Escrevi, há quase um ano, um texto triste, que falava da velhice, como sentisse na pele o tempo corrido e o cansaço de quem já chegou à melhor idade. Fui da antítese ao abismo numa questão de contagem de caracteres, aqueles que couberam no post de despedida. Foi um fazer-me calar necessitado, foi o medo e o desespero diante à escassez das minhas palavras. Coloquei um fim e fui me dando a ele até que ele chegasse... ele não veio. Uma razão para tudo era o que buscava. Encontrei em duas situações o bastante para decidir me manifestar e retirar do baú das memórias que havia esquecido todo o meu gosto por digitar pensamentos.
Vou explicar, claro.
Na madrugada de hoje vi muita gente comentando a discordância de opinião entre duas cantoras: Pitty e Anitta. Não tinha visto o programa mais recente do Altas Horas que foi ao ar. Então, curioso, fui buscar o vídeo na internet. Depois, consegui casar o debate fracamente mediado por Serginho Groisman (acho que o apresentador quem incitou) com o texto de Karina Buhr para o blog Pane no Pântano: O Pau como Revólver.
Peço desculpas antecipadamente sobre meus poucos conhecimentos de causa, mas a intenção é a melhor, prometo... Se eu for machista, desculpe-me, pois procuro cada dia que passa superar essa educação que tive desde pequeno e que, inclusive, chateia-me quando vejo que muitas mulheres foram infectadas e o poder de virulência dessa doença social, em qualquer nível da sociedade. E as desculpas também valem para a técnica, porque faz tempo que não escrevo, ao passo que lamento minha falta de prática com as habilidades de significado. Buscarei incessantemente aprimorar isso, porque deixei de escrever como hábito, mas jamais parei de fazer questionamentos e, por isso, continuo um ser humano triste com algumas respostas e a falta delas.
Não nasci com a feminilidade visível, não me foi uma questão natural, mas fui criado entre tantas mulheres. Minha testosterona não me impede de sentir a veia feminina onde corre com dignidade uma das lutas que tomei para mim por respeito a tantos exemplos vistos de luta por igualdade, superação de preconceitos e prática de afirmações necessárias no contexto em que a democracia não culmina no respeito, no mínimo, que se deve ter às cidadãs deste mundo.
Começo por analisar nossa língua que generaliza tudo no masculino; não deixa de ser plural com sua ideia a abraçar todos, mas deixa de ser feminino. Se ela e ele decidirem ir a algum lugar, eles vão juntos. São deslocamentos onde o macho predomina, onde espécies "frágeis e dóceis" tendem a ser protegidas por uma terminação que determina o sexo protetor. Existe a união, mas ela ainda não conseguiu dividir o peso das duas forças a tê-la exatas. O feminino só predomina se a união linguística for de duas do mesmo gênero. Acredito que daí já se produz hipótese para que a ideia de feminismo costume figurar naquela mulher que com outra possa ter, suscita lesbianismo ou as vertentes mais absurdas que já presenciei na vida. Eu mesmo conheço mulheres muito femininas, lésbicas ou não, e que apostam realmente no direito de exercerem suas expressões (seja na moda ou na literatura etc), mas nunca conheci uma situação dessas que se isente à crítica de um macho alfa, poderoso e violento.
Incomodo-me bastante em ver meninas que, como a cantora Anitta, que justifica que "algumas mulheres não têm respeito porque não se dão respeito", mesmo que ache que suas interpretações sejam desrespeitosas, não por vir de uma mulher, mas porque leio unicamente como que seu trabalho já está totalmente influenciado por essa ditadura estética de que a mulher precisa ser perfeita... e claro, para agradar um homem ou, como tem virado moda no funk, debochar com meia dúzia de desdéns sem eu lírico criativo. Muitas vezes consigo enxergar - se eu tiver enganado, pode corrigir - que acentua a própria disputa feminina por holofotes, sejam quais forem suas metas e objetivos em ser alvo de uma luz artificial e, ainda bem - e sempre fico nesta torcida -, o brilho próprio sempre me agradou mais aos olhos do que um retoque no cirurgião plástico ou do patrocínio daquela tintura de cabelo. Não quero julgar a vaidade de ninguém, mas precisei usar essas comparações para contrapor genótipo e fenótipo, que ainda lembro um pouco do aprendizado na educação básica. Só pra dizer que as mudanças precisam haver para aprimorar e não por uma questão imposta.
Há poucos instantes eu lia o texto de Karina Buhr no site da Carta Capital, e depois dele a admiração política que tinha de um engajamento de um homem foi tudo pelo ralo mais próximo da fossa, por conta de sua atitude em usar seu pênis para intimidar e retrucar uma mulher. Foi, então, que me dei conta de que as "mulheres de casa" jamais usaram o verbete "pau" para se referir ao nosso órgão sexual, porque na boca de mulher os palavrões parecem alcançar dimensões mais feias, que minha mãe nem minha irmã ousam pronunciar. Como homem, sempre tive liberdade de falar coisas que, culturalmente, as mulheres da minha família estavam proibidas. Toda a minha reflexão cuspiu na minha cara, inclusive, quando eu mesmo censurei atitudes da minha mãe em relação ao meu pai e, felizmente, hoje entendo plenamente porque o belo pé na bunda que ela deu nele foi tão merecido que antes fosse isso do que o contrário, para cumprir a praxe reservada às famílias tradicionais.
Foram alguns anos convivendo com mulheres feministas, escutando-as, que me deram a dimensão de um problema muito mais grave, porque foge ao óbvio, foge à violência crua, foge à necessidade de intervenção judicial ou policial: é uma violência que está na língua materna, nos símbolos mais imperceptíveis e, por que não, no silêncio?
Eu precisei de um grito e cada abuso de poder masculino meu serve como outro para enxergar que ser machista está arraigado, é como um vírus latente, que cedo ou tarde acorda no corpo e faz covardemente desencadear falta de noção, doentia, uma enfermidade silenciosa avançar para o estado crítico, gritante. Ainda bem que os gritos estão aí; que sejam agudos e graves, que sejam a união onde não prevaleça ninguém, mas que se divida igualmente tanto o alto quanto o bom som!
7 de dezembro de 2014
23 de dezembro de 2013
Chronos para encerrar
Ontem, domingo, fui à casa do meu tio para celebrar, junto aos meus familiares, seus sessenta e poucos anos. Ele, solteirão, frustrado na vida (qualidade de ser humano que me persegue também), mora sozinho, na casa da minha avó, que nos deixou em vida em 2011. Entre risos e aquela comilança toda de irmãos, primos, tias, filhos, ficamos revendo as fotos de arquivo. E entre elas, tinha uma da minha avó, quando jovem, posando em frente a um muro de uma casa. Foto comum de quem, como ela, vaidosa, adorava imagens. No verso da foto em preto e branco, havia um escrito quase apagado, de caneta vermelha, que ela fez em já idosa. No que consegui ler, ela relatava quanto era interessante ser jovem e bonita, uma época bem mais prazerosa do que a velhice, que era triste.
Por causa daquele adjetivo que ela deu à vida, parei para pensar na velhice.
Eu, hoje, a dois dias de fazer trinta e dois anos, decidi escrever o último texto do ano, e quiçá o último deste blog. Assunto: velhice.
Longe de estar velho, mas já tendo passado pela juventude chego à mesma conclusão que minha avó. É chato mesmo envelhecer. No entanto, inevitável, ainda que alguns nem consigam chegar a isso, a carga de experiência de vida e reverência à cronologia, com orgulho para tantos, é o peso implacável a suportar-se seja com qualquer expressão momentânea que uma fotografia possa registrar e remeter.
Não sei nem se envelhecerei, mas já passei dos melhores anos da vida. Quando decidi ser jornalista. estudei e me graduei para isso e, finalmente, frustrei-me com a profissão, que pouco exerci e não faço ideia se volta a tê-la, nem em sonho.
Agora que passei de algumas etapas escolares que minha falecida avó sequer chegou, reflito suas palavras no verso de uma fotografia sobre sua juventude. O amadurecimento chegou com a idade e o respectivo tempo, mas me esfriou de uma forma a desacreditar em sonhos. Cheguei ao tempo de acreditar na realidade que, para muitos, é cruel e, para outros, é despercebida, apenas.
Sinto que o emaranhado vocabulário que só se ganha com o tempo, hoje, eu perdi no jogo de arrumá-lo, de torná-lo mais legível, de dar gosto em dizê-lo. E como o texto, antes-sonho, sempre foi meu objetivo profissional, digeri-lo se fez amargo e no finalzinho o dissabor de recorrer a trabalhar só para sobreviver. Como recompensa, além do enobrecimento já crivado na poesia, corporativamente o retorno financeiro, como para alguém como eu, deixar de reclamar na prosa e gastar todos os vinténs na distração medíocre que uma agência de viagem pode proporcionar. Usar o tempo das férias, como exemplo, para esquecer o cotidiano da labuta, mergulhando em uma praia que ainda não se conheça ou cruzando o oceano para requisitar felicidade momentânea em alguma cenário urbano que aquela mesma agência de viagem - seguindo a lógica do mercado - ofertou como pacote perfeito para dias de repouso e... solidão. Sim, solidão porque as cidades estão cada vez maiores, caras e poluídas. Sim, porque as pessoas interagem para fazer o mundo acender suas luzes, gastar sua energia, produzir matéria e a maior parte, quando sim, espreitar-se nos menores cômodos de um apartamento.
O tempo me cansou... mas já? É que meu pessimismo espirituoso, ainda bem, faz-me ver o relógio e dar conta da tarefa que tenho que cumprir, o prazo que foi estabelecido, a fim de terminar tudo bem ou bem aos olhos de outrem.
De todos os lados tem alguém me cobrando e do lado de dentro tem a minha cobrança maior, essa corrosiva, legado cronológico.
Envelheci, ó, a ponto de, na consciência, pesar que escrever por prazer é só mais um desabafo, ruína do eu exposto ou somente uma perda de tempo.
Os velhos são os mais lindos, enfim. Mas só os jovens gostam de si nas fotos... Eu gostava de mim antes, novo e disposto a escrever.
Até que gostava de ler o que eu mesmo escrevia.
Acho que chegou a vez de escutar...
Imagem: Jorge
Por causa daquele adjetivo que ela deu à vida, parei para pensar na velhice.
Eu, hoje, a dois dias de fazer trinta e dois anos, decidi escrever o último texto do ano, e quiçá o último deste blog. Assunto: velhice.
Longe de estar velho, mas já tendo passado pela juventude chego à mesma conclusão que minha avó. É chato mesmo envelhecer. No entanto, inevitável, ainda que alguns nem consigam chegar a isso, a carga de experiência de vida e reverência à cronologia, com orgulho para tantos, é o peso implacável a suportar-se seja com qualquer expressão momentânea que uma fotografia possa registrar e remeter.
Não sei nem se envelhecerei, mas já passei dos melhores anos da vida. Quando decidi ser jornalista. estudei e me graduei para isso e, finalmente, frustrei-me com a profissão, que pouco exerci e não faço ideia se volta a tê-la, nem em sonho.
Agora que passei de algumas etapas escolares que minha falecida avó sequer chegou, reflito suas palavras no verso de uma fotografia sobre sua juventude. O amadurecimento chegou com a idade e o respectivo tempo, mas me esfriou de uma forma a desacreditar em sonhos. Cheguei ao tempo de acreditar na realidade que, para muitos, é cruel e, para outros, é despercebida, apenas.
Sinto que o emaranhado vocabulário que só se ganha com o tempo, hoje, eu perdi no jogo de arrumá-lo, de torná-lo mais legível, de dar gosto em dizê-lo. E como o texto, antes-sonho, sempre foi meu objetivo profissional, digeri-lo se fez amargo e no finalzinho o dissabor de recorrer a trabalhar só para sobreviver. Como recompensa, além do enobrecimento já crivado na poesia, corporativamente o retorno financeiro, como para alguém como eu, deixar de reclamar na prosa e gastar todos os vinténs na distração medíocre que uma agência de viagem pode proporcionar. Usar o tempo das férias, como exemplo, para esquecer o cotidiano da labuta, mergulhando em uma praia que ainda não se conheça ou cruzando o oceano para requisitar felicidade momentânea em alguma cenário urbano que aquela mesma agência de viagem - seguindo a lógica do mercado - ofertou como pacote perfeito para dias de repouso e... solidão. Sim, solidão porque as cidades estão cada vez maiores, caras e poluídas. Sim, porque as pessoas interagem para fazer o mundo acender suas luzes, gastar sua energia, produzir matéria e a maior parte, quando sim, espreitar-se nos menores cômodos de um apartamento.
O tempo me cansou... mas já? É que meu pessimismo espirituoso, ainda bem, faz-me ver o relógio e dar conta da tarefa que tenho que cumprir, o prazo que foi estabelecido, a fim de terminar tudo bem ou bem aos olhos de outrem.
De todos os lados tem alguém me cobrando e do lado de dentro tem a minha cobrança maior, essa corrosiva, legado cronológico.
Envelheci, ó, a ponto de, na consciência, pesar que escrever por prazer é só mais um desabafo, ruína do eu exposto ou somente uma perda de tempo.
Os velhos são os mais lindos, enfim. Mas só os jovens gostam de si nas fotos... Eu gostava de mim antes, novo e disposto a escrever.
Até que gostava de ler o que eu mesmo escrevia.
Acho que chegou a vez de escutar...
Imagem: Jorge
14 de outubro de 2013
Estado do ser
Voltar a casa que não é mais lar
Lá onde quis
Onde lá se foi a casa,
O caso mais concreto
Do projeto de lar.
Voltar depois de idas e vindas
Ali onde eu quis estar,
Onde eu quero estar,
Onde o meu estado de espírito
Não soube responder se mais feliz
Ou mais quis do que tive.
Estado além de particípio
É unidade autônoma.
E em tudo o que estive empenhado
Não resultou autonomia,
Mas volto, assim, subdividido
Entre estar e ser dali.
22 de agosto de 2013
DOS MODISMOS GLACIAIS DO FACEBOOK. (Ou, sob vinte graus abaixo de zero: obrigado(a) por lembrar de mim!)
Por meio de uma redação oficial (há muitas modalidades de texto a se determinarem), algumas personalidades públicas, pessoas jurídicas (indústrias, empresas - sejam de quais ramos forem essas: hospitais, bancos, siderúrgicas, hotéis, etc.), usam palavras para divulgação de seus empreendimentos, lançar alguns novos produto ou serviço ou até gerenciar crise devido a algum ato que comprometa a imagem daquela pessoa e/ou marca; elas se utilizam das diversas modalidades de texto para sua finalidade.
Na Faculdade de Comunicação, aprendemos mecanismos, tipos de texto para cada situação, adequando a linguagem à plataforma e ao público a que queremos nos dirigir.
Após o texto pronto, há utilização dos meios de comunicação de massa desejados para se alcançar o objetivo, e, manter esses meios, implica geralmente organizações amplas, complexas, envolvendo uma grande quantidade de profissionais, a fim de concluir seu produto/serviço que sempre será o texto falado ou escrito, sem esquecer-se também da comunicação feita por imagens.
Para tanto, uma empresa jornalística envolve o trabalho de redatores, fotógrafos, jornalistas, operadores de câmeras, diagramadores, ilustradores, gráficos, entre outros. E por ter grandes custos, que envolve desde pessoal especializado na atividade até material para sua produção, uma empresa de comunicação depende dos imperativos de consumo, por assim desejar garantir a máxima circulação; angariar o maior número de audiência e, quase em regra, aliar-se à venda de publicidade, no caso dos tracionais veículos comunicação. Ademais, há custo também com o aparato tecnológico para o registro de sua atividade e a multiplicação das mensagens impressas, gravadas ou difusas ao vivo.
Em todo o processo de produção e manutenção de uma empresa de comunicação, a tecnologia se tornou aliada da comunicação humana, além de participar da rotina da humanidade ao longo de seu desenvolvimento. Atualmente, fala-se numa era de convergência digital – uma integração de vários formatos de mídias oferecidos num só ambiente (canal) -; assim avalio o comportamento que está se tornando muito comum no Facebook ou outras redes sociais, que possibilitam a integração das mídias.
Poderíamos administrar a comunicação humana (uma comunicação em menor escala, entre uma pessoa e outra, sob a prevalência de laços mais fraternos entre nós, amigos) e não usar as redes sociais - salvo exceções de necessidade específica - como comunicação de massa, onde uma grande quantidade de receptores recebe ao mesmo tempo a mensagem que parte de um único emissor.
Acredito, assim, que após a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade de haver exigência de diploma de Jornalismo para prática de atividades jornalísticas, parece que, no Brasil, nasceu o ímpeto comunicólogo em cada indivíduo. Essa minha análise veio após certa observação no comportamento da maioria no Facebook: quão seus textos estão parecendo – já quase unanimidade – com esses sistemas de comunicação num único sentido.
Observando o comportamento geral, percebo que já virou mania, ademais dos cumprimentos matinais ou noturnos e muitas vezes felicitações que seria a uma pessoa, apenas (ao ensejo, já se incluem os demais para tal fim), estão se tornando comuns nesta rede social a divulgação em grande escala de mensagens. Desejar feliz aniversário, por exemplo, a uma pessoa, dedicando-lhe alguns segundos ou minutos de seu tempo e aproveitando a comodidade e economia desta plataforma, perdeu a paridade de condições entre emissor e receptor, associada à possibilidade de ouvir (ler) o outro e ser ouvido (lido), com a informalidade mútua de entendimento.
Ao desdobrar esse hábito, a cada dia mais comum, concluo com uma avaliação negativa e lanço desaconselhamento sobre o agradecimento em massa aos votos que você recebe exclusivamente em sua rede social. Ainda que se critique com base em etiquetas virtuais nas relações pessoais, essa nova mania de texto de agradecimento A TODOS, como se fosse uma nota técnica, pelos votos positivos, desejos fraternos, etc, causa uma estranha frieza e homogeniza a linguagem, ao passo em que desmerece a atenção personalizada daquela amiga, daquele ente, daquele colega de trabalho ou daquela querida companheira de turma do Ensino Médio que há anos não se vê...
Portanto, que não nos deixemos embarcar sob o viés de distanciamento com requintes da política diplomática, na forma de texto “educadinho”. Ele soa falso, breve e econômico demais para quem lhe tem apreço.
13 de agosto de 2013
Ir e vir
Voltei.
Não como um pássaro
Nem como uma borboleta.
Voltei como homem.
Ando com minhas pernas,
Junto com minha ética.
A vida é mais que uma metáfora.
Ela é dura como mais nada
Que um eufemismo pode aliviar.
Não como um pássaro
Nem como uma borboleta.
Voltei como homem.
Ando com minhas pernas,
Junto com minha ética.
A vida é mais que uma metáfora.
Ela é dura como mais nada
Que um eufemismo pode aliviar.
20 de junho de 2013
Protesto em Campinas
Pouco antes do sol se pôr, neste 20 de junho de 2013, as ruas centrais de Campinas estavam tomadas por uma multidão que segue reivindicando seus direitos. Jovens, crianças, idosos, gays, mulheres, negros, trabalhadores, desempregados, estudantes, todos a fim de protestar contra a banalização que viraram as decisões políticas no país. Pessoas fantasias, vestindo verde e amarelo, branco, azul, portando bandeiras e faixas em tom de manifestação contra tarifas de transporte público, corrupção, investimentos direcionados a eventos em detrimento da educação e saúde, tão deficientes no Brasil. O povo campineiro e quem se radicou na cidade, formava um coro que cantava palavras de revolta e consciência da necessidade de mudança.
A passeata seguiu pelas principais avenidas do Centro da cidade, até a Avenida Anchieta, onde fica o Palácio dos Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas. Ali, uma barreira policial intimidava os ânimos mais acalentados, revoltosos, com todo equipamento bélico para conter a multidão. Ainda assim, nós seguíamos até à porta do paço municipal para gritar nossos lemas de ordem e mudança. Entre os milhares que sacudiam vozes e corpos contra um sistema que privilegia alguns, deixando a mercê a maioria da população, havia um pequeno grupo, formado por umas dezenas de adolescentes e adultos que distavam dos propósitos desse movimento em favor da democracia e respeito aos nossos direitos.
O pequeno grupo, em discrepância com a ideia central do nosso protesto, começou a depredar as paradas de ônibus, quebrando seus vidros, depois jogavam pedras, pau, garrafas de bebida nas vidraças da Prefeitura, causando um grande quebra-quebra.
Em contrapartida ao vandalismo, as vozes que protestavam, também pedia para que esse pequeno grupo não depredasse o patrimônio público, que também é nosso. Entre todos, havia uma resistência dos menores em ouvir, e continuavam a quebrar tudo o que podiam à frente.
Para conter o frisson de vândalos, a Polícia Militar, que estava aparentemente com um déficit de pessoal, um contingente muito pequeno para conter a grande massa, começou a lançar suas bombas de efeito moral, assim o gás lacrimogênio se espalhou pelo ar naquelas ruas entorno à Prefeitura e todo mundo sofria com seus efeitos. O cheiro insuportável descia à garganta, as vias respiratórias, fazia-nos chorar. Eram lágrimas junto ao ódio à repressão que nós sofríamos por responsabilidade do pequeno grupo, cuja luta era inconsciente e mais parecia estar em plena festa do horror.
Pessoas corriam, caíam, machucavam-se, enquanto o tumulto no meio do que se tornou na verdadeira praça de guerra, comprometendo a mobilização da maioria. Nós não desistíamos, e voltávamos a gritar os nossos direitos, a reclamar as nossas angústias por sermos tão explorados e enganados pelos que nos representam nos poderes que demos a eles um dia.
Mais uma vez, entre nós, a maioria pacífica que apenas se revolta contra a banalização política em que se encontra nosso país, também existiam os vândalos persistentes nas depredações. A repressão continuava e todos sofriam os impactos do gás lacrimogênio e spray de pimenta.
Enquanto eu estive no meio da multidão, presenciei aproximadamente uns dez momentos de tumulto pela ação policial mais severa. Às vezes, até distante 500m a 1km dali, ainda sentia o cheiro forte do gás, como também escutava o estouro das bombas que a PM jogava no meio do povo. Uma cena terrível, uma trincheira que ora revoltava grande parte de nós pela repressão milica, ora pelo descomprometimento dos maloqueiros que prejudicavam a visibilidade da nossa luta.
Já era quase 21h quando presenciei um grupo de saqueadores arrombando um supermercado na Av. Anchieta. Vi que alguns homens e mulheres carregavam salgados, refrigerantes e cerveja. Faziam a festa, como se a luta desses fosse por uma comida gratuita, pela subversão de invadir uma propriedade privada que em tempos normais é tão vigiadas por homens e câmeras. Assim, entendi que a luta deles é por muito pouco, é inconsciente, sem motivação política, sem desejo coletivo de mudança. Lutam, pra não dizer que vandalizam, por conta de bebidas e comidas, que não podem comprar. Entendi, também, que são infiltrados, pela falta de formação política, vítimas de um sistema que os marginalizam há décadas, portanto compreende que a situação vem a favorecer uma ação criminosa pelas leis que nos regem. Aproveitam o foco do poder que nos controla em cima de conter nossos ânimos por uma mudança histórica e, assim, saqueiam estabelecimentos comerciais, igualando-se a tantos outros ladrões que estão ornados de representantes do povo.
Infelizmente, tive de abandonar o protesto porque não quis correr tanto da PM, respirar seus gases repressores porque o vandalismo pequeno, mas destruidor, incumbe o movimento pacífico de pagar por esses atos contrários ao nosso bem maior. Acredito que esses poucos homens e mulheres sempre estarão entre nós, prejudicando mobilização, mas devo confessar que uma das sensações mais bonitas e saber que estamos reconhecendo equívocos e temos urgência em mudar a conjuntura social.
A passeata seguiu pelas principais avenidas do Centro da cidade, até a Avenida Anchieta, onde fica o Palácio dos Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas. Ali, uma barreira policial intimidava os ânimos mais acalentados, revoltosos, com todo equipamento bélico para conter a multidão. Ainda assim, nós seguíamos até à porta do paço municipal para gritar nossos lemas de ordem e mudança. Entre os milhares que sacudiam vozes e corpos contra um sistema que privilegia alguns, deixando a mercê a maioria da população, havia um pequeno grupo, formado por umas dezenas de adolescentes e adultos que distavam dos propósitos desse movimento em favor da democracia e respeito aos nossos direitos.
O pequeno grupo, em discrepância com a ideia central do nosso protesto, começou a depredar as paradas de ônibus, quebrando seus vidros, depois jogavam pedras, pau, garrafas de bebida nas vidraças da Prefeitura, causando um grande quebra-quebra.
Em contrapartida ao vandalismo, as vozes que protestavam, também pedia para que esse pequeno grupo não depredasse o patrimônio público, que também é nosso. Entre todos, havia uma resistência dos menores em ouvir, e continuavam a quebrar tudo o que podiam à frente.
Para conter o frisson de vândalos, a Polícia Militar, que estava aparentemente com um déficit de pessoal, um contingente muito pequeno para conter a grande massa, começou a lançar suas bombas de efeito moral, assim o gás lacrimogênio se espalhou pelo ar naquelas ruas entorno à Prefeitura e todo mundo sofria com seus efeitos. O cheiro insuportável descia à garganta, as vias respiratórias, fazia-nos chorar. Eram lágrimas junto ao ódio à repressão que nós sofríamos por responsabilidade do pequeno grupo, cuja luta era inconsciente e mais parecia estar em plena festa do horror.
Pessoas corriam, caíam, machucavam-se, enquanto o tumulto no meio do que se tornou na verdadeira praça de guerra, comprometendo a mobilização da maioria. Nós não desistíamos, e voltávamos a gritar os nossos direitos, a reclamar as nossas angústias por sermos tão explorados e enganados pelos que nos representam nos poderes que demos a eles um dia.
Mais uma vez, entre nós, a maioria pacífica que apenas se revolta contra a banalização política em que se encontra nosso país, também existiam os vândalos persistentes nas depredações. A repressão continuava e todos sofriam os impactos do gás lacrimogênio e spray de pimenta.
Enquanto eu estive no meio da multidão, presenciei aproximadamente uns dez momentos de tumulto pela ação policial mais severa. Às vezes, até distante 500m a 1km dali, ainda sentia o cheiro forte do gás, como também escutava o estouro das bombas que a PM jogava no meio do povo. Uma cena terrível, uma trincheira que ora revoltava grande parte de nós pela repressão milica, ora pelo descomprometimento dos maloqueiros que prejudicavam a visibilidade da nossa luta.
Já era quase 21h quando presenciei um grupo de saqueadores arrombando um supermercado na Av. Anchieta. Vi que alguns homens e mulheres carregavam salgados, refrigerantes e cerveja. Faziam a festa, como se a luta desses fosse por uma comida gratuita, pela subversão de invadir uma propriedade privada que em tempos normais é tão vigiadas por homens e câmeras. Assim, entendi que a luta deles é por muito pouco, é inconsciente, sem motivação política, sem desejo coletivo de mudança. Lutam, pra não dizer que vandalizam, por conta de bebidas e comidas, que não podem comprar. Entendi, também, que são infiltrados, pela falta de formação política, vítimas de um sistema que os marginalizam há décadas, portanto compreende que a situação vem a favorecer uma ação criminosa pelas leis que nos regem. Aproveitam o foco do poder que nos controla em cima de conter nossos ânimos por uma mudança histórica e, assim, saqueiam estabelecimentos comerciais, igualando-se a tantos outros ladrões que estão ornados de representantes do povo.
Infelizmente, tive de abandonar o protesto porque não quis correr tanto da PM, respirar seus gases repressores porque o vandalismo pequeno, mas destruidor, incumbe o movimento pacífico de pagar por esses atos contrários ao nosso bem maior. Acredito que esses poucos homens e mulheres sempre estarão entre nós, prejudicando mobilização, mas devo confessar que uma das sensações mais bonitas e saber que estamos reconhecendo equívocos e temos urgência em mudar a conjuntura social.
Atraso
Talvez esteja faltando repertório para prosseguir com um sonho que tive desde criança. Sonhei um dia em escrever exaustivamente e que isso trouxesse um ganha-pão para eu não precisar de pensão. Sinto-me desatualizado com o mundo. Esse em trânsito frenético e eu em desistência de acompanhá-lo. Um amigo agora há pouco me falou que é como cozinhar feijão, uma prática diária, escrever sem tempero não dá. Eu estou insistentemente em um dissabor, esqueço do sal e destempero minha culinária, ela é ruim. Não cozinho só pra mim, já tive vontade de alimentar o mundo.
Desprendi-me das ocasiões oportunas: podia ela ser um curso de gastronomia ou uma realização técnica em construção civil. Não edifico nem a calçada que piso. Fico sem chão a maior parte das vezes. Olho pra trás e percebo que eu deixei de mim todo aquele gosto de café da manhã pra começar o dia. Procuro açúcar em vão, confiando na minha doçura. E me sobra o amargo da tarde e a noite sem cheiro de sono. Passo os dias assim, desqualificando qualquer período.
Comecei a tomar consciência do meu atraso quando não sabia mais o que dizer quando alguém me perguntava sobre algo que no passado eu defendia com vigor. Tornei-me o acaso de todas as coisas, por acaso, porque olho pra os lados e só espero que esses não se tornem mais uma prisão para mim. Estou em dívida comigo faz meses. Não sei o saldo negativo dessa porra toda, portanto é fácil xingar de tudo quanto é baixo calão, meus verbetes de quem resmunga.
Assim, decidi retornar para onde vim. Porque quem sabe ali comece tudo de novo e reconheça o repertório de quem está aprendendo a falar, andar, sorrir... Um bebê chorão que verbaliza em sons abertos, os gritos, a exprimir a dor, a vontade de comer ou a necessidade de chamar atenção.
Já é a hora de partir pro começo; quando se diz recomeçar, minhas mãos tremem de medo. Minhas pernas acompanham, bambas, o temor de ver tudo outra vez para reaprender a se reconhecer entre o mesmo sotaque, sob o mesmo calor, os costumes familiares e a exatidão repetida de aprendiz que insiste a falar seus primeiros monossílabos. Ah, presumo que gente parecida dá mesmo medo do que gigante numa terra de pé de feijão, esse que já não sei mais cozinhar. Não é à toa que a todo instante me pego olhando o relógio pra saber que horas são. Almoçar tem sido a melhor parte do meu dia.
Desprendi-me das ocasiões oportunas: podia ela ser um curso de gastronomia ou uma realização técnica em construção civil. Não edifico nem a calçada que piso. Fico sem chão a maior parte das vezes. Olho pra trás e percebo que eu deixei de mim todo aquele gosto de café da manhã pra começar o dia. Procuro açúcar em vão, confiando na minha doçura. E me sobra o amargo da tarde e a noite sem cheiro de sono. Passo os dias assim, desqualificando qualquer período.
Comecei a tomar consciência do meu atraso quando não sabia mais o que dizer quando alguém me perguntava sobre algo que no passado eu defendia com vigor. Tornei-me o acaso de todas as coisas, por acaso, porque olho pra os lados e só espero que esses não se tornem mais uma prisão para mim. Estou em dívida comigo faz meses. Não sei o saldo negativo dessa porra toda, portanto é fácil xingar de tudo quanto é baixo calão, meus verbetes de quem resmunga.
Assim, decidi retornar para onde vim. Porque quem sabe ali comece tudo de novo e reconheça o repertório de quem está aprendendo a falar, andar, sorrir... Um bebê chorão que verbaliza em sons abertos, os gritos, a exprimir a dor, a vontade de comer ou a necessidade de chamar atenção.
Já é a hora de partir pro começo; quando se diz recomeçar, minhas mãos tremem de medo. Minhas pernas acompanham, bambas, o temor de ver tudo outra vez para reaprender a se reconhecer entre o mesmo sotaque, sob o mesmo calor, os costumes familiares e a exatidão repetida de aprendiz que insiste a falar seus primeiros monossílabos. Ah, presumo que gente parecida dá mesmo medo do que gigante numa terra de pé de feijão, esse que já não sei mais cozinhar. Não é à toa que a todo instante me pego olhando o relógio pra saber que horas são. Almoçar tem sido a melhor parte do meu dia.
14 de junho de 2013
Manipulação midiática no trato de notícias sobre protestos em São Paulo
Até que ponto chega a manipulação do debate, a exemplo da Globo News, no programa Entre Aspas, que está rolou nesta quinta-feira à noite.
Repare, não desmerecendo instituições como o IBMEC/RJ e a Puc-SP, mas levar dois representantes de instituições privadas, de característica predominantemente elitizada, regidas sob o aval da igreja católica, para analisarem os protestos em São Paulo, é uma falta discrepante de diversificar opiniões.
Obviamente, com essas três vozes, a criminalização da manifestação é a via unilateral.
Primeiro, erram no que diz respeito a comparações entre gerações antes e pós-governo democrático. Seguido a isso, sinalizam de forma equivocada que antigamente não havia tanta violência e conseguiam mobilizar maior número de pessoas. Mas, de que violência eles falam? Claro, da parte da minoria fomentada: os manifestantes. Desde quando o período da ditadura militar teve menos danos à sociedade do que os protestos deste mês? E as torturas por parte dos militares? E ações dos grupos anti-golpe militar, como sequestros de embaixador, envolvendo grandes nomes da política nacional? E as invasões a casas e repressão até de livros marxistas sob pena de tortura e prisão?
Voltando aos convidados ao debate, representante da classe média alta, interessada no status quo, com seus lemas em direção à moral cristã e defesa da economia com menos intervenção do Estado...
Estão malhando as pessoas, dizendo que elas não representam os trabalhadores, que são estudantes de classe média. Mas qual o trabalhador tem tempo pra sair às ruas e protestarem, sob o risco de perderem seu emprego que mal dá pra pagar uma tarifa absurda, acima do índice da inflação?
Francamente, entendo toda a manifestação contrária ao repúdio ao aumento de tarifa por parte de alguns espectadores dessa violência urbana: são pessoas que prezam apenas pelo sossego da maior e mais rica cidade do País, sustentada por todos os brasileiros, não só o povo paulistano, porque querem se manter nesse patamar de "a" metrópole brasileira, de tão acostumados com a separação de classes, esse vício que privilegia apenas alguns, segundo o poder de consumo inconsciente.
Quebrou-se, sim, muito de São Paulo, essa cidade importantíssima, mas a capital paulista há muito tempo quebrou o sonho de tanta gente e concentrou olhares; o poder público em sua parceria com o privado, como sempre, não respeita todos os cidadãos brasileiros que ajudam a São Paulo ser a cidade que é.
O dano maior é ficar como estava: sociedade apática, apenas confiando no poder do voto e sendo a todo instante explorada pelos caciques do dinheiro.
Repare, não desmerecendo instituições como o IBMEC/RJ e a Puc-SP, mas levar dois representantes de instituições privadas, de característica predominantemente elitizada, regidas sob o aval da igreja católica, para analisarem os protestos em São Paulo, é uma falta discrepante de diversificar opiniões.
Obviamente, com essas três vozes, a criminalização da manifestação é a via unilateral.
Primeiro, erram no que diz respeito a comparações entre gerações antes e pós-governo democrático. Seguido a isso, sinalizam de forma equivocada que antigamente não havia tanta violência e conseguiam mobilizar maior número de pessoas. Mas, de que violência eles falam? Claro, da parte da minoria fomentada: os manifestantes. Desde quando o período da ditadura militar teve menos danos à sociedade do que os protestos deste mês? E as torturas por parte dos militares? E ações dos grupos anti-golpe militar, como sequestros de embaixador, envolvendo grandes nomes da política nacional? E as invasões a casas e repressão até de livros marxistas sob pena de tortura e prisão?
Voltando aos convidados ao debate, representante da classe média alta, interessada no status quo, com seus lemas em direção à moral cristã e defesa da economia com menos intervenção do Estado...
Estão malhando as pessoas, dizendo que elas não representam os trabalhadores, que são estudantes de classe média. Mas qual o trabalhador tem tempo pra sair às ruas e protestarem, sob o risco de perderem seu emprego que mal dá pra pagar uma tarifa absurda, acima do índice da inflação?
Francamente, entendo toda a manifestação contrária ao repúdio ao aumento de tarifa por parte de alguns espectadores dessa violência urbana: são pessoas que prezam apenas pelo sossego da maior e mais rica cidade do País, sustentada por todos os brasileiros, não só o povo paulistano, porque querem se manter nesse patamar de "a" metrópole brasileira, de tão acostumados com a separação de classes, esse vício que privilegia apenas alguns, segundo o poder de consumo inconsciente.
Quebrou-se, sim, muito de São Paulo, essa cidade importantíssima, mas a capital paulista há muito tempo quebrou o sonho de tanta gente e concentrou olhares; o poder público em sua parceria com o privado, como sempre, não respeita todos os cidadãos brasileiros que ajudam a São Paulo ser a cidade que é.
O dano maior é ficar como estava: sociedade apática, apenas confiando no poder do voto e sendo a todo instante explorada pelos caciques do dinheiro.
6 de junho de 2013
Catástrofe
Um câncer em cada esquina.
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!
O mundo é uma trincheira de quarteirões,
Cada um com sua gangue.
Hostilidade em nome da superioridade
Do seu Deus, seus guardiões .
Que Deus destrua Campinas,
São Paulo, Quixeramobim, Tel Aviv,
Sodoma, Nova Iorque e Gomorra;
Que o terreno de todos se afogue
Em um dilúvio de porra!
16 de maio de 2013
O Abismo Prateado
Entre os fragmentos de sua dor, uma mulher se encontra abandonada pelo marido. Como pedaços espalhados, esses fragmentos emergem num cenário urbano de sons perturbadores e trânsito em contramão. Há lugar de passagem, um luto e um destinar-se a algum lugar, iniciando no resgate, sua busca. A perda é evidente, muito mais nas sensações do que em suas palavras, que estão presas e/ou engolidas pelas sofreguidão e hostilidade urbana.
Violeta, personagem de Alessandra Negrini, no mais recente longa-metragem de Karim Aïnouz, desloca-se num plano exprimido, num close-up nas suas feridas, no que sangra, e rodeada de turvo angustiante sem avais de liberdade, a priori. Existem, ainda, a permanente agonia, pergunta sem resposta, a ligação literal e metaforicamente não correspondida e a dissidência para emergir a vicissitude necessária até alcançar o plano geral.
Baseado na canção Olhos nos Olhos, o roteiro do filme segue as estrofes da poesia de Chico Buarque, em que as sensações daquela mulher cujo marido a deixou, quase enlouquecida, exprime a linearidade do desconforto até o momento de refazer-se.
Violeta, presa no mundo que parecia construir a dois e, em face ao abandono, sozinha - mas numa tentativa de recuperação do enlace - estabelece diálogo maniqueísta em que o bem e o mal travam disputa pós-abandono.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
A protagonista mergulha nos arredores do caótico, aqueles espaços verdes (de cores da necessidade de um alívio) em contrapartida dos ruídos de equipamento odontológico ou de uma construção civil, fugindo da sua ansiedade; e o mal, que reside dentro do que está partido, entra numa regurgitação provocadora de choros intercalados, breves e, uma vez mais, engolidos, como refluxo que vem à tona e depois desce corroendo e expondo o olhar insuportável de quem sofre.
Aos poucos, Violeta, uma transeunte de destino incerto, traça uma linha reta de sentidos que se opõem: do desespero à tranquilidade. Assim, ela toma iniciativa de controlar, através da respiração funda e na contagem crescente e cardinal, seu rumo e recompor-se nesse caminho aparentemente vazio, onde o ludíbrio ainda a remete, algumas vezes, ao pânico.
Quando, então, as experiências fugidias da dentista poem-na nos recantos transitórios como hotel, boate, aeroporto, levando-a a encontrar(se) ou até mesmo despedir-se do sentimento corrosivo por não conseguir permanecer em casa ou exercer seu cotidiano profissional. Então, nesse trânsito contínuo, suas observações e contatos lhe trazem a amplitude do mundo, talvez por soma de espaços e tempo, oferecendo-lhe um movimento com mais autonomia e, sobretudo, ampliando sua abrangência.
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