5 de abril de 2010

Rico demais


Neste domingo de páscoa, meu amigo amazonense me perguntava o que eu mais sinto falta lá de Alagoas. E só agora, eu vim esquematizar, deveras, a minha resposta...
Hoje é o dia que eu ultrapasso a centésima postagem aqui no blog. Eu pensei em responder a mim mesmo, ao meu amigo, a Alagoas e aos meus leitores, em face ao número simbólico que comemoro da minha escrita pública, descomprometida com quaisquer interesses comercial e/ou fundamentalista. Sim, ponho minha ideologia a pensar coletivamente e abro espaço à discussão; aqui é meu lugar de falar, ouvir e, por que não, trazer um pouco do meu cotidiano de pessoa comum aos caros leitores?
Passei a tarde vendo e compartilhando vídeos sobre a cultura alagoana com um manauara e um recifense, criado em Barcelona. Gente que esteve distante da minha realidade, mas que se interessa em ouvir e ver minhas saudades e pôde perceber o que existe de tão importante na minha identidade cultural, que eu necessito mostrar com orgulho: essas raízes do meu povo, que alimentam a minha leitura de mundo.
O óbvio é o começo da minha resposta: a minha família. Há algumas pessoas consaguíneas que transcendem a barreira da territorialidade e serão sempre lacuna, diante da ausência física, no entanto parecem que estão em todo lugar que vou.
Não poderia esquecer meus amigos, que posso considerar a família que eu escolho pela afinidade e amor em evolução. E por último, mas não porque está distante das duas primordiais citações, está a cultura alagoana. Ah, muito difícil viver sem poder respirar a maior riqueza que eu tenho no meu Estado.
Ao chegar em casa, continuei a ver vídeos de danças folclóricas alagoanas, escutar música da terrinha, como se eu pudesse trazer aqui para dentro da sala , em que estou, o ar metafórico da minha existência, a principal fonte de inspiração, que pelo chão, possa me fazer tomar o caminho de volta, assumindo o domínio público que me consome ao estado de graça e orgulho de ser de onde eu sou.
Então, vi um vídeo institucional do Governo do Estado, através da sua Secretaria de Turismo, lançado há pouco mais de um ano; uma peça audiovisual para promoção da 'Terra dos Marechais'. Como sempre, o fazer público capricha numa coisa em detrimento de outra, porque há neste poder maior interesse naquela mesma proporcionalidade de seu capricho. Como todo colírio da paisagem alagoana - fonte de prazer e consumo - eu ainda vou eleger os recursos humanos, como a maior riqueza, porque produzem, sempre, o contreúdo primaz para o nosso belo cenário de pano de fundo.
Sinto, em terras paulistas, falta da identidade cultural, de maneira genuína, com uno sotaque, com una criatividade, do povo de quem eu faço parte, que construiu, apesar de abandono, preconceito e desinteresse até mesmo de muitos dos nossos, este patrimônio intelectual que dinheiro algum pode comprar (ainda que se tente comercializar tanta coisa).
E mesmo com essa paixão estampada na alma, com retalhos de lembranças; ainda que, com toda esta raiz que não permite ser outro, pois que me prende, em pensamento... uma coisa eu acho engraçada, por aqui: muita gente me olha e diz que eu não tenho cara de alagoano...
Assim, conhecendo-me melhor do que à época que saí do chão materno, acho que há um ditado popular que confere veracidade à observação: "quem vê cara não vê coração".

3 de abril de 2010

Um dia

Gosto desse barulho da chuva, gotejando no telhado, numa madrugada fresca. Acontecer numa noite solitária é improvável tanto quanto o verbo. Nada acontece e começar a apreciar este nada, ainda que num tédio imenso chamado solidão. Estou gostando de vê-la da forma mais diferenciada possível, pelo ângulo bom, e ser assim: incontestável, sem queixas demais. Retroceder na lembrança dos casos deste dia: o cotidiano barato, mas não jogado à economia da vivência. Viver é o precioso estado; desmerecido o que economiza vida.
Saber que numa noite, que terminaria cansando, por um fast food sexual, o cabível destino, mudado sem esforço de palavras... aos animais não precisa usar a filosofia; basta uma palavra imposta ou um olhar de desdém sobre situações sem o poder de acrescentar algo além do trivial em qualquer esquina, em qualquer lugar.
E no comecinho da noite, um papo científico, com o humor das nossas afinidades, cogitando um problema para pesquisa que pode até mudar meu caminho profissional. A noção do trágico em tal cineasta, sugere o amigo, um estudo para relevância de quem faz a arte com um olhar peculiar. Vou estudar o nordestino que me tocou com seus filmes, sob meu olhar amador à época, hoje experimental? No futuro, quero o falar como mestre.
Mais à tardinha, um ou dois telefonemas para reparar danos causados pela audição escassa de voz que já é familiar. E na hora do almoço, pouco antes, à mesa, estava eu e meu alimento de dar àgua na boca, só de lembrar.
E porque tenho sede é que bebi aquela água - ai, que trivial -, após acordar do meu sono diurno, porque cheguei de uma noite divertida, mas ainda diante de casos comuns, sem ter por que esperar mais do que só muda o dia, nada mais.
Mais cedo ainda, nos primeiros raios do sol que o povo campineiro via; enquanto uns acordavam, eu ia dormir, numa sexta-feira - feriado nacional
Eu pensei muito sobre o dia de ontem, porque ele se atolou no tédio, na falta do que fazer, na repetição do que comumente chamo de dias longe de casa, pois não sou, mesmo, daqui e nem sei por quanto tempo vou ficar. E os detalhes desta passagem caberiam num diário o qual me recuso a escrever. Eu quero lembranças não-linerares, provocadas por sensações que não me remetam ao tempo cronometrado, calculado; isso arde e pode virar livro banal.
Antes deste, houve outro dia: algumas coisas triviais ainda precisam ser ditas.

"Todo dia, eu só penso em poder parar. Meio-dia, eu só penso em dizer não. Depois, penso na vida pra levar, e me calo com a boca de feijão."

31 de março de 2010

O grande irmão não é nossa cara?

O Brasil parou, numa terça-feira santa, na semana de nossos mais medíocres pudores, diante de milhões de televisores e um só canal dominante. Nesses 59 anos de história da TV no país, nove entre dez casas possuem um aparelho televisor. Há, nesta nação, uma grande audiência, uma grande ambição corporativa, uma grande mídia e um pequeno avanço sócio-cultural: todos de olho no Big Brother Brasil.
A competente equipe da TV Globo caprichou no desfecho de seu maior sucesso de audiência, em sua ousadia trimestral de 2010. Houve grandes patrocínios, grande atração musical - cantora de muito sucesso popular(esco) - e nós, os receptores de suas ideias comerciais. No entanto, há muito foi quebrado o paradigma da relação emissor-receptor, porque hoje o conceito de interatividade, com ajuda da chamada telefônica, do Serviço de Mensagens Curtas (SMS) e a internet, possibilita que façamos parte das ínfimas decisões nos programas de TV. Eles, atualmente, refletem nossos anseios, fala por nós, fala de nós; falamos para ele, ainda que não se ouça a voz da minoria, no caso de algumas queixas nossas que não podem ser escutadas pelo Brasil. O microfone ainda está na mão do apresentador, que media nossa vontade.
Na noite dessa terça-feira, através do mais famoso reality show do país, quiçá do mundo - já que a Endemol, empresa holandesa, é dona dos direitos do programa e os vende pelo mundo afora -, escolhemos a nossa mais curiosa cara e nosso 'cara', a quem se pode chamar de herói (mesmo?), porque este é o adjetivo que o cerimonioso Pedro Bial dá à cada fantoche do tendencioso entretenimento em formato televisivo.
O Brasil escolheu a ignorância, a brutalidade, o grotesco, a falta de educação e respeito, que reflete o que é sua gente; o que, infelizmente, somos nós.

Foto: globo.com

29 de março de 2010

Cultura de Massa para pensante


Em época de Big Brother Brasil, difícil ver e ouvir outra coisa na imprensa, nas redes sociais ou em canais de comunicação, em geral, mais do que o programa, exibido no Brasil pela TV Globo.
Diferentemente de outros milhões de brasileiros, não sou adepto da programação de entretenimento na televisão aberta, muito menos de programas do tipo reality show. Sinceramente, não vejo colaboração positiva alguma à formação cultural do indivíduo, tampouco diversão com qualidade, em programa que expõe a 'vida' dos participantes e nos convida a bisbilhotar. No entanto, confesso que, na tentativa de acompanhar o sucesso popular, quando oportuno, leio alguns texto na internet sobre esta recente edição, devido às polêmicas sobre questões de gênero e, muito pior, sobre os argumentos homofóbicos de determinado participante, que vem causando bas-fond.
Considero, particularmente, apenas uma infelicidade por parte do jogador Marcelo Dourado compartilhar determinadas observações a respeito do comportamento de gays; considero posição ignorante, muito mais do que uma atitude homofóbica por parte dele.
Em virtude do frisson entre os militantes da causa gay, comecei a assistir ao BBB10, em sua reta final, a fim de que eu pudesse ter opinião crítica de telespectador. Penso que há, sim, um preconceito embutido na mente do tal participante, mas que, de forma insipiente, seus comentários avessos aos LGBTTs são passíveis de indiferença por parte de ativistas favoráveis à diversidade sexual. Os ataques de Marcelo Dourado ao participante Dicésar Ferreira, mais conhecido como a drag queen Dimmy Kieer, são, ao meu ver, mais uma questão pessoal - relação de adversário com interesse pelo prêmio do jogo - do que questões de falta de respeito às diferenças de sexualidade.

Aproveitando o ensejo do frenesi provocado pelo BBB10, como também à luz da irreverência de uma drag queen e fazendo um link com o último post sobre Andy Wahrol, é que trago aos visitantes da minha casa o vídeo de Alisson Gothz, que revisitou o trabalho do artista e cineasta norte-ameriano e me emocionou bastante pela qualidade na proposta de sua arte.

28 de março de 2010

Exposição Andy Warhol, Mr. America

A Pinacoteca do Estado de São Paulo realiza, de 20 de março a 23 de maio, a exposição Andy Wahrol, Mr. America. Em números, o público pode conferir 44 filmes, 26 pinturas, 58 gravuras, 39 fotos e 2 ilustrações do pintor e cineasta norte-americano, que foram organizadas pelo The Andy Warhol Museum, de Pittsburgh, nos Estados Unidos.
Para os amantes da sétima arte, desde o último dia 20, há sessões com filmes do pop-artista. A programação cinematográfica segue até o dia 14 de abril, projetando suas películas nas manhãs e tardes da capital paulista.

Andy Warhol

Nascido Andrew Warhola, em Pittsburgh, Pensilvânia, em 1928.
Em 1945, ele entrou para o Carnegie Institute of Technology (atual Carnegie Mellon University), onde se formou em desenho pictórico. Após a formatura, Warhol se mudou para Nova York, onde trabalhou como artista comercial. Ele também fez trabalhos como ilustrador para diversas revistas, como Vogue, Harper's Bazaar e The New Yorker e fez trabalhos publicitários e vitrinas de lojas de varejo, como Bonwit Teller e I. Miller.
Profeticamente, sua primeira missão foi para a revista Glamour de um artigo intitulado "O sucesso é um trabalho em Nova York."
Ao longo da década de 1950, Warhol teve uma carreira de sucesso como um artista comercial, ganhando diversos elogios da Art Director's Club e American Institute of Graphic Arts. Foi nesses primeiros anos que ele encurtou seu nome para "Warhol". Em 1952, o artista teve sua primeira mostra individual na Hugo Galley, que exibiu quinze desenhos baseados nos escritos de Truman Capote. Seu trabalho foi exibido em vários outros locais durante a década de 1950, incluindo o seu primeiro show no grupo do Museu de Arte Moderna de 1956.
Nos anos 1960 é que a carreira de Andy Warhol culmina na reinvenção da pop art com a reprodução mecânica e seus múltiplos serigráficos, aludindo aos temas do cotidiano e aos artigos de consumo. Nesta década, ele reproduz as latas de produtos de consumo massificado, como a Coca-Cola, e também rostos de celebridades e personagens marcantes da história (reprodução em série com variações de cores).
Em 1987, após se submeter à uma cirurgia de vesícula, Warhol teve uma arritmia cardíaca, no pós-operatório, e falece aos 59 anos de idade, em Nova Iorque.

# Dados do filme (videopost acima) #
Mario Banana, filme estrelado pelo ícone gay da cena alternativa de Nova Iorque, Mario Montez.
O ator foi uma das super-estrelas dos filmes de Warhol, aparecendo em 13 de seus filmes.


Serviço:
Pinacoteca do Estado: Praça da Luz, 2 – fone 11 3324.1000
Estação Pinacoteca: Largo General Osório, 66 – fone 11 3335.4990 -
Abertas de terça a domingo das 10h às 17h30, com permanência até as 18h -
Ingresso combinado (Pinacoteca + Estação Pinacoteca):R$6,00 e R$3,00 (meia), entrada gratuita para menores de 10 anos e idosos acima de 60 anos anos.
Grátis aos sábados.

23 de março de 2010

Verbete rasgado (dedicado às 'santinhas')

É pandemia.
O tesão colérico na veia de todo mundo.
Lava-se no banho e continua imundo,
Sem tratar as feridas genitais.

Dizem da pureza da santa;
"Melhor ser filho da outra"
Que sangra vida solta,
Escorre, lava, sara e transmuta;
Bombeia a cólera e concentra no ponto,
Um corte que rasga puta.

Vacinam o homem indelével,
Esboço de varão, com orgulho.
Leva em si o âmago na ponta da agulha.
Fura o rastro canino de uma só fagulha
De fogo e cólera, a incendiar vaidade.

Ele coça a coceira dela.
Ela se coça com a mão de pecado
Eu fico aqui todo suado,
Esperando o leite a ser derramado.
E a peste ronda e assola como febre amarela.

Então quem crava dentes no meu peito?
Quem arranca o pelo, como se tivesse fome?
O cão que atenta é o mesmo que consome.
A face santa cai, ao cio da banguela.
Em terra de brocha, quando se enrijece cacete...
Quem seria a rainha cadela?

21 de março de 2010

Falta

Esse vento que entra pela janela não traz a realidade;
Eu penso o quanto de misericórdia eu tenho de mim mesmo.
Eu não sei quanto de misericórdia eu preciso para mim.

A misericórdia não me trouxe a realidade que nunca chega:
A biografia que, há muito, quero ler;
A pessoa interessante que eu preciso me interessar;
Terminar o que comecei e começar o que nem sei.

Sair dos pontos sem privilégio que vou nos dias de tédio;
Como opção, tratar o que não necessita ser prioridade;
Priorizar o caminho ao encontro da formação crítica.
Eu penso o quanto de criticidade eu preciso abandonar
A respeito desses homens que é preciso ignorar.

Guardar firme no bolso o que não é troco e o que é;
Firmar compromisso com minha meta social;
Olhar de relance o que há de banal;
E derramar um pouco de leite num copo de café.

Esquecer os telefones constantes na lista de chamada;
Deixar o papo de misericórdia e dá, à vida, outra penitência;
Fechar a janela na ventania e ligar para o que importa;
Tornar mais cedo o começo do dia e, ao abrir a porta,
Sair em busca: as sobras de casa não suprem ausência.

Imagem capturada de Edgewater Technology Weblog

12 de março de 2010

O muro perfeito para a incerteza

Entre a desconfiança e a certeza há uma lacuna onde a cogitação habita. Um habitat inóspito sobre o alicerce da conjectura. Suas vigas de possibilidades não sustentam confiavelmente o telhado de vidro que cobre de probabilidade os relativos [in]cômodos.
Eu entrei neste lugar sem mínima atração de moradia. Apenas pude constatar um habitante: há uma curiosa figura que possui duas faces, mas ainda não sei, ao certo, qual é a verdadeira e qual é a fantasia.
Passou algum tempo e eu também abri as portas da minha habitação. Convidei a incerteza para entrar, a fim de que ela pudesse confirmar, em face às suas dúvidas e, quem sabe, projetar-se no meu exemplo simplório - no entanto pleno de veracidade - e mudar sua atitude de indecisão, até que a máscara caísse e eu pudesse ver seu semblante real. Ainda não ocorreu...
Um outro tempo se passou e não vejo a tal incerteza. Ela não deu às caras por aqui, nem como, de praxe, após seus momentos prioritários para, assim, após o deleite em sua preterição, na condição coadjuvante que me faz parecer esperando por ela, gozarmos de horas afins. Gozo do qual ela necessita fortuitamente para que, talvez, decida de qual lado do muro que a suspende, pondo-a no patamar da abstenção, ela caia, pendendo, e se faça menos onerosa do que a contradição dos seus olhos que dissimulam.
Entre a desconfiança e a certeza há, ainda, a lacuna onde a cogitação habita, onerosa, avessa, descomprometida, no centro de sua atenção sobre si mesma. Lugar comum que ela fica e eu não consigo alcançar. Eu, do lado de cá, não posso tê-la à participação nos cálculos, nas teorias, nas comprovações. Ela, naquele lugar, à vontade fica para ter apenas, como bônus, uma comprovação em sua vida, diante dos meus olhos, antes à ela atentos: seu próximo passo é mais inseguro do que a falta de confiança em mim depositada; seu próximo passo, sem garantias de estabilidade, será em falso.
Em cima do muro, é o lugar perfeito para quem quer permanecer incerto.

8 de março de 2010

Colecionadores de nós

A Natureza dá o curso da vida, e nós, espécie humana, somos parte dela. Fazendo a hora, sem esperar muito acontecer, podemos intervir no destino e direcioná-lo aonde quer que queiramos chegar. Muito tenho escutado sobre os relacionamentos. Isso vem de amigos, de pessoas recém-conhecidas, numa mesa de bar, numa conversa informal no meio do mercado ou em qualquer lugar sem devida importância para o assunto, porque as relações humanas são conexas e não definem lugar correlato. Em todos eles, há sempre o que conversar sobre diversos assuntos, mas o que é contante diz respeito à afetividade. Pessoas se incomodam e se queixam das casualidades, querem sempre algo substancial para não ficar como uma mera ironia do destino ou incidente sem significado para o todo. Reclamam da fugacidade dos atos e são parte desses. Na verdade, a maioria não consegue admitir que, sozinho(a), logra a completude.
Neste fim de semana, alguém se queixava, a mim, das decepções, de manter um contato por algumas horas, certo dia, e no próximo encontro, coincidente, sequer ritualizar um cumprimento. “Vira até a cara”, reclamava o interlocutor. E onde vão dar os laços construídos em instantes de prazer, que não se eternizam, mas entram, sendo assim, no curso da vida? Eu diria que ali vejo apenas um nó, dentre tantos, e não laço. Somos colecionadores de nós. Não de gente, senão nós de fio, fita ou objeto linear, como, de costume preguiçoso que fazemos da vida ,coletânea de linearidade.
Eu, mesmo, tenho nós desatados, nós entalados, nós perdidos, esquecidos ou desapercebidos. Sobrepondo o eu, egocêntrico, egoísta, ou à parte de uma construção coletiva, somos responsáveis pelas sequências de nós que, colecionadas, incumbem-nos na função de colecionadores, curadores e divulgadores do nó cego de cada dia.
Há sempre uma desculpa para que queiramos afastar de nós a responsabilidade de desatar nós ou incinerá-los e construirmos laços mais firmes, reais, em vez de ficarmos nos queixando da solidão, da falta de companhia para qualquer momento, dos negligentes minutos onde sequer temos um olhar ou um ouvido atento, a fim de acompanhar um suspiro, um sussurro ou um grito. Escuto as mais variadas desculpas neste curso que transito, “enquanto não resolver questões profissionais, não há como pensar em ter com alguém”, “quem eu quero não me quer, quem me quer não desejo”, “minha vida deu uma guinada (...) aconteceram tantas coisas”, para dizer que não há vaga para mais um no carrinho da montanha russa emocional. E no fim das contas, ele(a) está só. Sobrepõe questões, que poderiam se desenvolver concomitantemente, sob a desculpa de que depois de resolvidas é chegado o momento para o olhar intencional ao outro.
Enquanto este momento não chega, é a hora da diversão, do conhecer pouco a pouco - nada mais é que outra desculpa para não estar sozinho e não se sentir responsável por aquilo que cativa. Então lembro duma canção de Chico Buarque onde, como eu, não quero me retocar no salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas. Assim, diplomaticamente, tenho de escutar a mágoa, sob o discurso da queixa, da desculpa, da descrença no outro, da prioridade 'minha,' etc., confirmando que recalque de beleza e prazer é fungo brabo no couro cabeludo de muita gente.

Imagem capturada de http://ninguemle.org/tag/nos/

6 de março de 2010

A Semana

Toda segunda-feira é quase a mesma coisa:
Um intuito de qualidade de vida;
O início de uma dieta quase sempre fracassada;
O dia chato para programar uma saída noturna,
Despretensiosa, a fim de mudar o clima.

Então chega o dia após o dia chato
Terça-feira para começar a aula de francês
Ou uma atividade cultural
Distribuída entre os dias de hoje
E dois dias após a primeira aula semanal.

Quarta-feira de programação entediante
Desde a programação da TV aberta
Até os avisos da previsão do tempo;
Esses não parecem preverem completamente
A ingratidão sísmica dos dias brancos.

Levantar-se numa quinta-feira,
Abrir uma janela que isola o mundo
De um quarto apagado;
Deixar o sol entrar e pensar:
Hoje é o último dia de preços em conta no cinema
Até o início da próxima semana.
Ver a vida como um filme habitual.

Das oito às dezoito horas, afinal,
Tudo pode parecer normal.
De longe.
É o dia da sexta-feira brasileira,
Dos goles sem compromisso
E do calendário laboral cumprido.

Há gente que guarda o sábado porque divino é.
Há gente que acorda mais tarde e faz noites demoníacas.
Há mais de milhares de anos, há os que creem
Que é o último dia de trabalho de Deus na sua criação.
Dia das incertezas; dia da fé de cada um.

Manhãs mais brandas; noites periféricas,
Centrais de ócio e deleite de finalização.
Descanso, enfim, aos moldes da cultura mundial.
São contáveis, em sete, para história
O pouco, quase nada, dias banais.
Como incomodar e, sutilmente, fazer falar
Os desgraçados silêncios dominicais?