Há um toque malvado na noite. Aquela mão pesada que passa sobre a minha cabeça, enquanto estou deitado, com sono, e espero adormecer depois de um dia de trabalho e estudo. É um carinho precioso, porque esta mão traz um apanhado de lembranças e me massageia da testa até o começo do pescoço. Tem sido assim nos últimos quase cinco meses da minha vida. Os dedos macios da memória chegam na hora do meu descanso e acariciam minha cabeça com culpa, ansiedade e o cheiro forte do perfume do tempo. Culpo-me por ter no cheiro do tempo a resistência de me levantar todas as manhãs, ansioso, por atravessar a nado o Atlântico e abraçar o velho mundo dos meus colonizadores. Preciso ficar em Vera Cruz, de Claudias e Cunhas, como o Cordeiro sacrificado, para lutar pelo ar tropicaliente em meio à frente fria de um julho aos pedaços? Eu me faço colono na terra plana que recrio sobre o colchão coberto com a manta xadrez em tons de fogo, em que o laranja sobressai entre formas em vermelho e linhas amarelas. O cobertor que me cobre de outras carícias: as ausentes.
Há quatro noites, minhas artérias decidiram se acalmar subitamente, enquanto eu fugia da minha terra recriada; foi quando, ao chão, eu vim entregar meu corpo ao descanso de fundo do poço, à inconsciência, mas havia uma porta branca: segurou minhas ideias perdidas, à entrada do meu universo de poucos livros e muitos fantasmas. Após isso, meu inimigo de sempre - o sistema imune - decidiu encolher de vergonha; encontrei um pneumococo desabrigado. Ofereci meu pulmão. Foram mais dois dias de dor, além de corpo em chamas e frieza nos pés.
Embora eu quisesse enfiar meus dois pés num balde de água quente, aquecer meus dois pilares - sustento da minha posição de bípede -, que na terça-feira me traíram e me fizeram ir ao chão; foquei nas minhas mãos. Essas, frenéticas por dar e receber notícias, testemunhas da mentira que meus olhos já cansados não mais se enganam.
Meu corpo tem tamanha sinergia moldada à dinâmica das conquistas do passado e do presente, desde à lembrança do meu ancestral que foi ao tronco de um árvore cortada apanhar do meu outro ancestral que o comprou numa feira de homens sem liberdade; meu estômago sinaliza as borboletas azuis que batem suas asas para que eu as cuspa à liberdade que um ancestral meu jamais teve.
Foi assim que descobri uma fauna e uma flora nervosas dentro de mim. Foi assim que me levantei outra vez após sentir a malvadeza do toque, hoje, e vim para trincheira resolver de uma vez esta guerra mundial, esta inquietude de Eras.
Onde estão os aliados? Perderam-se todos em meio à fumaça branca e densa da angústia. Perdidos no latifúndio tão grande que sobra espaço para poucos e falta para muitos, aqueles à beira ou à porta do egoísmo, da ignorância e da ganância.
As plantas rasteiras ornamentam a chegada, onde há palmeiras também a oferecer sombra aos vencedores. Aos perdedores, restam folhas secas do outono passado que o vento sopra de volta à saída. Ao fim e ao cabo, saio da minha terra recriada sempre entre tiros, porradas e bombas, derramando lágrimas sobre as folhas secas, de modo que façam o húmus de uma primavera que nunca mais vi nascer deste lado onde a corda arrebentou.
29 de julho de 2017
24 de julho de 2017
Lambida
Destino-menino, bora lá!
Para o que der,
Para o que vier?
Quanto há de crescer, envelhecer?
Deixa-me aqui ficar.
Deixa-me estar assim
Num laissez-faire, laissez-passer,
Quando o deus-dará der,
Quando eu novamente acreditar.
Já não posso esperar vir,
Atolado num eterno porvir
Que jamais alcancei,
Quem não mais vai chegar?
Fica de graça, tão barato, dá onda
No mar-conforto do sorriso
Que esconde no fundo o pranto.
Não posso eu viver deste encanto?
Não há sereias no mar!
Não há peixe para comer depois de afogar.
Formigas sobem pelas minhas pernas cansadas.
Porque o doce, que era doce...
Escorre pela pele a baixo
E faz gotas pesadas nos meus pelos.
Já não quero repetir a receita,
Ingredientes que há muito estão cozendo.
Queimou, amor, no forno quente da história.
Deitei-me sobre o amor e dormi neste frio
Enquanto tua língua continua só lambendo.
16 de julho de 2017
Acordo
Caso encontrasse espaço,
Quando buscasse a sorte
Da forma que partilho a vida
Igual seria a morte
Partilhada na língua que fala
E que diz mais a respeito de tudo.
Contudo recomendaria a trilha
Com nada de passos atrás daria.
À frente da minha agonia:
Um traço do meu esboço.
Quão grande tenha sido a lacuna
Vacina para esses dias,
Um lugar de qualquer um de nós,
Um lugar para todos nós -
Um lugar qualquer, um quase-lugar.
Andar sem permitir desviar
Olhar perdido que estava;
Daria mais uma volta por cima,
Daria mais um milhão de léguas;
Andaria como quem leva
A sorte sempre por baixo do plano.
Quando eu estiver sem sono,
Quando não me caiba debaixo dos panos
Que eu viva a vida num canto
Em busca dos teus braços;
Quando os olhos cerrados
Encontrem o calor sob o manto
E durma para agir noutro campo.
Do tamanho do meu esforço,
Será sempre depois o talento.
Jogaria no baú o esboço
E viveria o desenho novo
Aquele que dá cabo à moda
E resgata a tradição de busca.
Escuta! Percebe! Responde!
Eu hei de esperar mais uns anos?
Eu já acumulo planos.
Eu já sinto um sono.
Prefiro fazer um acordo:
Faço tudo como proposto,
Enquanto ainda estou acordado.
Quando buscasse a sorte
Da forma que partilho a vida
Igual seria a morte
Partilhada na língua que fala
E que diz mais a respeito de tudo.
Contudo recomendaria a trilha
Com nada de passos atrás daria.
À frente da minha agonia:
Um traço do meu esboço.
Quão grande tenha sido a lacuna
Vacina para esses dias,
Um lugar de qualquer um de nós,
Um lugar para todos nós -
Um lugar qualquer, um quase-lugar.
Andar sem permitir desviar
Olhar perdido que estava;
Daria mais uma volta por cima,
Daria mais um milhão de léguas;
Andaria como quem leva
A sorte sempre por baixo do plano.
Quando eu estiver sem sono,
Quando não me caiba debaixo dos panos
Que eu viva a vida num canto
Em busca dos teus braços;
Quando os olhos cerrados
Encontrem o calor sob o manto
E durma para agir noutro campo.
Do tamanho do meu esforço,
Será sempre depois o talento.
Jogaria no baú o esboço
E viveria o desenho novo
Aquele que dá cabo à moda
E resgata a tradição de busca.
Escuta! Percebe! Responde!
Eu hei de esperar mais uns anos?
Eu já acumulo planos.
Eu já sinto um sono.
Prefiro fazer um acordo:
Faço tudo como proposto,
Enquanto ainda estou acordado.
5 de julho de 2017
Amanhã-passageiro
Tenho uma coleções de papéis num envelope plástico.
São memórias de quem já dedicou a mim algumas palavras.
De vez em quando volto a elas.
Releio para não esquecer com o passar do tempo tudo aquilo.
Como em outras vezes, papéis me deixaram lágrimas de um tempo bom que não volta.
As lembranças têm este poder: tentativa fracassada de viajar;
Na verdade, a viagem fica presa dentro de mim.
O veículo que locomove no tempo sem sair do lugar;
Combustível que vaza lento e doloroso
Engrenagem que se move incansavelmente;
Movimento não acelera nem para frente nem para trás.
O movimento em si.
Eu não sou condutor.
Eu não sou veículo.
Eu não sou trajeto.
Eu não sou...
Fiquei ali mesmo no que fui, esta viagem parada ali.
Ali é o lugar que não alcanço.
Meus braços não se deixam mais enganar.
Pedem descanso.
Assim como a cabeça precisa descansar.
Não há mais surpresas nem na pele nem por baixo da pele.
Não há meio do caminho, interrupção.
Há em mim uma estação de serviços às palavras.
Porque neste ir e vir só quem transitou foram elas.
O combustível acabou, a última gota acabou de cair.
A máquina finalmente para.
Dorme, agora!
Amanhã será ontem.
Hoje passa...
Amanhã quem sabe serei passageiro.
São memórias de quem já dedicou a mim algumas palavras.
De vez em quando volto a elas.
Releio para não esquecer com o passar do tempo tudo aquilo.
Como em outras vezes, papéis me deixaram lágrimas de um tempo bom que não volta.
As lembranças têm este poder: tentativa fracassada de viajar;
Na verdade, a viagem fica presa dentro de mim.
O veículo que locomove no tempo sem sair do lugar;
Combustível que vaza lento e doloroso
Engrenagem que se move incansavelmente;
Movimento não acelera nem para frente nem para trás.
O movimento em si.
Eu não sou condutor.
Eu não sou veículo.
Eu não sou trajeto.
Eu não sou...
Fiquei ali mesmo no que fui, esta viagem parada ali.
Ali é o lugar que não alcanço.
Meus braços não se deixam mais enganar.
Pedem descanso.
Assim como a cabeça precisa descansar.
Não há mais surpresas nem na pele nem por baixo da pele.
Não há meio do caminho, interrupção.
Há em mim uma estação de serviços às palavras.
Porque neste ir e vir só quem transitou foram elas.
O combustível acabou, a última gota acabou de cair.
A máquina finalmente para.
Dorme, agora!
Amanhã será ontem.
Hoje passa...
Amanhã quem sabe serei passageiro.
4 de junho de 2017
Ipsis litteris
Estive pensando sobre marcos referenciais para uma vida aficionada em grandes êxitos; a dependência deles gera projetos que, por sua vez, direcionam-me às metas. Mas como lidar com a falta de prazos, libertar-me da expectativa ansiosa e o desespero de mais uma frustração?
Eliminar tais projetos implicariam numa desistência sem medida e, quando o tempo passasse, à frequência esquecida, eu me daria conta em considerações finais e enxergaria a profundidade, na qual metido, além de me distanciar da insistência patenteada há trinta e cinco anos, não me restariam forças para elencar minhas referências, em alguns capítulos.
Acontece que a vida foge à normatização científica. O todo maior que a soma das partes é bagunçado igual à licença poética de um texto livre das amarras gramaticais, editoriais etc. Para ilustrar a falta de protocolo para escrever minha própria história, aproximando-me da literatura e da engenharia da minha necessidade, abandonei o foco nos marcos referenciais, quer por etapas, quer por eventos, para bendizer meus valores em cada página deste livro não linear.
A culinária me traz o prazer de cortar aos bocadinhos, cozer e temperar. Esperar sentir o cheiro de cada erva, e acreditar no bom sabor. Arrumar o prato mais bonito e apresentá-lo aos olhos para que a boca tenha inveja do sentido e execute seu ato de degustar.
A minha sobrinha, amor consanguíneo contado em dois pares de anos e mais um pouco: quem me dá a razão em participar da semeadura geracional de uma novidade, com a prospecção da mais nobre colheita, de cuja participação talvez nem seja mais uma atividade minha.
A minha mãe devota da jornada socorrista; fundamento de tantas das minhas ideias e orientadora fiel sem retorno programado na sua espera. Como uma mulher que espera resultados, não a ela, mas a mim como único investimento. Gestora da arte de criar da melhor maneira, deixa-me hipótese a meu critério.
Meu pai que se ausenta pelo desprezo às teorias, mas, na prática, aparece timidamente para sob a fé do genitor. Não sei se por obrigação que pensa ter, mas é o no carinho diferentemente expressado que entendo o porquê de tanta diversidade no mundo.
Minha irmã, ao evitar problema em texto, contribui na paginação. Presente em todo manuseio. Não esquece uma página sequer, e cada qual forma o contexto.
Família é um capítulo único, pois nele se apresentam e se encerram ali a tese e antítese. São, num miolo de folhas, a síntese dos muitos lados da questão.
Já teve a dança, por gostar, mesmo, de dançar, por passar horas a fio requebrando todo o corpo e expressando o cerne da agonia; quebrar a monotonia de um só ritmo. Eram vários. Eu juro que não sei dizer porque não gosto mais de dançar...
Vieste tu, o meu português vernáculo. Aprimorei minhas habilidades na língua, resgatei-me à herança de uma invasão passada que tirou daqui o tupi e introduziu o novo idioma; o primeiro que aprendi, o primeiro que aprendi a amar, também. A facilidade desta comunicação. Fluência perfeita. A única perfeição. Deu-me regras gramaticais às quais me dediquei para fluir numa das melhores coisas que gosto de fazer: escrever. Ah, se não fosse a minha língua, a nossa língua, talvez eu nem conseguisse expressar um parágrafo do que é vivência. Talvez eu me bastasse por silenciar. Mas prefiro escrever, porque dizer é o que tenho, hoje, como conectivo de sobrevivência.
Eliminar tais projetos implicariam numa desistência sem medida e, quando o tempo passasse, à frequência esquecida, eu me daria conta em considerações finais e enxergaria a profundidade, na qual metido, além de me distanciar da insistência patenteada há trinta e cinco anos, não me restariam forças para elencar minhas referências, em alguns capítulos.
Acontece que a vida foge à normatização científica. O todo maior que a soma das partes é bagunçado igual à licença poética de um texto livre das amarras gramaticais, editoriais etc. Para ilustrar a falta de protocolo para escrever minha própria história, aproximando-me da literatura e da engenharia da minha necessidade, abandonei o foco nos marcos referenciais, quer por etapas, quer por eventos, para bendizer meus valores em cada página deste livro não linear.
A culinária me traz o prazer de cortar aos bocadinhos, cozer e temperar. Esperar sentir o cheiro de cada erva, e acreditar no bom sabor. Arrumar o prato mais bonito e apresentá-lo aos olhos para que a boca tenha inveja do sentido e execute seu ato de degustar.
A minha sobrinha, amor consanguíneo contado em dois pares de anos e mais um pouco: quem me dá a razão em participar da semeadura geracional de uma novidade, com a prospecção da mais nobre colheita, de cuja participação talvez nem seja mais uma atividade minha.
A minha mãe devota da jornada socorrista; fundamento de tantas das minhas ideias e orientadora fiel sem retorno programado na sua espera. Como uma mulher que espera resultados, não a ela, mas a mim como único investimento. Gestora da arte de criar da melhor maneira, deixa-me hipótese a meu critério.
Meu pai que se ausenta pelo desprezo às teorias, mas, na prática, aparece timidamente para sob a fé do genitor. Não sei se por obrigação que pensa ter, mas é o no carinho diferentemente expressado que entendo o porquê de tanta diversidade no mundo.
Minha irmã, ao evitar problema em texto, contribui na paginação. Presente em todo manuseio. Não esquece uma página sequer, e cada qual forma o contexto.
Família é um capítulo único, pois nele se apresentam e se encerram ali a tese e antítese. São, num miolo de folhas, a síntese dos muitos lados da questão.
Já teve a dança, por gostar, mesmo, de dançar, por passar horas a fio requebrando todo o corpo e expressando o cerne da agonia; quebrar a monotonia de um só ritmo. Eram vários. Eu juro que não sei dizer porque não gosto mais de dançar...
Vieste tu, o meu português vernáculo. Aprimorei minhas habilidades na língua, resgatei-me à herança de uma invasão passada que tirou daqui o tupi e introduziu o novo idioma; o primeiro que aprendi, o primeiro que aprendi a amar, também. A facilidade desta comunicação. Fluência perfeita. A única perfeição. Deu-me regras gramaticais às quais me dediquei para fluir numa das melhores coisas que gosto de fazer: escrever. Ah, se não fosse a minha língua, a nossa língua, talvez eu nem conseguisse expressar um parágrafo do que é vivência. Talvez eu me bastasse por silenciar. Mas prefiro escrever, porque dizer é o que tenho, hoje, como conectivo de sobrevivência.
23 de maio de 2017
Oração da Serenidade (versão pagã)
Dessas lágrimas que hoje derramei
Ao lembrar-me do teu esquecimento
Por um momento,
Um lapso de rei,
Ficam algumas gotas de tópicos a lembrar,
Neste castelo sombrio:
Ao lembrar-me do teu esquecimento
Por um momento,
Um lapso de rei,
Ficam algumas gotas de tópicos a lembrar,
Neste castelo sombrio:
Há vida depois ti;
A vida depois de ti é fim fragmentado;
Fragmentos do coração que do corpo separou-se
Ficaram aí sobre o lençol laranja;
Ficou vazio de sentido;
E, de dolorido, fiquei mudo;
Só falo de ti em todos os dias pós-nós;
A voz pereceu à ressaca em Vera Cruz;
Um vinho tinto derramado na toalha branca;
Um brinde de água e nada mais;
Aridez, por fim, em mim, pôs-se.
A vida depois de ti é fim fragmentado;
Fragmentos do coração que do corpo separou-se
Ficaram aí sobre o lençol laranja;
Ficou vazio de sentido;
E, de dolorido, fiquei mudo;
Só falo de ti em todos os dias pós-nós;
A voz pereceu à ressaca em Vera Cruz;
Um vinho tinto derramado na toalha branca;
Um brinde de água e nada mais;
Aridez, por fim, em mim, pôs-se.
Sol de cada manhã, traduzo e adapto
Uma velha sentença estadunidense,
Americana como eu,
Cristã como não mais sou,
Ainda que sereno como a oração:
Uma velha sentença estadunidense,
Americana como eu,
Cristã como não mais sou,
Ainda que sereno como a oração:
Mar Salgado, dá-me a serenidade para aceitar
A distância que não posso mudar;
Coragem para mudar a pangeia se eu puder;
E sabedoria para entender a separação
A distância que não posso mudar;
Coragem para mudar a pangeia se eu puder;
E sabedoria para entender a separação
7 de abril de 2017
Mandado de segurança
Caso precise de uma saída de emergência, onde estarão as portas batidas?
Portas a serviço de não entrar, a mando de quem?
Mas se houver portas de entrada, que sejam saídas para quem está de fora, inseguro;
Que entreaberta estejam sempre para quem mudar referência - em estar onde não se queira ficar; quem queira mandar.
Portas a serviço de não entrar, a mando de quem?
Mas se houver portas de entrada, que sejam saídas para quem está de fora, inseguro;
Que entreaberta estejam sempre para quem mudar referência - em estar onde não se queira ficar; quem queira mandar.
2 de abril de 2017
Gastrite nervosa
Eu pensei que iria voltar.
A dor iria passar.
Eu pensei demais.
Agora a dor passou.
E não vieste.
Nada como o pantoprazol
Para resolver nosso caso.
A dor iria passar.
Eu pensei demais.
Agora a dor passou.
E não vieste.
Nada como o pantoprazol
Para resolver nosso caso.
19 de fevereiro de 2017
Sangue latino
Há manchas de sangue nas paredes do meu quarto. Escorrem sob 8 graus Celcius o sangue quente de um ser humano. Aliás, dois. Digo, um. Desde que fomos um. Há o nosso sangue a escorrer até o chão do quarto. Para que, no solo da minha existência de alguns meses, eu sinta esta pista de dança escorregadia quando te chamei para nosso último baile. Aqui dançamos, pois que latinos, o sangue efervescente deste amor que as paredes inóspitas testemunharam vida. Viver, meu amor, não é deixar essas marcas, pegadas feitas de sangue, nem essas manchas de sangue. Viver é ser sangue, é ser quente, é sentir este calor mesmo em condições que queiram dizer o contrário. Como um desafio, que cospe em nossa cara que nunca viveremos o amor. Não te importes - já não me importo - com a opinião dos que não vivem, que estão a discordar de mim, de ti, de todos. Somos discordantes, também, somos iguais na fervura do sangue, pelo amor. Ainda que continuem a dizer que não.
A partir de hoje, este quarto não é mais meu, e quem virá ocupar? Não tenho ideia. Mas que derramem sangue como, juntos, derramamos, aqui neste lugar.
A partir de hoje, este quarto não é mais meu, e quem virá ocupar? Não tenho ideia. Mas que derramem sangue como, juntos, derramamos, aqui neste lugar.
27 de janeiro de 2017
Lei da Demarcação
De antemão, aviso:
As águas do Sousa serão testemunhas,
Espelho dos olhos.
Não te molhes antes que eu fale.
Antes que eu falhe, não te culpes.
Antes da diagonal, não morramos.
As águas do Sousa serão testemunhas,
Espelho dos olhos.
Não te molhes antes que eu fale.
Antes que eu falhe, não te culpes.
Antes da diagonal, não morramos.
Quando eu morrer pela sétima vez,
Acredita em mim:
A oitava vida será, por duas, dividida;
Como o infinito oito, serei quatro,
Tais quais arcos de volta perfeita
A encobrir água de alma feita
Das lágrimas que lá retrato.
Acredita em mim:
A oitava vida será, por duas, dividida;
Como o infinito oito, serei quatro,
Tais quais arcos de volta perfeita
A encobrir água de alma feita
Das lágrimas que lá retrato.
Brinda o quarto dia.
Bebe um gole daquele primeiro...
Esquece dias do meio, enfim.
Pois há tempo para beber tanto,
Para sonhar - quem sonharia?
Porque em mim, marco recanto
E desmarco, por lei, algum fim.
Bebe um gole daquele primeiro...
Esquece dias do meio, enfim.
Pois há tempo para beber tanto,
Para sonhar - quem sonharia?
Porque em mim, marco recanto
E desmarco, por lei, algum fim.
Imagem: Ponte de Vilela
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