação. Há ainda os que repetem o diálogo dos eternos dissidentes da fugacidade: a morte é certa, o futuro é incerto e 'somos os mesmo e vivemos como os nossos pais.'
Já produzi todo meu repertório de novidades, não as tenho mais. Para que inovar se existe um baú de coisas em desuso que jamais eu poderia negar?
Quando eu cheguei aqui, nesta etapa que, ora fenecia por falência, ora teimava como uma criança que não descansaria por vê-la... Descobri que eu ainda tenho muito da criança que... ainda tenho a idade em que me encontro em alforria e ainda tenho salto ao tempo em que saltar será uma atividade proibida pelos geriatras.

Imagem: capturada de open4group.com

18 de janeiro de 2011

Última manhã

Eu entrei o ano com os dois pés de uma só vez, a bordo de uma aeronave Embraer - nada mais brasileiro - e, 2011, pisei o solo alagoano já nas primeiras horas do ano que começava. Eu me sentia feliz e não via a hora de ver todos e, sobretudo, minha amada mãe, que me proporcionou esta viagem.
Agora, estou em meu último dia desta passagem, que foi a mais longa a qual estive, desde que deixei minha terra em busca de alguns sonhos. O tempo passa tão rápido que, há uma boa parte dele, deixei mais de reclamar e decidi viver cada dia como se fosse ele mesmo, sem igual. E o mais prazeroso disso tudo foi poder assumir as minha vontade: beijar quem eu quis beijar, abraçar o que poderia ser abraçado voluntariamente, poder escolher e ainda não podendo, declarar guerra ao Plano B e insistir incansavelmente pelo foco nesta vida... Eu estou beirando os 30. Não tenho mais medo de me tornar velho; a maturidade vem incontavelmente a cada minuto, por que devo limitar este sabor de vida às contas anuais?
Hoje, deixo novamente minha querida Maceió, que já me maltratou com seu calor, com sua canção repetida e divulgada, que já me deu tudo que cria de seu potencial e, ainda assim, levo uma bagagem cheia de saudades.
Vou-me embora para Campinas, assumir meu novo plano, meu intuito de aprender e ensinar. Uma escola me espera, uma universidade me espera, uma TV me espera e poucos, mas bons, amigos me esperam. No entanto, não sei o que esperar deste ano, mas sei exatamente o que posso cobrar dele e mais da metade das coisas todas tem uma mão interligada ao pedir e doar que depende muito do meu querer. Eu não vou me esquecer da vontade, a saudade não me esquecerá - dia e noite, ela sempre aperta o peito.
Só não dá mais para ficar mais olhando trás e acreditando que muito se perdeu, porque, assim, não teria esta sensação maravilhosa de que eu conquistei tanto e o que déficit é coisa para o governo federal resolver.



11 de janeiro de 2011

Reduzindo para caber o mundo todo numa casa

Começa hoje um dos programas de maior audiência da televisão brasileira: Big Brother Brasil. Em sua décima primeira edição, o reality show é produzido pela Endemol e exibido pela Rede Globo, no país.
Ano passado, eu havia dito que o Brasil escolheu a ignorância, a brutalidade, o grotesco, a falta de educação e respeito, que reflete o que é sua gente; o que, infelizmente, somos nós. Este ano, provavelmente, não será diferente.
Sei que o programa de entretenimento exibido na TV aberta às noites, quando a maioria quer relaxar e esquecer o árduo dia em que suas mentes trabalharam muito a fim de alguma produção humana que lhe dê sustento nesta vida nada fácil, é intuito de descontração, no entanto ratifico que o mau gosto tem proliferado e arrebatado à divina decepção os mais tolerantes dos espectadores.
Quando digo tolerância, menciono o fruto desta liberdade conectada com amarras das produções televisivas, cheias de interesses mercadológicos e o bel prazer visual, proclamando, assim, a libido ditada, o ato bisbilhoteiro e o exercício do pleito vão. Sentimos que o poder de decisão está doado às nossas liberdades de sofá ou cama, diante de um aparelho televisor.
Somos de uma nação plural e nos limitamos a ser, involuntariamente, aquilo a que assistimos, como um grande projeto de fofoca plausível, sob este gostinho modista de promotores de uma ideologia veranista e acabamos nos identificando com personagens que carregam nossas bandeiras de obviedade - pelo menos não a minha. Então, entram no rol das conversas do almoço, do intervalo do trabalho e/ou das redes sociais as descartáveis declarações de amor a um ou a outro indivíduo que jamais conhecemos na vida, que em nada contribuiu para a evolução dos nossos sentimentos, e despejamos todo nosso afeto num ralo que representa muito bem quão perecível é nossa sensibilidade e que acolhe as celebridades mais toscas da história de um mundo não tão pequeno quanto pensamos. Quando pensamos, né?!

Imagem: http://globo.com/bbb

31 de dezembro de 2010

Pedágio na Rodovia 2010. Destino: 2011.

Um ano é o bastante para que? E o que faz de um ano pouco tempo para um projeto a longo prazo?
Duas vertentes do tempo, opostas, me fizeram refletir o quanto este ano pôde ser suficiente para transformar e trazer renovação ou mesmo que ele ainda não deu para suprir necessidades que trespassam o prazo que um calendário anual me permite.
Foi um ano difícil, como alguns outros. E não foi só para mim, confirmo.
2010 foi um ano de perdas e ganhos, e começo a falar das subtrações porque é delas que não quero lembrar, no fim das contas. Perdi alguns amigos, quem sabe eles tenham sumido em uma mudança de estação ou decidiram partir rumo a outra estação que não aporta em meu trajeto. Como não poderia deixar de ser, sinto apenas a falta; jamais seria indiferente perder algo que, ao longo do tempo, eu tenha cultivado para assim ficar na memória como deve ser, ao menos. Perdi apostas, apostei em mim mesmo, na maioria das vezes, perdi e, assim, perdeu-se um pouco de mim. Ficaram lacunas insubstituíveis, como espaços que o relógio trabalha, porém não contribui a trazer de volta o que ficou. Perdi um pouco mais da saúde, por alguns hábitos que apenas ilustram o descompromisso com o porvir. Amores: esses vêm e vão. Perdas? Acho que não. Se não ficaram é porque já foram tarde.
Os ganhos, inevitavelmente, são a melhor parte de uma história a se contar. Este ano, a humildade teve destaque. Sim, isso mesmo, humildade. Estava longe dela fazia tempo e alguns contratempos me fizeram ser derrotado pela prepotência que ainda soprava na minha mentalidade esquisita e trazia ventos de ignorância. Eu deixei de aprender bastante por achar que já sabia. Sinto-me mais humilde a ponto, primeiramente, de reconhecer que meu talento falhou comigo e que a partir de então não há outra solução melhor do que me esforçar: injeção da máxima sartreana, para um ex-combatente de presunção com presunção.
Vou dizer também que ganhei novos amigos e incríveis; os que se foram que me desculpem, ainda que não sejam substituídos, a vida me presenteou com gente muito mais interessante e isso fez de mim o cara que confia cada vez mais na importância dos laços que vão além do sangue, do sexo e das cartas de tarô,
Não sou convencido, no entanto, da satisfação; avalio, portanto, o ano razoável, mas que no gracejo para espantar equívocos, prefiro invocar a consciência do bem-estar: paguei caro para viver 2010, tal qual pedágio no caminho para chegar 2011, como uma meta.

Imagem: capturada da web

29 de dezembro de 2010

Tão apaixonado que chega a ser irritante


Acusaram-me, num e-mail, de metade de mim ser amor e a outra metade também. Ledo engano! Eu tenho muitas partes deste todo e por ele tenho cultivado sentimentos diversos para ser o mais completo possível e ter a parte que a cada um cabe. Não são muitas faces, mas expressão do sentimento que convém. Ah, mas a verdade é que tem muito amor em mim para premiar, para doar, mas outras vertentes, em caso de vingar-se ou para estar simplesmente desligado, indiferente, quando puder.
Se tem uma palavra com a qual me identifico bastante é Amor. Mas não sou todo dele e nem ele meu. É questão apenas de predileção e tentar nortear o caminho pelos exemplos positivo que atitudes bem sucedidas resultaram da força deste verbete, quando em sua versão mais poderosa: pulsante e vivo. No entanto, o que me acaba é a prévia amorosa, que atende pelo nome de paixão. Ah, quantas eu tenho! Perdi a conta! Acho que me apaixonaria todo dia caso fosse sempre abandonado no fim da noite. Acordaria procurando a paixão até no armário que guarda minha escova de dentes. Acho que até antes disso, sob o lençol que me cobre ao dormir. E toda vez que estou apaixonado chego a ser irritante. É o pensamento constante, a vontade de dizer bom dia bem antes das 4h da manhã, porque pareço perder o tempo e todo tempo é muito pouco para se dizer tudo que penso. Então me torno o poeta irritante, o que dissemina o sorriso e a tensão a todo instante. Os amigos já não aguentam frase de praxe, recursos inalterados, sempre; mudando apenas o vocativo, pelo qual, um nome, chamo.
Irrito mais ainda a quem chamo pelo nome. Arrependo-me de ser propositadamente irritante e continuo a sê-lo na sequência após o intervalo silencioso em que nos calamos porque... haja paciência! Enfim, torno-me um ridículo, com a sensação de que sou menos, a cada ano que passa, romântico do que antes. Mas me sinto ridículo ainda, com sensação de quem, a qualquer momento, será mandado para o mais sujo dos lugares do organismo. Até que percebo que isso não acontecerá se a sintonia for a mesma, mas quando não, acuso-me: ridículo, irritante, repetitivo e sem vergonha nenhuma na cara que só se apaixona.
O tempo que der, a paixão queima e, na hora em que a chama apaga, saio à procura de novo fogo aquecedor, como quem não tem aprendido nada sobre orgulho bobo, sobre arranhões na alma. Quero mais uma vez me estrepar todo, nessa oscilação vadia que me faz elevar minhas feridas ao alto posto da importância (somente a mim mesmo, ainda que seja) e ter certeza de que se eu não fosse apaixonado assim, eu não seria o mesmo que tanta gente já se apaixonou.

Imagem: www.unoriginal.co.uk

28 de dezembro de 2010

Extensões da felicidade

Eu fiz um texto tão curtinho para o dia do meu aniversário que depois de lê-lo cheguei à conclusão de que não me expressei do tamanho da felicidade alcançada naquele dia.
Devido às mensagens atrasadas, felicitando-me, estendo minha felicidade de celebração aos dias sucessivos em que pude conhecer tanta gente interessante em São Paulo, que entre um brinde e outro, puderam compartilhar da intersecção de sentimentos (oscilando sempre e, por vezes, interagindo) nesse momento tão significativo para mim.
Fiquei aqui lembrando a veracidade do meu companheiro de casa, Marcelo, ao desejar seus votos. A presença constante do Davi Rosa, sempre animado, com solicitude e sorrisos, a bater o coração concomitantemente à música que explodia em festejo natalino na Voodoo. O casal anfitrião da ceia, Marcos e Luciana, que além da recepção, marcaram presença no baile dos meus parabéns por estar vivo e contar mais um ano. Aí vieram tantos outros, desconhecidos, mas que num mesmo espaço, permitiram que a festa fosse de todos e que eu me sentisse o mais social dos aniversariantes.
Depois da noite de luzes e sons na Associação dos Empresários Brasileiros de Diversões, veio o dia e até o café na padaria da esquina, na companhia da Débora, teve um sabor especial ainda que no cardápio houvesse apenas um pão na chapa e um suco de laranja. O alimento da alma cedia um pouco do seu sabor ao improvisado desjejum.
Então, veio o sono necessário e o telefone que tocava e me lembrava que ressaca maldita é fichinha diante de todas as felizes lembranças que vinham em tantas vozes e sotaques. E mais à noite, pude encontrar minha ex-companheira de pós, Karine, hoje uma amigona e meu queridíssimo João Paulo (JP), que também comemorava mais um natal na vida. E a Rua Augusta, tão mestiça me chamava mais uma vez para celebrar apenas a alegria que, para mim, estacionava no copo e, sobretudo, gelada, descia pela boca, trazendo a frescura e mais um prazer que por anos eu aprecio. E aí o dia 25 passa, mas minha viagem comemorativa não parava...
Já era dia 26, e a proposta foi um filme no cinema: outro grande prazer meu. JP e eu na noite paulistana não nos contentaríamos com apenas uma sessão, havia outra cessão, essa para os prazeres da boemia, tão afastada de nós, cúmplices, há alguns anos, devido às mudanças dos ventos de cada um. Enfim, o reencontro é possível para que nos permitamos festejar alguns momentos pequenos, os quais somados serão o grande repertório que, um dia, dentre nossas coleções de fatos na lembrança, acusarão que nossos sorriso não foram poucos - e sempre válidos.
Era a esquina da Frei Caneca com a Peixoto Gomide que, no meio do caminho à Av. Paulista, decidimos parar. Todas as cores do arco-íris, uma animação intensa e no meio de tanta gente, só nós dois aproveitávamos aquele papo afim, lembrando os tempos bons, rindo do passado ao contabilizar sucessos e gafes, e projetando o que será de nós, que só Deus sabe. De repente, uma surpresa ótima, Alexandre, outro querido amigo, aparece quase que de surpresa para me dar o abraço mais desejado daquela noite, sem reparar que já faziam algumas horas que comemoramos a nova idade... mas como não haveria de ser bem-vindo, felicitações tête-à-tête? Cervejinha, novamente, conversa boa e um dos mais belos sorrisos paulistanos (da gema). Assim, a hora passa rápido e a companhia de dois queridos amigos tem o prazo definido pelo cansaço.
O desfecho das noitadas teve data definida para uma segunda-feira, que não teria nada de especial se não fosse a presença de JP e Marcelo, para, uma vez mais, celebrar esta alegria extensa de dias que jamais esquecerei dos meus vinte e tantos anos, celebrados em Sampa.

25 de dezembro de 2010

Um ano a mais

Uma noite diferente; na cidade, que brilha e ostenta seus poderio e riqueza, parece-me oferecer suas luzes. 25 de dezembro de 2010, meu primeiro Natal na Cidade de São Paulo, o dia em que eu comemoro, também, mais um ano de vida.
A saudade da família aperta, mas são os amigos que, em troca, oferecem uma ceia especial, uma torta de banana saborosíssima e a companhia para uma incrível baladinha.
Entre os que lembraram e os esquecidos, ficou a emoção de receber cada voto dentre as milhões de possibilidades que as palavras nos entregam. E o melhor disso tudo é saber que o crescimento é constante, ainda que a comemoração seja apenas em uma data. Não há abraço melhor do que a experiência, e essa faz FELIZ NATAL ter um sentido e tanto.

16 de dezembro de 2010

Dúvida indevida e dívida duvidosa

Há alguns dias que, antes que o sol nasça, não consigo pregar os olhos. Ansiedade que beira ao silêncio da madrugada: isso parece fazer um bem. O ruído da rua pela manhã, associado à turbulência interna das minha aptidões feirantes, seria explosão de decibéis de me tornar um surdo pelo resto da vida. Portanto, venho equilibrando sons, pois eles incomodam meu intuito canônico de me sentir são por duas horas, que sejam.
Preciso do relógio próximo para saber que horas ele vai ligar, que horas eu ligarei para ela e contarei que está tudo bem, que é hora do paliativo de vida, que minutos antes eu poderia ter feito tudo diferente...

Eu tenho que me preocupar ultimamente até com meu pessimismo denunciado por um amigo a mais de 90km de distância. Tento não me preocupar com a distância de minha mãe. Preocupo-me com a aproximação da virada de ano e com o balanço obsessivo das datas que marcam porra nenhuma.
Então, vem-me o fim da picada, o começo do fim e o fim das contas. O Bradesco me liga de três em três dias, cobrando-me uma dívida (e quem me deve mais?). Eu me cobro sempre um pouco menos, mas preciso me cobrar mais do que três em três dias da minha dívida comigo mesmo, do tempo passar e eu assumir cabelos brancos precocemente.
Um passo à frente não seria apenas um a mais, posto que há sinal de cujas coisas estão andando como devem ser encaminhadas, mesmo que apareçam diversos caminhos entre o destino dos confins ou a viela proposital que sempre dá ma parede dessa
via crucis.
Parece sempre que estou em prova e que luto para que o gabarito se assemelhe, percentualmente significativo, aos pontos corretos da verdade. Parece mesmo que estou num concurso ingênuo onde a vaga disputada é para vida. Vida? A vida vem se tornando um transtorno onde a próxima saída fica a léguas daqui. Quando foi que aprendi a medir léguas? Já nem reparo na distância porque não quero acumular mais uma.
Caso eu pudesse acelerar, voltar ou parar o tempo, minha opção seria, ainda assim, nula. Onde eu quero chegar, não pode ser acelerado. Voltar não seria o caso de rever insinuações de sábados peniciosos, semanas violentas e domingos apaixonados pela cegueira, hoje já curada. Parar o tempo me restaria para ajustar? Não preciso nem dizer que da forma que venho andando, percebi que o ponteiro do relógio me empurra como quem diz que tempo perdido é atrasado sinalizado.
Agora sei que é compreensível que eu note e relate o caminho entre a dúvida e a dívida, com esse ar pateticamente depressivo, porque se eu vivesse gritando a felicidade, certamente seria alvo de inveja. Ninguém vai arrematar um homem individado, tampouco, como dúvida se opõe à certeza de um bom negócio, sobra prazo para apertar os parafusos soltos da cabeça.
Assim, exploro a hipoteca desses dias porque a maneira de me sentir vivo e animado na hora de despertar é essa consciência de que todo dia tem um leão para matar e um capricorniano para lapidar aos moldes do meu anti-esoterismo.


Imagem reporduzida: La Noyée, de Stanley William Hayter