6 de junho de 2013

Catástrofe

Um câncer em cada esquina.
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!

16 de maio de 2013

O Abismo Prateado

Entre os fragmentos de sua dor, uma mulher se encontra abandonada pelo marido. Como pedaços espalhados, esses fragmentos emergem num cenário urbano de sons perturbadores e trânsito em contramão. Há lugar de passagem, um luto e um destinar-se a algum lugar, iniciando no resgate, sua busca. A perda é evidente, muito mais nas sensações do que em suas palavras, que estão presas e/ou engolidas pelas sofreguidão e hostilidade urbana.
Violeta, personagem de Alessandra Negrini, no mais recente longa-metragem de Karim Aïnouz, desloca-se num plano exprimido, num close-up nas suas feridas, no que sangra, e rodeada de turvo angustiante sem avais de liberdade, a priori. Existem, ainda, a permanente agonia, pergunta sem resposta, a ligação literal e metaforicamente não correspondida e a dissidência para emergir a vicissitude necessária  até alcançar o plano geral.
Baseado na canção Olhos nos Olhos, o roteiro do filme segue as estrofes da poesia de Chico Buarque, em que as sensações daquela mulher cujo marido a deixou, quase enlouquecida, exprime a linearidade do desconforto até o momento de refazer-se.
Violeta,  presa no mundo que parecia construir a dois e, em face ao abandono, sozinha - mas numa tentativa de recuperação do enlace - estabelece diálogo maniqueísta em que o bem e o mal travam disputa pós-abandono.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
Aos poucos, Violeta, uma transeunte de destino incerto, traça uma linha reta de sentidos que se opõem: do desespero à tranquilidade.  Assim, ela toma iniciativa de controlar, através da respiração funda e na contagem crescente e cardinal, seu rumo e recompor-se nesse caminho aparentemente vazio, onde o ludíbrio ainda a remete, algumas vezes, ao pânico. 
Quando, então, as experiências fugidias da dentista poem-na nos recantos transitórios como hotel, boate, aeroporto, levando-a a encontrar(se) ou até mesmo despedir-se do sentimento corrosivo  por não conseguir permanecer em casa ou exercer seu cotidiano profissional. Então, nesse trânsito contínuo, suas observações e contatos lhe trazem a amplitude do mundo, talvez por soma de espaços e tempo, oferecendo-lhe um movimento com mais autonomia e, sobretudo, ampliando sua abrangência.

4 de abril de 2013

Labor

Meu amor vitalício,
Bem-querer efetivo no meu pensamento,
E que o sonho seja apenas um adicional noturno
No trabalho constante de querer
Que um dia seja real.
A você, meu mais suado expediente.

3 de abril de 2013

Bem-me-quer mal me coloriu


Dia de insônia é tudo igual. É claro o suficiente pra incomodar os olhos que anseiam dormir. É escuro o bastante pra não ver nada além do que a preocupação de sempre: o dia seguinte.
Eu planejei uma viagem sob desculpas pra vida inquieta. Inventei uma paisagem de concreto e muita tinta sobre os muros pra colorir minha passagem em terras que poderiam revelar um futuro brilhante. As cores verdadeiras não são, ao menos, acetinadas. Eu vi no fosco da ocasião um brilho que não existe. E cair em si é a melhor tintura pra o pensamento. Então pensei em desistir, não colorir mais nada, não acreditar em gentileza, e não precisar de favor. Venho vivendo de favores...
Caí na noite que não enxerga o sono. Pensei em tudo antes de ir, na lembrança a regalar, na vontade de chegar, sobretudo, onde não é meu lugar, nem nunca será, o fosco não me agrada. Escuro o bastante pra não ver o dia posterior, pois ele não existirá da forma que eu imaginei. Imaginação vai além, mesmo, a única coisa e é à toa.
Ir armado de bom moço que sou não é a melhor fantasia, porque nem mais preciso me fantasiar, nem mais preciso ter medo. Vivido o necessário pra saber que vida mais que a minha só importa se for a ela se fundir ou, como legado mínimo, compartilhar, daqui e de lá, um pouco de cada nuança. Essas cores do dia seguinte só não me fazem acreditar que monocromia hoje está aquilo que pensei diversificar.
Assim tem uma aquarela, uma possibilidade real, e ela não parte da ausência de cores; jamais um branco faria tão interessante o que a demão dos dias, ultimamente, faz-me perceber que escureceu o bastante pra não me preocupar com o de sempre. Quem sabe um dia seja mais claro, mas não em razão de uma insônia, senão pelo trato de uns dias de sol do lado de cá, que eu sempre quis pra mim.

Imagem: Aquarela de Gabriela Seltz

7 de março de 2013

Eduardo Galeano: A demonização de Chávez



Senti muitíssimo a partida de Hugo Chávez, porque, ademais de um grande presidente para a Venezuela, pude me corresponder, durante quase uma década, com uma senhora venezuelana sobre a vida e, sobretudo, a vida em seu país. Portanto, sei, como testemunha distante, o quanto pessoas inteligentes e sonhadoras por uma nação melhor - assim como conheço diversos brasileiros - que atrás de uma pressão internacional muito cruel, há indivíduos que nos trazem a verdade à tona. E por ter esse olhar privilegiado, transcrevo, aqui, o texto do jornalista uruguaio Eduardo Galeano.

Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.
Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que ele era. O chamavam de “Venezuela Saudita” por causa do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir à escola porque não tinham documentos… Então, chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer: “As crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos”.
Aí, caiu o mundo: isso é a prova de que Chávez é um malvado malvadíssimo. Já que ele detém essa riqueza, e com a subida do preço do petróleo graças à guerra do Iraque, ele quer usá-la para a solidariedade. Quer ajudar os países sul-americanos, e especialmente Cuba.
Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram fonte de escândalo. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos com a presença desses intrusos trabalhando nos bairros mais pobres. Na época que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico.
Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra só de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando for ler uma notícia, você deve traduzir tudo.
O demonismo tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.
Foto: Aporrea.org

27 de fevereiro de 2013

Da maternidade ao cemitério: o sabor do sal na mão.

"Nem muitas águas conseguem apagar o amor; os rios não conseguem levá-lo na correnteza. Se alguém oferecesse todas as riquezas da sua casa para adquirir o amor, seria totalmente desprezado"
Cantares de Salomão 8:10

A quem acusar de traição quando o pensamento se prostra a entregar à lembrança, ainda que no descanso, o tempo que já não existe? Ainda posso atribuir a falha aos meus antigos desejos suscitados por um recente caso de observação de mim, por outros olhos, não meus? Entrego a Deus, o senhor misterioso de segredos, pro fim que nem como quem decide acalentar-se, toda minha agonia de sentir à memória de fatos vividos e um toque, meu pedido, a mais nesse corpo carente de saúde que, porém, exala a vitalidade da mente sã, traiçoeira das minhas noites, por vingar-se dos dias que encubro das demais coisas: sua necessidade de pedir aquilo que só o tempo curto soube decifrar para além dos dias.
Eu me entreguei ao divino poder por não achar razão que soubesse me enganar tão bem; por ela não decidir, por mim, aquele trato em cuidar de uma só pessoa, a necessária, numa casa insalubre: a minha. Ao pai eterno, como um filho tenro e temente, meus dias de caos sob suas mãos poderosas, só elas para aliviar meus aflitos e posteriores dias. Dou-lhe as horas mais sagradas que já perdi, em meio à inteligência que não me serviu de coisa alguma além de contestar minha própria existência, o deslumbre com a poeira farta, reluzente e que engana, e até minha coleção de papéis sofríveis certificando o obsoleto. 
Entro em crise anos após anos, por não saber narrar, por falta nome, por defrontar-me com o perdido - acho que escondi de mim mesmo - sentimento sem veredicto. 
Acordo no meio de cães latindo, vendo sempre o copo d'água e as duas doses de ânimo sobre o improvisado salva-vida das manhãs solitárias. Dois venenos completos que ainda conseguem me aliviar do anseio de ruir. Duas drágeas representando minha vida e a da coisa mais amada nesses instantes de perfídia, dela, novamente, a mais bela peçonhenta, a qual cria a imagem, remanesce o cheiro, ludibria o som dos cães inquietos para que sobressaia o sorriso daquele que desde ontem se calou.
Por assim dizer, trago do velho testamento, ressuscitando a minha vontade, de incluir diversas vezes o antigo no seio do cemitério. Se um lugar fosse perfeito, melhor que morrer velho, e me dado à escolha, neste mundo fora do útero: maternidade - eu diria. Porque só as mães são felizes e, com a minha, foi unicamente a melhor e mais confortável sensação do amor.

24 de fevereiro de 2013

Da porta fechada

O quase-lá, um falta-pouco
Desde quando não subtrai
Fica o sufoco!

De subtração
Perco as contas.
Dedo aponta pra há Via Não.
Rua das mazelas,
Número improvável.
Estabeleço meu endereço
E esqueço do passado.

Quando vejo lá em frente,
Novamente,
Falta pouco.
Repetidas vezes,
Um de grão em grão.
Estou cheio de papo reto.
Papo cheio, curvilíneo,
A sombra do meu pescoço aponta o nó.

Olha, jamais me acusaria de perdas
Se os danos causados eu contasse...
Pouco.
Eu perdi mais uma vez
Pra encontrar eu-outro;
Achar que é novo
O endereço que passei
À porta.

Se a vida fosse máquina registradora,
Em cada soma de pouquinho:
[sinal de igualdade]
Números díspares.

Quantos zeros à esquerda?
Quanta destra mão a bater nessa porta!
Uma maçaneta que canhotos braços,
Esticados, bem-vindos de frontais encontros,
Entrelaçariam nos meus ambos cúmplices
Braços estes que se lamentam:
"Dois são poucos."

Distribuir abraços,
De porta em porta,
Como se fosse um dia de boas-vindas
Infindas a aliviar sinais desabrigados.

Um pouco mais.
[sinal de soma]
Quanto melhores e mais forem sinais
E a razão pela qual se conta nos dedos...
O sinal de igualdade anuncia:
Fechado para conferir saldo.

23 de fevereiro de 2013

O réu imperfeito: dizente.

Cara Perfeição,

Faz algumas décadas que a procuro e não encontro. Vejo que muitos dos meus amigos andam comentando sobre sua estada com eles, e me sinto enciumado de não a ter tão próxima quanto eles. Aliás, acho até que são comentários absurdos sobre sua aparição, mas desconsidero, muitas vezes, por motivos meus, porque acredito que seja uma projeção banalizada de propriedade. No entanto, isso causa alguma tristeza por achar que a mim não leva a sério o reclame.
Assim, decidi escrever pretensamente esse sentimento de orfandade e entregar-me, por meio desta, para que, se não vier aqui, ao menos envie um de seus subterfúgios corriqueiros; porquanto me satisfizerem os desejos, estarei um pouco mais feliz.
Sei que não estou me humilhando em troca de seu olhar mais atento, pois tenho me esforçado, com a experiência de alguns anos, a espanar a poeira que sua antagonista insiste em deixar sobre meu cronológico empório de coisas vãs. Induze-me ao ato de proclamar uma liberdade alheia à sua companhia, caso não queira estar comigo um dia de vida sequer. Estou necessitado da independência ao seu abandono decisivo. Se for esse, em sua consciência, o máximo que alcançarei até o fim do meu calendário, permita-me então saber, de uma vez por todas, que seu sinal está longe, diante de suas observações, do meu aparato de captação em prol da nossa sintonia.
Ainda reitero que me esforcei pela conveniência de um dizer sem grande intimidade, visto que estou ciente que o seu canal dista de tudo o que alcancei até hoje. Portanto, desculpas, sinceramente, em contar de alguma maneira que lhe pareça pretensiosa.
Para finalizar, justifico esta necessidade, uma vez mais, porque a essa altura da pequenez humana, eu jamais ousaria engrandecer outro aspecto, devido às comprovadas evidências que tudo em mim foi falho. Desdigo, se necessário, representando qualquer grupo que me pertença, a soberba de garantir sua presença no semblante de um perfil o qual, indigente, relacione sua existência com a arrogância de não ser e querer aparentar.
Aqui, faço votos de sublime importância para estrada onde anda e que uma encruzilhada respeite sua passagem quando, da sua vontade, não for colidir.
Em trânsito, espero que não julgado,

Seu mais suplicante,

Réu.

19 de fevereiro de 2013

Falta nome

Tudo se chocando, o mundo perdido;
Cada um olhando pro próprio umbigo,
Alcançando seu monte de coisa,
Aglomerando situações e pedrinhas,
Criando gerúndios invencíveis
Para sentir permanentemente ativos.
Um nome não importa.
Dois nomes são qualidade coletiva?
Três é montante.
Quanto mais se vê,
Mais se engana.

Tenho tudo aquilo que eu quis
E não tenho o que preciso.
Ou uma coisa ou outra.
Opções.
Alternativas padecem
No meio das outras
Mãos perdidas
Tateando para encontrar 
Mão perdidas.

Quando me vejo cego,
Quando escuto tua voz,
Sinceramente,
Tu não és nada mais que eu;
Eu já não sou  -
Faz tempo -
O mesmo desde quando tu eras um pouco eu.
E atendias por outro nome.
Assim nem sei como me chamo
Quando pronuncio teu nome.

14 de fevereiro de 2013

Papo de Anjo


A canção de Baby ressoa
há dias na minha cabeça,
sem coro, coração folião relembra:

"Papaparicando um papo de anjo
Pé-de-moleque malandro
Papaparicando parecendo o tal
No meio de baile de carnaval
Cupido flechou meu coração
Menino, você é um artesão
Seu rei mandou falar de amor
Agora eu sei qual o sabor que tem."

O carnaval acabou.
Tudo aparência momesca:
Risos com dias contados
E dias passados se vão quando a máscara
de pierrô e colombina voltam pro fundo do baú. 
Um rosto qualquer um.
Qualquer dia desses terá carnaval
E um outro sabor.