18 de março de 2018

NÃO HÁ VAGAS

Perdi minhas melhores memórias que eu tinha antes dos meus quinze anos, parece, então, que tenho vivido pouco mais da metade da minha vida, um pouco de cada experiência, se eu pudesse fragmentá-la num contador absurdo. É sério, pois digo que gostaria mesmo de resgatar essa lembrança como um debutante cafona em sua festinha cheia das coisas mais ridículas que consigo imaginar. Há coisa mais ridícula que uma festa de quinze anos? Para mim, não. Eu nem sei porque chamam debutante?
Aos quinze anos, fugi de casa. Roubei uns trocados que minha mãe guardava no guarda-roupas da minha irmã. E também seu cartão de crédito (sem saber a senha). Andei às quatro horas da manhã pelas ruas do bairro à espera de um táxi que passasse pela avenida. Apanhei o primeiro e cheguei até a rodoviária. Naquele tempo era tudo mais difícil para se locomover, mais inseguro, quanto à acessibilidade, e mais seguro, porque a cidade era menos violenta.. Eu consegui embarcar no ônibus das nove ou dez horas, já me esqueci--. Nenhum documento; um menor de idade indo para a capital mais próxima de Maceió, desacompanhado, sem autorização legal, sem orientação, perdido.
Na noite anterior, tinha brigado feio com minha mãe, e, como todo adolescente revoltado, fui buscar os adjetivos mais estúpidos, atirei-os nela por trás de uma porta que me separava de uma boas e merecidas porradas. 
Cheguei àquela cidade em pleno movimento de fim de ano. Seria a passagem para um novo... 
Da janela do hotel que eu consegui me hospedar, eu vi os fogos no céu pouco depois de uma ligação telefônica em que minha mãe chorava do outro lado da linha apenas desejando que eu voltasse são, e preocupada o quanto se pode imaginar, ela fez tudo para que eu voltasse bem no outro dia. Esta foi minha festa de debutante, visto que uma semana atrás - eu faço aniversário numa outra data ridícula -, no dia de Natal. 
Todo Natal estávamos na casa de algum parente, comendo aquele monte de guloseima cheia de uvas-passas; as mulheres mais velhas falando de deus; os homens mais velhos embriagando-se e falando de um assunto qualquer. E ali sempre cantávamos os parabéns. Sinceramente, eu sempre achei patético o dia do meu aniversário. Não apenas o de quinze anos. 
Juro que tentei resgatar as boas lembranças agora, não consigo ver os detalhes, nenhum que me animasse. Eu só guardei os pesadelos da minha infância, uma terapia ainda vai me ajudar a descobrir o porquê disso. 
Dessa data para cá, já me lembro de tudo: veio minha tentativa de ser cristão por decisão até o momento em que ultrapassei todas as tentativas e decidi viver sem pecados.
Foram anos de muito estudos, eu consegui um certo destaque nas salas de aulas por que passei. Gostava de ler e crescia para sair daquela fase e entrar na vida adulta cheio de conhecimento. Eu acreditava, honestamente, que tudo se resolveria quando a mobilidade social fosse fruto de meus esforços intelectuais.
Nunca tinha beijado na boca até os quinze anos, nunca tinha namorado, nunca tinha bebido álcool, fumado, nenhum tipo de droga, nada. Até hoje, todas as experiências foram passadas, mas, foi nos estudos, onde me debrucei mais, com aquela gana de um filho de dois trabalhadores cuja honestidade se transmitia como valor, princípio. Ainda que eu tenha abandonado a primeira faculdade. Eu conclui a primeira; depois dela, especializei-me. Veio a segunda que estou para concluir nestes idos balzaquianos. Socialmente, não movi.
Minha família teve certa progressão financeira na Era Lula. Sim, conseguimos sair de um conjunto de apartamentos populares para morar num bairro melhor; conseguimos algumas conquistas materiais, isto nos proporcionou também a realização de alguns desejos pessoais, muito além da medida de cifrões. Meus pais nunca precisaram pagar uma faculdade minha, porque estudei para entrar sempre numa universidade pública. Para nós, nem tanto mérito, apenas uma responsabilidade de dar o retorno por todo o investimento feito em Educação Básica. A isto, devo todas as honras a perene e incansável luta de uma professora, hoje aposentada, minha mãe.
2018. Estou desempregado.
Amanhã concluo com êxito meu estágio em um hotel, foram nove meses de muito aprendizado. Mas NÃO HÁ VAGAS. Brasil está em crise, e eu ainda não fui atrás de nenhum político para pedir favores, tampouco me apadrinhei dessas maneiras mais sórdidas, nem quero. Talvez porque meu ato criminoso, o mais podre de mim ficou nos meus 15 anos, e lá justifico minha inexperiência com a ética. No mais, estou a procura de trabalho, como milhões de brasileiros que, como eu, quero executá-lo com dignidade. Não me importaria com o esquecimento de coisa que vivi até os quinze... Faria, quiçá, tudo outra vez.

4 de março de 2018

Ano tóxico

Nem tudo tem que dar certo. Não há regra. Nem para mais nem para menos. Pode até parecer o mais pessimista dos meus pensamentos, mas não o é. Juro. É o mais incrível que tenho dado a mim como opção de superar palavras enganosas, promessas vis, ventos que sopram baixinho - sinto até a altura do joelho -, tempestades em copo d'água, lobos em pele de cordeiros, sacrifícios de uma moeda pigando num cano longo e de raio longo a perder de vista, uma indução calma e uma leve pluma ante à coceira agonizante nas costas, que pede unhas firmes, forte, para sanar... Sim, superar é olhar para minhas necessidades e preocupações, ver o quão meus gris, que já foram motivo de vergonha, são resultado de uma meta persistente; à altura da minha cabeça pensante, agora, fazem-me entender o quanto me custaram neste espaço todo de tempo, neste espaço todo de gente, nesta hora sozinha, só eu e o tique-taque de um relógio mental. Minha cabeça continua erguida, cada vez mais tingida de cinza, a andar sobre meu corpo.
Fui e voltei. Fiquei um tempo, depois fui por menos tempo e voltei. Se fico? Não sei. Há apostas para todos os lados: nem para mais nem para menos. Eu aposto todos os dias; são jogos invencíveis quando se tratam daquela linha em diante. Eu vim, vi e venci deste lado de cá. Não foi jogo, não foi brincadeira, não tem mais azar ou sorte. Levo a sério cada lágrima e ainda assim esses sorrisos que me roubam algumas pessoas que permito darem graças ao cotidiano, sabem elas que até rio de mim mesmo. Levo a sério o mundo todo e tenho dele uma parte que me cabe confortavelmente onde não estou ainda. Estarei, sabe-se lá quando. Estarei para mim todo o tempo necessário para ires e vires, tanto faz se confortáveis ou não; situações fazem até mudar a direção de muitas vias minhas. Entretanto gosto mesmo do que balança, sacoleja tudo, estremece e eu sinto tudo sem duvidar se é verdade. Sim, porque a sensação de reviravoltas estremecidas não deixa por duvidar. Sentir é mais que tudo, para que argumentos?
Na verdade, sou um homem simples de anseios sofisticados. Argumentos ficam apenas nos meus sonhos. A realidade mostra que, nem maldito nem bendito, sou apenas este que comunga da pragmática cada vez mais comum para quem viu algumas teorias ruírem. Procuro corroborar só para sentir um pouco mais o sabor - pode ainda agridoce ser - da certeza. Não há degustação melhor!
Cultivo bons modos entre meus semelhantes: regras da casa, eu respeito. Se for a dos outros - sempre foi, nunca tive uma todinha só para mim - é uma honra poder entrar e sair de cabeça erguida. Não por orgulho, mas por saber que lá estive e que, certamente, ao convite a voltar, serei bem-vindo. Boas-vindas nunca vão me esconder em porões. Por sinal, sala de visitas pode ser até o quintal, um jardim ou um cantinho no coração que bem-me-quer. Coleciono relações, gosto de pessoas. Das quais não gosto, exercito ao máximo a indiferença. Por que elas vão me incomodar por muito tempo se não preciso cultivar desgosto até minha melhor idade? Chegarei ali? Bem, estou aberto sempre a convites. Aonde quer que eu vá, saberei que sou o mesmo homem disposto a melhorar, a incrementar algo mais... sobre excessos, vou eliminando aos poucos, como um corpo excreta para desintoxicar. Apenas o útil, o necessário e um pouquinho de paciência; eu estou no caminho.
Pode parecer um pouco confuso, mas aprendi com uma leitura que é melhor ser exato e prateado. Ouro em meio à inexatidão é mesmo como dois passarinhos voando. Tenho aqui o meu à mão, não em cativeiro. Seu canto sempre entoa para que eu acorde e esteja pronto para cantarmos juntos, cada qual no seu tom. Todo dia, uma canção; posso, se gostar repetir a mesma em alguns dias interruptos. Hoje, um dia a mais; poderia escrever sobre um dia a menos, mas é a mais, sempre será, porque contagem crescente foi tudo que me fez adulto e vivo. Estou reabilitado; já não acho. A certeza, como disse, é a melhor coisa. Todas as outras dúvidas, a gente inventa, para crer em algo sem nada concreto, voltaria à época de teorias e muitas delas falharam.. Há quem goste, não é problema meu. Tão bom viver aproveitando apenas o contexto... Pois é claro! O corpo excreta o que não serve, ainda que precise forçá-lo a isso.

PS: Impossível não me lembrar do meu último texto, totalmente o contrário desta ideia. 
Desvio de rota, de rotina. Um beijo.

18 de fevereiro de 2018

Briga de cão e gato

Quando começo a sentir cheiro estranho fuça adentro, do homem rancoroso e amargo que me tornei, igual cachorro desconfiado, de raça de origem duvidosa, arrepiam-me os pelos da alma e expiro a má sorte de novamente farejar estranhezas malditas, como também pretextos que o azar impõe em suas faces brandas. Diz-me logo o equívoco de tua casta! Sou o ouvido imperfeito, embora atento, mas, quanto ao ofato, de longe alcanço o faro canino, porque só me restou, em pé de igualdade, a desconfiança, já que me traiu o apurado cheiro de outros animais. 
Não sou tampouco da família dos canídeos, e, aliás, prefiro felinos, que, embora pérfidos - se há doze anos conheço o meu filhote adotivo, não fujo à expertise de um pai convicto -, são bons exemplos de caça e bote à hora certa. 
Quando tentei domesticar-me nos silos profundos da consciência, ficou um pouco da minha selvageria nas garras aparadas por pequena ética; sim, a etiqueta que minhas senhoras passaram em graus evolutivos até quase agora, próximo ao lobo que em alguns anos me tornarei, faz-se polido mais que o necessário, até; no entanto, ensino bom me vem às pressas da fome, da sede e duma fisiologia medonha, fico pulando nos galhos, entro no dilema de uma briga de cão e gato, porém sempre preciso suprir a necessidade prioritária. Não há aura, embora brisa boa mata dia a dia minha confiança em sortilégios, venho a ser humano em dois minutos de garantia. Espiritualista da casa dos sem-paz, recuso-me a recorrer às fontes de bênçãos enquanto encho minhas mãos com o estoque para o resto do dia. Fome não mais passo, pelo menos por ora; e a sede, ao me encontrar em nervos à flor da pele, tal qual um gato lambendo todo o corpo, sacio, de verdade, a boca seca de sorrisos roubados. Quanto às outras necessidades, costumo dormir algumas horas e esperar o tempo delas.
Desta vez, encontro em estado de ronrono. Aproveita a calmaria da noite e já chegue fazendo um carinho na pelugem, pois aqui até que veio a aragem para encerrar a circunstância. Se eu latir, não me leves a mal, um pouco de esquizofrenia me coube como instinto de defesa, fingimento e própria estima. Preserva também este ambiente de boa vizinhança, porque as cercanias estão tão incrédulas quanto eu e todos os bichos sempre vão entrar no modo de sobrevivência... A que ponto chegamos! Não gosto de especular esta qualidade, ela seria como o sentimento que dizem por aí: alguns de nós pressentem a chegada de desastres naturais. Dá medo só de pensar o caminho até o fim sem arca alguma para que todos nós caibamos de uma só vez, ao menos um par de ímpares. Mas esta história passa por mitos que eu nem vou me alongar; voltaria ao idos da minha última fé e duvido grandemente que saíamos menos ilesos do que a cadeia natural já nos legou. De qualquer forma, ainda bem que acredito na evolução das espécies, pois não é à toa que estive sentado alguns minutos refletindo sobre este dilema todo de ser apenas um animal, qualquer um que seja.
 

15 de fevereiro de 2018

Poeira

Ana Beatriz,

Estava aqui pensando como falar de muitas coisas para ti, uma menininha de apenas cinco anos, a quem, por devoção e único amor sem propósito desta década advém como uma avalanche de razões para que eu siga em frente neste caminho com algumas curvas sinuosas, faz-se de tão pouco, que ainda tenho a contar nos dedos alguns outros motivos, tudo que é motivo para não caber algum mais.
A última vez que chegaste a mim e perguntaste sobre "aquela conversa que só nós dois conversamos", eu tive que te falar que não era mais o momento, e que deixaria para outro dia. Um abraço encerrou o dia em que, quando vais, já não há mais o turbilhão de amor in loco, e volta o "ai", de tanto repetido, deixa-me em dúvida pelo ditongo decrescente, em que eu poderia acrescentar o acento agudo e transformar no hiato que me separaria da dor e me levaria aí, ao teu lugar, este que encontro todas as maneiras, razões menos breves, cada detalhe de um ser e, como se não bastasse, a sinalização do caminho que uma velha amiga chavista continuamente me diz pa'lante y naa'mas. Sou afeito às línguas, já sabes, com minha a feroz e, sempre, entediada serve de busca tua para me pedir treino de novas palavras. Eu simplesmente encho o peito de alegria ao saber que confias em mim e me tens como um mestre das coisas tolas, das brincadeiras cibernéticas e da seriedade que pouco a pouco já estás entendendo.
Esta noite pensei em explicar de uma forma mais lúdica sobre poeira e pedras, para que saibas que  grãos, quando há coalizão, podem ser objeto para que sobre o tempo, ou uma folha de papel, faça o peso, segure, confluam ou divirja, mas, jamais, colida. Posso te ensinar a tacar a pedra longe, ou percebas a força dela sobre o papel e até diferenças. Posso pedir para que guardes, em tua própria necessidade de um dia ter o peso junto às tuas mãos cada vez mais fortes, e te defendas.
Só que, linda menina, eu preciso parar e pensar melhor como explicar na efemeridade da poeira, se solta ao vento, mas que tão reticente ou resistente, possa significar, como um maniqueísmo simplista, ir incrédula ou ficar para soprar aos olhos cruéis uma cegueira repentina. Incomodar é um dom de poucos; acho que é o teu, mas no bom sentido. Incomodar para tirar mais do que um vento pode soprar e acusarem trivialmente o destino, a quem costumam dar conta de resolver toda a situação, dando-lhe apenas a competência sem nos deixar contrapor. Põe-te, aqui, sempre que quiseres contrapor algo, estou a ouvidos ansiosos para escutar tuas razões pequeninas, mas saberás um dia de qual poeira que falo. Sabes, os grãos numa mão aberta cheia de vontade pode fazer milagres desses que em minhas três décadas ainda não vi. E porque fechei a mão, tenho o porquê, querida: ainda não quero te acenar em despedida. Essas mãos fechadas minhas guardam a poeira dos meus dias em cada terra por onde andei, trouxe um pouco de pó do chão, pois sou de terra.
Minha língua sempre há de dizer muitas coisas, sabendo que confias. Vamos, então construir muitas tempestades, vamos causar litometeoro, desconstruir algumas ideias desaguadas, lamacentas, escorregadias, porque, já faz tempo, percebi o quanto és filha da terra, poeira incômoda nos olhos estúpidos de um bocado de ignorantes.

10 de fevereiro de 2018

Caeté

Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté. Estes desejos excessivos que desaparecem bruscamente... Esta inconstância que me faz doidejar em torno de um soneto incompleto, um artigo que se esquiva, um romance que não posso acabar... O hábito de vagabundear por aqui, por ali, por acolá, da pensão para o Bacurau, da Semana para a casa de Vitorino, aos domingos pelos arrabaldes: e depois dias extensos de preguiça e tédio passados no quarto, aborrecimentos sem motivo que me atiram para a cama, embrutecido e pesado... Esta inteligência confusa, pronta a receber sem exame o que lhe impingem... a timidez que me obriga a ficar cinco minutos diante de uma senhora, torcendo as mãos com angústia... Explosões súbitas de dor teatral, logo substituídas por indiferença completa... admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às miçangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos, que depois risco...
Diferenças também, é claro. Outras raças, outros costumes, quatrocentos anos. Mas no íntimo, um caeté. Um caeté descrente.
Descrente? Engano. Não há mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar em
artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram!
Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo - uma estrela no céu, algumas mulheres na terra...


Texto extraído de: Caetés, Graciliano Ramos

9 de fevereiro de 2018

Cuide de você

Sophie,

Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a “quarta”. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as “outras”, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e “generoso”, se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu “desassossego” se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as “outras”. E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide de você.
G

Texto reproduzido de Prenez Soin de Vous (CALLE, Sophie)

30 de janeiro de 2018

Convida

Alguma justificação precede mentira
Ela, novamente, advinda da culpa,
Reafirmada com tantos porquês,
Para quê? - pergunto eu - se não te peço,
Se não creio em pecado, então não peco,
Mas me perco, cá, em um por cento,
Quase nada, nada ou até um terço.

Metade de mim, que já foi a fim,
Chegou ao fim, intranquilo, perdido de mim;
Metade de mim que se foi, ali;
Encontrado num despropositar,
E propositalmente, depois, recomeço
Encontrando um cuidado de outro "e se..."
Sobram de mim duas metades que já sei juntar .

Sou inteiro, verdadeiro, ainda que omisso,
De quando em vez, eu meço milimetricamente
Meu juízo de trinta e seis responsabilidades.
Logo neste janeiro que custa acabar
E fevereiro chegar: para ver outro mês?
Para vir outra vez, o completo de mim,
Para me ofertar a mim e a quem mais?

Neste mundo de uma cidade só,
Da minha cidade; do natal do ser que escreve
Em si as linhas para que leiam:
Avulso, interessado, interessante, determinado
Deus, diabo, coisinha confusa, sem-glória;
Ser diferente de mim e com sua história.
Amanhã nunca será tarde para ouvir e menos falar.

Ganhei grande presente esse dia, sei lá qual foi...
Mas só de ser presente, estar presente, já é muito mais,
Já é muito melhor que passado e culpa.
Futuro, já não sei se: janeiro, fevereiro, março...
Dia chega sempre para viver mais um.
Não quero nada mais que isso:
Após hoje, deito, e amanhã vem outro.
Eu já espero que outro venha. E vou convidar.

25 de janeiro de 2018

Ela sempre vai entender

Minha adorável criança, me permita ser piegas, me deixe desnudar de minhas vestes sujas do dia em que lobos devoradores morderam meu corpo inteiro e que os sapos degolados esperando se afogarem no sangue de suas próprias gargantas dentro da minha garganta, obrigada a os engolir de fé e de propósito, balançaram meu estômago, como de praxe. Tudo hoje me fez esquecer a gramática normativa, mandar se foder a fundamentação taxativa, deixar a língua ferrenhamente choramingona entre meus dentes rangentes de dor e um pouco de piedade de todos nós; um dia qualquer feito um traço a lápis, naquela folha arrancada do meu caderno onde apenas você escreveu meu apelido, nunca mais será qualquer coisa feita. Nada está pronto. Minha pequena galáxia de mundos completos de coisas que brilham da sua luz neste coração esplêndido. Eu quero misturar o mais puro cacau ao leite da pedra que estava no meu caminho da quarta-feira e adoçar com minhas lágrimas que derramam o amor que cresce em mim cada dia por ter uma nova amiga crescendo e olhando, viva, nos meus olhos... quanta graça a vida sem merecimento e eu ganhei você de presente até no dia em que só pude retribuir sua grandeza com meu enorme abraço e goles de chocolate, pois já cantaram que dele o amor é feito. Há espaço de sobra para que você caia livre e vá de uma a outra ponta das mãos neste território que abro a você com meu caminho de toda vida: cabe você e só você sabe o calor verdadeiro que ninguém talvez tenha experimentado. Vou acordar todo dia com esta vontade de ouvir qualquer coisa que você diga, e responder a qualquer pergunta que você faça, deixando sê-la singular a mim, no plural de todos nós, diversos nós a desatar com a força das nossas mãozinhas. Estarei sorrindo no dia que você queira me fazer uma "trollagem", menina, pois eu adoro quando você fala dessas tecnologias banais emprestadas à fala, como o sujeito mais importante da oração que me nego a repetir desde alguns anos atrás, eu, eu talvez às vezes me esqueça de mim, mas jamais de você. Se eu me calar por necessidade no momento em que o silêncio foi apregoado pelo arauto da sala de estar, não estando... Então virá gás que dá entusiasmo, me fará respirar seu cheiro bom, sentir a cabeça doer e ainda me render a lhe dizer algumas palavras doidas. Não seja apenas uma princesa, por mais linda que esteja posta no castelo, mas saiba que os braços continuam abertos, na casa simples, mas que pode saber que é sua e jamais irá à leilão, nem cobiçada por quem não vê que o rei está nu. Casa minha e sua; nosso lar é maior que uma bíblia inteira de promessas caducas, de nojos que indesejados ventos sopram ao seu ouvido. Quero com você deitar, agora, ouvir sopros de sonhos que, na verdade, nunca morreram, mesmo que tenham me matado três dias seguidos. Eu sonho por nosso carinho inocente, pois não sou pai, sou irmão em nosso conceito de alma densa e plena, tipo, polos atraídos de tudo que for grande e nada nos alcance. Quem quiser invadir nosso terreno que suporte, então, seu próprio peso sobre esse chão que só nós dois sabemos de que matéria se constitui. Pisa com força, miúda moça; torça comigo, que eu oscilo, mas nenhum abalo sísmico fará que eu desista de mim e de você. Nunca. Tá entendido, Bia?!

16 de janeiro de 2018

"Nesse cansaço da vida que passa por mim"

Ah, se acreditas ainda em alquimia, sorte a tua! Azar, mesmo, é estar na Medievalidade, onde a mística converte toda a sua sabedoria a fim de te prometer um derramamento dourado sobre tua vida cor de sabe-se-lá-o-quê! Teu destino é viver neste legado até o fim dos dias: banho-Maria. Limpa-te de toda a bijuteria presenteada por umas declarações momentâneas, à oportunidade valorosa da joia rara a qual está a pouco centímetros de uma miçanga.
"Não há almoço grátis", pensei nisto esses dias, até pelo teu trabalho te pagam para o compromisso imediato, para que tenhas à mão este escambo de papel ou plástico com um chip que, se tiveres sorte, vem reluzente e enganador, como tudo que reluz, sempre. Podes pensar nas pérolas, nas pedras preciosas ou no tesouro onde piratas há tempos esconderam dos donos obcecados e um tanto quanto danosos, tais quais os piratas, os sacerdotes eos alquimistas. Quem sabe ainda agradeças a Constantino por alguma coisa interessante para a posteridade, no caso, agora.
Se fores mais detrás da pedra filosofal, descobrirás que és um tribal metalizado. Esta obsessão constante, até antes de Constantinopla, por brilho, porque brilhar tem sido o sinal mais coerente desde a invenção do fogo. Dele, a luz veio para fazer sombras dos mitos, inebriar uma caverna inteira ou queimar senhoritas pagãs, um tempo depois, sob égide de um conhecimento materno de minha própria língua, esta última flor fascista com a qual fui doutrinado, dos escritos do Malleus Maleficarum Maleficat & earum haeresim, ut framea potentissima conterens, um assassino tão fascista, sexista, machista, racista, periculoso e opressor quanto a língua sobre a qual Barthes ensaiou. Ainda que eu falasse iorubá, como um nagô vencedor sobre o português escravista que aqui invadiu, matou também o tupi-guarani, disputou com a menos evoluída do Lácio na Península Ibérica, e nos deixou marcas além da nossa comum próclise, no português brasileiro. 
Qual seja o livro que reja uma vida rija de fonte, de contos e alucinações... Que tal acreditares que Davi derrotou Golias, mas hoje ninguém consegue derrubar Temer ou sair ileso após às dezoito horas? O cansaço da vida passa por todos os caminhos físicos que um sobrenatural aí criou ou, contradito, na Seleção Natural, que afinal, finda na mesma hereditariedade que me impôs a língua portuguesa para sobreviver ou pedir um x-burger antes de ser devorado por uma reprodução diferenciada. Antes que seja "voilá", haja  "top" entre nós para entender melhor Darwin. 
Amém? Saravá!

8 de janeiro de 2018

Feminino

Luciana,

Perdoa-me este sono tardio, perdão também por um português meio arcaico, que já me julgaram purista da gramática, como sabes. No entanto eu precisava escrever-te algo assim, do jeito mais debochado do fundo da minha arrogância quase morta para os confins de uma união de mais de uma década em que nos reconhecemos sempre um no outro da forma diferente que somos mas convém amar a diversidade desta maneira que nós tanto conversamos.
Pensar no feminino, sem consultar o substantivo sagrado, por fazer valer a força que ele tem em grande valorização, a me fazer pensar na minha mãe, na minha irmã e na minha sobrinha; a fazer continu; continuemos assim no meio deste trânsito oposto todo a soprar tanta estatística oprimente às mulheres, e também aos homens afeminados, por trazerem do gênero feminino características que, por aí, costumam dar menor valor no mercado, no antimercado, em todas as facetas que os negócios se nos chegam com um disfarce terrível e devorador, com o resumo a palavra "preconceito".
Sei - e nunca vou discordar de ti - que o patriarcado, junto às moedas de troca, tem feito de nós pessoas mais ansiosas e problematizadoras, porque é urgente. Porque dói e, sobretudo, mata. Na violência que pode começar com a voz e terminar nos atos de crueldade contra todas os sufixos geralmente terminados por "a". Já notaste que quando fazem dos grupos, quando a língua se refere a eles, deste último, mais comum, a fazer das aglomerações, de pessoas ou coisas, o substantivo masculino? Sejam eles, novamente eles, advogados, bandidos, monarcas (ainda que termine com a letra "a"), empregados, desempregados, servidores, mesmo que seja 99,99% mulheres e 0,01% homem, o gênero sempre será o feminino numa ditada e promulgada por: homens. Continua, Luciana. Mesmo que te bata o medo do assédio, da violência, fazer parte de uma estatística medonha, que denuncia ao passo que nada muda. Queima este sutiã todos os dias! Abra a boca com um bom "caralho!" pronunciado, ainda que te digam quão feio é um palavrão sair da boca de uma mulher. Fala como uma mulher, pensa como uma mulher e resiste sempre, porque é o que nos resta e eu me apoio sobre tua causa, que me carregue ela pelos caminhos de um homem melhor que eu possa sempre me tornar para meus... digo, minhas queridas pessoas - para usar o feminino - das quais neste últimos dias foi à tua presença que conversamos sobre futilidades, amenidades, mas nunca esquecemos das verdades políticas, nosso compromisso, por pensar e querer pensar sobre - e sim - em demasia, porque fica tarde em 2018 ainda estarmos em sei lá qual ano mental nesta sociedade! Eu sei que a dor de ser homem, nem sei se ainda usam o termo "terceiro-mundista", portador de várias dificuldades; poderia elencar todas elas e desnudar a real pessoa que sou, mas acadêmica, a palavra-símbolo de nosso orgulho, faz na gratidão que olhamos pelo retrovisor da vida e sabemos que somos hoje, balzaquiano e balzaquiana, eu, cá com minha melancolia de sempre, respiro um pouco nesta terra onde o calor me sufoca e me faz suar, querer um pouco de ar fresco sem o ter, sob efeito de dois miligramas de dignidade furtada da minha mãe. Sinto meu corpo descansar numa madrugada quente, sinto minha mente relaxar forçadamente. Sim, celebrando o teu sono anunciado duas horas atrás, venho cá, preencher-te numa caixa de texto branca com as ideias fluindo, cada vez mais lentas, desejar-te serotonina, continuação e parceria, uma tríade do gênero feminino para que alcancemos, quem sabe, não todo o fim de uma luta que já se arrasta com sangue, esôfagos cortados, cenas de estupros, mais estatísticas do governo e outras situações às cegas por muita ignorância aplaudida e cantada pelo próximo hit de carnaval que trará o evento mais uma depreciação em festa do corpo e da alma de uma dama. Fevereiro é já, já. Mas são vários dias do ano além de momesco letal, pagão e perpétuo nos mesmos erros.
Eu vou me deitar e pensar em ti. Neste dois dias em que, na minha solidão em casa, deste tua companhia tão inteligente, provocativa e risonha, mas com os dentes a ranger com este ódio que comprometido está em minhas ideias que articulam a produção dos meus sons, no aparelho fonador, e nos dedos nervosos, que já se estressaram com rasos conceitos e sentimento, a completar e inciar o oitavo dia do anos 2018 com o símbolo infinito para a luta da finitude dessas questões que nossa companhia tanto partilhou do meu e do teu coração em confluência. Para todas as ideias, continuemos o fluxo, mas jamais por nada nem tão pouco, tampouco repetir olhares turvos às vítimas que se alinharam ao patriarcado e deixaram de viver, comigo e contigo, outro conceito muito além da felicidade de uma publicação numa rede social.
A guerra é para estar bem; a felicidade, já sabemos e deixamos para quem mergulhar no mercado que lhes vende e embrulha para presente um mimo de ignorância.