20 de setembro de 2019

Ficou faltando o abraço

De manhã cedo, o despertador em cima da cabeceira da cama soltava um estridente "bom dia". Não tinha cinco minutos de soneca que coubesse na agenda e lhe desse tempo suficiente para terminar aquele sonho maravilhoso das férias em uma das 115 ilhas paradisíacas de Seychelles. Raquel não conseguiu mais uma vez mergulhar no mar. Chegou perto desta vez. A água ainda tocou seus pés, mas o alarme interrompeu o passeio completo. Café em alguns minutos, enquanto tirava a preguiça do corpo embaixo do chuveiro, pronto. A roupa separada em cima da tábua de passar que já fazia parte do mobiliário para o final daquele dia. Veste-se. O gole de café; a mordida no pão dormido. A comida do Nino solta na tigela. O olho no relógio: o ônibus estava a dez minutos da sua parada. Um bochecho rápido pra tirar o gosto amargo da pressa. Corria, subia no coletivo lotado. Chegava ao escritório, uma pilha de papéis para organizar. Olhos atentos, leitura infinita. Acabou. Uma hora de intervalo para esquentar o almoço e dá uma olhada na vida da Maria, do Paulinho, do Tonho e da Silvia - pelo telefone -, enquanto mastigava a sequidão do alimento que já cansou de choque térmico. Comida estrebuchada: da geladeira, do sacolejo do pote na bolsa, depois na geladeira da firma e, finalmente, o aquecimento em razão da radiação eletromagnética de 2.450 MHz. Depois dali, lavar a boca, os dentes, a cara, a coragem, tudo limpo do pescoço pra cima. Retocava o batom. Novamente, a bancada e dois terços dos papéis sem carimbo, sem revisão, passavam pelos olhos atentos em buscas das imperfeições tão indesejadas pelo homem lá de cima, aquele do "bom dia" tão curto que tinha o adjetivo engolido com a velocidade do almoço no refeitório.
Outro sonho permissível nesta parte do dia, era que os ponteiros do relógio rodassem com a velocidade do almoço, do "bom dia" do Sr. Heitor, do banho da manhã e da impaciência do telefone que a todo tempo não parava de tocar. Às vezes, ligação por engano; na maioria, não: eram prazos e cobranças e mais pressa, a mesma desejada para que o relógio marcasse as seis em ponto. Seis em ponto. Dezoito, melhor dizendo. O suspiro que só vinha de vez em quando, na copa, com os goles de água ou café, ou a vontade em última instância de ir ao banheiro para não retardar o compromisso.
Compromisso às dezoito e quarenta e cinco, no mercado da rua transversal, para comprar a ração do Nino e uma porção de coisas que, numa passada de olho dentro do armário, faziam falta. Não deu pra comprar tudo no compromisso de hoje. Duas sacolas nas mãos: melhor para o bolso e para o peso diminuído no caminho entre algumas esquinas, o ônibus de volta para casa.
Raquel sabia que tinha pouco tempo à noite. A louça pedia limpeza. O Nino pedia comida e limpeza porque cagou a casa inteira sentindo falta dela. A roupa para passar, na tábua de passar que era mobília permanente no cantinho da sala. Saltou do ônibus às pressas. Que mulher apressada! Enganou-se e saltou três paradas antes porque a soneca interrompida pelo solavanco do coletivo fê-la acordar com medo de ter passado muito além de casa, mas muito antes de chegar na tão sonhada Seychelles da manhã passada. Não tem mal! Caminho extra pela avenida do bairro, tempo que não via a Silvia desde que ela arrumou esse romance com Matias, e seu dia de folga na semana era a ele dedicado. Mas tinha o balcão do café - abismo do abraço de há muito sentido - separava o hiato dos dias, pois havia o Matias, outros compromissos, uma viagem insolente, de repente, para fazer outro abismo na rotina.

- Raquel! - surpresa danada nos olhos da Silvia e o nome à boca resumia todos os últimos quatro meses em que restaram likes e alguns comentários nos dedos, aos intervalos das duas.

- Silvinha, me faça um café bem quente! - o incidente de três paradas antes fazia valer todo o sorriso e reencontro.

Uma conversa intercalada, com o café quente, pedido de um novo cliente, o abismo do balcão, o bêbado chato a importunar dois acidentes de percurso e o tempo confuso e mais a desculpa que toda a gente simplifica nesses tempos de "vou ver aqui e, qualquer coisa, aviso!" Ainda tinha o Nino com fome e todo tempo que se passe resultaria em mais bagunça pela casa, por ciúmes, por saudade. Todas as pessoas e bichos sentem saudade.


- Silvinha, que tal este fim de semana trazer o Matias aqui? Preciso conhecê-lo, mulher!

- Pois é... Domingo, Sr. Manuel me deu folga, mas o Matias quer me levar para conhecer a tia preferida dele, em Penedo...

- Ah, quanto tempo que não vou a Penedo!

- Tia Amália está muito ruinzinha do fígado, coitada, tive que suplicar essa folga para vê-la.

- Será bom para ela...

- É. Será.


Foi só um beijinho com o balcão no meio das duas e a promessa de "vamos nos ver" e "precisamos colocar os babados em dia", porque Nino já deveria ter feito algazarra por todo o chão. Porque a fome de um gato e mais a saudade fazem coisas irracionais, prejuízos reais. Coitado. Um gato safado, a companhia dela até a hora do fim da novela e o sono chamando. Fim de mais um dia.
Foi só abrir a porta, Nino já foi esfregando o rabão peludo nas pernas, o miado que cobrava atenção. Havia xixi no chão; tinha mijado fora da areiinha.
Primeiro, limpar aquela bagunça de gato. Depois limpar aquela louça da manhã, da noite de ontem e da manhã de ontem e talvez de anteontem. O cheiro de lavanda, deita lavanda pela sala inteira, desinfeta e mete o cheiro de coisa limpa, mas a limpeza pesada, só sábado à tarde, depois do expediente. E o corpo dela, há muito descuidado, ficava para o fim da etapa da limpeza, tirar a pressa do dia, o calor do dia, mas olhava pelo basculhante o céu fechando e parecia que a chuva iria ajudar a refrescar o fim de noite. Ainda bem. Atrasou tudo, a novela já começava, o banho estava demorado para tirar a inhaca de gato fedido que mija a casa toda. E faz ainda uma doce companhia para os dois blocos finais da telenovela após comer toda a tigela de ração novinha, desta vez com sabor de atum. Hummm. Gatinho fedido, safado, deitado no sofá pedindo cafuné na cabeça.
Lá fora a chuva já derramava a água sobre os telhados de fibrocimento. Aquele barulho que tinha que colocar o volume da televisão no cinquenta para poder ouvir melhor. E o sono que era maior? Raquel só precisava de cama, com o tempo fresquinho lá fora, talvez com a ventania, sonhasse com uma escalada na Cordilheira dos Andes. Ela era dessas, que sonha alto.
De manhã cedo, o despertador em cima da cabeceira da cama soltava um estridente "bom dia". Desta vez, não tão claro porque a chuva já durava mais de oito horas. O céu cinzento; chuva grossa, mesmo, parecia que a roupa por cima da tábua de passar teria que, por cima dela, levar aquele casaco guardado com cheiro de naftalina. A bota arranhada, mas a única que tinha. Traje completo. Banho às pressas. A pressa de ontem e também de anteontem. Ração do Nino na tigela, lixo amarrado com toda a caca da noite passada, o gole de café e a mordida no pão dormido. O pote de comida na geladeira, separadinho em sequência dos dias da semana. Hoje é quinta-feira. Uma quinta-feira de um temporal que deixou as ruas tomadas por um rio de água e lama.
"Vai atrasar tudo, ferrou, perdi o busão!", pensou ainda contando três minutos para a condução passar. Quis correr, mas a visibilidade não era boa; a calçada, escorregadia; correu assim mesmo, escorregou. Bateu a cabeça no chão e a condução veio bem em cima dela. Foi o sonho que na noite passada fê-la acordar às três da madrugada, suando num tempo chuvoso.
Foi o descanso do dia. Amanhã, a notícia triste do jornal. A saudade do gato seria por quanto tempo? E a bagunça como seria? E o hiato infinito na vida do gato vestido de fome e saudade; e o abismo que terá no abraço não dado pela Silvia, pela Maria, pelo Paulinho e pelo Tonho. Ainda tinha o Matias, que não a conhecia.

6 de setembro de 2019

Gato sem aperreio

A materialidade se joga à minha frente de uma maneira impressionante, corresponsável e com a permissão que dei, ao suficientemente claro, de falar comigo. Falo de exatidões com a licença poética de uma interpretação pessoal, que só minha sensibilidade - a mais importante - pode me salvar. De olhos fechados, perceber a existência das coisas, ao tato, poupa-me de tempo perdido e me faz ocupar espaço obtido. Não há, aqui, aceitação de garantia dada por terceiros. Quando passa do primeiro, a probabilidade de o ruído ser maior aumenta consideravelmente. Portanto, um agnóstico muitas vezes guarda opiniões para si, e isso não faz dele de todo insensível às coisas, por exemplo, sem forma física. Não recorre à prefixo "meta", nem se apoia em transcendências, tampouco se volta para si para explicar noções. Creio nisso como caminho do equilíbrio. Esse blá-blá-blá tem fundamentos contra o egocentrismo ao passo que refuta também sobrenaturalidades. Existe? Pronto! Quem disse? Conta quem demonstra! E, depois, um ponto para evitar até Terceira Guerra, digamos assim: o ponto da paz.
Quando resumo à coisa, uma incrível palavra que cabe em qualquer entendimento sem precisar de uma definição exata, já estou afastando, ao improviso, a existência daquilo, por sua vez, formatado. Amplificações - sem passar o limite ao encontro de charlatanismos - da necessidade de encaixar coisas, a tal precisão absoluta, tecnicamente invisível, conforme explicou Clarice Lispector, de forma tão bonita, falando da verdade e da perfeição. Então já começo a ficar coisado para aquém e para além de mim, significado mais simples sob quaisquer circunstâncias, sem querer muito aperrear.
Tudo bem, eis aqui um homem aperreado, com a humildade possível de reconhecer aperreios. E já vou avisando que estes não causarão guerras; pontuei a paz linhas atrás. 
No Nordeste brasileiro, o verbo aperrear veio do espanhol, que também foi nosso invasor e deixou esta herança linguística. A origem de aperreado está na palavra perro, que em espanhol significa cachorro. A qualidade do aperreado, assim, literalmente é ser alvo do ataque de cães. Isso porque os ferrenhos espanhóis que aqui desembarcaram atiçavam cães ferozes contra nativos, a fim de assustá-los e fazê-los devorarem vivos os pré-colombianos.
Talvez meu medo de cães venha de uma prática muito antes de eu ter existido e, como se sabe, a genética é poderosa e talvez minha geração saiu passando esses genes de tal maneira que, hoje, sou este homem aperreado em busca de equilíbrio. 
Em contrapartida, desenvolvi uma paixão imensa por gatos, os bichanos divinamente cultuados por uma civilização muito mais antigas que os castelhanos colonizadores da América. Estou falando dos egípcios, que cultuavam os gatos para que pudessem conter a praga dos roedores que ameaçavam a tão próspera agricultura, além de transmitirem doenças.
Diferentemente dos cachorros, que foram domesticados e perderam suas principais características primárias e, como dito antes, foram adestrados inclusive para assustar pessoas, os gatos, apesar de sua vida doméstica, preservam as funções primárias e nunca foram exatamente domados. É um excelente caçador, por instinto. Esse comportamento deu aos felinos uma característica bem peculiar. Atacam apenas sob ameaça ou necessidade de se alimentar. Lembro-me de certa vez meu gato atacar um passarinho que se debatia na varanda. Neste frenesi, representou uma ameaça e foi logo tragado pelas unhas e dentes do meu bicho. O senso de coletividade fez de mim, segundo entendi novamente ao ler um artigo, o porquê de eu ter sido presenteado com aquela caça. Quando coloco seu alimento na tigela é como se eu tivesse repartindo minha caça com ele. Portanto, normal que ele venha dividir a sua comigo. Não existe o ditado egoísta para esta relação: "farinha pouco, meu pirão primeiro". 
A noção de companhia fez de mim ainda mais entusiasta da criação. Companheiro da casa, até hoje tenho um gato de 16 anos (quase 17). Até hoje. Este percurso natural da máquina viva encerra-se no ciclo, quando não da intervenção acidental, seu tempo de vida. O senhor felpudo, ademais de ser um paciente renal, teve diagnosticada metástase pulmonar. O sofrimento tem se arrastado por muitos meses, os sintomas são os mais dolorosos possíveis para mim, avalia para ele. 
Então, na data de hoje, autorizei a eutanásia, de coração partido, porque a saudade de um companheiro de longa data só me traz um aperreio imensurável. Outro aperreio é entender que a dor do outro é maior que a minha. Com a racionalidade que me distingue do instinto selvagem, sem esperar em sobrenaturalidades a postergação de um ciclo que já se encerra, considero na memória textual a expansão do significado de estimação. Um adeus é, talvez, um aperreio do tamanho que se dá à sensibilidade, mas o descanso sempre será o maior dos equilíbrios e, certamente, a tradução mais perfeita da liberdade que o amor nos traz.

2 de setembro de 2019

Fundo do poço

Lá ao fundo estava eu, todo vestido de dor, como quem não quisesse ser esquecido na imensidão. Mas, na verdade, eu não queria, à altura, coisa alguma. Eram muitas cores, coisa bem repartida, não consegui ver direito, mas era aglomerada em nuanças, no mínimo, pareciam dois grandes grupos. Escutei algo, lembro-me de alguns nomes: Joana, Alice, Manuel, Pedro e outros. Também havia o cachorro que andava manco, um passarinho que se debatia com a asa partida nos cantos que nos cercavam, o mendigo cantarolando - sem nome e já esquecido pelo povo -, muita gente, mesmo. Havia um ar seco que fazia pessoas tossirem, o ar que entrava e saía, circulava por ali, às vezes escurecia e parecia uma densa fumaça. Ela se espalhava. Continuei no meu silêncio habitual; abri uma garrafa de água com gás e bebi com toda força da sede e necessidade de borbulhas, sei lá: no estômago, no sangue, nas extremidades do corpo. Um arroto, uma falta de educação, uma reação física muito comum. Talvez um drama de etiqueta fizesse, além da cor da minha roupa e do som do meu corpo, o ruído daquelas caras feias cheias de julgamento. A gente era um monte de descrente, crente, número, indivíduo. Era o serviço de inteligência do mundo e o desserviço por birra, uma grande contradição. Precisava de líder: um sacerdote, um jurista ou presidente? Mas era, como sempre, mais gente metida nesta confusão. Essa cavidade não parava de encher. Luzes, sei lá, flashes, selfies, risos, mensagens instantâneas, fake news... uma mistura de tanta coisa e tanta coisa parecida. Uma cavidade dada por escrutínio.

20 de agosto de 2019

Grinalda de Cana-de-Açúcar


Não sou genuinamente vilã, como pensam, senão uma pária dentro do latifúndio. Soube-me então esta digressão, minha rota do lado de fora, embora as rédeas do caminho se atêm ao interior, sempre quis meu império íntimo, no mínimo. Manipulei o próprio sangue nos olhos e, dele, fiz o arranque. Quando foi o sangue menos denso e dissipado, entretanto, coube-me a primigênia dos Zero, que se fundiu do pai – José Zero – um lavrador orgulhoso, cujas mãos calejadas nos alimentaram precariamente, pelo corte da safra gramínea, com a mãe, Dulcineia Zero, que sempre arou os poucos metros onde nos enfiávamos, sendo apenas genitora, esposa e devota a todos. 
Depois de mim, veio a Dandara. Depois dela, foi-se todo o útero de minha mãe, entregue a Iemanjá, pelas dançantes taieiras nas terras sem encruzilhadas, onde balançam canas-de-açúcar ao vento alísio. Ah, esse sopro úmido escondendo as lágrimas de nossas perdas diárias que se confundem com o orvalho das manhãs de São Miguel dos Campos! Às noites, eu ia e vinha de Maceió, para que eu pudesse me tornar bióloga.
Um dia, diminuíram os cortes de cana, a renda parca ficou ainda mais escassa; os cortes nas verbas da universidade, em contrapartida, cresceram. Eu só tinha uma opção. Então um vendaval forte e sinuoso me fez voar para a Europa Meridional, para iniciar meu doutorado numa instituição portuguesa. 
Houvesse música para esta etapa da vida, seria um canto védico, ainda que eu seja uma latina soprada ao Velho Mundo: “Esta planta brotou do mel; com mel a arrancamos; nasceu a doçura (...) Eu te enlaço com uma grinalda de cana-de-açúcar, para que me não sejas esquiva, para que te enamores de mim, para que não me sejas infiel." Rompi o esteio miguelense, conforme o sopro eventual de alguns anos e dois graus conferidos. Aportei no Porto, bem diferente da minha vila. Não havia deuses nos quais me escorar; era um bocado de semideuses ostentando um currículo impecável para me formar doutora, não bastasse ser a única alfabetizada de uma família campesina. 
Numa noite de festejos nas Galerias de Paris, ruas boêmias da Baixa do Porto, um moço astuto, grosseiramente destituído de finura, que, ao me encontrar, numa celebração de conquistas, desdobramentos de outros descobrimentos mais legítimos, disse-me:
– És a mais linda meio preta dentre as estrangeiras! – com toda liberdade de uma vileza sem punição, solta como gabo inocente, mas tão incômodo quanto àquele sorriso que encantava.
– Olha, sou toda preta. Cem por cento. Mais do que esta noite com as luzes oponentes. – sentenciei minha verdade com brio de consciência. 
– Não me leves a mal, há piores... Digo eu, estou impressionado com tanta beleza em um tom mais escuro com o qual normalmente me impressiono. – continuou a me insultar com tudo o que lhe faltava de galhardia.
– Qual o motivo de não gostar da nuança de minha pele e achar que está impune ao me insultar por seu desgosto? – perguntei para que, no mínimo, tivesse consciência de um crime. 
– Não estou a dizer que não gosto. Estou a dizer que me impressiono justamente porque, à partida, eu, ao que me conheço, nunca fui tão surpreendido por tanta beleza. – ele mudou o tom e parecia querer se redimir da abordagem estúpida.
– Não há vingança em que me apoie que vá abaixo dessas palavras. Bom divertimento! – finalizei sem querer desculpas ou perceber aquele sorriso como redentor de todos os pecados da colonização.
– Peço desculpa. Eu sou o Marcos. Não te deixarei ir sem saber o teu nome. – insistia numa conversa que já começou com imprudência.
– Tudo bem, Marcos... Boa noite! - catei seu nome para jogar no próximo lixeiro à frente.
– E não me vais dizer o teu? – uma licença para formalidade após o desastre que só lhe salvou o sorriso.
 Foi o primeiro choque cultural. Ele riu. O sorriso me deu ódio, paixão e a necessidade de desconstruir muitas coisas que há séculos já nos condenavam. Foi quando já vinha com um copo de vinho na mão e mais um pedido de desculpa.
– Meu nome é Dulce, antes e depois da preta que você achou melhor do que outras. – minha paz naquele instante engoliu numa só dose o armistício. 
– Espera lá! Isso não é cachaça! Não é assim que se bebe... – Marcos me advertia a moderação.
– Não bebo cachaça. Este foi o gole para afogar o que restava solto na trincheira. – como me importasse com as guerras, como visse o sangue na cor de um copo transparente, concluí o primeiro de muitos copos. – Agora você vai cumprir nosso acordo de paz! – então saímos em busca de cachaça.
Ficamos a noite inteira no intercâmbio diplomático. Marcos bebia caipirinha; eu, vinho do Porto. A todo instante ele se desculpava pela péssima maneira de querer me elogiar. Segundo ele, era um elogio. Eu, entretanto, já tinha vencido outras batalhas; ele se apoiava no bairrismo de pertencer à cidade invicta. Criamos ali o escambo alcoolista. Por este encontro inusitado, infeliz no começo, levou-nos, ao final, sem muito me lembrar de como chegamos até meu apartamento, talvez mais alegres, pacíficos. 
Quando a claridade invadia como um inimigo declarado de guerra entre povos, o sol na cara e a vontade de beber água, a mais gelada que houvesse. Tinha dormido com um inimigo? Ou acordado com dois. Contudo não me senti sitiada. O oceano muito escondia a minha vergonha; a terra firme de outrem me dava segurança de um assédio convertido à cumplicidade. Introduziu-me o prazer de novos deuses, libertou-me dos meus demasiados pudores femininos. A partir de então, noites e noites em que Marcos me bebia enquanto devotávamos risos pagãos... Poucos meses me fizeram ser a diáspora nagô, caeté, ameríndia, qualquer mitologia. Um passeio à nau sobre águas turbulentas que um racista capitaneava ao dispor de seu sorriso conquistador, pelo mundo afora em toda Península Ibérica. Poderia ser o inimigo declarado, mas se fez companheiro.
Foi um naufrágio que nos levou ao fundo do mar, o mundo me levou com mais um sopro irônico da vida. Os ventos da insistência me fizeram brisa marítima, levando-me das águas para o continente, outro: o meu, mais ao Norte, como um vento contra-alísio, do Oeste. A convite do meu orientador, entrei em mais um movimento brusco. Quase em linha reta, atravessei o Atlântico para estudar sacarose com outro viés. Deixei um lugar, um acidente de percurso pela farsa teórica das raças. O prazer de um só povo e o prazer de um só corpo... Separaram-me novamente com o golpe frouxo do destino. 
Havia por toda Europa e, agora, os Estados Unidos da América uma ameaça. Sacarose em excesso, era a suspeita. Sacarose sempre foi o meu Norte, desde lá no Sul. Tudo que estudei, o quê nasceu praticamente comigo, como eu também fosse feita grão duro de açúcar, um dissacarídeo composto – uma molécula de glicose e uma de frutose. Uma preta mascava, úmida, solúvel, escura, distante desses cristais brancos pelas etapas de refinamento. Finos e impuros. Não menos doces, fusões.
Dra. Gupta, a endocrinologista chefe da equipe, já me dava a credencial assim que desembarquei em Massachusetts. Primeiro, vinha ZERO, em caixa alta; após a vírgula, Dulce, meu nome de registro; abaixo um código de barras com uma foto três por quatro no canto direito inferior. E do lado esquerdo, uma pequena bandeira, indicando o país de origem. Era meu cartão de ingresso ao laboratório, preso a uma fita azul que punha em volta do pescoço e o crachá que ficava sobre o meu dorso.
Ela me guiou até o meu alojamento. No caminho, a doutora me explicava que “já está descartada a hipótese de um novo tipo de diabetes”.
– Então qual a hipótese, doutora?  
– Um vírus, Srta. Zero! – foi categórica. 
Ao chegar à porta da residência, senti como se as velhas fuligens das queimadas escurecessem todo o brilho que apostava na vida, admitia a opacidade dos meus deslocamentos. 
– Descanse e amanhã teremos tanto para conversar. – despediu-se a morena de olhos grandes, a mulher poderosa, um exemplo para mim. Mas nada, nesta situação, fazia querer ser como ela.
Nem desfiz minhas malas, já deitei no sofá, com a cabeça a mil, o peso de toneladas de pensamentos necessitando do suporte; não havia espaço para sonhos. Uma viagem que confundia todas as minhas batalhas. O vento que vinha da janela me fazia lembrar os movimentos que me levaram aqui e acolá. “Uma menina que saiu de um canavial”, pensava! Agora estava numa trincheira ainda maior, sem vitórias nem derrotas. Pensei o quanto caminhei escorregadia tentando me agarrar em tudo. Por querência; um punhado de sobrevivência; algo de ímpeto; ciência para luzir. Perdi todos os meus deuses em tormentas de um só oceano. Algo perdido desde o início, portanto nunca ganhado. Pelas distâncias em que a vida me sacudia como uma catapulta, nunca estive tão perto de tudo. No máximo, assistia de cima, ou por baixo. Não sabia mais das minhas escolhas e garantias ou da semente germinando no coração daquele tripeiro deixado num Porto de um homem com medo. Tinha sido essa a razão de sua piada de mau gosto, tal qual a forma como foi criado e jamais me levou para conhecer seus familiares, refinados cristais brancos, impuros. 
O meu telefone chama. Somente um nome acende no entardecer do terreiro imperial, em cujo trono estou deitada, esperando uma decisão que me faça valer mais do que todos os mistérios sobrepostos no front de guerra interminável.
– Dulce, estás aí? – a voz que vinha se açucarando parecia um tanto salobra.
– Sim, Marcos, acabei de chegar aqui. Não desfiz sequer as malas... 
– Não me disseste nada ainda. Correu bem a viagem? – como se ele não soubesse que foram dos piores ventos enfrentados.
– Está tudo bem. – uma mentirinha não iria fazer mal antes do banho. – Eu vou tomar banho e já retorno para falar algo...
– É que... – sua voz soava trêmula – Só gostaria de ouvir-te. Até mais.
Não tinha mais forças para falar. Talvez um banho me revigorasse, não fosse a mensagem em seguida ao término daquela chamada: “Não queria deixar-te mais preocupada, mas acordei com formigas por todo o corpo, fui atacado por muitas delas.”.
Tomei o banho que revigora. Vesti a roupa como quem veste carapuça com pressa. Só queria voltar para casa. Precisava de uma trégua. Acho que meu dever já tinha se cumprido. Ninguém tem ideia do que tive que passar para chegar até aqui e não sentir nada. Queria novamente a simplicidade do meu ponto de partida, a segurança para todo o resto de vida longe de novas contendas. Fechei os olhos e me imaginei sentada na pedra em frente à minha casa, esbagaçando roletes de cana com fiapos nos dentes e um sorriso de canto a canto da boca. 
Escrevi numa folha e enderecei ao laboratório aos cuidados da doutora Gupta. Sem mais desculpa. Apenas o anúncio do meu desligamento, uma frase entre aspas, recordando o doutor Joshua Lederberg: “A maior ameaça ao domínio do homem neste planeta é o vírus”.

28 de abril de 2019

Cuidados Paliativos

Não foi o cheiro impessoal da noite em que se tira todo o perfume do dia, na água fria de um chuveiro com instrução de uso, que me fez pensar duas vezes sobre sensações. Ficou o cheiro natural das coisas e um branco contrastando com o colorido tímido e ornamental. Aquilo poderia ter sido um grande acidente, mas eu já tinha tudo previsto. Pacientemente deitado, escolhendo no arquivo dos melhores momentos, apenas os bons, mesmo, a prosa e o improviso em lucidez. Eles não vieram. Lamento. Paciência! Muita coisa não veio à tona, porque, como de costume, persigo ideias mais do que luzes no fim do túnel. Porque seria previsível, mas eu não resolveria uns transtornos aí que todos os homens procuram sobrepor e depois lapidar.
Quantas constatações nos nossos olhos e o silêncio pensativo de quem arranjava palavras à inabilidade de atitudes convenientes por exercício do prazer. Não correspondi o prazer; amiúde, sabe, não tenho sido tão responsivo quanto calado fico predominantemente. Penso que talvez viva a etapa mais silenciosa, menos responsiva, mais intolerante, menos equilibrada: uma equação insolúvel dos dias de glórias mortas. 
Bem, era irresponsabilidade na cabeça que mantinha a tensão a cada minuto, percebe? Era bem menos eu ali do que eu já tinha sido dois dias atrás. Eu estava, no entanto, completo e ao mesmo tempo escutava o eco no vazio que preenche qualquer cômodo com mobília e pouca luz. Será que você percebeu mesmo que eu estava doente? Deve se acostumar ou ter costume a cada ocasião dessa! Tentou, ao menos. A minha dúvida, realmente, deixou-me doente: sempre, no mínimo, duas propostas antagônicas me equilibravam sobre as pernas... Animal que sou, circunstancialmente uma centopeia desequilibrada, quando liga/desliga o botão da função "representar". Não é um disfarce. É um eufemismo natural de um paciente que pleiteia alta... Altos e baixos orgânicos, você percebeu, que eu sei! Você cogitou muitas coisas e até me perguntou se eu tinha alguma coisa que queria falar. Sim tenho. Mas me interrompeu mais uma vez dizendo que já sabia tudo o que se passava na minha cabeça. E acertou resumindo em adjetivos. É... não precisa muita pretensão para devolver em palavras ou gestos o que as mãos hesitam ou a boca titubeia. É bom ter cumplicidade quase que imediata, ainda que ela acabe em um par de horas ou uma prorrogação inconclusa. Chegar a concluir da noite, agradecidos, nós, e mais eu, não por cura, mas ser muito bem tratado. 

28 de janeiro de 2019

Jogo de Milico

Esconde os dados do grande tabuleiro,
Um país inteiro à mercê de um exército de nada a ver.
Soldadinhos de chumbo, de estranho ou talvez nióbio,
Quantos deles serão suficientes para aplicar a tábua da solidão
A regulamentar a vida conforme liga de metais pesados, a lama e muito caos?

- Um grande tabuleiro! Um grande tabuleiro! -
Gritou o garoto entre os garotos que gritam dores,
Choram privilégios com lágrimas que pigam gota a gota
Numa conta do tamanho dos seus patrimônios.

Ah, eles também são especialistas em exorcizar demônios
Que vieram de outros cantos que não os cantos presbiterianos
Celebrados no cume da Trump Tower ou algum ponto dos vales de Davi!

Eu vi e ainda vendo a escola sendo criacionista dominada por terraplanistas
Cheios de ciência ortodoxa com uma pitada bem caprichada de liberalismo.
Fogo! Fogo!
Queimam todas essas bruxas marxistas,
Queimam as bichas ou usam o maior requinte de sua inteligência
Apagando diariamente um direito que evoluiu sob muito sangue negro,
Um peso grande chamado de arroba,
Como animais que não tardam em serem entregue às caças.

Olha, vão vir quantas medidas provisórias
Para ganhar-se tempo até comprar os outros soldados sem deus no coração?
Aqueles da bala e do boi...

Fazer um guisado com muita pólvora no tempero,
Que desprezo à diversidade...
Que despreparo no cozimento dos sufrágios!
Receberam uma intimação à moda das trincheiras,
Se não veio por disparos à queima-roupa, ainda,
Foi à queima-gramática, queima-qualquer-rubra incidência.
A decência dos homens  - cidaDÕES -
Se mistura com a tara dos mitos,
É um caldeirão de vísceras ruins,
Que não cabem numa bolsa, toda essa bosta..
A quem se limpe com mãos dadas, olhos fechados e oração.
Eu, não. Eu não participo do jogo.

10 de dezembro de 2018

Só Lázaro pôde ser feliz


Se há um pouco de maldade em mim, tive certeza por haver dor. Faz alguns dias. E a forma como encontrei no mal a libertação da qualidade de santo, homem bom que tento ser, não caio mais no conto da assunção. Nunca ascenderei, seja qual for o modo; qualquer passo acima, esse movimento vertical ascendente não é dignidade que condeno, é descrença total pela recompensa que não me vale a pena. Não obstante justo e bom vale ser pelo conforto no valor, cuja força que faço para que o calor social não faça derreter esse congelamento de ideia. Precisei transformar numa pedra firme de gelo para que não se talhe à inocência de que vai ser algo cultivado pelo roubo ou furto. Não será presente, senão objeto que cabe na mão fechada e fria, por não culto, por apenas deixar estar.
A quem eu vier a dar graças, seja lá qual dia for, sei lá, por medo ou por redenção, por esta bondade que, creio eu, não se finde, mas que permaneça na balança necessária que a dor me traz. Se dói, é melhor saber que há maldade, mesmo que pouca, mas endereçada a mim, para não fugir à realidade. Se eu vivesse cem anos presumindo a ingenuidade sobre o pilar de cem por cento bom e justo talvez não reivindicasse o mesmo tratamento com o qual lhes dou sem precedente, potencializado pela forma constitucional penal de presumir a inocência até a prova contrária.
A mim mesmo, já repetitivo, não é o culto que convence. Aliás, que esteja distante porque a espera delonga. E como prenunciei que a dor me fez ter certeza de qualquer maldade, mínima para sobreviver, já vou explicando, porque foi ao assistir à história fantástica de um protagonista, instante em que percebi que me machucou e, por mais empático que fosse eu, jamais toleraria tamanho sofrimento de ser tão bom e justo por tanto tempo e sob tantas circunstâncias. Obrigado, Alice.
Outra coisa a revelar que há maldade em mim, foi a tristeza, ela sempre advinha da insatisfação. Se há regra, e por mais que esta privilegie no topo de uma pirâmide uma parcela dos piores desastres, eu a confrontarei porque a noção de quão interior a mim está a oposição ao capital. Justamente porque optei em levar comigo a maldade com rechaço à maldade sob leis e essas regras que um sistema impôs há muito. Existe, então, boa maldade? Não sei. Mas sei que há a necessária, para álibi ou para que não se deixe toda cor absoluta infiltrar um pano branco e deixá-lo não ser tanto alvo quanto de outra única nuança. Há de ser tantas, ao menos duas, porque é necessário que haja no mínimo metade para se dividir - ou colorir - porque tudo que é absoluto nunca foi verdade. Assim, temo que estejam sempre emplacando absolutismos, com nomes diferenciados. O acordo, por mim, sempre será, no mínimo, meio a meio. Não é justo?
Foi por três vezes que vi a mesma obra que reconheci e ratifiquei a maldade, talvez para evitar empate, precisei de ímpar e, como se diz por aqui, a vera. Maldade justa de um homem justo. Maldade boa de um homem bom que me fiz ao reconhecer, ratificar e, até agora, desempatar. Continuar neste ponto de vista para caminhar mais horizontal do que verticalmente. Para mais além de cultuar qualquer santo, mas, de suas alegorias, tirar o suprassumo. Ninguém é bom, afinal. Totalmente bom, não. Ou totalmente feliz. A fome faz até lobo o homem lobo do próprio homem. Alguma situação faz o ladrão, já sabemos, e foi a maldade que fez outra alegoria chamar de pecado, mas tirar a inocência de um ser para que não se permita nem corromper-se tampouco enganar-se por outro. Serei, por fim, bom e justo, mas o suficiente. Há de ser feliz, quem não quer? Hei de ser feliz na proporção suficiente da bondade e da justiça. Contudo jamais serei feliz como Lázaro.


Este texto é uma crítica de cinema + eu lírico de Lazzaro Felice 

20 de outubro de 2018

Caminho

No álcool da noite, o efeito-sabote
E o café da manhã com gosto forte:
Eu quero mais um dia!
Eu quero a noite toda minha e só.

Se eu dormir durante a tarde
E o gás vazante da parede sufocar;
Asfixia para acordar aos últimos raios de sol.
A noite novamente sem propósito,
Sem amigos, sem sorte, sem querer...

Alô! - Quem está do outro lado?
Quem queira eu ainda que esteja.
Se não quiser, um silêncio pontual.
Eterno, talvez, caso queiramos:
Eu e o tempo, senhor tão bonito.

Fração de vida, 
Frações que perdi a conta.
Fortuna de quem perdeu aqui
E ganhou, ali, mais uns minutos
Em contas perdidas de novo.

Foi um pé direito à frente,
Mas atrás estava o outro
Segurando e equilibrando o destino
E foi mais um passo,
Mais um, mais um, mais outro...

Eu vou andar; por que não andaria?
Se à tarde sob leve sol das cinco horas
Eu quiser parar para descansar...
Logo às seis, continuo mais um e mais outro
Passo para entrar à noite e passar
Mais um dia caminhando.

25 de setembro de 2018

"Isso poderia ser o final de tudo." Ainda não é.

Comigo estavam pai, mãe e minhas duas tias. Estávamos sentados lado a lado naquela fileira de cadeiras diante de uma cerimônia sóbria demais, demagógica demais, mas com um significado pessoal para cada uma das vidas que estava ali.
Meio desalentado, eu estava com sintomas da falta de expectativas que um sistema me presentou. O mercado que me empurrou de um lado para o outro; sacudiu em mim promessas e ao mesmo tempo migalhas condecorativas, eu cansei, poucos compreenderam, e eu apenas larguei as mãos que apertam com crueldade: bolsos, estômago e até sonhos. Elas estrangulam. Tinha um peso, uma medida; dois pesos e duas medidas; eu tinha o equilíbrio distante de onde eu nunca pude chegar.
Cheguei ali com a força de umas palavras, umas agonias, textos, livros, trabalho, crença e mais uma vez descrenças. Cheguei porque me vinham da boca pra fora um hálito reforçado de praxe, de boa educação ou de cumprimento de agenda. Vinham também do lugar mais verdadeiro que só bastou eu olhar para trás e perceber que eu não estava sozinho. À frente, na fileira de cadeiras verde-escuras, nem atrás com o sinal de força que recebia com um silencioso "presente" e um sorriso desfechado. Muitos dos meus. Os mais verdadeiros, talvez. E depois tive a certeza.
Obrigado.
Eu não estava feliz, eu estava só neutro. Acho que neutralidade foi uma das maneiras mais estúpida e corajosa que consegui sobrepor à luta que não acabou, mas após minha última derrota, tantas possibilidades ficaram turvas. Escurece o amor, depois do espaço que dei para que mentiras me descreditassem como amigo, como amante, como qualquer ser humano verdadeiro que pudesse exercer uma atitude responsiva e vice-versa.
Eu não acredito mais em vice-versa.
Contudo há coisas para acreditar. Essas são bem melhores, valiosas.
Quem sabe estou aqui para ser o primeiro a discorrer sobre o pódio, seja o melhor ou o pior índice. Onde quer que eu esteja, estarei verdadeiro. E posso olhar para trás e ver aquela pessoa maravilhosa que a vida me apresentou. Que depois que eu fiz um monte de coisas desagradáveis e é possível que nos desagrademos. E depois nos perdoamos porque sabemos que em nenhum momento deixamos de ser verdadeiros um ao outro. Aliás, da minha parte sei que sempre agi em sua direção com a verdade, mesmo que ela fosse má. E sei que a sua verdade foi tão dolorosa quanto importante para eu entender o espaço que se criou entre o que um ou outro acreditou ser e não era.
Estas palavras não falam de amor eros. Eros não convém. Teve seu tempo numa mitologia, no Lácio.
As palavras que eu gostaria de dirigir àquele ser humano que estava encostado na porta com um sorriso, porque dos poucos amigos que tenho foi o que me deu prestígio. É o que nunca mediu nenhum abuso meu para determinar que estou certo ou errado. É o que o tempo já se vai em alguns anos e eu um dia fiz questão de quebrar o silêncio de um ano para agradecer por estar em outro lugar e estar ali com a oportunidade que sempre sonhei e consegui, a contrapartida de hoje em dia.
É bom sabermos que protestamos pelas mesma causas, lutamos cada qual à sua maneira, combinamos um tempo desses, sei lá, uma tequila para ver como mexicanos veem também a morte e saber que tempo é significados.
Obrigado novamente.
Nunca um capricho ultrapassou nossa amizade. Não seria uma parede mofada, uma cadeira velha, onde eu sento e caio. Tampouco um quadro com pintura estragada, um restauro de Cecilia Gimenez... E quando você aprendeu a lidar com meu pessimismo espirituoso e a também não retaliar meu timing. E aprendi que, sob quaisquer circunstâncias, nossa amizade é um lugar muito bonito "and if you have a minute, why don't we go? Talk about it somewhere only we know."
Obrigado, por fim.

18 de setembro de 2018

#EleNão

Desta manhã que um rio entrou no meu sonho com corpos boiando sem origem, sem nomes... sem entender, eu estava mergulhando diante do absurdo onírico. Uma estrela de Hollywood queria me seduzir com seus olhos tão lindos. Logo eu?! Não dei oportunidade. Havia uma mãe e um pai que também me seduziam com o olhar,  e a filha me seduzia com uma conversa. Sonho louco. Acordei quando preteri, era uma chance que iria dar a um pó-porvir da constelação.Que insano! Despertei sozinho e revoltado porque só no mundo dos sonhos eu tenho visto a sedução que vem à minha maneira, talvez um jeito que me dou de fazer as regras e contar com elas para mim, mesmo quando meu corpo descansa. O dia não foi em vão, mas foi tão nada a ver com o sonho que me entregava à uma segunda-feira com uma agenda mínima e umas objeções.
Tudo bem, tinha que encarar a cardiologista e receber notícias - foram animadoras. Não destruíram meu coração, desta vez. "Está tudo normal com você e tem apenas dois inimigos..." nomeadamente soltou uma piada e me deu um atestado para colocar o corpo em mais movimento. A piada veio porque há muito tempo que não chamo médicos por "doutores" e seus nomes são iguais ao meu, relação de paciente, cliente, de qualquer coisa que quebre essa doutrina de sobreposições sociais. Ela sorriu e se despediu; disse que próximo ano faríamos uma nova avaliação cardiológica.
Mas a boa notícia era sobre a saúde física. Eu ainda tinha de enfrentar uns textos perturbadores, quando vi que a Embaixada da Alemanha em Brasília tinha sido contraposta ao publicar um vídeo explicando o nazismo, enquanto muito compatriotas meus negavam o Holocausto, acredita? Um vídeo que expunha o reconhecimento do nazismo e sua relação com a política de extrema direita, o qual aquele país em suas escolas educam os adolescentes a não reverenciar um dos episódios mais horrendos do mundo para que não se repita. E do Hemisfério Sul, América Latina, nestas terras que, pouco mais de quinhentos anos atrás foi invadida e nativos dizimados, ao passo que outros foram obrigados por ideologia de supremacia racial a vir como escravos outros povos, servir ao eurocentrismo e colonizar. Fizeram aqui um cemitério de gente, de cor diferente, de outra língua, outra cultura e também distintas formas de se organizarem como sociedade: o que deu origem ao que é o Brasil, essa grande miscigenação de povos. Impuseram, sim, sob armas e medo, a civilização da qual, tanto tempo depois, faço parte com miscigenação a dar-me nome de brasileiro e não identificar minha etnia num simplismo de (e entre) três povos predominantes. Sou apenas brasileiro e tenho consciência de que nasci de uma mistura histórica. Sou do mesmo país que tenta reparar atrocidades com leis diversas e contrapostas por muita gente, normalmente insatisfeita por não reconhecer erros (direcionados a todos os lados) mas que remédios constitucionais fazem parte do trâmite para reparar nossos equívocos judiciários.
Uma discussão que chega ao terceiro poder a fazer reparações e recorrermos por admitirmos que erros são passíveis de acontecer.
Volto à discussão mundial que reconhecida pelo próprio Estado protagonista de uma grande catástrofe humana implica em suas medidas de não favorecer nenhum pesamento ou atitude que remonte a desgraça de diminuir pessoas por suas convicções e costumes. Eu li comentários odiosos, negando e considerando fraude ou mesmo combatendo, ao passo que responsabilizam uma corrente contrária, para minimizar o que o conservadorismo e a a supremacia étnica alucinada, causa de perdas morais e vitais.
Eu só tinha uma resposta contextual para me opor a essa evocação de ódio no ensejo de uma eleição presidencial em que faces do crime e do horror tentam acomunar com ideias retrógradas e novamente tentarem torturar e dizimar num século onde novas pautas precisam corrigir mais e mais os danos que ultrapassam o ódio, mas combinam com ele e reproduzem agressões a pessoas, a indivíduos e o ambiente que todos estão biologicamente adaptados, nunca finalizado como evoluções. Temas como sustentabilidade, direitos humanos, ambiente saudável, tecnologias a auxiliar desde o bem-estar de ecossistema a cura de mazelas com difíceis respostas e inalcançáveis até hoje: Aids, Alzheimer, outras doenças degenerativas, vírus que antes erradicados começam novamente a protagonizar mais tristezas às vítimas que perdem acesso por questões econômicas e até as mesmas denegações irresponsáveis em nome de conspirações sem fundamento.
Encerro aqui posicionando-me, é claro, contra o terror destemido de um nome oportunista, como dizemos: aquele cujo nome não devemos pronunciar num contesto de Inteligência Artificial que turbinam algoritmos, fomento da propaganda que não precisamos para se matar mais, para se oprimir mais, para segregar mais minha terra que já carrega uma mácula de discurso do descobrimento que não passou de uma supremacia racial detentora de muita ganância e maldade. Quando ela se aperfeiçoa com mecanismos cruéis, como as atuais redes sociais, onde a democratização era para favorecer diálogos, mas incita ódio. Aliado a isso, a tradicional imprensa sempre conectada com a face alva da hegemonia doente e aliciadora e tantos golpes disfarçado de revolução. O avesso dos ponteiros, as horas que tentam voltar no sentido anti-horário, o relógio-bomba que mete medo e tensão. Há um nome protagonizando este espírito na trajetória do tempo, que chega ao século 21, olhando e minimizando crueldade, Para isso, ainda temos opção, em que expresso na minha liberdade sem ódio e dizer apenas: ELE, NÃO.