29 de setembro de 2009

Notícias da Babilônia


Eu acho que todo mundo merece uma dose carioca na veia, bem radical. Embora não seja de família real, o império da vaidade flui em qualquer batepapo, com resquícios de sotaque nobre português associada à escorregadia vocalização de um 'aquê' e 'aê' tão gostoso de ouvir. Ai, o Rio...

Um passeio pelo passado, bem anterior àquele por que me baseio no que vivi para o que vejo pela frente. O que na verdade, fez-me, diante à Guanabara, às vezes, ter o desejo de ainda estar com quem ficou para trás e ver o que de mais atrás se deixou sobre o solo da França Antártica de outrora. No entanto, a perfeita companhia, fez-me importar com o presente, presente fluminense. Ai, o Rio...

Disse e repito, o frevo já era, porque de franco que sou, observei que, na Lapa, havia um pouco de cada canto do mundo, seja na música ou na comida, mas o jeito carioca conferia genuinidade às coisa tão comuns aonde você for. E isso fez o novo som entoar e um grande ritmo acelerado no coração. Ai, o Rio...

Capitania real de uma vaidade exacerbada em cada sorriso. Na outra esquina, a capital do vicerreino do Brasil, lembrando as aulinhas de história da professora Bernadete. Um passo à frente, a capital da colônia, por ora, dos corpos provocantes e de um funk, antes reprimido em mim, que se libertou e foi até o chão, ao gosto de Itaipava, na boa... Ai, o Rio...

Ai, o Rio ficou me devendo o dragão tatuado no braço, o compasso do samba, os braços abertos do Cristo, de perto, e o esperto aperto de braços... o laço que ali ainda se fez a fim de que eu volte e veja que o rio corre para o mar de coisas que eu ainda vou provar. Há de ter para confundir as línguas, mostrando-me o outro janeiro. melhor do qual preciso esquecer.

22 de setembro de 2009

À procura do berço esplêndido.

- Que carinha mais pra baixo! Disse Lugarinho, à constatação fática.

Nem todos os dias nossa cabeça se inclina na direção upstair.

Ontem, minha mãe interrompeu meu jantar com um telefonema preocupante: sua costante preocupação em saber que tudo está em ordem e progresso. A senhora do lema positivista em tempos de decisão, que carrega, no peito e na saudade, as poucas palavras da bandeira nacional e todas as palavras possíveis de quem ainda tem muito a dizer.

Receber conselhos, sermões experientes, transferência bancária e "eu te amo" nas entrelinhas é satisfatório, mas não menos doloroso. Este cuidado especial a que nos acostumamos sem poder acomodarmos permamententemente no útero metafórico, de lençóis de seda materna: conforto e proteção.

Nas estantes, vestidos de tecido áspero e necessário para consulta "sempre que precisar" há uma grande proposta, inúmeras respostas e o "esqueça e vá estudar", ecoando. E a pedrinha no sapato, incomodando, como se ela citasse de mim a razão de querer up the downstair, e conferir minha cabeça mal inclinada:

Não sei se aqui ou acolá é meu lugarzinho! Respondido, Lugarinho?

20 de setembro de 2009

O que restou de Paco Agnus


Foi quando Paco Agnus se encostou no lado direito da cama que o nada a ver pareceu inerente à via de suas dúvidas, tantas delas, sem as respostas imediatas de que ele tanto precisa.

Paquito, jovial, começou a perceber os cabelos brancos que se multiplicaram, denunciando um semestre perdido na esperança que ele arrancou de olhos vendados das velhas alfaias que colaboram aos macacatus. Baque solto, como solto à queda, caindo, sem direção. Pacón, sentia-se pela instância idosa dos sinais vaidosos de necessidade vã. Quantos Pacos haviam ali? Não sabia, não queria saber. Paco que nos anjos acreditava, crucificou as crenças nas letras garrafais, nos textos livres e na literatura envergada ao bel prazer. Pois, sim, agora, põe-se a escrever, descrente.

Amada Negrinha,

Desde muitos dias, estes sóis me trazem rugas, apenas. O tempo me é uma agressão. Faz frio aqui e a luz brilha torturosamente. Olha, que a noite nunca foi tão agradável desde aquela última que me telefonaste para avisar que a rua estava calma, e na porta, dentro do automóvel, desejavas ouvir meus desejos de boa noite e queixas de saudade. Eu, a imaginar que minha voz perfurava o imenso silêncio do dorminhoco Capibaribe. Rio-testemunha do nosso segredo desapropriado à uma metrópole esquisitamente debochada das minhas dores de hoje em dia.

Olha, mulher ingrata, eu daria tudo para me embebedar do teu sorriso, mas sorris para qualquer um moço, desses fartos que existem por aí em tua agenda a sete chaves, para que tua mãe não saiba quem és na intimidade. Soube por vago pressentimento que agora tua vida é o ápice-querendo-um-pouco-mais, em que me excluis da subida, sem desejo de olhar abaixo. Não estarei ali, estimada. Nossos parâmetros de medida são diferentes desde princípios. Preferes os robustos, encorpados, peludos e vadios. Prefiro os dotes de quem me rouba sorriso ou lágrimas de falta fazer. Queres a opção nos leques e nos catálogos da desavergonhada luta de canibais famintos. Eu quero prioridade de uma dieta rica de apenas um lugar.

Eu tenho andado tanto, negrinha trabalhadora, a buscar o serviço das gentilezas. Visitei as praças que tantas negras poderiam ser tu. Ainda de longe, não as dei a posição que ocupavas. Os garanhões e temidos amigos dizem que o macho fraco sou eu; quem chora por falta tua. Aconselham-me provar outros temperos e texturas.

Eu tenho me iniciado no teu caminho sem vergonha e alguns resultados são positivos, se à noite não me recordar de pedir a Deus pela tua alma insana, que busca santidade na cultura popular, na religião não praticante ou nos editais do teu sonho de consumo.
Semana que passou, eu mesmo não aguentei após uma oração em que pedia, ao pai, tua felicidade, quando me questionei qual vingança eu poderia ter após tua sacanagem, ó, mulher!

No entanto, minha boa alma não congrega com essas revanches banais. Aí eu chorei. Aquele mesmo tolo de sempre, que enchia teus ouvidos de poesia desvalida, no final das contas.
Depois de tanto tempo, o resultado das abstenções foi essa sequidão no meu peito e o olhar que avalia todas outras como putas que encantam como canto traidor de Ossanha.

Então, visto hoje meu terno mais bonito e saio por aqui a rir dessas meretrizes da modernidade, que saem com um e com outro em troca de status, um suvenires ou a pequena morte, tão cultuada.

Então, no fim da noite, eu já embriagado dos entorpecentes lícitos que a minha vida de prazeres fugidios me proporciona, eu sento à mesa, cansado, de tanto em pé observar as mal pagas. E na mesa, que te falta, dói-me. Negrinha dos meus saudosos meses, conseguiste o que querias?

Hoje, eu não acredito mais nas mulheres porque todas elas são que nem tu e teus muitos nomes. Mulheres que apenas mudam de nome.

Paco Agnus.


Em tom de despedida; mais umas rabiscadas, apaziguando terrorismo literário que pouco lembra os dias agonias que sua negra lhe trouxe, Paco amassa o papel para que o mundo não conheça o fim da picada e a peçonha que hoje corre no seu sangue.


Imagem: capturada de http://saudealternativa.org/wp-content/uploads/2008/01/veneno_small.jpg

1 de setembro de 2009

Felina Metáfora

Enquanto você era meu,
Eu me doava mais.
Faz-me uma falta danada
E eu nem sei mais quem sou.
Achei outro sentido:
Você dorme cegamente
E eu vivo.

31 de agosto de 2009

No topo dos edifícios, edificando.

Etapa 1: Alicerçando.

Há um silêncio maior que da voz que não calou todos os dias.

O homem que observou o ritmo cosmopolita e fez da voz interna, quase esquizofrênica, seu guia. E pouco se ouvia dele. Havia mais para saber do que ensinar na curva transversal, de súbito.

Deixou ardor mensal na natalícia de sua grande ironia. Acabou o player. Excluiu arquivos. Disseminou "até breve" sem saber a data de retorno. "O bom filho sempre a casa volta". Voltou com muito a dizer do que se ouviu.

À volta, um ardente passado e breve ressurgiu e, como nova lei, optou calar. O frevo de fevereiro agora é vão. Toda intenção e esforços desperdiçados à lembrança faculta - nem bom lembrar. Não teve mais vontade de chorar porque o último suspiro não lhe causou um lapso, mas meados de verdades foram vistas de alguém que não quis mais ver. Cada um que opte pela cegueira porvir. Atrás não há nada o que mais ver.

Agosto, encerrando seu derradeira nascer do sol.... À noite que vem e, com ela, o adeus sapateia até o instante em que a penumbra só espera duas metades da cortina se encontrarem, em uma só. Espetáculo foi ver o céu no limite cabível e saber que há tanta coisa que transita sob nossas cabeças mal inclinadas. [Olha para cima, cabra da peste!] Veja, também, que abaixo tudo é pequenino e manipulado: máquinas, cimento, desenhos de criança do jardim em natureza latifundiária, com resquícios do intocável e não arrendado pedaço de chão. Confuso, não? Então, faz como tal e observa.

O chão é limite para quem quer descer. Entretanto, tudo é viés. E por isso que a gente sobe e desce, vai e vem, conta a morte e escuta; um dia será acorde da canção. É tão bom viver o que não é óbvio e mesmo assim querer fazer previsões. Melhor ainda é olhar que as ruínas são apenas objeto da história e que a geografia lança o homem à nova altitude em edificação.

De volta, vai...

5 de agosto de 2009

Bem-vindo eu?

Aquela moça na fila do restaurante não acreditou nas minhas sinceras desculpas por encostar a mão no bumbum dela. Eu estava ali para almoçar, não para apalpar o corpo alheio. Bem... se ela não acreditou, o problema não é meu!

Comer por aqui é um eterno dilema: tanta coisa boa, tanta opção que causa dúvidas. A alternativa de vida dietética entra em crise, mas, por enquanto, que venham os pratos cheios e que eu consiga saciar minha fome de conhecer!

Fora as muitas cores dos pratos, há diversas cores de gente; lembrei-me da piada boba que na adolescência questionava o ponto amarelo no meio do 'nada'. Estive algumas vezes me sentindo tal qual o trocadilho humorístico: uno milho.

Sundae e água mineral, picanha mal passada, prova cabal de conhecimentos gerais, poluição para respirar, lixo [tanto lixo] pra ver, frio, calor, frio, calor, frio... queda de 6ºC num período de 2h. Saída de um hotel que tenta ser menos frio (não conseguiu, tá?!) para o lar da família: minha tentativa mais poderosa de me sentir em casa... se minha mãe não se cansasse de ligar para sempre ratificar que estou mui bem.

Assim, de vez em quando, eu me sinto tão... sei lá... 'firmeza'?! 'Meu'...

Ôxe, tô bem!

28 de julho de 2009

Por ser brasileiro, eu assino embaixo.


Eu nasci brasileiro, filhos de pais nascidos em território tupiniquim; não posso ser diferente, mas hoje, tenho orgulho disso. Não é mais uma vergonha ser brasileiro nato, cheio de minhas peculiaridades. Minha nacionalidade é de causar inveja, dito isso, o texto abaixo, explicaria melhor:

"A inveja é um sentimento básico no Brasil. Está para nascer um brasileiro sem inveja. A coisa é tão forte que falamos em 'ter' - em vez de 'sentir' - inveja. Outros seres humanos e povos sentem inveja (um sentimento entre outros), mas nós somos por ela possuídos. Tomados pela conjunção perversa e humana de ódio e desgosto, promovidos justamente pelo sucesso alheio. Nosso problema é o sujeito do lado, rico e famoso, que esbanja reformando a casa, comprando automóveis importados e dando 'aquelas festas de tremendo mau gosto!'. Ou é o sujeito brilhante que - estamos convencidos - 'tira' (rouba, apaga, represa, impede) a nossa chance de fulgurar naquela região além do céu, pois residindo no nirvana social dos poderosos (mesmo quando são cínicos e fracos); dos ricos (mesmo quando pobres e sofredores); dos belos (mesmo quando são feios); dos famosos (mesmo quando são fruto promocional das revistas e jornais); e dos elegantes (mesmo quando são cafonas), estariam acima de todas as circunstâncias.

Estou seguro que não é o patriotismo mas a inveja, o sentimento básico de nossa vida coletiva. Para começar a gostar do Brasil, tínhamos que invejar a França, a Inglaterra, a Rússia, a Alemanha, a Itália e os Estados Unidos. Era, sem dúvida, a inveja que nos fazia torcer pela queda do Brasil no tal abismo de onde ele sairia melhor do que todo mundo. Antes do sexo, o brasileiro, tem inveja. Ela antecede a sensualidade e o erotismo, sendo básica na formação de nossa identidade pessoal. Você sabe quem é, leitor, pela inveja que sente todas as vezes que encontra o tal 'alguém' que, pela relação invejosa, te faz sentir um bosta: um 'ninguém'.

Como as nuvens em volta das montanhas, a inveja se adensa em torno de quem é visto como importante, de modo que, ser invejado, é equivalente a 'ter poder', 'charme', 'prestígio' e 'riqueza'. Dizem que a inveja é perigosa, mas o fato concreto é que não há brasileiro que não goste de ser invejado por alguma coisa. Pelo salário, pelo poder, pela beleza, pelo sucesso, pela inteligência e até mesmo pelas sacanagens, injustiças, calúnias, e descalabros que comete. Num seminário recente sobre 'Ética e Corrupção', eu disse que é justamente a vontade de ser invejado que descobre os corruptos. Pois diferentemente dos ladrões de outros países, que roubam e somem no mundo, os nossos são forçados pela 'lei relacional da inveja' a retornar ao lugar natal para mostrar aos seus parentes, amigos e, acima de tudo, inimigos, como estão ricos e, nisso, são denunciados, presos, soltos e finalmente colocados no panteão cada vez mais extenso dos canalhas nacionais. Dos infames que comprovam como a inveja e o desejo de ser invejado é o motor da vida brasileira.

Minha tese é a de que até a canalhice é invejada no Brasil. Richard Moneygrand, o grande brasilianista, escreveu no seu diário filosófico, Voyage Into Brazil que: 'Para os brasileiros, um dia sem inveja, é um dia sem luz. A inveja confirma a idéia nacional do sucesso para poucos, como antes confirmava o berço e o sangue para a aristocracia e a superioridade social para os funcionários públicos e senhores de engenho. Todos a condenam, mas ninguém pode passar sem ela.'

A inveja, digo eu, é o sinal mais forte de um sistema fechado, onde a autonomia individual é fraca e todos vivem balizando-se mutuamente. O controle pela intriga, boato, fofoca, fuxico e mexerico é a prova desse incessante comparar de condutas cujo objetivo não é igualar, mas hierarquizar, distinguir, pôr em gradação. O horror à competição, ao bom senso, à transparência e à mobilidade, é o outro lado dessa cultura onde ter sucesso é uma ilegitimidade, um descalabro e um delito.

O êxito demarca, eis o problema, um escapar da rede que liga todos com todos. Essa indesejável individualização tem mais legitimidade quando vem de quem já está estabelecido. Daí ser imperdoável que Fulano - 'aquela figurinha' - o faça, destacando-se pelo disco, novela, livro ou empreendimento desse mundo onde todos são pobres e miseráveis por definição e por culpa do 'social'. O pecado mortal das sociedades relacionais é justo essa individualização que separa o sujeito de uma rede hierárquica. Rede que nos persegue neste e no outro mundo.

Como, então, não sentir inveja do sucesso alheio, se estamos convencidos que o êxito é um ato de traição a um pertencer coletivo conformado e obediente. Como não sentir inveja se o exitoso é aquele que recusa ser o bom cabrito que não chama atenção e passa a ser o mais vistoso - esse símbolo de egoísmo e ambição? Ademais, como não ter inveja, se o sucesso é um sinal de pilhagem de um bem coletivo? Essa coletividade que, entra ano e sai ano, continua a ser percebida como mesquinha, subdesenvolvida, pobre e atrasada? Como um bolo pequeno e que jamais cresce, destinado a ser comido somente pelos que estão sentados à mesa?"

E por ser brasileiro é que eu assino embaixo, mas logo abaixo do nome dele, que tanto invejo!

Texto incidental: Você tem inveja?, de Roberto DaMatta
Imagem: capturada de Goyco Design

21 de julho de 2009

Dia Mundial da Amizade

Ontem foi a data comemorativa do Dia do Amigo. Recebi algumas mensagens SMS e alguns amigos desejaram um feliz dia no espaço virtual. Fico muito grato a todos que se lembraram de marcar essa data com uma mensagenzinha! Então, lembrei-me de um e-mail que, certa vez, alguém muito especial me enviou; um poema simples, mas uma bela mensagem. Infelizmente não sei quem é o autor(a)...

AMIGOS E LIVROS

"Devemos buscar amigos como buscamos livros.
Acertar na procura.
Não exija que sejam muitos,
Mas que sejam fiéis.
Não exija que tenham boa profissão,
Mas, sim, bom coração.

É triste a pessoa que não pode buscar livros
Por não saber lê-los.
Mas é ainda mais triste aquele
Que não pode buscar amigos
Por não saber conquistá-los.
É triste a estante vazia por falta de livros,
Mas é ainda mais triste
O ser humano oprimido por falta de amigos.

Os livros nos tiram da turbulência da alma,
Nos fazem refletir sobre grandes acontecimentos,
Mas o amigo converte tormentas e tempestades
Em chuvas de sentimentos.

Não podemos chamar de rica
A pessoa que tem livros,
Mas podemos afirmar que é mendigo,
Aquele que não tem amigo."

Imagem: Maurício de Souza

17 de julho de 2009

O Alagoano do Mundo


Não se sabe, ao certo, o que vale mais nesse jogo de valores. Eu tenho batido na mesma tecla durante vários anos de busca incessante por alguns bons momentos coletivos, onde dois são suficientes para interpretar. Eu saio apostando as cartas que tenho nas mangas, nos limões azedinhos que eu provei com sabor de melancias, doces e suaves. É como cantou Cazuza sobre a sorte de tal amor, com o sabor que a fruta oferece ao mordê-la para saciar fomes mais profundas.

No começo do pesado ano de decisões e sensações de últimas cartadas, eu vi tanto exemplo de coisas ausentes em mim. Eu queria aquelas que não eram minhas, eu pedia um pouco de doação. Eu doava meu cesto frutífero e ouvi dizer que eu não era um ovo a se misturar em cesto tão nobre para não quebrar os outros, tão frágeis. Então, indaguei a fragilidade de um sentimento. E as respostas vieram em safras pequenas, sazonais e eu via, assim, um pomar se transformar em objeto de coacla, onde soava um "vai tomar..." bem educadamente. Não, não era uma crise existencial minha! Era 'sei lá o quê!' que me fez ressurgir no poleiro alheio, com a impetulância de me achar 'o de ouro', quando não era.

Amigos 'mais ou menos', com suas aspas circunstanciadas me fizeram valer em um consumo que eu não mais queria. Amigos oniscientes da minha repetitiva prosódia, lamentosa e lamentável, ouviram, às vezes, calados e outras tantas, incisivos e incertos do terreno da incerteza. Ai, o mesmo cara com seus dramas e sua mania incansável de acolher o primeiro fruto tirado da árvore pecaminosa! Ai, ais de tramas e traumas! Aí, eu vi o tempo correr e as linhas do meu Trabalho de Conclusão de Curso percorrer por outro caminho que eu inventei para protelar mais uma vez sabedoria que os mestres e doutores leem tese. Síntese de alguns anos graduados na academia de poucos alunos. Antítese que veio no final do percurso, com uma decisão de um Supremo Tribunal que acolheu os bons dotes, em forma de lobbies, reduzindo o valor de um papel proficiente da sonhada mobilidade social.

Seriam vãos os anos se eu não acreditasse que a melhor ciência aprendi com a soma de tudo: o Marcinho a falar de sexo no intervalo da aula, a garota insuportável cujo nome mantenho em sigilo para não polemizar - mas ela ainda deseja acumular seus diplomas... para exibir suas belas formas em classe? Onde está seu cérebro, uai?! Os amigos que deixei na lembrança de trabalhos em grupos e os que levei para as atividades extracurriculares, bem pessoais a discutir o amor, o sexo, a música e brindarmos pedacinhos de nossa história em qualquer banco que não seja da Universidade Federal de Alagoas. Renatinha, agregada à Comunicação Social, exercida lato sensu e em senso comum... das Letras para nosso ciclo de comunicadores de enredos próprios e polivalentes. Quantos talentos descubri nas faces de muitas cores, no arraso da beleza de Luciana, no quintal de Déa Elena e Oliver para juntar os pedacinhos de acadêmicos e formar o nossa universalidade, a tonfa do Gabriel que virou piada minha no aniversário de sua dama... ILBS, que virou sigla para alegorizar nossos sorrisos descontraídos! Olha, a Sandra eu vi ontem para matar saudade de suas mil e umas dúvidas e tormentos; ela me pareceu muito bem, obrigada!

Fora essas recordações, têm as novas experiências para agregar à minha futura lembrança dos últimos dias na terra natal. Eu volto, talvez brevemente, quem sabe demore mais, quem sabe, quem sabe me diga?!

Esse último mês para esquecer trincheiras do norte mais leste, de povos e invasores, de tanta cana-de-açúcar, meu Deus! Os latifúndios que eu sempre recordo, associando às minhas viagens a Recife dos canais e rios, de outro amor, de outra dor, de alguns amigos que ali reconheci. Ah, esse julho próspero, tão nervoso, doloroso e ensurdecedor dos gritos que só eu escuto nas batidas do coração que reclama uma paixão fervorosa, talvez caprichosa para ocultar outro discurso e enveredar pela mesma semântica, como quem passeia pelo canaviais a fim de lembrar que há doçura em matéria prima, e revelar a Cazuza que amor tranquilo pode ser saboreado no caule, sem mesmo alcançar à altura onde está a fruta que a vida colocou mais alta para selecionar espécies.

Julho que me trouxe a pancada no ego inflado que subestimou uma nobre figura, de álbum novo. Eu vi a carne tentar o fraco. Eu ainda assim subestimei a carne, reduzindo-a à carne e só. Carne do corpo que comovia minha testosterona, como apelo ao último prazer com nome e sobrenome nesta terra onde minha mãe gerou seu fruto.

Aqueles olhos desejosos passaram a ser o olhar e desejo de olhar mais vezes. Aquele tronco virou o cheiro lembrado pela cama que denuncia e intima a memória a funcionar. Aquele beijo parece, agora, o gosto que eu subestimei sentir por mais de uma semana até que enjoasse. Mas não. Dei-me conta de que minha satisfação começa na matéria, mas sempre termina no epicentro das minhas sinapses, causando turbilhão de sensações muito além (leia-se profundo) da epiderme. Minha vocação, assim, é essa mesma, de acumular os talentos descobertos e abarrotá-los na cavidade mais preciosa do meu peito canalha.

Aí eu cuspo a nicotina para que meus beijos sejam bem mais saborosos como quem acabou de comer cajá e pé-de-moleque. Diga-se de passagem, que um dia alguém falou que tinha gosto de tapioca recheada da orla da Jatiúca, bem próximo à Praça Vera Arruda, criminosa, dos nossos atentados ao moral dos mirins que ali circulam e brincam entre os narcóticos que aproveitam o policiamento escasso e suas liberdades acorrentadas a alucinógenos.

Eu só queria ver mais uma apresentação de coco-de-roda, escutar o máximo que posso o sotaque dos meus afins, porque hei de ouvir novas variações linguísticas, de me aprisionar no trânsito mais louco, e ver um azul mais cinzento, de olhar o relógio com mais pressa, entre tanto concreto e garoa cotidiana até que eu apague a luz de onde dormirei e volte a sonhar com meu lar materno, a ouvir as queixas de D. Sônia, a receber as ligações do Leandro (aproveitando a promoção da Tim), a ver o brilho nos olhos de minha irmã ao requintar seu novo e conjugal patrimônio, a descobrir as coisas em comum com o amigo Roosevelt, e todas as outras possibilidades que eu tenho dentro do meu mundinho cheio de olhares críticos e meus monólogos reclamantes do baú que um certo mané me intitulou musicalmente.

Não estou abdicando meus desafetos nem meus laços de fraternidade. Vou priorizar uma tema que há muito tempo deveria ser mais importante em detrimento da vida mansa, da fala mansa, do 'bem ali' que eu chego logo. Fazer meu nome, como dizem os egocêntricos - sim, eu tenho minha parcela de culpa! -, cogitar novos odores de metrópole, vivenciar oportunidade de visionário retirante, construir paredes mais fortes para que o lobo ocioso não desmanche com seu sopro, cavar, alicerçar e levantar vigas de profissionalismo, aprender com os privilegiados do 'melhor mercado', ensinar gírias das Alagoas e o que acreditarem ser comum de qualquer habitante do planeta. Enfim, quero voltar com o sentimento de saudade da terra onde se pisa com mais firmeza e certeza de amiga mão à queda e, sobretudo, voltar para encher o peito do ar que o amor de muito tempo já é solidificado, para gozar das minhas férias já sonhadas no seio e celeiro de meus primordiais ensinamentos.