14 de outubro de 2013

Estado do ser

Voltar a casa que não é mais lar
Lá onde quis 
Onde lá se foi a casa, 
O caso mais concreto 
Do projeto de lar.

Voltar depois de idas e vindas
Ali onde eu quis estar,
Onde eu quero estar,
Onde o meu estado de espírito
Não soube responder se mais feliz
Ou mais quis do que tive.

Estado além de particípio
É unidade autônoma.
E em tudo o que estive empenhado
Não resultou autonomia,
Mas volto, assim, subdividido
Entre estar e ser dali.

22 de agosto de 2013

DOS MODISMOS GLACIAIS DO FACEBOOK. (Ou, sob vinte graus abaixo de zero: obrigado(a) por lembrar de mim!)


Por meio de uma redação oficial (há muitas modalidades de texto a se determinarem), algumas personalidades públicas, pessoas jurídicas (indústrias, empresas - sejam de quais ramos forem essas: hospitais, bancos, siderúrgicas, hotéis, etc.), usam palavras para divulgação de seus empreendimentos, lançar alguns novos produto ou serviço ou até gerenciar crise devido a algum ato que comprometa a imagem daquela pessoa e/ou marca; elas se utilizam das diversas modalidades de texto para sua finalidade.
Na Faculdade de Comunicação, aprendemos mecanismos, tipos de texto para cada situação, adequando a linguagem à plataforma e ao público a que queremos nos dirigir.
Após o texto pronto, há utilização dos meios de comunicação de massa desejados para se alcançar o objetivo, e, manter esses meios, implica geralmente organizações amplas, complexas, envolvendo uma grande quantidade de profissionais, a fim de concluir seu produto/serviço que sempre será o texto falado ou escrito, sem esquecer-se também da comunicação feita por imagens.
Para tanto, uma empresa jornalística envolve o trabalho de redatores, fotógrafos, jornalistas, operadores de câmeras, diagramadores, ilustradores, gráficos, entre outros. E por ter grandes custos, que envolve desde pessoal especializado na atividade até material para sua produção, uma empresa de comunicação depende dos imperativos de consumo, por assim desejar garantir a máxima circulação; angariar o maior número de audiência e, quase em regra, aliar-se à venda de publicidade, no caso dos tracionais veículos comunicação. Ademais, há custo também com o aparato tecnológico para o registro de sua atividade e a multiplicação das mensagens impressas, gravadas ou difusas ao vivo.
Em todo o processo de produção e manutenção de uma empresa de comunicação, a tecnologia se tornou aliada da comunicação humana, além de participar da rotina da humanidade ao longo de seu desenvolvimento. Atualmente, fala-se numa era de convergência digital – uma integração de vários formatos de mídias oferecidos num só ambiente (canal) -; assim avalio o comportamento que está se tornando muito comum no Facebook ou outras redes sociais, que possibilitam a integração das mídias.
Poderíamos administrar a comunicação humana (uma comunicação em menor escala, entre uma pessoa e outra, sob a prevalência de laços mais fraternos entre nós, amigos) e não usar as redes sociais - salvo exceções de necessidade específica - como comunicação de massa, onde uma grande quantidade de receptores recebe ao mesmo tempo a mensagem que parte de um único emissor.
Acredito, assim, que após a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade de haver exigência de diploma de Jornalismo para prática de atividades jornalísticas, parece que, no Brasil, nasceu o ímpeto comunicólogo em cada indivíduo. Essa minha análise veio após certa observação no comportamento da maioria no Facebook: quão seus textos estão parecendo – já quase unanimidade – com esses sistemas de comunicação num único sentido.
Observando o comportamento geral, percebo que já virou mania, ademais dos cumprimentos matinais ou noturnos e muitas vezes felicitações que seria a uma pessoa, apenas (ao ensejo, já se incluem os demais para tal fim), estão se tornando comuns nesta rede social a divulgação em grande escala de mensagens. Desejar feliz aniversário, por exemplo, a uma pessoa, dedicando-lhe alguns segundos ou minutos de seu tempo e aproveitando a comodidade e economia desta plataforma, perdeu a paridade de condições entre emissor e receptor, associada à possibilidade de ouvir (ler) o outro e ser ouvido (lido), com a informalidade mútua de entendimento.
Ao desdobrar esse hábito, a cada dia mais comum, concluo com uma avaliação negativa e lanço desaconselhamento sobre o agradecimento em massa aos votos que você recebe exclusivamente em sua rede social. Ainda que se critique com base em etiquetas virtuais nas relações pessoais, essa nova mania de texto de agradecimento A TODOS, como se fosse uma nota técnica, pelos votos positivos, desejos fraternos, etc, causa uma estranha frieza e homogeniza a linguagem, ao passo em que desmerece a atenção personalizada daquela amiga, daquele ente, daquele colega de trabalho ou daquela querida companheira de turma do Ensino Médio que há anos não se vê...
Portanto, que não nos deixemos embarcar sob o viés de distanciamento com requintes da política diplomática, na forma de texto “educadinho”. Ele soa falso, breve e econômico demais para quem lhe tem apreço.

13 de agosto de 2013

Ir e vir

Voltei.
Não como um pássaro
Nem como uma borboleta.
Voltei como homem.
Ando com minhas pernas,
Junto com minha ética.
A vida é mais que uma metáfora.
Ela é dura como mais nada
Que um eufemismo pode aliviar.

20 de junho de 2013

Protesto em Campinas

Pouco antes do sol se pôr, neste 20 de junho de 2013, as ruas centrais de Campinas estavam tomadas por uma multidão que segue reivindicando seus direitos. Jovens, crianças, idosos, gays, mulheres, negros, trabalhadores, desempregados, estudantes, todos a fim de protestar contra a banalização que viraram as decisões políticas no país. Pessoas fantasias, vestindo verde e amarelo, branco, azul, portando bandeiras e faixas em tom de manifestação contra tarifas de transporte público, corrupção, investimentos direcionados a eventos em detrimento da educação e saúde, tão deficientes no Brasil. O povo campineiro e quem se radicou na cidade, formava um coro que cantava palavras de revolta e consciência da necessidade de mudança.
A passeata seguiu pelas principais avenidas do Centro da cidade, até a Avenida Anchieta, onde fica o Palácio dos Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas. Ali, uma barreira policial intimidava os ânimos mais acalentados, revoltosos, com todo equipamento bélico para conter a multidão. Ainda assim, nós seguíamos até à porta do paço municipal para gritar nossos lemas de ordem e mudança. Entre os milhares que sacudiam vozes e corpos contra um sistema que privilegia alguns, deixando a mercê a maioria da população, havia um pequeno grupo, formado por umas dezenas de adolescentes e adultos que distavam dos propósitos desse movimento em favor da democracia e respeito aos nossos direitos.
O pequeno grupo, em discrepância com a ideia central do nosso protesto, começou a depredar as paradas de ônibus, quebrando seus vidros, depois jogavam pedras, pau, garrafas de bebida nas vidraças da Prefeitura, causando um grande quebra-quebra.
Em contrapartida ao vandalismo, as vozes que protestavam, também pedia para que esse pequeno grupo não depredasse o patrimônio público, que também é nosso. Entre todos, havia uma resistência dos menores em ouvir, e continuavam a quebrar tudo o que podiam à frente.
Para conter o frisson de vândalos, a Polícia Militar, que estava aparentemente com um déficit de pessoal, um contingente muito pequeno para conter a grande massa, começou a lançar suas bombas de efeito moral, assim o gás lacrimogênio se espalhou pelo ar naquelas ruas entorno à Prefeitura e todo mundo sofria com seus efeitos. O cheiro insuportável descia à garganta, as vias respiratórias, fazia-nos chorar. Eram lágrimas junto ao ódio à repressão que nós sofríamos por responsabilidade do pequeno grupo, cuja luta era inconsciente e mais parecia estar em plena festa do horror.
Pessoas corriam, caíam, machucavam-se, enquanto o tumulto no meio do que se tornou  na verdadeira praça de guerra, comprometendo a mobilização da maioria. Nós não desistíamos, e voltávamos a gritar os nossos direitos, a reclamar as nossas angústias por sermos tão explorados e enganados pelos que nos representam nos poderes que demos a eles um dia.
Mais uma vez, entre nós, a maioria pacífica que apenas se revolta contra a banalização política em que se encontra nosso país, também existiam os vândalos persistentes nas depredações. A repressão continuava e todos sofriam os impactos do gás lacrimogênio e spray de pimenta.
Enquanto eu estive no meio da multidão, presenciei aproximadamente uns dez momentos de tumulto pela ação policial mais severa. Às vezes, até distante 500m a 1km dali, ainda sentia o cheiro forte do gás, como também escutava o estouro das bombas que a PM jogava no meio do povo. Uma cena terrível, uma trincheira que ora revoltava grande parte de nós pela repressão milica, ora pelo descomprometimento dos maloqueiros que prejudicavam a visibilidade da nossa luta.
Já era quase 21h quando presenciei um grupo de saqueadores arrombando um supermercado na Av. Anchieta. Vi que alguns homens e mulheres carregavam salgados, refrigerantes e cerveja. Faziam a festa, como se a luta desses fosse por uma comida gratuita, pela subversão de invadir uma propriedade privada que em tempos normais é tão vigiadas por homens e câmeras. Assim, entendi que a luta deles é por muito pouco, é inconsciente, sem motivação política, sem desejo coletivo de mudança. Lutam, pra não dizer que vandalizam, por conta de bebidas e comidas, que não podem comprar. Entendi, também, que são infiltrados, pela falta de formação política, vítimas de um sistema que os marginalizam há décadas, portanto compreende que a situação vem a favorecer uma ação criminosa pelas leis que nos regem. Aproveitam o foco do poder que nos controla em cima de conter nossos ânimos por uma mudança histórica e, assim, saqueiam estabelecimentos comerciais, igualando-se a tantos outros ladrões que estão ornados de representantes do povo.
Infelizmente, tive de abandonar o protesto porque não quis correr tanto da PM, respirar seus gases repressores porque o vandalismo pequeno, mas destruidor, incumbe o movimento pacífico de pagar por esses atos contrários ao nosso bem maior. Acredito que esses poucos homens e mulheres sempre estarão entre nós, prejudicando mobilização, mas devo confessar que uma das sensações mais bonitas e saber que estamos reconhecendo equívocos e temos urgência em mudar a conjuntura social.

Atraso

Talvez esteja faltando repertório para prosseguir com um sonho que tive desde criança. Sonhei um dia em escrever exaustivamente e que isso trouxesse um ganha-pão para eu não precisar de pensão. Sinto-me desatualizado com o mundo. Esse em trânsito frenético e eu em desistência de acompanhá-lo. Um amigo agora há pouco me falou que é como cozinhar feijão, uma prática diária, escrever sem tempero não dá. Eu estou insistentemente em um dissabor, esqueço do sal e destempero minha culinária, ela é ruim. Não cozinho só pra mim, já tive vontade de alimentar o mundo.
Desprendi-me das ocasiões oportunas: podia ela ser um curso de gastronomia ou uma realização técnica em construção civil. Não edifico nem a calçada que piso. Fico sem chão a maior parte das vezes. Olho pra trás e percebo que eu deixei de mim todo aquele gosto de café da manhã pra começar o dia. Procuro açúcar em vão, confiando na minha doçura. E me sobra o amargo da tarde e a noite sem cheiro de sono. Passo os dias assim, desqualificando qualquer período.
Comecei a tomar consciência do meu atraso quando não sabia mais o que dizer quando alguém me perguntava sobre algo que no passado eu defendia com vigor. Tornei-me o acaso de todas as coisas, por acaso, porque olho pra os lados e só espero que esses não se tornem mais uma prisão para mim. Estou em dívida comigo faz meses. Não sei o saldo negativo dessa porra toda, portanto é fácil xingar de tudo quanto é baixo calão, meus verbetes de quem resmunga.
Assim, decidi retornar para onde vim. Porque quem sabe ali comece tudo de novo e reconheça o repertório de quem está aprendendo a falar, andar, sorrir... Um bebê chorão que verbaliza em sons abertos, os gritos, a exprimir a dor, a vontade de comer ou a necessidade de chamar atenção.
Já é a hora de partir pro começo; quando se diz recomeçar, minhas mãos tremem de medo. Minhas pernas acompanham, bambas, o temor de ver tudo outra vez para reaprender a se reconhecer entre o mesmo sotaque, sob o mesmo calor, os costumes familiares e a exatidão repetida de aprendiz que insiste a falar seus primeiros monossílabos. Ah, presumo que gente parecida dá mesmo medo do que gigante numa terra de pé de feijão, esse que já não sei mais cozinhar. Não é à toa que a todo instante me pego olhando o relógio pra saber que horas são. Almoçar tem sido a melhor parte do meu dia.

14 de junho de 2013

Manipulação midiática no trato de notícias sobre protestos em São Paulo

Até que ponto chega a manipulação do debate, a exemplo da Globo News, no programa Entre Aspas, que está rolou nesta quinta-feira à noite. 
Repare, não desmerecendo instituições como o IBMEC/RJ e a Puc-SP, mas levar dois representantes de instituições privadas, de característica predominantemente elitizada, regidas sob o aval da igreja católica, para analisarem os protestos em São Paulo, é uma falta discrepante de diversificar opiniões.
Obviamente, com essas três vozes, a criminalização da manifestação é a via unilateral.
Primeiro, erram no que diz respeito a comparações entre gerações antes e pós-governo democrático. Seguido a isso, sinalizam de forma equivocada que antigamente não havia tanta violência e conseguiam mobilizar maior número de pessoas. Mas, de que violência eles falam? Claro, da parte da minoria fomentada: os manifestantes. Desde quando o período da ditadura militar teve menos danos à sociedade do que os protestos deste mês? E as torturas por parte dos militares? E ações dos grupos anti-golpe militar, como sequestros de embaixador, envolvendo grandes nomes da política nacional? E as invasões a casas e repressão até de livros marxistas sob pena de tortura e prisão?
Voltando aos convidados ao debate, representante da classe média alta, interessada no status quo, com seus lemas em direção à moral cristã e defesa da economia com menos intervenção do Estado...
Estão malhando as pessoas, dizendo que elas não representam os trabalhadores, que são estudantes de classe média. Mas qual o trabalhador tem tempo pra sair às ruas e protestarem, sob o risco de perderem seu emprego que mal dá pra pagar uma tarifa absurda, acima do índice da inflação?
Francamente, entendo toda a manifestação contrária ao repúdio ao aumento de tarifa por parte de alguns espectadores dessa violência urbana: são pessoas que prezam apenas pelo sossego da maior e mais rica cidade do País, sustentada por todos os brasileiros, não só o povo paulistano, porque querem se manter nesse patamar de "a" metrópole brasileira, de tão acostumados com a separação de classes, esse vício que privilegia apenas alguns, segundo o poder de consumo inconsciente.
Quebrou-se, sim, muito de São Paulo, essa cidade importantíssima, mas a capital paulista há muito tempo quebrou o sonho de tanta gente e concentrou olhares; o poder público em sua parceria com o privado, como sempre, não respeita todos os cidadãos brasileiros que ajudam a São Paulo ser a cidade que é.
O dano maior é ficar como estava: sociedade apática, apenas confiando no poder do voto e sendo a todo instante explorada pelos caciques do dinheiro.

6 de junho de 2013

Catástrofe

Um câncer em cada esquina.
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!

16 de maio de 2013

O Abismo Prateado

Entre os fragmentos de sua dor, uma mulher se encontra abandonada pelo marido. Como pedaços espalhados, esses fragmentos emergem num cenário urbano de sons perturbadores e trânsito em contramão. Há lugar de passagem, um luto e um destinar-se a algum lugar, iniciando no resgate, sua busca. A perda é evidente, muito mais nas sensações do que em suas palavras, que estão presas e/ou engolidas pelas sofreguidão e hostilidade urbana.
Violeta, personagem de Alessandra Negrini, no mais recente longa-metragem de Karim Aïnouz, desloca-se num plano exprimido, num close-up nas suas feridas, no que sangra, e rodeada de turvo angustiante sem avais de liberdade, a priori. Existem, ainda, a permanente agonia, pergunta sem resposta, a ligação literal e metaforicamente não correspondida e a dissidência para emergir a vicissitude necessária  até alcançar o plano geral.
Baseado na canção Olhos nos Olhos, o roteiro do filme segue as estrofes da poesia de Chico Buarque, em que as sensações daquela mulher cujo marido a deixou, quase enlouquecida, exprime a linearidade do desconforto até o momento de refazer-se.
Violeta,  presa no mundo que parecia construir a dois e, em face ao abandono, sozinha - mas numa tentativa de recuperação do enlace - estabelece diálogo maniqueísta em que o bem e o mal travam disputa pós-abandono.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
Aos poucos, Violeta, uma transeunte de destino incerto, traça uma linha reta de sentidos que se opõem: do desespero à tranquilidade.  Assim, ela toma iniciativa de controlar, através da respiração funda e na contagem crescente e cardinal, seu rumo e recompor-se nesse caminho aparentemente vazio, onde o ludíbrio ainda a remete, algumas vezes, ao pânico. 
Quando, então, as experiências fugidias da dentista poem-na nos recantos transitórios como hotel, boate, aeroporto, levando-a a encontrar(se) ou até mesmo despedir-se do sentimento corrosivo  por não conseguir permanecer em casa ou exercer seu cotidiano profissional. Então, nesse trânsito contínuo, suas observações e contatos lhe trazem a amplitude do mundo, talvez por soma de espaços e tempo, oferecendo-lhe um movimento com mais autonomia e, sobretudo, ampliando sua abrangência.

4 de abril de 2013

Labor

Meu amor vitalício,
Bem-querer efetivo no meu pensamento,
E que o sonho seja apenas um adicional noturno
No trabalho constante de querer
Que um dia seja real.
A você, meu mais suado expediente.

3 de abril de 2013

Bem-me-quer mal me coloriu


Dia de insônia é tudo igual. É claro o suficiente pra incomodar os olhos que anseiam dormir. É escuro o bastante pra não ver nada além do que a preocupação de sempre: o dia seguinte.
Eu planejei uma viagem sob desculpas pra vida inquieta. Inventei uma paisagem de concreto e muita tinta sobre os muros pra colorir minha passagem em terras que poderiam revelar um futuro brilhante. As cores verdadeiras não são, ao menos, acetinadas. Eu vi no fosco da ocasião um brilho que não existe. E cair em si é a melhor tintura pra o pensamento. Então pensei em desistir, não colorir mais nada, não acreditar em gentileza, e não precisar de favor. Venho vivendo de favores...
Caí na noite que não enxerga o sono. Pensei em tudo antes de ir, na lembrança a regalar, na vontade de chegar, sobretudo, onde não é meu lugar, nem nunca será, o fosco não me agrada. Escuro o bastante pra não ver o dia posterior, pois ele não existirá da forma que eu imaginei. Imaginação vai além, mesmo, a única coisa e é à toa.
Ir armado de bom moço que sou não é a melhor fantasia, porque nem mais preciso me fantasiar, nem mais preciso ter medo. Vivido o necessário pra saber que vida mais que a minha só importa se for a ela se fundir ou, como legado mínimo, compartilhar, daqui e de lá, um pouco de cada nuança. Essas cores do dia seguinte só não me fazem acreditar que monocromia hoje está aquilo que pensei diversificar.
Assim tem uma aquarela, uma possibilidade real, e ela não parte da ausência de cores; jamais um branco faria tão interessante o que a demão dos dias, ultimamente, faz-me perceber que escureceu o bastante pra não me preocupar com o de sempre. Quem sabe um dia seja mais claro, mas não em razão de uma insônia, senão pelo trato de uns dias de sol do lado de cá, que eu sempre quis pra mim.

Imagem: Aquarela de Gabriela Seltz