18 de abril de 2018

O Brasil não é para principiantes

Se calhar, o apartamento pode ser meu.
Eu adoro quando a imprensa internacional decide repercutir sobre os acontecimentos no Brasil. Não por ser melhor que a nossa, mas por ser mais imparcial do que se tivesse negócios sombrios dentro do mercado brasileiro; aliás, fomento político há tanto tempo. Acho que a piada sobre "burrice" pode ser invertida em tempos líquidos. Continuaremos apenas sambando, só que sob o compasso dos outros, a melodia dos outros, até que sejamos mais nós mesmos, quando reduzidos a nada. Falta quanto?
Adeus, daqui a pouco terra que passou de Vera Cruz para  MediaCorporation by US rules e 15 + 45 que nunca digitei numa urna.
Segue a reprodução do texto divulgado ontem no Jornal de Notícias:

De tanto ouvir dizer que Lula da Silva tinha sido condenado sem provas decidir ler a sentença.

A lei brasileira ensombra o julgamento imparcial pois permite que Sérgio Moro seja o juiz na instrução e no julgamento. A falta de distanciamento mostra-se na sentença de Moro, sendo vários os momentos em que se diz "ofendido" com a defesa, ou se refere a "interferências inapropriadas do defensor", denotando ânimo e falta de distanciamento indesejáveis num juiz.

A decisão de Moro suscita várias perplexidades. A mais notável é porque não estão claramente identificados os factos provados. Toda a decisão é uma redonda motivação. Lula desconhece rigorosamente as circunstâncias em que lhe dizem que praticou o crime. É ler para crer.

Outra perplexidade: as notícias da Globo são consideradas matéria probatória. Aliás, dão-se por provados factos noticiados pela Globo - sem qualquer confirmação da sua veracidade, e só porque foram noticiados pela Globo. No ponto 376 diz-se: "Releva destacar que, no ano seguinte à transferência do empreendimento imobiliário para a OAS Empreendimentos, o Jornal O Globo, publicou matéria da jornalista Tatiana Farah, mais especificamente em 10/03/2010, com atualização em 01/11/2011, com o seguinte título "Caso Bancoop: tríplex do casal Lula está atrasado (...)". E no ponto seguinte: "a matéria em questão é bastante relevante do ponto de vista probatório".

Notícias da Globo são convocadas noutros pontos da sentença como determinantes para prova da propriedade do apartamento, sedo-lhes mesmo atribuído o valor de documentos.

Isto não é de somenos, se pensarmos que se trata de um dos jornais mais lidos no Brasil. Ora, Sérgio Moro atribuiu grande peso ao facto de funcionários do prédio, sem nunca justificarem porquê, terem declarado que viam em Lula o proprietário do apartamento. Impor-se-ia ao julgador perguntar se não poderia ser assim em virtude das sucessivas notícias da Globo que repetidamente o afirmaram.

Um outro eixo central da condenação são as mensagens transcritas.

As duas primeiras conversas são de fevereiro de 2014. A primeira decorreu entre Léo Pinheiro e Paulo Gordilho, respetivamente o empreiteiro e o engenheiro da OAS e ambos arguidos:

Paulo Gordilho: "O projeto da cozinha do chefe tá pronto se marcar com a Madame pode ser a hora que quiser".

Léo Pinheiro: "Amanhã as 19h. Vou confirmar. Seria bom tb ver se o de Guarujá está pronto".

Paulo Gordilho: "Guarujá também está pronto".

Léo Pinheiro: "Em princípio amanhã as 19h".

Paulo Gordilho: "Léo. Está confirmado? Vamos sair de onde a que horas?".

Léo Pinheiro: "O Fábio ligou desmarcando. Em princípio será as 14h na segunda. Estou vendo. Pois vou para o Uruguai"

Paulo Gordilho:" Fico no aguardo. Leo Pinheiro: OK" .

A segunda decorreu entre pessoa não identificada e Leo Pinheiro:

- Ok. Vamos começar qdo. Vamos abrir 2 centro de custos: 1.º zeca pagodinho (sítio) 2.º zeca pagodinho (Praia)

-Ok.

- É isto, vamos sim.

- Dr. Léo o Fernando Bittar aprovou junto a dama os projetos tanto de Guarujá como do sítio. Só a cozinha Kitchens completa pediram 149 mil ainda sem negociação. Posso começar na semana que vem. E isto mesmo?

- Manda bala.

- Ok vou mandar.

- Ok. Os centros de custos já lhe passei?

- Conversando com Joilson ele criou 2 centros na investimentos. 1. Sítio 2. Praia. A equipe vem de SSA são pessoas de confiança que fazem reformas na oas. Ficou resolvido eles ficarem no sítio morando. A dama me pediu isto para não ficarem na cidade.

- Ok.

A terceira mensagem é de agosto de 2014, e foi trocada entre o empreiteiro e um executivo da OAS:

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. A previsão de pouso será por volta das 9.40, alguma orientação quanto ao horário do compromisso. Obs.: Reinaldo acredita que chegará no local que o Senhor indicado por volta das 10.30".

Leo Pinheiro: "Avisa para a Cláudia (sec) do nosso Amigo para que o encontro passe para as 10.30 no mesmo local".

Marcos Ramalho: "Ok. Leo Pinheiro: Avisou?".

Marcos Ramalho: "Falei com Priscila. Ela tentou transferir no celular de Claudia, mas ela está no banho e ficou de me ligar em 15 minutos. Pelo horário ela já deve está me ligando. Aviso o Senhor assim que falar com ela".

Leo Pinheiro: "É urgente".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. Alterado para 10.30. Falei com Claudia e agora falei o Fábio (filho)".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. Segue o celular de Dr. Fábio. 04111999739606".

Leo Pinheiro:" Avisa para o Dr. Paulo Gordilho".

Marcos Ramalho: "Acabei de avisar Dr. Paulo Gordilho".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo, Dra. Lara só pode atender o senhor as 14.30. Deixei confirmado e fiquei de dar OK pra ela assim que falasse com o Senhor".

O teor das mensagens é simplesmente anódino. A segunda delas será a mais comprometedora. Mas Sérgio Moro não explica por que razão conclui que Lula da Silva é "zeca pagodinho", limitando-se a concluir que é assim. De todo o modo, estas mensagens não são suficientes para se concluir que o apartamento foi oferecido a Lula da Silva, que nem sequer intervém em nenhuma daquelas comunicações.

O elemento de prova crucial foi o depoimento de Léo Pinheiro, que aceitou colaborar com a investigação para ter a sua pena reduzida. Fê-lo perante a perspectivava de passar, pelo menos, mais 26 anos preso.

Este arguido foi detido pela primeira vez em novembro de 2014. Em junho de 2016, já em prisão domiciliária, dispôs-se à colaboração premiada. Esta disponibilidade é contemporânea com a sua primeira condenação, por sinal ditada por Moro, em 16 anos e 4 meses de prisão efetiva. A proposta de colaboração foi rejeitada.

Em setembro de 2016, Sérgio Moro ordena a prisão carcerária de Léo Pinheiro, que entretanto também vira a sua pena agravada para nada menos do que 26 anos de prisão. Em abril de 2017 Léo Pinheiro muda de advogados e propõe nova colaboração, desta vez confessando ter oferecido a Lula da Silva o apartamento tríplex. A proposta de colaboração foi, então, aceite.

Atualmente, e ainda sem qualquer acordo de colaboração premiada concluído, a pena de Léo Pinheiro no processo Lula passou de 10 anos a 3 anos de prisão - em regime semi-aberto e grande parte da qual já cumprida. A colaboração trouxe-lhe enorme benefício, sendo a diferença entre passar o resto da sua vida preso ou apenas uma pequena parte. Quando o prémio é desta grandeza será muito tentador contar o que a acusação quer ouvir. O julgador não pode deixar de ter presente esta lei da vida.

Em termos de documentos, a prova queda-se com a cópia carbono de "Proposta de adesão sujeita à aprovação" assinada por D. Marisa em 12/04/2005 relativamente à aquisição do apartamento 174 (o "apartamento tipo"); e com o original daquele documento, que foi rasurado para o numero 141 (correspondente ao tríplex), ambos apreendidos em casa de Lula.

Entre 2009 e 2014 o apartamento foi visitado duas vezes pela família de Lula de Silva, que não acompanhou os trabalhos de remodelação. Não será plausível que as remodelações tenham sido feitas para seduzir o ex-presidente à aquisição do imóvel? Na altura, Lula era uma figura de prestígio mundial, cuja presença garantiria valor não só ao imóvel, mas até a toda a área. Por outro lado, não sendo Lula, em 2014, presidente do Brasil, por que razão haveria o empreiteiro de se sentir obrigado a remodelar-lhe o apartamento?

Tenho para mim que Sérgio Moro levou o conceito de prova indiciária demasiado longe. Nenhuma das provas é suficientemente consistente e conclusiva. Não afirmo a inocência de Lula. Mas entendo que a sua culpa não ficou suficientemente demonstrada para a condenação. E, tal como muitas vezes se repete pelos tribunais, melhor fora um culpado em liberdade do que um inocente preso.

Rita Mota Sousa - magistrada do Ministério Público de Portugal

15 de abril de 2018

Curriculum vitæ

Enquanto um governo golpista acaba com as esperanças da população brasileira a cada canetada que dá; decreta o infortúnio na vida das minorias que sempre alimentam as estatísticas favorável e desfavoravelmente neste solo fértil que se degrada a cada pilastra que se levanta em nome da fortuna de bem poucos, eu jamais desisti do caminho mais justo, para mim e para seguir a regra que determinei para minha passagem por este terreno com muita injustiça. Frequentei faculdade, não foi uma apenas, não foi fácil, mas foi meritocracia. Consegui concluir uma faculdade há uma década, frustrei-me na profissão que um dia sonhei para mim. Escrevo cada vez pior, escrevo mal, eu tenho motivos para me desmotivar com o jornalismo de caras lindas, de bons contatos, como se chama fontes, mas das que envelhecem e apodrecem uma desvergonha que não me permiti: escrever mentiras ou dizer por alguém sob a cara-e-pau que se chama imparcialidade da mídia. Sou um jornalista fraco, apenas tenho um registro do ministério do trabalho que me deu um carimbo na carteira, mas nunca consegui assinatura para trabalhar para homens de bens, políticos com seus muitos bens: Mercedes-Benz e coisinhas, mimos acumulativos angariados com muita publicidade e sangre alheio.
Então tentei provocar em mim um novo desejo, o de me tornar parte da mão de obra da população economicamente ativa do Brasil, fazer algo por mim e pelo mercado, e mais uma vez me profissionalizei no nicho do Turismo, no qual em pouco tempo estarei graduado, e já alcancei algumas metas no País que há pouco tempo parecia andar por caminhos mais gentis. Capacitei-me ali, nas cadeiras e estrutura ruindo de uma universidade pública, tentei e consegui ter o melhor coeficiente de rendimento do corpo discente; com isso tive oportunidade, que muito podem julgar sortilégio, privilégio, mas eu me dou por satisfeito de conseguir por métrica curricular: as chamadas notas. Em primeiro lugar, em 2016, logrei uma bolsa de estudos para cursar um semestre fora do Brasil, fui com muito medo e com aquela expectativa de adolescente sonhando com eiras e beiras mais ornamentadas. Nem tudo foi de graça, mas foi com a graça de permanecer com meus valores intactos que frequentei cadeiras mais confortáveis e entendi o quão meu país segue aquém da qualificação necessária neste globo bem globalizado; só tentei acompanhar. Consegui um estágio depois de voltar, mas não foi fácil, mesmo primando o currículo, só três meses depois do meu retorno do velho mundo cheio de coisas novas, como sempre europeizadas, fiquei nove meses servindo ao patrimônio dos outros e aprendi o máximo que pude, ao custo de tão pouco pela minha capacitação: uma bolsa, um almoço muitas vezes mal cozido, até podre (tive infecção intestinal, inclusive), um auxílio para transporte. Eu aprendi tanto e fui algumas vezes desmotivado, mas fui. Fui cansado, choroso, medonho, irritado, mas fui. Voltei mais entristecido com a desesperança que até ofuscou o que aprendi de novo, por dia, e pela noite, muita insônia e mais choro. Acabou, e onde estava o reconhecimento por tudo que deixei em troca de aprender e dominar a técnica? Estava apenas num "obrigado" bem formal como se formalizam as relações de trabalho. Saí reclamando, eu sou de reclamar, ao passo que procurava uma oportunidade, mesmo que de peão fosse para servir, porque minha casta só é de serventia quando se tem saúde e disposição.
Então...
Consegui que assinassem minha carteira de trabalho, passo a semana atrás de um balcão, com a mesma dignidade de sempre e o desejo incansável de mais aprender e servir, e tentar melhorar tanto para mim quanto para a quem precisa de melhoria em serviços.
Ontem, estava indo trabalhar e, no caminho, algumas lágrimas que eu derramava por algumas questões que ainda persistem na minha rotina de pensamento, sonhando com o dia em que essas, por esses motivos, não mais haja, em toda a qualidade do verbo "haver", embora o sentido de existir não tenha um efeito sequer na existência. Debrucei-me no labor com uma satisfação incrível de mente ocupada por algumas horas boas. No final da jornada, ao contrário do choro da ida ao trabalho, um sorriso por saber que, honestamente, consegui mais um passo à frente, enquanto o governo golpista acaba com as esperanças. Eu só tinha gratidão dentro de mim, por ser honesto, por estar ocupado, por não chorar na volta a casa por motivos banais, que definham no caminho de volta, diminuindo constantemente e dando espaço a novos projetos.
Este texto é de gratidão. Acho que viver com gratidão tem me ajudado a encontrar uma resposta satisfatória para todas as indagações que tenho quando me deparo com injustiça. Grato e satisfeito é melhor do que o estado vulnerável das coisas e das pessoas inúteis que nutrem sensação de mal-estar.
Tenho todos os nomes na memória, e um dia escreverei nominalmente a cada um deles que ajudaram nesta sensação. Ainda que eu escreva cada vez pior, mas não carrego mais a culpa de ser jornalista.

8 de abril de 2018

Usuário em defeito

Esquece o dia de ontem,
Anteontem e todas as semanas atrás.
Perde-te de mim nas horas das tuas fraquezas;
Esquece a franqueza com que eu sorri com força
Mesmo com o pranto entalado no cerne da minha metástase.

Tua doença não é mais minha, 
Não posso absorver angústias pessoais
E saudações impessoais depois de ter sido pessoa,
Casa, pilar, terreno e raiz concretada.
Minha cura vem por minha dúvida,
Minha palavra jamais será equivocada.

Desvios de sentidos, força esvaída no caos da Revolução
Patos amarelos em meio ao fogo de artifício
E bons dias artificiais, praxe dos covardes de plantão,
Etiqueta e opinião brandas como ondas de mar sereno,
Como dívidas a longo prazo e, custe o que custar,
Saberás, assim, o valor de uma demolição.

Esquece rotas e ruturas, de supetão, tuas
Tontas passagens por lado qualquer, lado a lado
Ponte entre mim e coisa nenhuma, unha encravada,
Dedo doído de apontar para o horizonte
Em que uma linha escura abastece o transtorno.

Deita-te ao som da fúria das gaivotas,
Cortando o silêncio de um ecrã frio e dissimulado, 
À palma da tua mão gélida sem saber por onde começar,
Emudeço num clique obstinado por novo lar.

Estou calado; saio lesado; caio caiado; marco ousado
De quem está em pé para sorrir novamente a quem estiver à frente.
- Bom dia, senhora. Seja bem-vinda... 
Gastei todo meu dicionário por um doentio e supeito
Utente de um hospital onde nem são nem salvo
Adoece completamente para remédio nenhum fazer efeito.

6 de abril de 2018

Pragmático

Um homem, quer por instinto de sobrevivência,
Quer, com o passar da vida e aquisição de consciência desintoxicada,
Aprende, além de mudar seu rumo,
Não seguir os rumores daqueles que se deixam levar por desvios de tudo quanto é ordem,
Percebe que o destino é uma praga rogada,
Uma arma roubada ou uma espécie de gás poluente e estratégico.
Lave seus olhos com a verdade que aprendeu nas páginas da vida.
O contexto faz de qualquer um arquiteto e também quem põe a mão na massa.
Tem massa de sobra, ela pode estar contaminada;
Quando esta falta, é hora de angariar novos insumos.
É o momento de fazer da sintaxe e da semântica apenas parâmetro.
Sobre melhor construtor, ele mesmo se constrói,
Não sob argumentos, mas sobre o terreno da coerência.

2 de abril de 2018

As palavras que eu coloquei em tua boca

Estou percorrendo quase 160 km em busca de um caminho onde desconsidero todo o percurso. Até aqui, foram alguns minutos e algumas desculpas. Mais de uma hora e meia no trajeto, tudo o que vi era a merda do caminho que eu não tenho em outras vias. E volto, com a sensação de que me enganei por muito pouco, com mais mas dezenas de quilômetros à frente para o meu porto seguro, minha caixinha confortável e sossegada. Minha paz reina ali, no meu império dos sentidos de até-aqui-o-suficiente. Um mimo, uma vida animal na bagagem, uma lembrança para alguns anos posteriores, e mais uma série de equívocos e... lá estou eu de volta à caixinha segura e confortável.
Melhor esquecer e disfarçar a realidade desses tempo ruim, de muitas nuvens e ventos gelados; chuva, agora que choveu, eu me embalo ao som das águas sobre as coisas para não ouvir as demais vozes.
Quando me apetece ser desta forma que venho sendo ao longo de muitos tempo, eu viajo a destinos incansáveis, chegadas e partidas, e nenhuma oportunidade de... sei lá, eu sair daqui de dentro deste box de silêncios e alguns sons da natureza ou da intervenção humana. Pode ser a chuva a molhar o chão, pode ser a neve para esfriar minha cabeça quente, um miado de um gato, um motor de uns carros de aventura ou a torcida inteira vibrando ao canto de uma vitória no campeonato. Qualquer ruído que passe à frente da minha miséria de homem. ´
Se calhar, meu destino nunca será numa nação-irmã, num abraço-irmão, num aconchego familiar, porque os pilares que me sustentam, apesar de familiares, apesar de metáforas de sangue, são fibras de fácil rompimento, porque a verdade que tenho ocultado de mim mesmo e aos meus, são garantias de uma paz interior dissimulada. O sangue se espalha sobre as coisas, as pessoas e as cartas. Está tudo melado de vermelho intenso, mas, eu sei que brando é o meu limite. Não há fronteiras a ultrapassar porque, simplesmente, meu lugar sempre será um só no universo. Talvez isso diga muito de onde escolhi por terra e não foi o lugar onde nasci. Eu sempre fui um estrangeiro dentro de mim e jamais consigo admitir que tenho vínculos com terras além de um céu azul em que acredito ser o lugar de deus. É, portanto, uma outras mentira bem assimilada para não temer tanto esforço de me olhar no espelho e ver como sou.
Eu não tenho coragem de dizer essas coisas de mim, assim, tem uma incerta tempestade que possui nome e sobrenome, para derramar todas as verdades que, no fundo, é apenas um ponto de vista. Estou cego, enfim, não olhe para mim e esqueça quem sou. É melhor para você, sobretudo nesta etapa que você precisa olhar para o seu destino e não o meu. Faça bem mais de seu caminho do que se limitar esperar pelo cruzamento das nossas vias.

18 de março de 2018

NÃO HÁ VAGAS

Perdi minhas melhores memórias que eu tinha antes dos meus quinze anos, parece, então, que tenho vivido pouco mais da metade da minha vida, um pouco de cada experiência, se eu pudesse fragmentá-la num contador absurdo. É sério, pois digo que gostaria mesmo de resgatar essa lembrança como um debutante cafona em sua festinha cheia das coisas mais ridículas que consigo imaginar. Há coisa mais ridícula que uma festa de quinze anos? Para mim, não. Eu nem sei porque chamam debutante?
Aos quinze anos, fugi de casa. Roubei uns trocados que minha mãe guardava no guarda-roupas da minha irmã. E também seu cartão de crédito (sem saber a senha). Andei às quatro horas da manhã pelas ruas do bairro à espera de um táxi que passasse pela avenida. Apanhei o primeiro e cheguei até a rodoviária. Naquele tempo era tudo mais difícil para se locomover, mais inseguro, quanto à acessibilidade, e mais seguro, porque a cidade era menos violenta.. Eu consegui embarcar no ônibus das nove ou dez horas, já me esqueci--. Nenhum documento; um menor de idade indo para a capital mais próxima de Maceió, desacompanhado, sem autorização legal, sem orientação, perdido.
Na noite anterior, tinha brigado feio com minha mãe, e, como todo adolescente revoltado, fui buscar os adjetivos mais estúpidos, atirei-os nela por trás de uma porta que me separava de uma boas e merecidas porradas. 
Cheguei àquela cidade em pleno movimento de fim de ano. Seria a passagem para um novo... 
Da janela do hotel que eu consegui me hospedar, eu vi os fogos no céu pouco depois de uma ligação telefônica em que minha mãe chorava do outro lado da linha apenas desejando que eu voltasse são, e preocupada o quanto se pode imaginar, ela fez tudo para que eu voltasse bem no outro dia. Esta foi minha festa de debutante, visto que uma semana atrás - eu faço aniversário numa outra data ridícula -, no dia de Natal. 
Todo Natal estávamos na casa de algum parente, comendo aquele monte de guloseima cheia de uvas-passas; as mulheres mais velhas falando de deus; os homens mais velhos embriagando-se e falando de um assunto qualquer. E ali sempre cantávamos os parabéns. Sinceramente, eu sempre achei patético o dia do meu aniversário. Não apenas o de quinze anos. 
Juro que tentei resgatar as boas lembranças agora, não consigo ver os detalhes, nenhum que me animasse. Eu só guardei os pesadelos da minha infância, uma terapia ainda vai me ajudar a descobrir o porquê disso. 
Dessa data para cá, já me lembro de tudo: veio minha tentativa de ser cristão por decisão até o momento em que ultrapassei todas as tentativas e decidi viver sem pecados.
Foram anos de muito estudos, eu consegui um certo destaque nas salas de aulas por que passei. Gostava de ler e crescia para sair daquela fase e entrar na vida adulta cheio de conhecimento. Eu acreditava, honestamente, que tudo se resolveria quando a mobilidade social fosse fruto de meus esforços intelectuais.
Nunca tinha beijado na boca até os quinze anos, nunca tinha namorado, nunca tinha bebido álcool, fumado, nenhum tipo de droga, nada. Até hoje, todas as experiências foram passadas, mas, foi nos estudos, onde me debrucei mais, com aquela gana de um filho de dois trabalhadores cuja honestidade se transmitia como valor, princípio. Ainda que eu tenha abandonado a primeira faculdade. Eu conclui a primeira; depois dela, especializei-me. Veio a segunda que estou para concluir nestes idos balzaquianos. Socialmente, não movi.
Minha família teve certa progressão financeira na Era Lula. Sim, conseguimos sair de um conjunto de apartamentos populares para morar num bairro melhor; conseguimos algumas conquistas materiais, isto nos proporcionou também a realização de alguns desejos pessoais, muito além da medida de cifrões. Meus pais nunca precisaram pagar uma faculdade minha, porque estudei para entrar sempre numa universidade pública. Para nós, nem tanto mérito, apenas uma responsabilidade de dar o retorno por todo o investimento feito em Educação Básica. A isto, devo todas as honras a perene e incansável luta de uma professora, hoje aposentada, minha mãe.
2018. Estou desempregado.
Amanhã concluo com êxito meu estágio em um hotel, foram nove meses de muito aprendizado. Mas NÃO HÁ VAGAS. Brasil está em crise, e eu ainda não fui atrás de nenhum político para pedir favores, tampouco me apadrinhei dessas maneiras mais sórdidas, nem quero. Talvez porque meu ato criminoso, o mais podre de mim ficou nos meus 15 anos, e lá justifico minha inexperiência com a ética. No mais, estou a procura de trabalho, como milhões de brasileiros que, como eu, quero executá-lo com dignidade. Não me importaria com o esquecimento de coisa que vivi até os quinze... Faria, quiçá, tudo outra vez.

4 de março de 2018

Ano tóxico

Nem tudo tem que dar certo. Não há regra. Nem para mais nem para menos. Pode até parecer o mais pessimista dos meus pensamentos, mas não o é. Juro. É o mais incrível que tenho dado a mim como opção de superar palavras enganosas, promessas vis, ventos que sopram baixinho - sinto até a altura do joelho -, tempestades em copo d'água, lobos em pele de cordeiros, sacrifícios de uma moeda pigando num cano longo e de raio longo a perder de vista, uma indução calma e uma leve pluma ante à coceira agonizante nas costas, que pede unhas firmes, forte, para sanar... Sim, superar é olhar para minhas necessidades e preocupações, ver o quão meus gris, que já foram motivo de vergonha, são resultado de uma meta persistente; à altura da minha cabeça pensante, agora, fazem-me entender o quanto me custaram neste espaço todo de tempo, neste espaço todo de gente, nesta hora sozinha, só eu e o tique-taque de um relógio mental. Minha cabeça continua erguida, cada vez mais tingida de cinza, a andar sobre meu corpo.
Fui e voltei. Fiquei um tempo, depois fui por menos tempo e voltei. Se fico? Não sei. Há apostas para todos os lados: nem para mais nem para menos. Eu aposto todos os dias; são jogos invencíveis quando se tratam daquela linha em diante. Eu vim, vi e venci deste lado de cá. Não foi jogo, não foi brincadeira, não tem mais azar ou sorte. Levo a sério cada lágrima e ainda assim esses sorrisos que me roubam algumas pessoas que permito darem graças ao cotidiano, sabem elas que até rio de mim mesmo. Levo a sério o mundo todo e tenho dele uma parte que me cabe confortavelmente onde não estou ainda. Estarei, sabe-se lá quando. Estarei para mim todo o tempo necessário para ires e vires, tanto faz se confortáveis ou não; situações fazem até mudar a direção de muitas vias minhas. Entretanto gosto mesmo do que balança, sacoleja tudo, estremece e eu sinto tudo sem duvidar se é verdade. Sim, porque a sensação de reviravoltas estremecidas não deixa por duvidar. Sentir é mais que tudo, para que argumentos?
Na verdade, sou um homem simples de anseios sofisticados. Argumentos ficam apenas nos meus sonhos. A realidade mostra que, nem maldito nem bendito, sou apenas este que comunga da pragmática cada vez mais comum para quem viu algumas teorias ruírem. Procuro corroborar só para sentir um pouco mais o sabor - pode ainda agridoce ser - da certeza. Não há degustação melhor!
Cultivo bons modos entre meus semelhantes: regras da casa, eu respeito. Se for a dos outros - sempre foi, nunca tive uma todinha só para mim - é uma honra poder entrar e sair de cabeça erguida. Não por orgulho, mas por saber que lá estive e que, certamente, ao convite a voltar, serei bem-vindo. Boas-vindas nunca vão me esconder em porões. Por sinal, sala de visitas pode ser até o quintal, um jardim ou um cantinho no coração que bem-me-quer. Coleciono relações, gosto de pessoas. Das quais não gosto, exercito ao máximo a indiferença. Por que elas vão me incomodar por muito tempo se não preciso cultivar desgosto até minha melhor idade? Chegarei ali? Bem, estou aberto sempre a convites. Aonde quer que eu vá, saberei que sou o mesmo homem disposto a melhorar, a incrementar algo mais... sobre excessos, vou eliminando aos poucos, como um corpo excreta para desintoxicar. Apenas o útil, o necessário e um pouquinho de paciência; eu estou no caminho.
Pode parecer um pouco confuso, mas aprendi com uma leitura que é melhor ser exato e prateado. Ouro em meio à inexatidão é mesmo como dois passarinhos voando. Tenho aqui o meu à mão, não em cativeiro. Seu canto sempre entoa para que eu acorde e esteja pronto para cantarmos juntos, cada qual no seu tom. Todo dia, uma canção; posso, se gostar repetir a mesma em alguns dias interruptos. Hoje, um dia a mais; poderia escrever sobre um dia a menos, mas é a mais, sempre será, porque contagem crescente foi tudo que me fez adulto e vivo. Estou reabilitado; já não acho. A certeza, como disse, é a melhor coisa. Todas as outras dúvidas, a gente inventa, para crer em algo sem nada concreto, voltaria à época de teorias e muitas delas falharam.. Há quem goste, não é problema meu. Tão bom viver aproveitando apenas o contexto... Pois é claro! O corpo excreta o que não serve, ainda que precise forçá-lo a isso.

PS: Impossível não me lembrar do meu último texto, totalmente o contrário desta ideia. 
Desvio de rota, de rotina. Um beijo.

18 de fevereiro de 2018

Briga de cão e gato

Quando começo a sentir cheiro estranho fuça adentro, do homem rancoroso e amargo que me tornei, igual cachorro desconfiado, de raça de origem duvidosa, arrepiam-me os pelos da alma e expiro a má sorte de novamente farejar estranhezas malditas, como também pretextos que o azar impõe em suas faces brandas. Diz-me logo o equívoco de tua casta! Sou o ouvido imperfeito, embora atento, mas, quanto ao ofato, de longe alcanço o faro canino, porque só me restou, em pé de igualdade, a desconfiança, já que me traiu o apurado cheiro de outros animais. 
Não sou tampouco da família dos canídeos, e, aliás, prefiro felinos, que, embora pérfidos - se há doze anos conheço o meu filhote adotivo, não fujo à expertise de um pai convicto -, são bons exemplos de caça e bote à hora certa. 
Quando tentei domesticar-me nos silos profundos da consciência, ficou um pouco da minha selvageria nas garras aparadas por pequena ética; sim, a etiqueta que minhas senhoras passaram em graus evolutivos até quase agora, próximo ao lobo que em alguns anos me tornarei, faz-se polido mais que o necessário, até; no entanto, ensino bom me vem às pressas da fome, da sede e duma fisiologia medonha, fico pulando nos galhos, entro no dilema de uma briga de cão e gato, porém sempre preciso suprir a necessidade prioritária. Não há aura, embora brisa boa mata dia a dia minha confiança em sortilégios, venho a ser humano em dois minutos de garantia. Espiritualista da casa dos sem-paz, recuso-me a recorrer às fontes de bênçãos enquanto encho minhas mãos com o estoque para o resto do dia. Fome não mais passo, pelo menos por ora; e a sede, ao me encontrar em nervos à flor da pele, tal qual um gato lambendo todo o corpo, sacio, de verdade, a boca seca de sorrisos roubados. Quanto às outras necessidades, costumo dormir algumas horas e esperar o tempo delas.
Desta vez, encontro em estado de ronrono. Aproveita a calmaria da noite e já chegue fazendo um carinho na pelugem, pois aqui até que veio a aragem para encerrar a circunstância. Se eu latir, não me leves a mal, um pouco de esquizofrenia me coube como instinto de defesa, fingimento e própria estima. Preserva também este ambiente de boa vizinhança, porque as cercanias estão tão incrédulas quanto eu e todos os bichos sempre vão entrar no modo de sobrevivência... A que ponto chegamos! Não gosto de especular esta qualidade, ela seria como o sentimento que dizem por aí: alguns de nós pressentem a chegada de desastres naturais. Dá medo só de pensar o caminho até o fim sem arca alguma para que todos nós caibamos de uma só vez, ao menos um par de ímpares. Mas esta história passa por mitos que eu nem vou me alongar; voltaria ao idos da minha última fé e duvido grandemente que saíamos menos ilesos do que a cadeia natural já nos legou. De qualquer forma, ainda bem que acredito na evolução das espécies, pois não é à toa que estive sentado alguns minutos refletindo sobre este dilema todo de ser apenas um animal, qualquer um que seja.
 

15 de fevereiro de 2018

Poeira

Ana Beatriz,

Estava aqui pensando como falar de muitas coisas para ti, uma menininha de apenas cinco anos, a quem, por devoção e único amor sem propósito desta década advém como uma avalanche de razões para que eu siga em frente neste caminho com algumas curvas sinuosas, faz-se de tão pouco, que ainda tenho a contar nos dedos alguns outros motivos, tudo que é motivo para não caber algum mais.
A última vez que chegaste a mim e perguntaste sobre "aquela conversa que só nós dois conversamos", eu tive que te falar que não era mais o momento, e que deixaria para outro dia. Um abraço encerrou o dia em que, quando vais, já não há mais o turbilhão de amor in loco, e volta o "ai", de tanto repetido, deixa-me em dúvida pelo ditongo decrescente, em que eu poderia acrescentar o acento agudo e transformar no hiato que me separaria da dor e me levaria aí, ao teu lugar, este que encontro todas as maneiras, razões menos breves, cada detalhe de um ser e, como se não bastasse, a sinalização do caminho que uma velha amiga chavista continuamente me diz pa'lante y naa'mas. Sou afeito às línguas, já sabes, com minha a feroz e, sempre, entediada serve de busca tua para me pedir treino de novas palavras. Eu simplesmente encho o peito de alegria ao saber que confias em mim e me tens como um mestre das coisas tolas, das brincadeiras cibernéticas e da seriedade que pouco a pouco já estás entendendo.
Esta noite pensei em explicar de uma forma mais lúdica sobre poeira e pedras, para que saibas que  grãos, quando há coalizão, podem ser objeto para que sobre o tempo, ou uma folha de papel, faça o peso, segure, confluam ou divirja, mas, jamais, colida. Posso te ensinar a tacar a pedra longe, ou percebas a força dela sobre o papel e até diferenças. Posso pedir para que guardes, em tua própria necessidade de um dia ter o peso junto às tuas mãos cada vez mais fortes, e te defendas.
Só que, linda menina, eu preciso parar e pensar melhor como explicar na efemeridade da poeira, se solta ao vento, mas que tão reticente ou resistente, possa significar, como um maniqueísmo simplista, ir incrédula ou ficar para soprar aos olhos cruéis uma cegueira repentina. Incomodar é um dom de poucos; acho que é o teu, mas no bom sentido. Incomodar para tirar mais do que um vento pode soprar e acusarem trivialmente o destino, a quem costumam dar conta de resolver toda a situação, dando-lhe apenas a competência sem nos deixar contrapor. Põe-te, aqui, sempre que quiseres contrapor algo, estou a ouvidos ansiosos para escutar tuas razões pequeninas, mas saberás um dia de qual poeira que falo. Sabes, os grãos numa mão aberta cheia de vontade pode fazer milagres desses que em minhas três décadas ainda não vi. E porque fechei a mão, tenho o porquê, querida: ainda não quero te acenar em despedida. Essas mãos fechadas minhas guardam a poeira dos meus dias em cada terra por onde andei, trouxe um pouco de pó do chão, pois sou de terra.
Minha língua sempre há de dizer muitas coisas, sabendo que confias. Vamos, então construir muitas tempestades, vamos causar litometeoro, desconstruir algumas ideias desaguadas, lamacentas, escorregadias, porque, já faz tempo, percebi o quanto és filha da terra, poeira incômoda nos olhos estúpidos de um bocado de ignorantes.

10 de fevereiro de 2018

Caeté

Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté. Estes desejos excessivos que desaparecem bruscamente... Esta inconstância que me faz doidejar em torno de um soneto incompleto, um artigo que se esquiva, um romance que não posso acabar... O hábito de vagabundear por aqui, por ali, por acolá, da pensão para o Bacurau, da Semana para a casa de Vitorino, aos domingos pelos arrabaldes: e depois dias extensos de preguiça e tédio passados no quarto, aborrecimentos sem motivo que me atiram para a cama, embrutecido e pesado... Esta inteligência confusa, pronta a receber sem exame o que lhe impingem... a timidez que me obriga a ficar cinco minutos diante de uma senhora, torcendo as mãos com angústia... Explosões súbitas de dor teatral, logo substituídas por indiferença completa... admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às miçangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos, que depois risco...
Diferenças também, é claro. Outras raças, outros costumes, quatrocentos anos. Mas no íntimo, um caeté. Um caeté descrente.
Descrente? Engano. Não há mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar em
artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram!
Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo - uma estrela no céu, algumas mulheres na terra...


Texto extraído de: Caetés, Graciliano Ramos