Pouco antes do sol se pôr, neste 20 de junho de 2013, as ruas centrais de Campinas estavam tomadas por uma multidão que segue reivindicando seus direitos. Jovens, crianças, idosos, gays, mulheres, negros, trabalhadores, desempregados, estudantes, todos a fim de protestar contra a banalização que viraram as decisões políticas no país. Pessoas fantasias, vestindo verde e amarelo, branco, azul, portando bandeiras e faixas em tom de manifestação contra tarifas de transporte público, corrupção, investimentos direcionados a eventos em detrimento da educação e saúde, tão deficientes no Brasil. O povo campineiro e quem se radicou na cidade, formava um coro que cantava palavras de revolta e consciência da necessidade de mudança.
A passeata seguiu pelas principais avenidas do Centro da cidade, até a Avenida Anchieta, onde fica o Palácio dos Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas. Ali, uma barreira policial intimidava os ânimos mais acalentados, revoltosos, com todo equipamento bélico para conter a multidão. Ainda assim, nós seguíamos até à porta do paço municipal para gritar nossos lemas de ordem e mudança. Entre os milhares que sacudiam vozes e corpos contra um sistema que privilegia alguns, deixando a mercê a maioria da população, havia um pequeno grupo, formado por umas dezenas de adolescentes e adultos que distavam dos propósitos desse movimento em favor da democracia e respeito aos nossos direitos.
O pequeno grupo, em discrepância com a ideia central do nosso protesto, começou a depredar as paradas de ônibus, quebrando seus vidros, depois jogavam pedras, pau, garrafas de bebida nas vidraças da Prefeitura, causando um grande quebra-quebra.
Em contrapartida ao vandalismo, as vozes que protestavam, também pedia para que esse pequeno grupo não depredasse o patrimônio público, que também é nosso. Entre todos, havia uma resistência dos menores em ouvir, e continuavam a quebrar tudo o que podiam à frente.
Para conter o frisson de vândalos, a Polícia Militar, que estava aparentemente com um déficit de pessoal, um contingente muito pequeno para conter a grande massa, começou a lançar suas bombas de efeito moral, assim o gás lacrimogênio se espalhou pelo ar naquelas ruas entorno à Prefeitura e todo mundo sofria com seus efeitos. O cheiro insuportável descia à garganta, as vias respiratórias, fazia-nos chorar. Eram lágrimas junto ao ódio à repressão que nós sofríamos por responsabilidade do pequeno grupo, cuja luta era inconsciente e mais parecia estar em plena festa do horror.
Pessoas corriam, caíam, machucavam-se, enquanto o tumulto no meio do que se tornou na verdadeira praça de guerra, comprometendo a mobilização da maioria. Nós não desistíamos, e voltávamos a gritar os nossos direitos, a reclamar as nossas angústias por sermos tão explorados e enganados pelos que nos representam nos poderes que demos a eles um dia.
Mais uma vez, entre nós, a maioria pacífica que apenas se revolta contra a banalização política em que se encontra nosso país, também existiam os vândalos persistentes nas depredações. A repressão continuava e todos sofriam os impactos do gás lacrimogênio e spray de pimenta.
Enquanto eu estive no meio da multidão, presenciei aproximadamente uns dez momentos de tumulto pela ação policial mais severa. Às vezes, até distante 500m a 1km dali, ainda sentia o cheiro forte do gás, como também escutava o estouro das bombas que a PM jogava no meio do povo. Uma cena terrível, uma trincheira que ora revoltava grande parte de nós pela repressão milica, ora pelo descomprometimento dos maloqueiros que prejudicavam a visibilidade da nossa luta.
Já era quase 21h quando presenciei um grupo de saqueadores arrombando um supermercado na Av. Anchieta. Vi que alguns homens e mulheres carregavam salgados, refrigerantes e cerveja. Faziam a festa, como se a luta desses fosse por uma comida gratuita, pela subversão de invadir uma propriedade privada que em tempos normais é tão vigiadas por homens e câmeras. Assim, entendi que a luta deles é por muito pouco, é inconsciente, sem motivação política, sem desejo coletivo de mudança. Lutam, pra não dizer que vandalizam, por conta de bebidas e comidas, que não podem comprar. Entendi, também, que são infiltrados, pela falta de formação política, vítimas de um sistema que os marginalizam há décadas, portanto compreende que a situação vem a favorecer uma ação criminosa pelas leis que nos regem. Aproveitam o foco do poder que nos controla em cima de conter nossos ânimos por uma mudança histórica e, assim, saqueiam estabelecimentos comerciais, igualando-se a tantos outros ladrões que estão ornados de representantes do povo.
Infelizmente, tive de abandonar o protesto porque não quis correr tanto da PM, respirar seus gases repressores porque o vandalismo pequeno, mas destruidor, incumbe o movimento pacífico de pagar por esses atos contrários ao nosso bem maior. Acredito que esses poucos homens e mulheres sempre estarão entre nós, prejudicando mobilização, mas devo confessar que uma das sensações mais bonitas e saber que estamos reconhecendo equívocos e temos urgência em mudar a conjuntura social.
20 de junho de 2013
Atraso
Talvez esteja faltando repertório para prosseguir com um sonho que tive desde criança. Sonhei um dia em escrever exaustivamente e que isso trouxesse um ganha-pão para eu não precisar de pensão. Sinto-me desatualizado com o mundo. Esse em trânsito frenético e eu em desistência de acompanhá-lo. Um amigo agora há pouco me falou que é como cozinhar feijão, uma prática diária, escrever sem tempero não dá. Eu estou insistentemente em um dissabor, esqueço do sal e destempero minha culinária, ela é ruim. Não cozinho só pra mim, já tive vontade de alimentar o mundo.
Desprendi-me das ocasiões oportunas: podia ela ser um curso de gastronomia ou uma realização técnica em construção civil. Não edifico nem a calçada que piso. Fico sem chão a maior parte das vezes. Olho pra trás e percebo que eu deixei de mim todo aquele gosto de café da manhã pra começar o dia. Procuro açúcar em vão, confiando na minha doçura. E me sobra o amargo da tarde e a noite sem cheiro de sono. Passo os dias assim, desqualificando qualquer período.
Comecei a tomar consciência do meu atraso quando não sabia mais o que dizer quando alguém me perguntava sobre algo que no passado eu defendia com vigor. Tornei-me o acaso de todas as coisas, por acaso, porque olho pra os lados e só espero que esses não se tornem mais uma prisão para mim. Estou em dívida comigo faz meses. Não sei o saldo negativo dessa porra toda, portanto é fácil xingar de tudo quanto é baixo calão, meus verbetes de quem resmunga.
Assim, decidi retornar para onde vim. Porque quem sabe ali comece tudo de novo e reconheça o repertório de quem está aprendendo a falar, andar, sorrir... Um bebê chorão que verbaliza em sons abertos, os gritos, a exprimir a dor, a vontade de comer ou a necessidade de chamar atenção.
Já é a hora de partir pro começo; quando se diz recomeçar, minhas mãos tremem de medo. Minhas pernas acompanham, bambas, o temor de ver tudo outra vez para reaprender a se reconhecer entre o mesmo sotaque, sob o mesmo calor, os costumes familiares e a exatidão repetida de aprendiz que insiste a falar seus primeiros monossílabos. Ah, presumo que gente parecida dá mesmo medo do que gigante numa terra de pé de feijão, esse que já não sei mais cozinhar. Não é à toa que a todo instante me pego olhando o relógio pra saber que horas são. Almoçar tem sido a melhor parte do meu dia.
Desprendi-me das ocasiões oportunas: podia ela ser um curso de gastronomia ou uma realização técnica em construção civil. Não edifico nem a calçada que piso. Fico sem chão a maior parte das vezes. Olho pra trás e percebo que eu deixei de mim todo aquele gosto de café da manhã pra começar o dia. Procuro açúcar em vão, confiando na minha doçura. E me sobra o amargo da tarde e a noite sem cheiro de sono. Passo os dias assim, desqualificando qualquer período.
Comecei a tomar consciência do meu atraso quando não sabia mais o que dizer quando alguém me perguntava sobre algo que no passado eu defendia com vigor. Tornei-me o acaso de todas as coisas, por acaso, porque olho pra os lados e só espero que esses não se tornem mais uma prisão para mim. Estou em dívida comigo faz meses. Não sei o saldo negativo dessa porra toda, portanto é fácil xingar de tudo quanto é baixo calão, meus verbetes de quem resmunga.
Assim, decidi retornar para onde vim. Porque quem sabe ali comece tudo de novo e reconheça o repertório de quem está aprendendo a falar, andar, sorrir... Um bebê chorão que verbaliza em sons abertos, os gritos, a exprimir a dor, a vontade de comer ou a necessidade de chamar atenção.
Já é a hora de partir pro começo; quando se diz recomeçar, minhas mãos tremem de medo. Minhas pernas acompanham, bambas, o temor de ver tudo outra vez para reaprender a se reconhecer entre o mesmo sotaque, sob o mesmo calor, os costumes familiares e a exatidão repetida de aprendiz que insiste a falar seus primeiros monossílabos. Ah, presumo que gente parecida dá mesmo medo do que gigante numa terra de pé de feijão, esse que já não sei mais cozinhar. Não é à toa que a todo instante me pego olhando o relógio pra saber que horas são. Almoçar tem sido a melhor parte do meu dia.
14 de junho de 2013
Manipulação midiática no trato de notícias sobre protestos em São Paulo
Até que ponto chega a manipulação do debate, a exemplo da Globo News, no programa Entre Aspas, que está rolou nesta quinta-feira à noite.
Repare, não desmerecendo instituições como o IBMEC/RJ e a Puc-SP, mas levar dois representantes de instituições privadas, de característica predominantemente elitizada, regidas sob o aval da igreja católica, para analisarem os protestos em São Paulo, é uma falta discrepante de diversificar opiniões.
Obviamente, com essas três vozes, a criminalização da manifestação é a via unilateral.
Primeiro, erram no que diz respeito a comparações entre gerações antes e pós-governo democrático. Seguido a isso, sinalizam de forma equivocada que antigamente não havia tanta violência e conseguiam mobilizar maior número de pessoas. Mas, de que violência eles falam? Claro, da parte da minoria fomentada: os manifestantes. Desde quando o período da ditadura militar teve menos danos à sociedade do que os protestos deste mês? E as torturas por parte dos militares? E ações dos grupos anti-golpe militar, como sequestros de embaixador, envolvendo grandes nomes da política nacional? E as invasões a casas e repressão até de livros marxistas sob pena de tortura e prisão?
Voltando aos convidados ao debate, representante da classe média alta, interessada no status quo, com seus lemas em direção à moral cristã e defesa da economia com menos intervenção do Estado...
Estão malhando as pessoas, dizendo que elas não representam os trabalhadores, que são estudantes de classe média. Mas qual o trabalhador tem tempo pra sair às ruas e protestarem, sob o risco de perderem seu emprego que mal dá pra pagar uma tarifa absurda, acima do índice da inflação?
Francamente, entendo toda a manifestação contrária ao repúdio ao aumento de tarifa por parte de alguns espectadores dessa violência urbana: são pessoas que prezam apenas pelo sossego da maior e mais rica cidade do País, sustentada por todos os brasileiros, não só o povo paulistano, porque querem se manter nesse patamar de "a" metrópole brasileira, de tão acostumados com a separação de classes, esse vício que privilegia apenas alguns, segundo o poder de consumo inconsciente.
Quebrou-se, sim, muito de São Paulo, essa cidade importantíssima, mas a capital paulista há muito tempo quebrou o sonho de tanta gente e concentrou olhares; o poder público em sua parceria com o privado, como sempre, não respeita todos os cidadãos brasileiros que ajudam a São Paulo ser a cidade que é.
O dano maior é ficar como estava: sociedade apática, apenas confiando no poder do voto e sendo a todo instante explorada pelos caciques do dinheiro.
Repare, não desmerecendo instituições como o IBMEC/RJ e a Puc-SP, mas levar dois representantes de instituições privadas, de característica predominantemente elitizada, regidas sob o aval da igreja católica, para analisarem os protestos em São Paulo, é uma falta discrepante de diversificar opiniões.
Obviamente, com essas três vozes, a criminalização da manifestação é a via unilateral.
Primeiro, erram no que diz respeito a comparações entre gerações antes e pós-governo democrático. Seguido a isso, sinalizam de forma equivocada que antigamente não havia tanta violência e conseguiam mobilizar maior número de pessoas. Mas, de que violência eles falam? Claro, da parte da minoria fomentada: os manifestantes. Desde quando o período da ditadura militar teve menos danos à sociedade do que os protestos deste mês? E as torturas por parte dos militares? E ações dos grupos anti-golpe militar, como sequestros de embaixador, envolvendo grandes nomes da política nacional? E as invasões a casas e repressão até de livros marxistas sob pena de tortura e prisão?
Voltando aos convidados ao debate, representante da classe média alta, interessada no status quo, com seus lemas em direção à moral cristã e defesa da economia com menos intervenção do Estado...
Estão malhando as pessoas, dizendo que elas não representam os trabalhadores, que são estudantes de classe média. Mas qual o trabalhador tem tempo pra sair às ruas e protestarem, sob o risco de perderem seu emprego que mal dá pra pagar uma tarifa absurda, acima do índice da inflação?
Francamente, entendo toda a manifestação contrária ao repúdio ao aumento de tarifa por parte de alguns espectadores dessa violência urbana: são pessoas que prezam apenas pelo sossego da maior e mais rica cidade do País, sustentada por todos os brasileiros, não só o povo paulistano, porque querem se manter nesse patamar de "a" metrópole brasileira, de tão acostumados com a separação de classes, esse vício que privilegia apenas alguns, segundo o poder de consumo inconsciente.
Quebrou-se, sim, muito de São Paulo, essa cidade importantíssima, mas a capital paulista há muito tempo quebrou o sonho de tanta gente e concentrou olhares; o poder público em sua parceria com o privado, como sempre, não respeita todos os cidadãos brasileiros que ajudam a São Paulo ser a cidade que é.
O dano maior é ficar como estava: sociedade apática, apenas confiando no poder do voto e sendo a todo instante explorada pelos caciques do dinheiro.
6 de junho de 2013
Catástrofe
Um câncer em cada esquina.
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!
16 de maio de 2013
O Abismo Prateado
Entre os fragmentos de sua dor, uma mulher se encontra abandonada pelo marido. Como pedaços espalhados, esses fragmentos emergem num cenário urbano de sons perturbadores e trânsito em contramão. Há lugar de passagem, um luto e um destinar-se a algum lugar, iniciando no resgate, sua busca. A perda é evidente, muito mais nas sensações do que em suas palavras, que estão presas e/ou engolidas pelas sofreguidão e hostilidade urbana.
Violeta, personagem de Alessandra Negrini, no mais recente longa-metragem de Karim Aïnouz, desloca-se num plano exprimido, num close-up nas suas feridas, no que sangra, e rodeada de turvo angustiante sem avais de liberdade, a priori. Existem, ainda, a permanente agonia, pergunta sem resposta, a ligação literal e metaforicamente não correspondida e a dissidência para emergir a vicissitude necessária até alcançar o plano geral.
Baseado na canção Olhos nos Olhos, o roteiro do filme segue as estrofes da poesia de Chico Buarque, em que as sensações daquela mulher cujo marido a deixou, quase enlouquecida, exprime a linearidade do desconforto até o momento de refazer-se.
Violeta, presa no mundo que parecia construir a dois e, em face ao abandono, sozinha - mas numa tentativa de recuperação do enlace - estabelece diálogo maniqueísta em que o bem e o mal travam disputa pós-abandono.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
Aos poucos, Violeta, uma transeunte de destino incerto, traça uma linha reta de sentidos que se opõem: do desespero à tranquilidade. Assim, ela toma iniciativa de controlar, através da respiração funda e na contagem crescente e cardinal, seu rumo e recompor-se nesse caminho aparentemente vazio, onde o ludíbrio ainda a remete, algumas vezes, ao pânico.
Quando, então, as experiências fugidias da dentista poem-na nos recantos transitórios como hotel, boate, aeroporto, levando-a a encontrar(se) ou até mesmo despedir-se do sentimento corrosivo por não conseguir permanecer em casa ou exercer seu cotidiano profissional. Então, nesse trânsito contínuo, suas observações e contatos lhe trazem a amplitude do mundo, talvez por soma de espaços e tempo, oferecendo-lhe um movimento com mais autonomia e, sobretudo, ampliando sua abrangência.
4 de abril de 2013
Labor
Meu amor vitalício,
Bem-querer efetivo no meu pensamento,
E que o sonho seja apenas um adicional noturno
No trabalho constante de querer
Que um dia seja real.
A você, meu mais suado expediente.
Bem-querer efetivo no meu pensamento,
E que o sonho seja apenas um adicional noturno
No trabalho constante de querer
Que um dia seja real.
A você, meu mais suado expediente.
3 de abril de 2013
Bem-me-quer mal me coloriu
Dia de insônia é tudo igual. É claro o suficiente pra incomodar os olhos que anseiam dormir. É escuro o bastante pra não ver nada além do que a preocupação de sempre: o dia seguinte.
Eu planejei uma viagem sob desculpas pra vida inquieta. Inventei uma paisagem de concreto e muita tinta sobre os muros pra colorir minha passagem em terras que poderiam revelar um futuro brilhante. As cores verdadeiras não são, ao menos, acetinadas. Eu vi no fosco da ocasião um brilho que não existe. E cair em si é a melhor tintura pra o pensamento. Então pensei em desistir, não colorir mais nada, não acreditar em gentileza, e não precisar de favor. Venho vivendo de favores...
Caí na noite que não enxerga o sono. Pensei em tudo antes de ir, na lembrança a regalar, na vontade de chegar, sobretudo, onde não é meu lugar, nem nunca será, o fosco não me agrada. Escuro o bastante pra não ver o dia posterior, pois ele não existirá da forma que eu imaginei. Imaginação vai além, mesmo, a única coisa e é à toa.
Ir armado de bom moço que sou não é a melhor fantasia, porque nem mais preciso me fantasiar, nem mais preciso ter medo. Vivido o necessário pra saber que vida mais que a minha só importa se for a ela se fundir ou, como legado mínimo, compartilhar, daqui e de lá, um pouco de cada nuança. Essas cores do dia seguinte só não me fazem acreditar que monocromia hoje está aquilo que pensei diversificar.
Assim tem uma aquarela, uma possibilidade real, e ela não parte da ausência de cores; jamais um branco faria tão interessante o que a demão dos dias, ultimamente, faz-me perceber que escureceu o bastante pra não me preocupar com o de sempre. Quem sabe um dia seja mais claro, mas não em razão de uma insônia, senão pelo trato de uns dias de sol do lado de cá, que eu sempre quis pra mim.
Imagem: Aquarela de Gabriela Seltz
7 de março de 2013
Eduardo Galeano: A demonização de Chávez
Senti muitíssimo a partida de Hugo Chávez, porque, ademais de um grande presidente para a Venezuela, pude me corresponder, durante quase uma década, com uma senhora venezuelana sobre a vida e, sobretudo, a vida em seu país. Portanto, sei, como testemunha distante, o quanto pessoas inteligentes e sonhadoras por uma nação melhor - assim como conheço diversos brasileiros - que atrás de uma pressão internacional muito cruel, há indivíduos que nos trazem a verdade à tona. E por ter esse olhar privilegiado, transcrevo, aqui, o texto do jornalista uruguaio Eduardo Galeano.
Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.
Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que ele era. O chamavam de “Venezuela Saudita” por causa do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir à escola porque não tinham documentos… Então, chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer: “As crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos”.
Aí, caiu o mundo: isso é a prova de que Chávez é um malvado malvadíssimo. Já que ele detém essa riqueza, e com a subida do preço do petróleo graças à guerra do Iraque, ele quer usá-la para a solidariedade. Quer ajudar os países sul-americanos, e especialmente Cuba.
Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram fonte de escândalo. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos com a presença desses intrusos trabalhando nos bairros mais pobres. Na época que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico.
Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra só de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando for ler uma notícia, você deve traduzir tudo.
O demonismo tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.
Foto: Aporrea.org
27 de fevereiro de 2013
Da maternidade ao cemitério: o sabor do sal na mão.
"Nem muitas águas conseguem apagar o amor; os rios não conseguem levá-lo na correnteza. Se alguém oferecesse todas as riquezas da sua casa para adquirir o amor, seria totalmente desprezado"
Cantares de Salomão 8:10
A quem acusar de traição quando o pensamento se prostra a entregar à lembrança, ainda que no descanso, o tempo que já não existe? Ainda posso atribuir a falha aos meus antigos desejos suscitados por um recente caso de observação de mim, por outros olhos, não meus? Entrego a Deus, o senhor misterioso de segredos, pro fim que nem como quem decide acalentar-se, toda minha agonia de sentir à memória de fatos vividos e um toque, meu pedido, a mais nesse corpo carente de saúde que, porém, exala a vitalidade da mente sã, traiçoeira das minhas noites, por vingar-se dos dias que encubro das demais coisas: sua necessidade de pedir aquilo que só o tempo curto soube decifrar para além dos dias.
Eu me entreguei ao divino poder por não achar razão que soubesse me enganar tão bem; por ela não decidir, por mim, aquele trato em cuidar de uma só pessoa, a necessária, numa casa insalubre: a minha. Ao pai eterno, como um filho tenro e temente, meus dias de caos sob suas mãos poderosas, só elas para aliviar meus aflitos e posteriores dias. Dou-lhe as horas mais sagradas que já perdi, em meio à inteligência que não me serviu de coisa alguma além de contestar minha própria existência, o deslumbre com a poeira farta, reluzente e que engana, e até minha coleção de papéis sofríveis certificando o obsoleto.
Entro em crise anos após anos, por não saber narrar, por falta nome, por defrontar-me com o perdido - acho que escondi de mim mesmo - sentimento sem veredicto.
Acordo no meio de cães latindo, vendo sempre o copo d'água e as duas doses de ânimo sobre o improvisado salva-vida das manhãs solitárias. Dois venenos completos que ainda conseguem me aliviar do anseio de ruir. Duas drágeas representando minha vida e a da coisa mais amada nesses instantes de perfídia, dela, novamente, a mais bela peçonhenta, a qual cria a imagem, remanesce o cheiro, ludibria o som dos cães inquietos para que sobressaia o sorriso daquele que desde ontem se calou.
Por assim dizer, trago do velho testamento, ressuscitando a minha vontade, de incluir diversas vezes o antigo no seio do cemitério. Se um lugar fosse perfeito, melhor que morrer velho, e me dado à escolha, neste mundo fora do útero: maternidade - eu diria. Porque só as mães são felizes e, com a minha, foi unicamente a melhor e mais confortável sensação do amor.
24 de fevereiro de 2013
Da porta fechada
O quase-lá, um falta-pouco
Desde quando não subtrai
Fica o sufoco!
De subtração
Perco as contas.
Dedo aponta pra há Via Não.
Rua das mazelas,
Número improvável.
Estabeleço meu endereço
E esqueço do passado.
Quando vejo lá em frente,
Novamente,
Falta pouco.
Repetidas vezes,
Um de grão em grão.
Estou cheio de papo reto.
Papo cheio, curvilíneo,
A sombra do meu pescoço aponta o nó.
Olha, jamais me acusaria de perdas
Se os danos causados eu contasse...
Pouco.
Eu perdi mais uma vez
Pra encontrar eu-outro;
Achar que é novo
O endereço que passei
À porta.
Se a vida fosse máquina registradora,
Em cada soma de pouquinho:
[sinal de igualdade]
Números díspares.
Quantos zeros à esquerda?
Quanta destra mão a bater nessa porta!
Uma maçaneta que canhotos braços,
Esticados, bem-vindos de frontais encontros,
Entrelaçariam nos meus ambos cúmplices
Braços estes que se lamentam:
"Dois são poucos."
Distribuir abraços,
De porta em porta,
Como se fosse um dia de boas-vindas
Infindas a aliviar sinais desabrigados.
Um pouco mais.
[sinal de soma]
Quanto melhores e mais forem sinais
E a razão pela qual se conta nos dedos...
O sinal de igualdade anuncia:
Fechado para conferir saldo.
Desde quando não subtrai
Fica o sufoco!
De subtração
Perco as contas.
Dedo aponta pra há Via Não.
Rua das mazelas,
Número improvável.
Estabeleço meu endereço
E esqueço do passado.
Quando vejo lá em frente,
Novamente,
Falta pouco.
Repetidas vezes,
Um de grão em grão.
Estou cheio de papo reto.
Papo cheio, curvilíneo,
A sombra do meu pescoço aponta o nó.
Olha, jamais me acusaria de perdas
Se os danos causados eu contasse...
Pouco.
Eu perdi mais uma vez
Pra encontrar eu-outro;
Achar que é novo
O endereço que passei
À porta.
Se a vida fosse máquina registradora,
Em cada soma de pouquinho:
[sinal de igualdade]
Números díspares.
Quantos zeros à esquerda?
Quanta destra mão a bater nessa porta!
Uma maçaneta que canhotos braços,
Esticados, bem-vindos de frontais encontros,
Entrelaçariam nos meus ambos cúmplices
Braços estes que se lamentam:
"Dois são poucos."
Distribuir abraços,
De porta em porta,
Como se fosse um dia de boas-vindas
Infindas a aliviar sinais desabrigados.
Um pouco mais.
[sinal de soma]
Quanto melhores e mais forem sinais
E a razão pela qual se conta nos dedos...
O sinal de igualdade anuncia:
Fechado para conferir saldo.
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