14 de dezembro de 2011

Saudade, palavra triste...


Era uma mensagem comum, quase um papo informal e, na despedida, "tenho saudades", pontuava. Sim, os diálogos efêmeros estão incorporando uma expressão incoerente com a realidade. Saudade de mim? Pergunto a todo instante.
Aqueles que sentem falta de presença física, porque ela elabora mais uma postagem no diário da vida, dar-se-ão conta de que um abraço, um beijo, um papo olho no olho fazem grande diferença. Mas, novamente indago, quando? Quando foi isso, na verdade?
Um banho de água fria, eu sinto... a palavra saudade, cada vez mais, nas minhas inquietudes e tentativas de reaproximação, torna-se sinal de pontuação, sem denotar a força da verdade ou a fraqueza e falta de aptidão para outro, dos muitos, desfechos das minhas relações, que descartam os demais sentimentos os quais, um dia, deixariam-na, deveras.
"Eu não ligo pra ninguém" foi a justificativa que recebi de uma ex-grande amiga, que há meses não faz uma ligação, inclusive para compartilhar a sua primeira maternidade que se forma em seu ventre. São economias de dinheiro e sentimento, racionando qualquer motivo de dizer que a falta, ali, é sentida. Eu lamento.
Desde que me mudei de Alagoas para São Paulo, vi laços fortalecidos por jantares, carnavais, alto e bom som de um por-acaso-terminamos-aqui, nesta noite, vazia... Outros momentos de que me lembro, saudoso, eu poderia sentir o calor daquela pessoa ou a embriaguez dela, a qual me cobrava uma direção, nem que fosse para chegarmos juntos ao mesmo bairro, depois de uma noite desperdiçada nos prazeres que certo deus profano permitia: beber. Há dias, semanas, meses que não tenho o prazer de beber com alguns velhos amigos e, o pior, tenho saudade desta pequena atitude, que o moralismo da minha mãe sempre avisava: "para uma mesa de bar sempre haverá companhia", profetizando que a mesa sempre existirá, talvez eu não esteja mais à ela, inseparável. 
São quilômetros que nos separam, velhos amigos e envelhecidos, na forma mais cruel de sua semântica, nada novo para me fazer ter vontade de rejuvenescer rancor, que não o guardo, mas noto suas rugas e cabelos brancos a cada mês que esqueço um nome.
De Campinas a São Paulo, a capital do Estado-meu-abrigo, menor distância e cada vez que ali estou, uma cobrança de quem diz que eu vou sempre - e nem é assim - e não procuro. Procurar pelo quê? Lembrança de que estou a pouco mais de uma hora de caminho para matar saudade, a falecida? É compromisso diplomático? Check-in para permanecer no histórico que "estive contigo"? Eu vou e venho sempre como qualquer pessoa com sua liberdade de ir e vir, e poder fazer escolhas, mas sempre inventaremos desculpa se reparamos que na agenda não houve espaço para uma visita aqui, ali, aí, em qualquer lugar, que, certamente, se for para matar a saudade que se sente, não precisa dizer que trabalho, estudo, nascer, crescer, reproduzir e... Morrer: completa ciclo de esquecimentos. 

23 de novembro de 2011

Caso de família

Há uns filhos da puta que chegam lindos;
Brincam com fogo rindo sem imaginar perigo.
Exemplo desse pirotécnico que passível foi
De atacar minha honradez e entrelinhar artifício...

Queima! Deixe o sangue escorrer, impiedoso,
E relaxe a preço de banana:
O que da fruta você chupa até o caroço,
Eu denoto no pescoço, quem não nota?

Chega um tempo de roubar a paz,
Justifica tardiamente o sono cancelado...
Conto nos dedos quantos dedos, quantos calos...
Quanto de mim vai em si na única vez....
Quem cala consente.
Fogo, de novo.

Eu percebi que todo filho da pólvora se preza;
Só não imagina o poder da gargalhada: ria!
Quando sua mãe queimada o título despreza
Em favor do filho da outra, neto sem avó, sobrinho da tia.

25 de outubro de 2011

Legítima defesa

Existe o que se diz amigo, com aquela fantasia sorridente, de brindar com você a felicidade de quinze minutos nada eternos. A roupa que veste é a amizade, como um pano qualquer, uma mortalha de sinceridade alguma. Esquece dos acessórios. Há um pendente olhar sereno, na hora apropriada. Há um silêncio inapropriado, quando você precisa ouvir ainda que seja olhares. Esse amigo é um baile de carnaval, bem calculado no tempo, no espaço, apenas um brinde às festividades. 
Existe o que se diz amante, com aquele coraçãozinho de pelúcia, que junta poeira, quando some. Que ama incansavelmente por uma noite (podem ser duas ou concluir a semana). Parece que tudo é material - um grande indício de inverdade - presente para cada ocasião, ausência de amor pelo resto da vida.
Existe o que não se diz invejoso. Ele nega todos os atos. Ele é falso na subtração de todos os indícios de verdade. Parece que não se contenta com uma frase que você diz ou uma conquista maravilhosa que se reflete em caminhos que você já percorreu. 
Existe o pessimismo, o qual acha que apenas só vê esses personagens se enredando na vida. Existe o otimismo que trata, por assim dizer, de alvejar componentes da destruição. Existe o realismo atemporal, que percebe cada movimento no percurso, nota a chegada e a saída de cada um. Não há argumentos que tolerem fatos abusivos de alguém que vem para não ficar. Para subtrair, existe quem quer lograr êxito em cima de seu teto de vidro. E sai atacando seus medos, suas imperfeições e seu cansaço de palavras ruídas, que nunca foram suficientes para lhe trazer uma verdade maior do que concordância na torcida de um rival que perde do predileto. Na derrota, todos estão apenas admitindo que estão por perto: mais palavras vazias... 
Você vê e-mails encaminhados de uma amenidade divertida (olha o riso arrancado, um 'obrigado' fugidio é o bastante), um telefonema da ganância, dos olhos direcionados à mais valia (ó, crueldade!), um passeio que nunca é gratuito (ou você paga o lanche, ou você tem ouvidos e olhos atentos para o momento de receptor), por aí vai... 
Pessoas cansam, trabalho cansa, estudo cansa, mas vem a noite de descanso e você acorda, restabelecendo conexões com a fruição da vida: suas responsabilidades. 
Falso amigo, fajuto amante, inveja de conluio com a má sorte, você não deixa fruir, mas suas mãos são órgãos que filtram essas espiritualidades negativas e seus calos são protetores e identificadores de experiência. Basta lavar, tomar um banho de mar, reger de acordo com o bem, ou melhor, o melhor estar, que infelicidade é apenas, diante das demasiadas facetas, a face verdadeira do seu inimigo.


Imagem capturada em http://dollykay.co.uk/

11 de outubro de 2011

Vice-versa


Toda história contada em primeira pessoa tem a carga das vísceras do indivíduo. Carrega nela mesma a profundidade de sair para jorrar seu universo para fora das entranhas individuais. Vou lhe contar como aconteceu...
Era uma ficção com pretensão de ser apenas bonita. Uma rede emaranhada de coisas pessoais daquele ser anônimo, que escrevia todo dia religiosamente para inventar mundos, quando na verdade as partes desalinhadas, caso fossem organizadas, daria certeza de que a ilusão e a revolta contra a realidade são somas perigosas na mão de um escritor. 
Ele, - o dono das palavras - mesmo, estava confuso e confundia. Ninguém entendia nada. Mas ele continuava a falar de si e suas coisas: eram entrelinhas, verbos inofensivos, detalhes agressivos, o veneno das sílabas, separadas como se fossem gotas a contar. Pareciam medicamentosos discursos para um mundo que não conhecia as subdivisões de suas malícias, verdades teatrais, algo mimético para se esperar apenas os aplausos e provocações emotivas. Uns choravam, outros logo esqueciam. Ele dizia, outro lia, aquém dos segredos que, assim, iam-se, revelados, sob lúdico caminho de um labirinto literário. 
Parecia cada corredor um mundo. Não era. Era tudo um mundo só. Fragmentos de verdade universal fundidos à ilusão do imaginário: um convidativo elixir para a vida. Escrever e ler, em sua experiência majestosa, possibilitava sempre um caminho de ida aos lados, sem saída, quiçá, mas que incentivava criações. 
Criavam um vínculo de independência, nas dependências do mundo aos pedaços. Era quem lia que viajava por terrenos aleatórios, à primeira vista, e ele que escrevia; dizia de si e do mundo o que pensava, como quem coagia sutilmente para angariar forças leitoras a fazê-lo encontrar consigo mesmo. O resultado disso, não esquecendo as fraturas, era sempre o inteiro desconhecido, partes do pouco a pouco, todos vivenciando sem ainda ver desfecho. 
Escreve-se por estar vivo, porque escrever é ato vital. Ao mundo de fora, um tanto do mundo de dentro, e volta para o mesmo lugar, como que saiu para buscar do outro lado o que faltava no seu avesso, ingerindo incontáveis drágeas de retorno. 

Imagem capturada na web

5 de outubro de 2011

Cadência de estreante

Entendo que as estrelas não foram feitas para mim.
Que decepção!
Arruinaram esta fábula de grandezas e tão significativas, elas...
As estrelas morrem e não sabemos no exato momento.
Elas continuam a brilhar aos nossos olhos
E acreditamos na ilusão:
"Ah, brilha pra mim."


Alguns sonhos apagados,
Passaram tinta branca e ficou tudo claro;
Clareza de ilusão, o branco imperfeito,
Limpo de segui-lo, inacreditável.
Pronto à cor que se quiser rabiscar.


Estrela pequenina, pó que reluz e não vive.
Olhos que enganam facilmente;
A peleja entre acreditar e não ser real.


Passo, acreditar no sol escaldante;
Ainda vivo, a ciência diz.
Agressivo, incomoda meus enganos,
Queima o branco que
Permite, visível, ver-se escuro.
Temor das cores.


Uma amostragem sutil,
Vem mais uma cor lúcida,
Reatar minha convicção fajuta
De que os astros são poderosos,
Resgatam vidas...
Uma estrela morreu e ninguém resgatou.
A maior morte: a distância.

23 de setembro de 2011

Denominação

Sempre tive a intenção de procurar nos mortos o sentido de estar vivo, Como objeção. Se eu fosse procurar nos vivos tal razão de ser, talvez me decepcionasse mais com as categorias de vida que se generalizam. Pensava muitas vezes na idade, a importância de contar números, e quantos se foram em não sei qual tempo de pó. Os mortos me causavam fascínio porque, na melhor expectativa de vida, sempre me diziam que Deus os chamou. Deus vive chamando, então. Puxa pelo braço, pela perna, pelo estômago? Chama pelo nome. "Caio, venha." "Vem cá, Sandra." "Está na hora de vir, Agenor." Um dia desses, não faz tempo, ninguém ouviu, mas ele disse "Eunice, vem agora." 
Olhando para aquelas lápides, só os nomes me deixavam intrigado. Eram muitos. Precisava ler, para imaginar aquela voz que chamou, porque eu nunca ouvi. E aquele silêncio no nome, não havia sequer um sussurro em lugar algum que eu tivesse a certeza de quem Deus chama. Mas é o que dizem.
Acredito que o temor a Deus - porque justo é - ora há muita gente a desobedecer a vida inteira, então quando o escuta chamar, decida obedecer. E se vai. São perfeitas decisões, quase pactos, o que chama, e o que é chamado o atende. 
As religiões talvez sejam porta-vozes desse chamado, uma antessala para dar o nome e esperar na fila. As pessoas religiosas poderiam ser educadas assim, sempre: esperar ser chamadas. Ficar esperando sem incomodar quem faz a hora. Suponho que a educação é mais plausível que a obediência. Eu desejaria, deveras, que todos  bem educados fossem. Mas me deixa muito curioso esse tratamento personalizado que a vida, supostamente, dá no seu fim. Olha que incrível: lembrou do meu nome! Tanta gente esquece. 
Há ainda muita gente buscando nome bonito para dar ao seu filho, porque há nomes ridículos e a pessoa se envergonha quando a recepcionista chama no médico ou o professor sinaliza quando faz a chamada. Se eu tivesse um filho, pensaria a gestação inteira num nome bem lindo para chamá-lo. Quando o chamasse ao paraíso, ele nem se envergonharia no último instante de vida terrena. 
Olha, mas é tudo suposição e devoção circunstancial, nunca ouvi Deus me chamar. Ah, mas eu me envergonho, não do meu nome, mas dessa galera viva que poderia atender pelo anonimato. Algumas vezes eu sou anônimo. Algumas vezes meu nome encanta. Acho que o tempo pode equilibrar meu momento certificado desde o nascimento e a vergonha que causo a mim mesmo, denominado indigente. Quiçá esteja tudo equilibrado por ora e no momento que pender para minha identidade, uns quilos a mais - ou a menos -, Deus me chamará. A boa notícia é que ouvirei. A má notícia é que isso é apenas uma suposição.

Imagem: Portal Barueri

11 de setembro de 2011

Quanto tempo tenho


E se meu pai estivesse morto? Com ele tenho sonhado pouco, tenho falado pouco, pouco sabido de tudo. Nem a metade. - Alô, como vai, pai? - eu sempre tomo iniciativa para saber como anda aquele homem que agora já tem 60 anos, quase o dobro da minha idade. Ele me informou, com a voz tão mais tranquila, que o convênio médico autorizara seu procedimento cardiovascular. Aquela voz do outro lado da linha me trazia uma metáfora positiva, como quem dizia: "eu estou vivo e ficarei bem." Mas não era nada grave. Era o mais urgente, melhor. E eu como estou? Digo-lhe, pai, estou bem. Bem genérico.
E se minha mãe estivesse aqui em minha casa? Tenho falado todos os dias, ultimamente, para lhe dar certeza de que, realmente, estou bem. Ela se preocupa toda hora. É uma preocupação contínua. A pessoa que mais se preocupa comigo e que demonstra isso sempre que pode.
Estar bem é uma questão muito subjetiva. Devo explicar pormenores. Em pormenores, aliás, devo explicar cada pormenor; por maior que seja meu intuito de dizer que bem estou, falho.
A dinâmica familiar sempre foi um impulso vivo. Como é permanente esse olhar atrás só para saber que lá ficaram os que sempre à frente trago nos meus caminhos sob qualquer perspectiva angular. O mapa diz que estou embaixo. Pais, em cima. Questão referencial. Esses conceitos, blá, blá, blá...
No entanto, em cima de mim estão pedras pesadas. Eu tenho de quebrá-las no sonho. Acordo, vivo, para quebrar as do caminho. No trabalho, manufatura metafórica, pedrinhas, quase grãos confeccionados para soprá-los bem longe, espalhá-los pelo estado de angústia, e deixar que essa poeira se encarregue de carregar o vento ou que ambos desejem trabalhar em conjunto e daqui distar. Um sopro de paz, meu Deus! Um vendaval milagroso, com rajadas agressivas... É, já não sou mais crente.
Hesito em ver o caos, ainda que eu veja tudo muito turvo sempre. Mas não vou me enganar em ver as linhas paradisíacas que costumam cantar nesses festivais de estética temporária. O bonito há muito não me convence. Ele sempre tarda, atrasado e, quando chega, perecível, apodrece. Data limite. Tempo contado. Um dinossauro, indivíduo que jura, jurássico, conhecer tudo e determinar desfechos. Bonito descartável no tempo exato. Quanto tempo? Não sei quanto tempo tenho para ficar me preocupando comigo e com essa beleza que acaba.


16 de agosto de 2011

Mundo doente


Escutei um toque de recolher e pensei o quanto está tarde para muita coisa. Perigo das ruas, esquinas doentes e uma mania de certos loucos de se destruírem. É tarde, eu sei, mas logo é cedo para começar tudo igual, hora para tudo, tudo absolutamente no mesmo lugar - a não ser que você mude.
Toque de recolher do quinto dia não é mais um mistério, um susto ou uma ameaça para quem andava tranquilamente pelas ruas perigosas. É verdade. Existem milhões de focos de incêndio, outros chamam de vandalismo, alguns hipertensos controlando a vontade de comer aquele alimento salgado; e o diabético de olho no pudim daquela padaria sensacional?
O alérgico que espirra as dores do mundo, todo tempo para soprar para fora as bênçãos de todos os sacerdotes fracassados...
Eu sonhei com a boca cheia de sangue, escorrendo pelo queixo, descia mais pelo pescoço e isso foi tão mórbido que acordei com medo de morrer. Levantei e pouco tempo depois estava tomando banho, arrumando minhas coisas e a rotina tinha de ser encarada porque, apesar de tudo, a realidade não precisa daquela morbidez onírica. Era tanta gente se queixando de tanta coisa, era eu me queixando dos meus atormentadores oficiais do ofício de quem tenta educar para vida. Quando eu fui mal educado? Perdoe-me.
Lembrei-me dos profissionais que choram suas inseguranças do trabalho, dos meninos que apanham com lâmpadas, socos e pontapés, das meninas que precisam comprar leite e para isso disseminam arrogância de propaganda de seu próprio corpo, das mães do holocausto (dos filhos também), do meu pai dizendo que não queria ser aberto de novo, daquela moça bêbada que, para sempre, vai querer esquecer o último dia em que teve ressaca, mas eles (os dias de ressaca) se repetem.
Ademais, existe todo mundo respirando uma manhã, seja dormindo ou já acordado tão cedo. Além disse, existem os sonhos, os amores, o próximo fim de semana para programar ou mesmo a salvação do planeta na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Na verdade, eu sonhei e fiquei transtornado; na real, eu não sei quando tudo vai parar.

28 de julho de 2011

Ter não tem

Tem meu estado de choque,
Tem estoque suficiente pra chocar.
Tem eletricidade passando pelo fio da meada;
Tem merda o tempo todo pra reciclar:
Quando adubo a vida
Pra ver se ela engrena de vez.

Tem meia dúzia de pretendentes,
Mentes fartas de querer um pouco
Do que pouco tem pra dar
Tem nada não...
Tem apenas o que se diz que tem
E não tem mais.
Tem mentira.

Tem também que se retém
Sem ter nada a repor;
Depois sem manter,
Diz que tem e não tem.
Fico sem ter a mim
E quem não tem mais.

26 de julho de 2011

Lar de lá


Seguro é o berço, cercado por todos os lados e olhos atentos a qualquer movimento do ser que se instiga a sair correndo a qualquer momento por uma desatenção que não reprima. Determinado dia, aquele lugar seguro não condiz com o tamanho da nossa vontade. Há tantos espaços no mundo para desbravar: ida e volta, ida sem volta, demora, espera ou outro sentimento e atitude que despertem no envolvimento dos que estão laçados pelas razões de berçário a horizontes inimagináveis.
Voltei ao lar de sempre, o qual escolhi como causa da minha ideia central, podendo circular por aí, mas o centro é sempre o ponto nada trivial, para abastecer-me de energia, amor de verdade, absoluto prazer que até me torna um pouco mais limpo do que costumeiramente podem encontrar-me aos trapos e sarjetas.
Eu sempre soube deste amor que parece infinito, ainda que eu contasse, cansaria antes de chegar ao fim; e um dia a vida há de pontuar nosso território que já não tem mais cercas e, acerca deste tempo que nunca saberemos quando chegará, existe o que me move de certezas e dúvidas infindas, de querer correr pro abraço e sentir-me tal qual um bebê em berço seguro, ainda na ânsia de partir novamente.
Voltei para casa. Encontrei meu quarto limpo, encontrei o olhar mais lindo de todos que já vi, da mulher mais descrente do mundo, mas com um repertório absoluto de preces e crenças em algo maior, em nosso amor inexplicável e na proteção que todas as forças que puder angariar. Há um homem, não menos importante, de olhos descrentes, maculado pela negação constante desta vida que dos seus sins diz-se de seus sinais como quem nega possibilidades. Esse homem é meu pai, inseguro e amoroso, de poucas palavras, mas ansioso por dizer sempre alguma coisa. Aquela mulher, minha mãe, de palavras disparadas na velocidade do seu bem-querer constante e intenso, sempre dizendo algo a mais, mas normalmente, querendo achar a direção exata.
Havia minha avó, a que tinha mais tempo de passagem por este mundo, a que da vida se despediu exatamente há um mês, e ela também teria coisas a dizer, e eu não pude escutar dessa vez.
Há minha querida irmã, sempre com as regalias de conforto e bom grado, paparicando com seus mimos materiais, porém é de querer materializar seu afeto imenso. Todos os mimos sentidos e saudosos, alguns de lembrança e ausência, outros de não perder de vista em pouco tempo - os únicos poucos dias divididos entre outros afetos e o centro, sempre foco.
Um amor que não está dissipado, não tem agrado que nestas terras de cá indique o igualitário, são pedaços de mimos que me acometem, mimado, a sentir vazio o leito em que durmo, mesmo estando pronto apenas pra mim, como sempre, mas falta o cheiro da família, que nem o orvalho da manhã repentina, todo dia, igualar-se-ia ao lar de lá... esse olfato alegre dos dias nas campinas.
Os amigos marcaram presença em eventos de alegria, na parte lhe cabem. Os entes, consanguíneos, participaram de algumas horas de restabelecimento de sobriedade, compartilhando dias ausentes, atualizando. Eles também puderam ouvir minhas verdades limitadas que oscilam entre minha felicidade e dor de estar aqui, não para sempre, mas com vontade sempre de um pouco mais ficar.
Se me deve muita coisa, o mundo, já pagou sua parcela mais primorosa. O resto da dívida, vou vivendo cada ocasião, que no calendário se conta pelo tamanho da minha razão e o prazo de minha próxima meta.

Imagem capturada de Bordados LS