6 de março de 2012

Arrependido

Lastimado conselho dos retaliadores de sonhos,

Terminei de sonhar. Pode, assim, emitir sua conclusão a respeito da minha realidade.

Por meio desse engano, gostaria de propor, à pauta, meu arrependimento jamais descrito em linhas de outrora. Isso sim, desejo explicar que estou arrependido de muita coisa, ainda que não faça sentido descrever, em linhas, tanta coisa que já ficou jogada por aí sem que eu possa buscar ou, aquelas que estão comigo até hoje, largar no passado, à época de sua aderência ao meu estilo de vida. Assim, meu maior arrependimento é, em resumo, pessoas. Pessoas essas que me arrependo por elas e por mim também.
Arrependo-me, pois, de ter dedicado tanto tempo a alguns que jamais prestariam atenção no tempo gracioso a que lhes dei espaço. Portanto, perda de tempo; arrependido, por desperdício, por deixar passar, estar, ou qualquer outro verbo de ação a quem merecia apenas a inércia (ou quem sabe a indiferença). Perco esse tempo, em linhas, para reclamar do tempo maior que passei com pessoas que jamais pensaram em mim de forma correspondente, que não posso as obrigar, mas não deveriam simular tanto por tão nada. Garanto que não for ideia perdida ou ilusão, por tantas vezes, mas sim a necessidade de audiência que elas têm, angariar plateia para seus espetáculos de simulação. Arrependo-me, assim, de cada palavra falada quando era oportuno somente o silêncio de uma desatenção ou desapercebido caso.
Arrependo-me ainda de ter desprezado o sabor da pimenta, de ter ignorado a fragrância e seu sabor picante. Somente saindo da terceira década de vida poder ter descoberto que ardor no paladar é melhor do que... na vida.
Arrependo-me muito pouco: pessoas, falta da pimenta e de não ter investigado a fundo a perspicácia do destino no momento em que apenas cria na coincidência.

Até à próxima etapa, quando eu dormir!

O Arrependido


1 de fevereiro de 2012

BUHR, Karina


A grande vantagem da música brasileira é que ela se renova e, sempre, sonora e muito bem apresentável, simplesmente encanta seus compatriotas, como também faz seu som apreciado nas terras forasteiras. Há uns pares de ano, no entanto, parecíamos entrar num ostracismo de produções musicais renovadas, nada aparecia que não fosse já visto, apenas com algum requinte de inovação na genuinidade vocal. E ponto. Vozes surpreendem, mas elas precisam de um acompanhamento tão importante quanto, para, juntos, fazerem o que, de fato, chamamos de música. E esse conjunto de propriedades que, unidas, causam sensações boas aos ouvintes; é o que faz vender - porque o mercado fonográfico como qualquer outro precisa sobreviver - e, quando tem um plus, seu valor agregado é o diferencial naquele produto. Sobre um novo produto é que rendo minhas linhas: Karina Buhr.
Eu falava da repetição, das novas vozes até muito boas, deslumbrantes, de arrepiar... Mas elas se perdiam nas entranhas de outros sons tão comuns, repetitivos - nada a ver com minimalismo -, mas... sabe os hambúrgueres dos fast foods multiplicados nas esquinas de cidade grande? Sabor-comum. A música precisa de vivacidade e não somente sobrevivência, precisa viver, até renascida, reencarnada, como queiram, mas com uma roupagem nova, uma pele diferente, um tempero diferente e bom, para aguçar sentidos, fazer-nos procurar ter outras novas e maravilhosas sensações sem assimilar à corriqueira semelhança: a nova Gal, nova Bethânia, nova Tetê... Que venha o novo, então, mas que não necessitemos dele como adjetivo. Que seja substância, substantivo, e até que seja composto, por nome e sobrenome. Que até assuste... Bu! Buhr, Karina
Tomei um susto quando vi Karina Buhr no palco pela primeira vez, em Campinas. Uma figuração sombria, escura, vestida de cor negra que engana, mas que à luz incidente sobre ela, o brilho de lantejoulas, tal qual a cortina do fundo que se misturava num delicioso sobressalto para poucas pessoas, pouquíssimas, diria umas cinquenta, que saíram de suas casas numa quinta-feira chuvosa, dia 8 de dezembro, para ver aquela baiana de sotaque e espírito pernambucano. E ela cantou... houve, então, nossa intimidade. É bom assim, quando a música parece íntima, mesmo sendo nunca antes vista igual. Esta antítese pode ser a fórmula do sucesso. No caso de Karina, sim.
Entendi então na intimidade do som com minha audição que a alma é profundamente tocada pela sua antítese, porque suas composições mostram a vítima e a vilã numa só mulher, pessoa que mente pra você, que morre depois de tanto verbo, que deseja que a ame, mas não tanto. É uma carência de pouco, é pedir pouco, porque muito é sobra demais para quem tem a suficiência, sob a ameaça de ir pro lixo. 
Entendi também de seu abuso da sonoridade, da confusão de palavras, às quais não encontrei figura de linguagem que alcançasse seu ineditismo; junta duas, forma um som esquisito, confrontador, resultante da verdade, apenas, e isso faz música, aliás, faz-se música. É a boa maldade esfregada na cara, letras pontiagudas, perfurocortantes, incisiva na pele e, continuadamente, provocando aquelas sensações como a água e sal, tempero simples, na carne viva; de provocar sensações incríveis e para não esquecer de repetir a música que não se repete entre todas as novas da história brasileira das músicas bem semelhantes. "E ganha um signovosignificado para mim"
Parabéns, Karina Buhr, pela sua inovação com muito boa qualidade! 




Para quem não a conhece e quem conhece e precisa saber onde encontrar um pouco mais: www.karinabuhr.com.br

Imagens: divulgação (site da artista)

24 de janeiro de 2012

Quando outro você

Estou me tornando tudo o que eu não queria ser.
Ovacionando cada vez mais a simplicidade
Quando outrora era afim da megalomania.
Eu sonhava tanto e tão grande
Que mal aguentava pouco tempo de sono:
Minha cabeça explodia.

Acordei doente um dia desses...
Eu morro um pouco
A cada abraço que dou sem vontade,
Porque aprendi a lidar com a mimésis.
Eu tive de passar por uma escola que não queria.
Aprendi a ser menor do que posso
Por vaidade avessa.

Quando descobri minha carga intensiva de nada a ver comigo
Quis pular ao módulo iniciante,
Talvez intermediário totalmente equivocado...
Então, novamente, com diploma de ideias sólidas
Liquidifiquei sabedoria que me servia para dois salários mínimos -
E olhe lá! -
Prestei desserviço à minha antiga tolerância.
Envelheci a saudade;
Coloquei-a num caldo grosso chamado mito.
E apareci na janela muito menos vezes...
Era uma poesia a cada Era Solitária.


14 de dezembro de 2011

Saudade, palavra triste...


Era uma mensagem comum, quase um papo informal e, na despedida, "tenho saudades", pontuava. Sim, os diálogos efêmeros estão incorporando uma expressão incoerente com a realidade. Saudade de mim? Pergunto a todo instante.
Aqueles que sentem falta de presença física, porque ela elabora mais uma postagem no diário da vida, dar-se-ão conta de que um abraço, um beijo, um papo olho no olho fazem grande diferença. Mas, novamente indago, quando? Quando foi isso, na verdade?
Um banho de água fria, eu sinto... a palavra saudade, cada vez mais, nas minhas inquietudes e tentativas de reaproximação, torna-se sinal de pontuação, sem denotar a força da verdade ou a fraqueza e falta de aptidão para outro, dos muitos, desfechos das minhas relações, que descartam os demais sentimentos os quais, um dia, deixariam-na, deveras.
"Eu não ligo pra ninguém" foi a justificativa que recebi de uma ex-grande amiga, que há meses não faz uma ligação, inclusive para compartilhar a sua primeira maternidade que se forma em seu ventre. São economias de dinheiro e sentimento, racionando qualquer motivo de dizer que a falta, ali, é sentida. Eu lamento.
Desde que me mudei de Alagoas para São Paulo, vi laços fortalecidos por jantares, carnavais, alto e bom som de um por-acaso-terminamos-aqui, nesta noite, vazia... Outros momentos de que me lembro, saudoso, eu poderia sentir o calor daquela pessoa ou a embriaguez dela, a qual me cobrava uma direção, nem que fosse para chegarmos juntos ao mesmo bairro, depois de uma noite desperdiçada nos prazeres que certo deus profano permitia: beber. Há dias, semanas, meses que não tenho o prazer de beber com alguns velhos amigos e, o pior, tenho saudade desta pequena atitude, que o moralismo da minha mãe sempre avisava: "para uma mesa de bar sempre haverá companhia", profetizando que a mesa sempre existirá, talvez eu não esteja mais à ela, inseparável. 
São quilômetros que nos separam, velhos amigos e envelhecidos, na forma mais cruel de sua semântica, nada novo para me fazer ter vontade de rejuvenescer rancor, que não o guardo, mas noto suas rugas e cabelos brancos a cada mês que esqueço um nome.
De Campinas a São Paulo, a capital do Estado-meu-abrigo, menor distância e cada vez que ali estou, uma cobrança de quem diz que eu vou sempre - e nem é assim - e não procuro. Procurar pelo quê? Lembrança de que estou a pouco mais de uma hora de caminho para matar saudade, a falecida? É compromisso diplomático? Check-in para permanecer no histórico que "estive contigo"? Eu vou e venho sempre como qualquer pessoa com sua liberdade de ir e vir, e poder fazer escolhas, mas sempre inventaremos desculpa se reparamos que na agenda não houve espaço para uma visita aqui, ali, aí, em qualquer lugar, que, certamente, se for para matar a saudade que se sente, não precisa dizer que trabalho, estudo, nascer, crescer, reproduzir e... Morrer: completa ciclo de esquecimentos. 

23 de novembro de 2011

Caso de família

Há uns filhos da puta que chegam lindos;
Brincam com fogo rindo sem imaginar perigo.
Exemplo desse pirotécnico que passível foi
De atacar minha honradez e entrelinhar artifício...

Queima! Deixe o sangue escorrer, impiedoso,
E relaxe a preço de banana:
O que da fruta você chupa até o caroço,
Eu denoto no pescoço, quem não nota?

Chega um tempo de roubar a paz,
Justifica tardiamente o sono cancelado...
Conto nos dedos quantos dedos, quantos calos...
Quanto de mim vai em si na única vez....
Quem cala consente.
Fogo, de novo.

Eu percebi que todo filho da pólvora se preza;
Só não imagina o poder da gargalhada: ria!
Quando sua mãe queimada o título despreza
Em favor do filho da outra, neto sem avó, sobrinho da tia.

25 de outubro de 2011

Legítima defesa

Existe o que se diz amigo, com aquela fantasia sorridente, de brindar com você a felicidade de quinze minutos nada eternos. A roupa que veste é a amizade, como um pano qualquer, uma mortalha de sinceridade alguma. Esquece dos acessórios. Há um pendente olhar sereno, na hora apropriada. Há um silêncio inapropriado, quando você precisa ouvir ainda que seja olhares. Esse amigo é um baile de carnaval, bem calculado no tempo, no espaço, apenas um brinde às festividades. 
Existe o que se diz amante, com aquele coraçãozinho de pelúcia, que junta poeira, quando some. Que ama incansavelmente por uma noite (podem ser duas ou concluir a semana). Parece que tudo é material - um grande indício de inverdade - presente para cada ocasião, ausência de amor pelo resto da vida.
Existe o que não se diz invejoso. Ele nega todos os atos. Ele é falso na subtração de todos os indícios de verdade. Parece que não se contenta com uma frase que você diz ou uma conquista maravilhosa que se reflete em caminhos que você já percorreu. 
Existe o pessimismo, o qual acha que apenas só vê esses personagens se enredando na vida. Existe o otimismo que trata, por assim dizer, de alvejar componentes da destruição. Existe o realismo atemporal, que percebe cada movimento no percurso, nota a chegada e a saída de cada um. Não há argumentos que tolerem fatos abusivos de alguém que vem para não ficar. Para subtrair, existe quem quer lograr êxito em cima de seu teto de vidro. E sai atacando seus medos, suas imperfeições e seu cansaço de palavras ruídas, que nunca foram suficientes para lhe trazer uma verdade maior do que concordância na torcida de um rival que perde do predileto. Na derrota, todos estão apenas admitindo que estão por perto: mais palavras vazias... 
Você vê e-mails encaminhados de uma amenidade divertida (olha o riso arrancado, um 'obrigado' fugidio é o bastante), um telefonema da ganância, dos olhos direcionados à mais valia (ó, crueldade!), um passeio que nunca é gratuito (ou você paga o lanche, ou você tem ouvidos e olhos atentos para o momento de receptor), por aí vai... 
Pessoas cansam, trabalho cansa, estudo cansa, mas vem a noite de descanso e você acorda, restabelecendo conexões com a fruição da vida: suas responsabilidades. 
Falso amigo, fajuto amante, inveja de conluio com a má sorte, você não deixa fruir, mas suas mãos são órgãos que filtram essas espiritualidades negativas e seus calos são protetores e identificadores de experiência. Basta lavar, tomar um banho de mar, reger de acordo com o bem, ou melhor, o melhor estar, que infelicidade é apenas, diante das demasiadas facetas, a face verdadeira do seu inimigo.


Imagem capturada em http://dollykay.co.uk/

11 de outubro de 2011

Vice-versa


Toda história contada em primeira pessoa tem a carga das vísceras do indivíduo. Carrega nela mesma a profundidade de sair para jorrar seu universo para fora das entranhas individuais. Vou lhe contar como aconteceu...
Era uma ficção com pretensão de ser apenas bonita. Uma rede emaranhada de coisas pessoais daquele ser anônimo, que escrevia todo dia religiosamente para inventar mundos, quando na verdade as partes desalinhadas, caso fossem organizadas, daria certeza de que a ilusão e a revolta contra a realidade são somas perigosas na mão de um escritor. 
Ele, - o dono das palavras - mesmo, estava confuso e confundia. Ninguém entendia nada. Mas ele continuava a falar de si e suas coisas: eram entrelinhas, verbos inofensivos, detalhes agressivos, o veneno das sílabas, separadas como se fossem gotas a contar. Pareciam medicamentosos discursos para um mundo que não conhecia as subdivisões de suas malícias, verdades teatrais, algo mimético para se esperar apenas os aplausos e provocações emotivas. Uns choravam, outros logo esqueciam. Ele dizia, outro lia, aquém dos segredos que, assim, iam-se, revelados, sob lúdico caminho de um labirinto literário. 
Parecia cada corredor um mundo. Não era. Era tudo um mundo só. Fragmentos de verdade universal fundidos à ilusão do imaginário: um convidativo elixir para a vida. Escrever e ler, em sua experiência majestosa, possibilitava sempre um caminho de ida aos lados, sem saída, quiçá, mas que incentivava criações. 
Criavam um vínculo de independência, nas dependências do mundo aos pedaços. Era quem lia que viajava por terrenos aleatórios, à primeira vista, e ele que escrevia; dizia de si e do mundo o que pensava, como quem coagia sutilmente para angariar forças leitoras a fazê-lo encontrar consigo mesmo. O resultado disso, não esquecendo as fraturas, era sempre o inteiro desconhecido, partes do pouco a pouco, todos vivenciando sem ainda ver desfecho. 
Escreve-se por estar vivo, porque escrever é ato vital. Ao mundo de fora, um tanto do mundo de dentro, e volta para o mesmo lugar, como que saiu para buscar do outro lado o que faltava no seu avesso, ingerindo incontáveis drágeas de retorno. 

Imagem capturada na web

5 de outubro de 2011

Cadência de estreante

Entendo que as estrelas não foram feitas para mim.
Que decepção!
Arruinaram esta fábula de grandezas e tão significativas, elas...
As estrelas morrem e não sabemos no exato momento.
Elas continuam a brilhar aos nossos olhos
E acreditamos na ilusão:
"Ah, brilha pra mim."


Alguns sonhos apagados,
Passaram tinta branca e ficou tudo claro;
Clareza de ilusão, o branco imperfeito,
Limpo de segui-lo, inacreditável.
Pronto à cor que se quiser rabiscar.


Estrela pequenina, pó que reluz e não vive.
Olhos que enganam facilmente;
A peleja entre acreditar e não ser real.


Passo, acreditar no sol escaldante;
Ainda vivo, a ciência diz.
Agressivo, incomoda meus enganos,
Queima o branco que
Permite, visível, ver-se escuro.
Temor das cores.


Uma amostragem sutil,
Vem mais uma cor lúcida,
Reatar minha convicção fajuta
De que os astros são poderosos,
Resgatam vidas...
Uma estrela morreu e ninguém resgatou.
A maior morte: a distância.

23 de setembro de 2011

Denominação

Sempre tive a intenção de procurar nos mortos o sentido de estar vivo, Como objeção. Se eu fosse procurar nos vivos tal razão de ser, talvez me decepcionasse mais com as categorias de vida que se generalizam. Pensava muitas vezes na idade, a importância de contar números, e quantos se foram em não sei qual tempo de pó. Os mortos me causavam fascínio porque, na melhor expectativa de vida, sempre me diziam que Deus os chamou. Deus vive chamando, então. Puxa pelo braço, pela perna, pelo estômago? Chama pelo nome. "Caio, venha." "Vem cá, Sandra." "Está na hora de vir, Agenor." Um dia desses, não faz tempo, ninguém ouviu, mas ele disse "Eunice, vem agora." 
Olhando para aquelas lápides, só os nomes me deixavam intrigado. Eram muitos. Precisava ler, para imaginar aquela voz que chamou, porque eu nunca ouvi. E aquele silêncio no nome, não havia sequer um sussurro em lugar algum que eu tivesse a certeza de quem Deus chama. Mas é o que dizem.
Acredito que o temor a Deus - porque justo é - ora há muita gente a desobedecer a vida inteira, então quando o escuta chamar, decida obedecer. E se vai. São perfeitas decisões, quase pactos, o que chama, e o que é chamado o atende. 
As religiões talvez sejam porta-vozes desse chamado, uma antessala para dar o nome e esperar na fila. As pessoas religiosas poderiam ser educadas assim, sempre: esperar ser chamadas. Ficar esperando sem incomodar quem faz a hora. Suponho que a educação é mais plausível que a obediência. Eu desejaria, deveras, que todos  bem educados fossem. Mas me deixa muito curioso esse tratamento personalizado que a vida, supostamente, dá no seu fim. Olha que incrível: lembrou do meu nome! Tanta gente esquece. 
Há ainda muita gente buscando nome bonito para dar ao seu filho, porque há nomes ridículos e a pessoa se envergonha quando a recepcionista chama no médico ou o professor sinaliza quando faz a chamada. Se eu tivesse um filho, pensaria a gestação inteira num nome bem lindo para chamá-lo. Quando o chamasse ao paraíso, ele nem se envergonharia no último instante de vida terrena. 
Olha, mas é tudo suposição e devoção circunstancial, nunca ouvi Deus me chamar. Ah, mas eu me envergonho, não do meu nome, mas dessa galera viva que poderia atender pelo anonimato. Algumas vezes eu sou anônimo. Algumas vezes meu nome encanta. Acho que o tempo pode equilibrar meu momento certificado desde o nascimento e a vergonha que causo a mim mesmo, denominado indigente. Quiçá esteja tudo equilibrado por ora e no momento que pender para minha identidade, uns quilos a mais - ou a menos -, Deus me chamará. A boa notícia é que ouvirei. A má notícia é que isso é apenas uma suposição.

Imagem: Portal Barueri

11 de setembro de 2011

Quanto tempo tenho


E se meu pai estivesse morto? Com ele tenho sonhado pouco, tenho falado pouco, pouco sabido de tudo. Nem a metade. - Alô, como vai, pai? - eu sempre tomo iniciativa para saber como anda aquele homem que agora já tem 60 anos, quase o dobro da minha idade. Ele me informou, com a voz tão mais tranquila, que o convênio médico autorizara seu procedimento cardiovascular. Aquela voz do outro lado da linha me trazia uma metáfora positiva, como quem dizia: "eu estou vivo e ficarei bem." Mas não era nada grave. Era o mais urgente, melhor. E eu como estou? Digo-lhe, pai, estou bem. Bem genérico.
E se minha mãe estivesse aqui em minha casa? Tenho falado todos os dias, ultimamente, para lhe dar certeza de que, realmente, estou bem. Ela se preocupa toda hora. É uma preocupação contínua. A pessoa que mais se preocupa comigo e que demonstra isso sempre que pode.
Estar bem é uma questão muito subjetiva. Devo explicar pormenores. Em pormenores, aliás, devo explicar cada pormenor; por maior que seja meu intuito de dizer que bem estou, falho.
A dinâmica familiar sempre foi um impulso vivo. Como é permanente esse olhar atrás só para saber que lá ficaram os que sempre à frente trago nos meus caminhos sob qualquer perspectiva angular. O mapa diz que estou embaixo. Pais, em cima. Questão referencial. Esses conceitos, blá, blá, blá...
No entanto, em cima de mim estão pedras pesadas. Eu tenho de quebrá-las no sonho. Acordo, vivo, para quebrar as do caminho. No trabalho, manufatura metafórica, pedrinhas, quase grãos confeccionados para soprá-los bem longe, espalhá-los pelo estado de angústia, e deixar que essa poeira se encarregue de carregar o vento ou que ambos desejem trabalhar em conjunto e daqui distar. Um sopro de paz, meu Deus! Um vendaval milagroso, com rajadas agressivas... É, já não sou mais crente.
Hesito em ver o caos, ainda que eu veja tudo muito turvo sempre. Mas não vou me enganar em ver as linhas paradisíacas que costumam cantar nesses festivais de estética temporária. O bonito há muito não me convence. Ele sempre tarda, atrasado e, quando chega, perecível, apodrece. Data limite. Tempo contado. Um dinossauro, indivíduo que jura, jurássico, conhecer tudo e determinar desfechos. Bonito descartável no tempo exato. Quanto tempo? Não sei quanto tempo tenho para ficar me preocupando comigo e com essa beleza que acaba.