25 de setembro de 2018

"Isso poderia ser o final de tudo." Ainda não é.

Comigo estavam pai, mãe e minhas duas tias. Estávamos sentados lado a lado naquela fileira de cadeiras diante de uma cerimônia sóbria demais, demagógica demais, mas com um significado pessoal para cada uma das vidas que estava ali.
Meio desalentado, eu estava com sintomas da falta de expectativas que um sistema me presentou. O mercado que me empurrou de um lado para o outro; sacudiu em mim promessas e ao mesmo tempo migalhas condecorativas, eu cansei, poucos compreenderam, e eu apenas larguei as mãos que apertam com crueldade: bolsos, estômago e até sonhos. Elas estrangulam. Tinha um peso, uma medida; dois pesos e duas medidas; eu tinha o equilíbrio distante de onde eu nunca pude chegar.
Cheguei ali com a força de umas palavras, umas agonias, textos, livros, trabalho, crença e mais uma vez descrenças. Cheguei porque me vinham da boca pra fora um hálito reforçado de praxe, de boa educação ou de cumprimento de agenda. Vinham também do lugar mais verdadeiro que só bastou eu olhar para trás e perceber que eu não estava sozinho. À frente, na fileira de cadeiras verde-escuras, nem atrás com o sinal de força que recebia com um silencioso "presente" e um sorriso desfechado. Muitos dos meus. Os mais verdadeiros, talvez. E depois tive a certeza.
Obrigado.
Eu não estava feliz, eu estava só neutro. Acho que neutralidade foi uma das maneiras mais estúpida e corajosa que consegui sobrepor à luta que não acabou, mas após minha última derrota, tantas possibilidades ficaram turvas. Escurece o amor, depois do espaço que dei para que mentiras me descreditassem como amigo, como amante, como qualquer ser humano verdadeiro que pudesse exercer uma atitude responsiva e vice-versa.
Eu não acredito mais em vice-versa.
Contudo há coisas para acreditar. Essas são bem melhores, valiosas.
Quem sabe estou aqui para ser o primeiro a discorrer sobre o pódio, seja o melhor ou o pior índice. Onde quer que eu esteja, estarei verdadeiro. E posso olhar para trás e ver aquela pessoa maravilhosa que a vida me apresentou. Que depois que eu fiz um monte de coisas desagradáveis e é possível que nos desagrademos. E depois nos perdoamos porque sabemos que em nenhum momento deixamos de ser verdadeiros um ao outro. Aliás, da minha parte sei que sempre agi em sua direção com a verdade, mesmo que ela fosse má. E sei que a sua verdade foi tão dolorosa quanto importante para eu entender o espaço que se criou entre o que um ou outro acreditou ser e não era.
Estas palavras não falam de amor eros. Eros não convém. Teve seu tempo numa mitologia, no Lácio.
As palavras que eu gostaria de dirigir àquele ser humano que estava encostado na porta com um sorriso, porque dos poucos amigos que tenho foi o que me deu prestígio. É o que nunca mediu nenhum abuso meu para determinar que estou certo ou errado. É o que o tempo já se vai em alguns anos e eu um dia fiz questão de quebrar o silêncio de um ano para agradecer por estar em outro lugar e estar ali com a oportunidade que sempre sonhei e consegui, a contrapartida de hoje em dia.
É bom sabermos que protestamos pelas mesma causas, lutamos cada qual à sua maneira, combinamos um tempo desses, sei lá, uma tequila para ver como mexicanos veem também a morte e saber que tempo é significados.
Obrigado novamente.
Nunca um capricho ultrapassou nossa amizade. Não seria uma parede mofada, uma cadeira velha, onde eu sento e caio. Tampouco um quadro com pintura estragada, um restauro de Cecilia Gimenez... E quando você aprendeu a lidar com meu pessimismo espirituoso e a também não retaliar meu timing. E aprendi que, sob quaisquer circunstâncias, nossa amizade é um lugar muito bonito "and if you have a minute, why don't we go? Talk about it somewhere only we know."
Obrigado, por fim.

18 de setembro de 2018

#EleNão

Desta manhã que um rio entrou no meu sonho com corpos boiando sem origem, sem nomes... sem entender, eu estava mergulhando diante do absurdo onírico. Uma estrela de Hollywood queria me seduzir com seus olhos tão lindos. Logo eu?! Não dei oportunidade. Havia uma mãe e um pai que também me seduziam com o olhar,  e a filha me seduzia com uma conversa. Sonho louco. Acordei quando preteri, era uma chance que iria dar a um pó-porvir da constelação.Que insano! Despertei sozinho e revoltado porque só no mundo dos sonhos eu tenho visto a sedução que vem à minha maneira, talvez um jeito que me dou de fazer as regras e contar com elas para mim, mesmo quando meu corpo descansa. O dia não foi em vão, mas foi tão nada a ver com o sonho que me entregava à uma segunda-feira com uma agenda mínima e umas objeções.
Tudo bem, tinha que encarar a cardiologista e receber notícias - foram animadoras. Não destruíram meu coração, desta vez. "Está tudo normal com você e tem apenas dois inimigos..." nomeadamente soltou uma piada e me deu um atestado para colocar o corpo em mais movimento. A piada veio porque há muito tempo que não chamo médicos por "doutores" e seus nomes são iguais ao meu, relação de paciente, cliente, de qualquer coisa que quebre essa doutrina de sobreposições sociais. Ela sorriu e se despediu; disse que próximo ano faríamos uma nova avaliação cardiológica.
Mas a boa notícia era sobre a saúde física. Eu ainda tinha de enfrentar uns textos perturbadores, quando vi que a Embaixada da Alemanha em Brasília tinha sido contraposta ao publicar um vídeo explicando o nazismo, enquanto muito compatriotas meus negavam o Holocausto, acredita? Um vídeo que expunha o reconhecimento do nazismo e sua relação com a política de extrema direita, o qual aquele país em suas escolas educam os adolescentes a não reverenciar um dos episódios mais horrendos do mundo para que não se repita. E do Hemisfério Sul, América Latina, nestas terras que, pouco mais de quinhentos anos atrás foi invadida e nativos dizimados, ao passo que outros foram obrigados por ideologia de supremacia racial a vir como escravos outros povos, servir ao eurocentrismo e colonizar. Fizeram aqui um cemitério de gente, de cor diferente, de outra língua, outra cultura e também distintas formas de se organizarem como sociedade: o que deu origem ao que é o Brasil, essa grande miscigenação de povos. Impuseram, sim, sob armas e medo, a civilização da qual, tanto tempo depois, faço parte com miscigenação a dar-me nome de brasileiro e não identificar minha etnia num simplismo de (e entre) três povos predominantes. Sou apenas brasileiro e tenho consciência de que nasci de uma mistura histórica. Sou do mesmo país que tenta reparar atrocidades com leis diversas e contrapostas por muita gente, normalmente insatisfeita por não reconhecer erros (direcionados a todos os lados) mas que remédios constitucionais fazem parte do trâmite para reparar nossos equívocos judiciários.
Uma discussão que chega ao terceiro poder a fazer reparações e recorrermos por admitirmos que erros são passíveis de acontecer.
Volto à discussão mundial que reconhecida pelo próprio Estado protagonista de uma grande catástrofe humana implica em suas medidas de não favorecer nenhum pesamento ou atitude que remonte a desgraça de diminuir pessoas por suas convicções e costumes. Eu li comentários odiosos, negando e considerando fraude ou mesmo combatendo, ao passo que responsabilizam uma corrente contrária, para minimizar o que o conservadorismo e a a supremacia étnica alucinada, causa de perdas morais e vitais.
Eu só tinha uma resposta contextual para me opor a essa evocação de ódio no ensejo de uma eleição presidencial em que faces do crime e do horror tentam acomunar com ideias retrógradas e novamente tentarem torturar e dizimar num século onde novas pautas precisam corrigir mais e mais os danos que ultrapassam o ódio, mas combinam com ele e reproduzem agressões a pessoas, a indivíduos e o ambiente que todos estão biologicamente adaptados, nunca finalizado como evoluções. Temas como sustentabilidade, direitos humanos, ambiente saudável, tecnologias a auxiliar desde o bem-estar de ecossistema a cura de mazelas com difíceis respostas e inalcançáveis até hoje: Aids, Alzheimer, outras doenças degenerativas, vírus que antes erradicados começam novamente a protagonizar mais tristezas às vítimas que perdem acesso por questões econômicas e até as mesmas denegações irresponsáveis em nome de conspirações sem fundamento.
Encerro aqui posicionando-me, é claro, contra o terror destemido de um nome oportunista, como dizemos: aquele cujo nome não devemos pronunciar num contesto de Inteligência Artificial que turbinam algoritmos, fomento da propaganda que não precisamos para se matar mais, para se oprimir mais, para segregar mais minha terra que já carrega uma mácula de discurso do descobrimento que não passou de uma supremacia racial detentora de muita ganância e maldade. Quando ela se aperfeiçoa com mecanismos cruéis, como as atuais redes sociais, onde a democratização era para favorecer diálogos, mas incita ódio. Aliado a isso, a tradicional imprensa sempre conectada com a face alva da hegemonia doente e aliciadora e tantos golpes disfarçado de revolução. O avesso dos ponteiros, as horas que tentam voltar no sentido anti-horário, o relógio-bomba que mete medo e tensão. Há um nome protagonizando este espírito na trajetória do tempo, que chega ao século 21, olhando e minimizando crueldade, Para isso, ainda temos opção, em que expresso na minha liberdade sem ódio e dizer apenas: ELE, NÃO.

24 de agosto de 2018

Bíblia, boi e bala

Jogaram a bíblia bem na minha cara,
Rasgou um pedaço da minha testa. 
Sangrou tanto que me senti um boi sacrificado.
Lógico, irritei-me.
Um homem qualquer chegou ao pé ouvido
E me disse:
- Logo terás uma arma e poderá responder em tua legítima defesa.-
Foi tanto desamor em cinco minutos de experiência que desacordei.
Pouco tempo depois uma chuva fina me fez levantar para a realidade;
Despertei.
Eu não havia sonhado.
Todos esses homens estavam sempre ali,
Sentados numa bancada legislando em nome do ódio. 
Só vi tristeza adiante, 
Enquanto a chuva se misturava ao sangue escorrendo no rosto.

7 de agosto de 2018

Mais nada


Deve ser uma morte horrível 
Essa de viver sem mais palavras:
Uma estrofe no meio de tudo
E não conseguir dizer mais nada.

26 de julho de 2018

Sem futuro do pretérito

Por que tão longe de mim? - eu tinha razões suficientes para acreditar que quatro dias foram assim suficientes; uma viagem de não demarcações e despretensão extraterritorial. Como se não bastasse o abismo entre mim - há uma rodovia para marcar quilômetros sem eixo - e um sorriso novo de novo. Das maneiras mais assertivas de um contato físico somado a horas de prosa além do que não se conhece bem e o desejo de conhecer alguém... Perdi o medo, olha só! Aquele medo de passar por idas e vindas, altos e baixos, opostos e, porque ela sempre vem, despedida.
Não tive desgosto, afinal, foi pouco, e foi tanto quanto precisei para ver além da zona confortável de uma sequidão na garganta e nos olhos. Não queria olhar mais para além, nem usar a força das minhas palavras em vão. Sabe que nada foi em vão? Sabe que não posso esperar mais que aquilo! Mas aquilo foi tudo e foi bom. Não tivemos vergonha, a certo instante, de demonstrar o que já estava esperando algumas horas sair de dentro de nós e ter uma plateia para assistir. É... não foi tanto assim, não foi ilusão, não. Foi real quanto surreal.
Tempo para aguardar com uma pequena ansiedade o compromisso com os outros e depois o tempo só nosso, para que? Para estar. Estar é uma decisão. Quando um homem é livre para decidir onde quer estar, já é uma vantagem tão grande de liberdade num mundo preenchido de cercas. Imagine quando são dois por decidir... Estar preso é uma situação grave, pode ser agravada ainda mais quando se é livre e não se aproveita a liberdade, ademais, naquela do silêncio, que foi minha última forma de ser livre.
Amiúde, era divertimento e ele se esgotava numa só brincadeira, uma brincadeira de adulto, mas tão sem graça que dá vergonha ao ver crianças ensinando a adultos que brincadeira é coisa bem valiosa. Engraçado é sentir graça nisso tudo, que já disse, contudo, foi pouco e foi mais que isso por ir além.
A certo ponto, pergunto o que pode ser além quando determinado momento da vida já se acredita ir longe demais com tudo isso. Retorno ao começo, que já teve fim e, portanto, só ficam lembranças que pingam feito rejunte líquido quando esse cobre numa dança escorregadia as lacunas entre peças e cacos amontoados de uma pessoa que se via aos pedaços, sem saber, o pior, que era o porquê.
Agora parece um chão rejuntado para pisar firme e, o melhor, em pé, uma vez mais, com certeza de que há muito chão ainda a caminhar e descobrir que não há cacos se, aos pedaços, não se vê tal qual um objeto partido. O mais interessante dessa experiência - boa e - nova transcende o desvalor que se fora na última limpeza de casa.
Quando templo se fez para cultuar fantasma e obscurantismo, quando não se precisa de mitos para viver de verdade. É uma fórmula simples: não ter regras e não olhar demais para o que não existe, como quem procura algo que é, às vezes, imaginação pura, pois que é um culto.
Sou agnóstico e parecia mais um embriagado de fé alguma em mitos, pretextos e objetivo final sem saber que começo tinha nem me importar com meio, meios de justificar testemunhas de dogmas, ritos e velas acesas sob o sol. A razão ilumina a todo instante uma cabeça consciente de sua importância. Boas e novas lembranças são muito melhor do que o que caiu no esquecimento e me fazia me importar demais por achar o que estava perdido. Consciência danada esta de que se se perdeu é porque não precisa, mesmo, ser achado. Ou leve demais que o vento levou. Ou pesado demais que não sai do lugar onde ficou bem lá atrás, onde não sei, onde talvez nem precise voltar.
A mente que perdeu a memória pode, enfim, celebrar um intervalo singelo de beleza: agora já não esquece enquanto nem podia se lembrar.

14 de julho de 2018

A minha língua não é morta


Pelo tamanho significado que deste a minha pequenez de ouvinte;
Pela consciência que aprendi com uma só canção sobre a responsabilidade que tenho,
Onde quer que o meu direito de ir e vir me faça querer estar,
Acima de qualquer julgamento, o corpo é meu e é somente ele que paga.
A António Variações, todo o mérito da travessia que faço:
Entre o desvario e a sanidade absoluta por uns instantes.
Pelo Norte descoberto e não explorado Trás-Os-Montes;
Pela Vera Cruz ainda não emancipada;
Pela Independência duvidosa e até comprada;
Por algumas outras lutas, em papéis ou até mais agres;
Pelo promontório preponderante de expansão dali de Sagres;
Por laços de língua e jardins - a dizer desta Última Flor do Lácio;
Pelo palácio onde reina, absoluto, todo imperialismo de todos os tempos;
Pelos ventos que fazem soprar velas e planar os motores da tecnologia;
Por essa travessia, por aquela maneira toda própria e menos anasalada em dizer ditongos de duas formas;
Pelos encontros vocálicos, os desencontros numa separação - este tipo, o hiato.
Pela quebra da regra monogâmica e em formar tritongo.
De uma vez por todas, do garbo do homem, animal alado,
Eu me recomponho e me expresso nesta língua, modéstia à parte, a mais bela,
Pronunciando cá e agora, por esta demora do translado.

22 de junho de 2018

Vazio gourmet

Veja só que coisa louca essa ideia de posse,
Essa ideia de propriedade e prévia determinação
Hoje, nossas casas, antes de serem casa
Já são terrenos murados.

Eu caminho pelas ruas e observo,
Todas as casas enfileiradas
E, entre elas, há casas que ainda não são casas;
Estão ali só os muros,
Cercando o que um dia será alguma coisa.
Sei lá... se pode chamar-se de lar.
Sei que essa ideia me perturba.

Não sei se ali terá um gato ou um cão
Ou um animal de estimação;
Se terá jardim ou quintal,
Como, de fato, será?
A arquitetura nos dias de hoje:
Faz espaços para não servir,
Faz de conta,
Faz aquilo que também há e não serve para nada.

As cidades estão cada vez mais
Parecendo com a cara da gente.
Lugares onde há mais muros para separar.
Lugares onde ambientes são desenhados
Talvez para se fotografar
Talvez para que sejam vendidos
Com uma leve impressão
Como a primeira impressão é a que fica:
Não fica ninguém e fica vazio.

Tem um vão enorme bem à frente de mim
Um espaço que caberia muita gente.
Não tem ninguém nele.

Que nome devo chamar?
Que espaço é esse?
Pode dizer, alguma-coisa-gourmet.
Não serve para nada.
Pode servir para uma fotografia, um dia.
Hoje, não serve para nada.
E eu nem sei se estarei aqui amanhã.

20 de junho de 2018

O esquecimento

As palavras têm me ajudado bastante desde o acidente. A tecnologia também favoreceu o caminho até eu estar aqui para resgatar um pouco de mim e da minha memória. A essa, eu nem preciso mais arrolar um esforço sequer, mas preciso me esforçar pelas palavras, porque foram elas que me trouxeram até o dia de hoje. Na minha mente confusa por perdas e danos, a bagunça que ficou  nas palavras salientes, a ponto de ferver o juízo, como recortes em papéis em chamas para um jogo de montar história: frases, parágrafos, as partes de um todo.
Havia aquela coisa inquieta para saber que muito mais do que as fotografias que algumas pessoas têm me mostrado; precisava reler tudo o que já escrevi para tentar encaixar, noutro jogo, a fim de formar alguma opinião. É sobre mim que deposito tudo e todos que passaram nas linhas escritas, ainda que eu me esqueça de nomes, lugares, coisas, sei lá... vou encaixando até me achar com todas as peças. Se tem alguém a que eu devo venerar, transformarei o verbo em carne e adorarei até o fim dos meus dias.
Quantos nomes ainda são estranhos a mim! Gente de sorriso sincero que, vergonhosamente, preciso retribuir com outro, mas peço desculpas por não me lembrar do nome. Sem vergonha, só tenho o perdão para distribuir. O pedido por ele, claro. Perdoo a mim mesmo e, assim, acho que consigo perdoar qualquer outra coisa ou pessoa. Está tudo perdoado.
Se eu esqueci até o meu nome uma semana atrás, todo o resto não será fácil lembrar. Mas há um esforço conjunto. O médico que me ajuda, uma senhora dedicada que me chama de filho, e eu sou seu filho por sorte! Aquele olhar dela não esconderia que jamais seria outro senão de uma mãe. Há outro olhar forte que, apesar do esquecimento, invade-me com ousadia e verdade junto a ternura de uma criança. Tem o cheiro mais gostoso que me faz reviver as melhores coisas que já não me lembro. O cheiro bom, como das rosas que ganhei hoje - não sei quem é porque me falha ainda a memória - de quem me trouxe outro perfume bom para este quarto inodoro. Eu ganhei rosas brancas e vim pesquisar o que elas significam. Alguém que me trouxe a pureza; eu gostei.
Bem, são alguns mimos que alguns me ofertam; como recusar oferta que traz cheiro, cor, sensação de bem-querer? Se eu não fui uma pessoa grata, só daqui por diante é o que mais devo ser. Então estou eu transformando tudo em retratos, mas não é minha intenção fotografar esse momento. Meu intuito, e volto a ele, é reverenciar as palavras. A quem as inventou, aperfeiçoou, enfim, a nós, humanidade, temos uma tecnologia crucial a meu favor nas atuais circunstâncias, vida longa!
Eu sei que iria a algum lugar onde saberia que lá mais estava eu; assim, caí aqui, por um empurrãozinho que deslancharia muita lembrança. Como dizer que não vivemos de passado? Nas palavras, encontrei o máximo, até aqui, onde minha identidade foi mais genuína diante de uma tragédia, que é esquecer.
Eu vi minha letra escrita em uns papéis avulsos, a força com que escrevo a fazer relevo na superfície da folha, achei bruto, acho que é a parte de mim grosseira. Gostei porque mostra a força que eu tenho no ato de escrever, dá para sentir do lado oposto a violência da minha expressão. Palavras são as minhas principais verdades, estou feliz por recuperar isso, com a selvageria de um letrado, irônico, não?! Mas a forma não ultrapassa o conteúdo e tive que entrar numa dimensão em que não faço ideia  por onde andei, mas os pés sempre estiveram em solo firme, outra coisa que consegui de mim descobrir: gosto de firmeza.
Firme no propósito de me encontrar, foi bom passear pelo passado escrito pelas minhas próprias mãos. Algo que já não lembro, mas me traz boas sensações, como o abraço que recebi de muitas pessoas e ali me senti acolhido. Aos poucos vou fazer mais do que imaginar, vou lembrar de cada coisa, cada conselho recebido, cada olhar que eu vejo e me transmite tudo o que por ora posso alcançar de bom. O que for de recordar para me fazer melhor, reconhecer-me em mim e em alguns que são parte de mim, vai ser meu esforço, como escrever mais memórias daqui em diante. O que for para ser esquecido - já consigo ver o lado bom disso - vai ficar no esquecimento. Eu só quero escrever um parágrafo, que seja, para que consiga firmar na minha história o que for suficientemente bom para ser lembrado. Agradeço a cada um que se lembra de mim mais do que eu possa fazer. E, por fim, vou me agarrar às memórias que me deem essa que é a melhor sensação: a história da gente é essa que a gente mesmo escreve, cada um com sua maneira de expressão.

27 de maio de 2018

Vamos viajar?

Trabalhar com o Turismo tem me rendido frutos de esperanças e desgostos ao ver todo o cenário político do País afundar nas contradições a que o Brasil aspirou nos recentes tempos. Olhar para a atividade econômica que envolve interdisciplinarmente questões de muitos vieses com uma capacitação para a indústria turística me dá um fôlego imenso, uma vez que tem sido um setor que vai na contramão da crise econômica. Não dá para vivenciar o fluxo de turistas sem se deparar com os entraves de planejamentos errados, golpe de Estado e com a carnificina capitalista que devora os estratos sociais de baixo para cima.
Num simples trajeto de casa ao trabalho, já tinha visto os seres humanos mais vulneráveis se multiplicarem velozmente nas esquinas e semáforos; pessoas com cartazes escritos em bom português desesperado e pouco educado, denúncia do desemprego crescente e a consequência que os levaram àquele posto de ambulantes quando o sinal vermelho anuncia um pedido de socorro. São famílias perdendo o trabalho e, em consequência disso, as expectativas que proporcionam a ocupação mental no setor produtivo: uma reação em cadeia com a velocidade de uma avalanche de amarguras. Primeiro, brasileiros perdendo seus postos de trabalho; depois tendo que se humilharem nos pedidos de socorro para quem ainda não foi devorado pelas consequências dos jogos nojentos do mercado. A criminalidade que atinge há muito tempo uma população predisposta à violência desde a colonização, agora recruta mais e mais meninos e meninas às drogas, à prostituição, aos desvios de caminhos, à mendicância... Para muitos, isso pode até passar despercebido, porque são os responsáveis pela desocupação dessa gente ao passo que são os mantenedores dessa relação exploradora e frágil para o globalizado escambo da informalidade, sem respeito aos direitos que vêm se afrouxando como desculpa de recuperação da economia brasileira.
Se pensarmos direitinho e questionarmos o serviço a dois senhores - como pode? - foi uma estratégia assertiva e perigosa, porque falhamos sempre no caráter, do mais rico ao mais pobre, mas vínhamos conciliando bem no sistema emoldurado pós-Revolução Industrial. Lembro-me bem do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, na sua estrutura, contemplava também a mobilidade urbana. Eu vinha sendo seduzido pela perspectiva de priorização do transporte coletivo, a atração de tecnologia para produção de energias renováveis, e esperando os resultados que pudessem ajudar a aliviar o caos das cidades cada vez mais abarrotadas de gente. Ficou a maioria na promessa, mas o projeto era elogiável, pois reduzia tempo e traria conforto e dignidade para se mexer no dia a dia já movimentado demais. Nunca tivemos o nosso trem-bala... os metrôs tiveram suas linhas reduzidas e muito dinheiro jogado fora, as obras ainda estão paradas; e eram promessa para um Brasil que se apresentaria ao mundo de um jeito diferente em dois grandes eventos: a Copa do Mundo de  e as Olimpíadas de 2016. Na combinação multifocal do PAC, apareceu o pré-sal nosso, fruto de muitas pesquisas, poderia nos trazer autossuficiência no combustível mais queridinho do mundo, e ainda daria para vender ao mundo e fazer dinheiro para acelerar ainda mais o nosso crescimento. Até que ele foi saqueado e fatiado, e oferecido, é claro, muito interessante para a poderosa Exxon. Vieram os leilões e deixou de ser nosso combustível e motor.
Então, agora, vivemos os dias mais alarmantes sob esses olhos mundiais pelas riquezas do mundo e defloração de quem precisa estar por baixo, subserviente. E começou a ferir a classe média, quem comprou carros novos ao custo de IPI zero com a vantagem dos subsídios governamentais para abastecer seus tanques com combustível mais barato. Já tem mais de uma semana que o preço da gasolina, etanol e diesel subiu, começou a faltar o líquido nas bombas. Já são tantas filas para abastecer e os preço subiram numa velocidade avassaladora. A gente já nervosa agora peleja para meter combustível no carro e sair por aí atropelando a mobilidade urbana e deixar nosso tráfego mais desconfortável.
Essa desestruturação não só afetou transporte individual e cotidiano para pequenas distância. Já chegou aos aeroportos e os aviões começaram a parar também. Voos cancelados, fim de férias (até o começo) com uma frustração de não poder sair de onde estar. Classe média que viaja nas férias, até os mais ricos que viajam sempre a negócios: todos afetados por falta de combustível. Confusão nos saguões dos aeroporto e hotéis, prorrogação de estada, prejuízos, amargos montantes por uma bagunça dos especuladores - tremendos abutres - e pela luta daqueles que pararam porque viver transportando o que move o País tem se tornado perigoso e antidemocrático. Protestos nas rodovias porque também tem gente que depende mais do que para se mover para negócios ou lazer, mas depende do movimento para manter sua vida cotidiana e suas férias, quando der: os operários do transporte.
Então eu volto ao meu dia a dia como operário do turismo, lidando com o estresse de todos, tentando esquecer o meu para sair de casa ao trabalho e melhor servir à agonia dos turistas e homens de negócios. Continuo a ver os pobres nas esquinas, abandonados e esmagados porque lhes fazem desimportantes. Chego ao meu local de trabalho - foi duro encontrar, certo?! - e vejo aqueles que se acham mais importantes sofrendo com o cansaço e a frustração de uma viagem toda interrompida por uma série de erros, mas culpam apenas os caminhoneiros e se esquecem de que a culpa é toda nossa. Por que não cobramos os projetos de aceleração como se deveria? Por que muitos apoiaram o lado que quer sempre ver o outro mais fraco cair do lado onde a corda arrebenta primeiro?
Foram às ruas tirar a presidenta Dilma manipulados pela mídia, e então onde ficou todo o resto mais fácil de resolver? Lula na cadeia, e tudo ainda está do mesmo jeito, como ele ainda estivesse solto, como acusam-no de mentor dessa corrupção, que, na minha modéstia leitura, existe desde os tempos de Brasil Colônia. Muita gente saiu comprado pelo "Fora, corruPTos", gritou e bateu panela. O PT saiu do governo, já tem dois anos, e todo mundo ficou em silêncio até a carne cortar no lobby de um hotel, a cara cansada e as feridas ardendo. Ainda nem acredito que estão gritando que é culpa só de um partido, com a cara cansada, quando estavam pintadas de verde e amarelo, vestindo a camisa da seleção brasileira, apenas produzindo essa situação atual. Agora continuam procurando outros culpados ou culpando quem nem está mais no Poder. E o turismo brasileiro que poderia e vinha sinalizando um fortalecimento tem seus dias mais pesados, enquanto eu ainda estou cansado, mas apenas fazendo parte da equipe operacional. Também estou cansado, mas não frustrado pela minha viagem empacar. Mas com a mesma esperança de ir trabalhar amanhã e tentar ajudar quem está cansado também.

25 de maio de 2018

Terra adorada

Uma bala perdida. Uma pátria amada. Um peso, uma medida, um olho por olho, dente por dente; talvez um homem que plantou semente, semeou-a como quem pacientemente esperava que longos dias, estações adversas, várias delas, tudo sob a lei e a mais importante da honestidade: o fruto de sua semeadura. Justa. Correta. O que vem depois, será por lei, sempre, um filho.
O País que em pecado, no passado, herdou de si mesmo a terra roubada, há séculos, dos filhos que fogem a luta enquanto sofrem os que se armam de fé e remissão, dívida herdada por tabela, pisam forte o chão, uma vez que aperta o coração, e produz a lavoura para alimentar os mesmos caras-de-pau que cometem tudo que são de cometer por tempos, em tempos e tempos.
Filho órfão da União, do terceiro setor, de quaisquer adoções; são filhos cegos, geneticamente influenciados por estúpidas vezes que se deixaram, em nome deles, o pão ir-se esfarelando numa vitrina onde, aqueles que podem e não querem, aqueles que sofrem com fome e não podem, o ar seco e a luz que oscila degradar o alimento de quem plantou e não pôde escolher.
Estou vendo o Brasil há poucas décadas sentir coragem e travar escolhas mais certas, e voltam a repetir o mesmo erro com nuanças de uma moda que passa por colônia, império, república, ditadura e democracia, no pote de mistura, a batedeira faz da força colorida da nossa etnia uma lama escura e horripilante. Estou vendo há três décadas os erros se repetirem conforme minha leitura um dia me mostrou que toda aquela ganância só passar hereditariamente para uns nomes cuja bênção é promulgada por quem se levanta como sacerdote pronunciando seus ritos.
Faz algum tempo que quero, na agonia, partir, vejo mãos por aí, dadas furtivamente, das premeditadamente... vejo mãos separadas, não alcanço de tão longe que estejam aquelas em que um dia achei, por ingenuidade, querer com as minhas andar, dadas, em nossas forças. Faz algum tempo que olho minhas mãos trêmulas quererem apertar as mãos verdadeiras de homens íntegros, que queiram como eu, não fugir à luta, mas sentir um aperto de mão forte e digno. Faz algum tempo que perdi um pouco da memória de ir ou ficar, e permanecer entre aqui e acolá, ligado aos irmãos cujos nomes são tão simples como o meu. Foi na simplicidade que encontrei a solução: eu estendo a mão e a mão que, se a minha se junta, quer andar para onde for sem questões banais de terras em meu ou seu nome, porque a terra fica para todos, afinal. Todos terminam por escolher como tratar a terra sem perceber que a escolha tem feito, do chão, propriedade, sem jamais querer que outro semelhante, seja filho, seja irmão, seja amigo, seja querido ou não, tenha a mesma oportunidade de caminhar num lugar seguro, como um porto em que se lança e se volta, quantos homens passarem e quiserem desbravar. É aqui um lugar seguro? Temos aqui um porto para ancorar nossas barcas desbravadoras de bons corações? Não tenho a resposta, infelizmente, mas tenho um posto e nele aposto com um aperto de mão e, talvez, abraço sem patriotismo medíocre, sem a ganância por terra que o vento leva tão fácil quando poeira.