7 de abril de 2017

Mandado de segurança

Caso precise de uma saída de emergência, onde estarão as portas batidas?
Portas a serviço de não entrar, a mando de quem?
Mas se houver portas de entrada, que sejam saídas para quem está de fora, inseguro;
Que entreaberta estejam sempre para quem mudar referência - em estar onde não se queira ficar; quem queira mandar.

2 de abril de 2017

Gastrite nervosa

Eu pensei que iria voltar.
A dor iria passar.
Eu pensei demais.
Agora a dor passou.
E não vieste.
Nada como o pantoprazol
Para resolver nosso caso.

19 de fevereiro de 2017

Sangue latino

Há manchas de sangue nas paredes do meu quarto. Escorrem sob 8 graus Celcius o sangue quente de um ser humano. Aliás, dois. Digo, um. Desde que fomos um. Há o nosso sangue a escorrer até o chão do quarto. Para que, no solo da minha existência de alguns meses, eu sinta esta pista de dança escorregadia quando te chamei para nosso último baile. Aqui dançamos, pois que latinos, o sangue efervescente deste amor que as paredes inóspitas testemunharam vida. Viver, meu amor, não é deixar essas marcas, pegadas feitas de sangue, nem essas manchas de sangue. Viver é ser sangue, é ser quente, é sentir este calor mesmo em condições que queiram dizer o contrário. Como um desafio, que cospe em nossa cara que nunca viveremos o amor. Não te importes - já não me importo - com a opinião dos que não vivem, que estão a discordar de mim, de ti, de todos. Somos discordantes, também, somos iguais na fervura do sangue, pelo amor. Ainda que continuem a dizer que não.
A partir de hoje, este quarto não é mais meu, e quem virá ocupar? Não tenho ideia. Mas que derramem sangue como, juntos, derramamos, aqui neste lugar.

27 de janeiro de 2017

Lei da Demarcação


De antemão, aviso:
As águas do Sousa serão testemunhas,
Espelho dos olhos.
Não te molhes antes que eu fale.
Antes que eu falhe, não te culpes.
Antes da diagonal, não morramos.
Quando eu morrer pela sétima vez,
Acredita em mim:
A oitava vida será, por duas, dividida;
Como o infinito oito, serei quatro,
Tais quais arcos de volta perfeita
A encobrir água de alma feita
Das lágrimas que lá retrato.
Brinda o quarto dia.
Bebe um gole daquele primeiro...
Esquece dias do meio, enfim.
Pois há tempo para beber tanto,
Para sonhar - quem sonharia?
Porque em mim, marco recanto
E desmarco, por lei, algum fim.

20 de janeiro de 2017

Rocha no tempo

Não sei quantas vezes serão necessárias repetições de um nome na tentativa desesperada de fixá-lo na vida, como se a memória suprisse toda existência de um ser em outro. Mesmo assim eu repito. É como um plano literário de fazer viver tal signo vitalício, uma súplica derradeira de cravar tal qual arte rupestre nesta rocha enorme que entendo por mim. Endureci-me para suportar as intempéries das Eras da minha oscilação de espaço-tempo e, quem sabe, encontrar-me em mim, tal força petrificada contra as águas e ventos que jorram e sopram dúvidas de como e onde vou parar assim... Eu, que não vario mais que duas constantes permanências de vida: em mim e para mim, os vestígios de existência.
Em mim, onde vive a ternura adentro, na camada mais profunda e mole à espera de solidificar minha passagem discreta e assumidamente tímida que os antropólogos um dia reconhecerão como firmeza de um ancestral.
Para mim, os templos a proteger e a reverenciar em cultos sem ousar ser deus ou tão homem, já que distante e dura a rocha se firma como matéria sem dor, fria por absorver o tempo e esquecida por procurar imaterialidades. 
Assim, quero deixar de mim apenas alguns símbolos de que passei por aqui, por ali sem saber com precisão onde tudo acaba para começar outra vez a brotar da semente um ramo de felicidade. 
Se for de querer, encho-me de ornamentos, desses que enfeitam rochas frias e cinzas, ou em qualquer outra cor sem importância, para distrair os olhos até que, em paz, o magma mais quente da ternura possa ter o seu tempo de endurecer e fazer de tudo uma coisa só, uma matéria só, sem divisões em cor, estado ou textura... sabe-se lá mais o quê! 
Se um dia descobrirem que esta rocha tem na superficialidade a arte de se arranhar a todo instante, sob o tempo, quer chova, quer seque de calor temporal, quero que continuem imaginando que ela é apenas o papel em branco onde homens só lhe tinham para escrever seus rastros de caminho, de orientação ou apenas de manifestação de algum sentimento, mas que ela continue insignificante em composição, em utilidade modificadora de população e, então, permaneça como coadjuvante peça na história de um povo. Eu não faço questão. Eu já fiz. Eu não preciso mais de um motivo para sentir-me o elenco dessa coisa toda. Hoje, meu tempo é outro. Meu nome é o mesmo. Eu vou continuar a repetir desesperadamente a variação do andros, pois que ele absoluto é toda a humanidade que tenho hoje a guardar naquela camada mais profunda que ainda continuo à espera da solidificação. Por enquanto ela está quente, mole e inquieta. É a parte de mim que aquece mais por existir vida, cor e calor. E o mais impressionante de tudo: esta parte não é só eu.

14 de novembro de 2016

Do abandono da palavra e do tempo verbal

O amor não verbal alagou tudo.
Olha quem semeava a paz,
Antes mesmo de colocar no papel detalhes da vida.
Quando achei que não havia mais um ritmo melódico,
Era só ruído na rua da amargura
Perdido à desatenção face a cada som confuso.
Eu precisava silenciar e concentrar-me naquela folha em branco
A ser preenchida de minúcias como um plano e suas etapas.
Uma amiga dizia: "é coisa de um capricorniano."
Eu estava descrente em muita coisa...
O que era Zodíaco?

Era...
Folha com linhas milimetricamente traçadas,
A fim de evitar passo em falso
Curva misteriosa,
Abrupta e nervosa coincidência.
Queria a certeza calculada da realidade,
Porque preferi a vida em detrimento dos sonhos.

É...
Agora estou sonhando,
Pois que veio o sono da ilusão,
Dos olhos fechados e não querendo seguir as linhas traçadas,
Reta, uma vez que a retidão foi-me o mais coerente caminho.
Eu nunca fui muito coerente.
Um coerente em potencial, só um desejo, o máximo.

Será...
Que existem sinônimos para isso tudo?
Quanto deles?
Qual deles o mais bonito?
Como eles fluem para andar em círculos
E passar novamente por repetição,
Por opção?
Dei-me novamente à quimera.
Eu gosto, eu gosto tanto de sonhar.
Eu gosto...
Eu me contradisse, feliz, porque vi que estava errado.
Este foi o equívoco ornamental.
Outra vez.

Então...
É muito engraçado!
Um descrente a procurar, hoje, sinônimos.
Aquela agonia de buscar uma palavra;
Uma palavra ainda mais bonita,
Um adjetivo ainda mais intenso...

A gramática que se foda!
O dicionário que se exploda!
Porque já não consigo nela achar a razão disso:
Preciso calar-me novamente.
Ah...
Há outro viés:
Escutar suspiros.
Ver intangíveis versos -
(leiam-se fluxos) .
Este silêncio é diferente,
Pois me diz mais que tudo,
Mais que palavras
Que ainda não encontrei.

Abandonei a palavra.
E fui tão feliz...
Contigo.

7 de janeiro de 2015

Sobre a paz daquela menina que me deixa intranquilo

Enxurrada de água
Lavou minha paz
Pra mim tanto faz
Ontem ou hoje:
Eu quero.
Amanhã.
Você.
Minha existência estendeu
O caminho dos sorrisos despretensiosos.
Ah, mas sou mais um descrente
Da paz no mundo!
Vi deus morrer num gole de ciência;
Nos olhos da inocência sua,
Vi o amor e o tamanho de tudo.
Quão grande,
Tão pouco tempo
Passando.
Passando a mão no seu cabelo;
Rindo dos primeiros verbetes
Pronúncia dos dias.
Prenúncio da contemplação,
Eterno:
Dura o tempo que juntos.
Seguro meu sermão de morte
Escondo meu templo da sorte
E acredito em quase tudo novamente.
A paz se foi?
A dor bateu quando me vi partir.
Dois anos de paz.
Jamais um dia após o outro.
Todos os dias,
Entre minhas metas,
Analgesia.
Dois anos: Bia.
Você vive no meu dia
De cada vez.

4 de janeiro de 2015

Nem Dice, nem Justiça, nem Xangô: pedimos justiça ao caso Gaia

Não quero depreciar a Justiça romana, tampouco a colaboração inegável do seu Direito ao qual o nosso se assemelha. Ajustamos tantos vereditos sob sua influência e convergência com nossos usos e costumes brasileiros. Temos diante da nossa instância máxima, sede do Poder Judiciário, a deusa Justiça (correspondente de Dice na mitologia grega) que simboliza prudentia. Ainda assim, não nos isenta de inclinação ao etnocentrismo e conservadorismo quanto as nossas origens mais reverenciadas, cujos olhares dirigem aos réus de cada dia sentença que, muitas vezes, não mantém tal equilíbrio, igualmente ao de nossa sociedade. Pois também temos dificuldade em aceitar todos os nossos genes inclinados, da república ao bacanal, advindos da mesma península.
Ironicamente, na mitologia greco-romana, a filha de Urano e Gaia está diante de uma nova vítima da península itálica: Gaia Barbara Molinari, italiana assassinada por asfixia e golpes de objeto cortante na praia de Jericoacoara, no Ceará. A este caso, coube-me algumas indagações atualizadas quanto ao andamento das investigações naquele Estado, obtendo informações mais diversificadas de sua repercussão na mídia nacional. Então, pergunto-me se Xangô, deus da justiça na mitologia iorubá, estaria de acordo com os desdobramentos do caso Gaia. No momento, autoridades condenaram uma filha negra e pobre à prisão, mesmo sendo Mirian, a suspeita do crime, portadora de direito à liberdade, habeas corpus. Ela não está indiciada e não precisa estar presa para responder pelas evidências que a polícia levantou. A estudante de doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro tem emprego e endereço fixos, portanto não há motivo para deixá-la presa, bem como não houve flagrante. Conforme o jornal Extra apurou nessa investigação, há muita controvérsia apontada por amigos e a família de Mirian, analisando o perfil da estudante, e também pela mobilização que levanta provas de que ela estaria sofrendo racismo em face das situações as quais não estaria legalmente obrigada.
Não sou advogado de defesa ou acusação, mas procurando me informar do caso, entendi que não haveria necessidade da prisão, considerada duvidosa e preconceituosa por seus amigos e familiares. No momento, essas pessoas, que estão revoltadas, fazem protesto por meio de redes sociais, contra o tratamento diferenciado dado à estudante no sistema prisional.
Como observador do cotidiano em nosso País, suponho e me inclino a algumas indagações, ainda que não seja amigo ou parente de Miriam. Porém, não confiando plenamente, por razões históricas, nessa articulação entre ação policial e medidas judiciais, decidi engajar-me na causa. Faço isso não por acreditar na inocência da doutoranda carioca, mas por persistir e cobrar lisura e equilíbrio da justiça, sem que haja privilégios ou desvantagens a qualquer ser humano sujeito à legislação criminal vigente. E, creio eu, como a maioria das pessoas que deseja prudência, espero por justiça tanto a Gaia quanto a Miriam.
Que se respeitem suas honra, palavra e condição de mulheres, a fim de que não sejam apenas mais uma estatística dos desmandos que envergonham nossas origens (mestiças), o presente que nos deixa sempre duvidosos, para que amanhã não tenhamos de olhar para trás até para provar habitualmente o contrário, porque pode ser tarde demais.

18 de dezembro de 2014

Sheherazade e a polivalência fundamentalista: jornalista, advogada de defesa e juíza do caso Bolsonaro

Existem coisas que não são novidades e que muita gente está cansada de saber. 
Não por acaso começo esse texto com uma frase genérica e quase jargão.
Falar o óbvio é tão fácil quanto apontar com o dedo para que se olhe aquilo para o qual se aponta. Improvável seria, após o ato, dizer: não, é para que olhe meu dedo! Quando se trata de Rachel Sheherazade, isso não seria tão improvável assim.
Considerada contundente jornalista, de opiniões polêmicas, a paraibana deve amar holofotes sobre sua voz e ser porta-voz de si mesma. Até aí, tudo bem... Que atire o primeiro advérbio de negação quem nunca teve seu momento de vaidade! No jornalismo, é habitual a notícia se tornar coadjuvante porque o indivíduo digeriu uma pauta inteira e se sentiu com o rei na barriga. Até aí, mais uma vez, tudo bem... Vanitas vanitatum et omnia Vanitas. Entretanto, para além da vaidade, há, naqueles holofotes que falei anteriormente, uma característica peculiar: a mídia.
Atualmente, Sheherazade lança suas teorias fundamentalistas (e gramaticistas, no episódio de Opinião sobre o caso dos deputados Jair Bolsonaro x Maria do Rosário) na manhã do último dia 16, pela Jovem Pan. Para quem ainda não escutou as teorias dela, é interessante acompanhar o áudio disponível na página da rádio. 
Eu preciso ir um pouco além, novamente, e analisar minuciosamente a curiosa gravação sobre cada substantivo, adjetivo e claro, o advérbio narrado com uma entonação empolgante pela jornalista. Farei isso por partes, quando já inicia usando a expressão "cinco gatos pingados do PSOL..." para se referir aos parlamentares daquele partido. Sucede, ela, dizendo que  "agora estão todos contra Bolsonaro", classificando os partidos de esquerda, "as feminazis, ou melhor, feministas" - evidenciando ironicamente o trocadilho com neologismo pejorativo para qualificar as ativistas do movimento -, as organizações de Direitos Humanos e congêneres (na minha leitura, "congêneres" segue a mesma linha de ideologia imputada a seu texto). 
Depois das adjetivações dadas ao grupo que se opõe nesse episódio, Sheherazade, começa a advogar por seu réu, sempre tratado como "deputado", e quando decide usar outras qualificações, ouvimos ex-militar e parlamentar, claro, depois de justificar e trazer à tona os dados quantitativos da eleição por ele vencida e até a quantidade de votos angariados na última eleição, que "não por acaso entrando em seu sétimo mandato" para muita gente que, assim, se sente por ele representada, segundo a jornalista. Ela se esqueceu de que o processo eleitoral brasileiro é obrigatório e que opções podem ter diversas razões, das mais apaixonadas às impostas, persuadidas ou mesmo compradas.
Assim, ao tratar Bolsonaro como deputado e, em contrapartida, referir-se a Maria do Rosário, por duas vezes, trata a também deputada como "Dona Maria" (apelando para o genérico feminino que coincide com seu prenome). Na sequência, usou a concessão pública - para se ter uma rádio precisa de que o governo conceda tal atividade - enaltece o currículo parlamentar do deputado remetendo à defesa do projeto de lei de sua autoria que pretende reduzir a menoridade penal para punir estupradores com castração química. De tão empolgante, a analise análise curricular audível suscita necessidade de que seja aprovada sem discussão minuciosa, a fim de resolver o problema das mulheres vítimas de violência sexual, proposta pelo deputado em 2013; salienta, ainda, a oposição da deputada Maria do Rosário a esse projeto.
Como não bastasse os elogios, ora sutis, ora aquecidos de significados claros, Sheherazade parte para a análise morfológica de apenas um termo do período dito por Bolsonaro. Elementar como sua opinião, a jornalista se detém à morfologia da nossa gramática para justificar que o deputado "pode ser tudo menos um estuprador", porque disse "eu jamais iria estuprar você porque você não merece", quando imposta seu discurso e sua análise gramatical limitada a encontrar sinônimos para o advérbio "jamais" e, então, inocentar o deputador que "nunca" iria estuprar Maria do Rosário. 
Uma jornalista que, a partir desse momento usa seu aparelho fonador com letargia botânica a tirar a vida de nossa "última flor do Lácio", com padrões elementares de conhecimento em língua portuguesa, ficou concentrada na morfologia de apenas um verbete e se esqueceu de, como profissional com nível superior de educação, destrinchar sua observação para um patamar que foge à classificação de palavras e poderia usufruir de considerações gramaticais menos elementares, como uma análise sintática do período composto por coordenação, já que Bolsonaro usa uma oração coordenada sindética explicativa, a qual determina o motivo de supor que o estupro não era válido tendo um porquê, finalizado com a negação do verbo "merecer". E, a advogada do réu, digo, jornalista da trupe de tantos réus inimputáveis, complementa o desfecho de Bolsonaro "porque você não merece.",  Sheherazade põe uma extensão: "nem ela nem ninguém!", como uma prova cabal unida aos autos. E o que se segue até final de sua opinião é o veredito que inocenta um estuprador em potencial.

7 de dezembro de 2014

Mulheres de Atenas foram assassinadas?

Escrevi, há quase um ano, um texto triste, que falava da velhice, como sentisse na pele o tempo corrido e o cansaço de quem já chegou à melhor idade. Fui da antítese ao abismo numa questão de contagem de caracteres, aqueles que couberam no post de despedida. Foi um fazer-me calar necessitado, foi o medo e o desespero diante à escassez das minhas palavras. Coloquei um fim e fui me dando a ele até que ele chegasse... ele não veio. Uma razão para tudo era o que buscava. Encontrei em duas situações o bastante para decidir me manifestar e retirar do baú das memórias que havia esquecido todo o meu gosto por digitar pensamentos.
Vou explicar, claro.
Na madrugada de hoje vi muita gente comentando a discordância de opinião entre duas cantoras: Pitty e Anitta. Não tinha visto o programa mais recente do Altas Horas que foi ao ar. Então, curioso, fui buscar o vídeo na internet. Depois, consegui casar o debate fracamente mediado por Serginho Groisman (acho que o apresentador quem incitou) com o texto de Karina Buhr para o blog Pane no Pântano: O Pau como Revólver.
Peço desculpas antecipadamente sobre meus poucos conhecimentos de causa, mas a intenção é a melhor, prometo... Se eu for machista, desculpe-me, pois procuro cada dia que passa superar essa educação que tive desde pequeno e que, inclusive, chateia-me quando vejo que muitas mulheres foram infectadas e o poder de virulência dessa doença social, em qualquer nível da sociedade. E as desculpas também valem para a técnica, porque faz tempo que não escrevo, ao passo que lamento minha falta de prática com as habilidades de significado. Buscarei incessantemente aprimorar isso, porque deixei de escrever como hábito, mas jamais parei de fazer questionamentos e, por isso, continuo um ser humano triste com algumas respostas e a falta delas.
Não nasci com a feminilidade visível, não me foi uma questão natural, mas fui criado entre tantas mulheres. Minha testosterona não me impede de sentir a veia feminina onde corre com dignidade uma das lutas que tomei para mim por respeito a tantos exemplos vistos de luta por igualdade, superação de preconceitos e prática de afirmações necessárias no contexto em que a democracia não culmina no respeito, no mínimo, que se deve ter às cidadãs deste mundo.
Começo por analisar nossa língua que generaliza tudo no masculino; não deixa de ser plural com sua ideia a abraçar todos, mas deixa de ser feminino. Se ela e ele decidirem ir a algum lugar, eles vão juntos. São deslocamentos onde o macho predomina, onde espécies "frágeis e dóceis" tendem a ser protegidas por uma terminação que determina o sexo protetor. Existe a união, mas ela ainda não conseguiu dividir o peso das duas forças a tê-la exatas. O feminino só predomina se a união linguística for de duas do mesmo gênero. Acredito que daí já se produz hipótese para que a ideia de feminismo costume figurar naquela mulher que com outra possa ter, suscita lesbianismo ou as vertentes mais absurdas que já presenciei na vida. Eu mesmo conheço mulheres muito femininas, lésbicas ou não, e que apostam realmente no direito de exercerem suas expressões (seja na moda ou na literatura etc), mas nunca conheci uma situação dessas que se isente à crítica de um macho alfa, poderoso e violento. 
Incomodo-me bastante em ver meninas que, como a cantora Anitta, que justifica que "algumas mulheres não têm respeito porque não se dão respeito", mesmo que ache que suas interpretações sejam desrespeitosas, não por vir de uma mulher, mas porque leio unicamente como que seu trabalho já está totalmente influenciado por essa ditadura estética de que a mulher precisa ser perfeita... e claro, para agradar um homem ou, como tem virado moda no funk, debochar com meia dúzia de desdéns sem eu lírico criativo. Muitas vezes consigo enxergar - se eu tiver enganado, pode corrigir - que acentua a própria disputa feminina por holofotes, sejam quais forem suas metas e objetivos em ser alvo de uma luz artificial e, ainda bem - e sempre fico nesta torcida -, o brilho próprio sempre me agradou mais aos olhos do que um retoque no cirurgião plástico ou do patrocínio daquela tintura de cabelo. Não quero julgar a vaidade de ninguém, mas precisei usar essas comparações para contrapor genótipo e fenótipo, que ainda lembro um pouco do aprendizado na educação básica. Só pra dizer que as mudanças precisam haver para aprimorar e não por uma questão imposta.
Há poucos instantes eu lia o texto de Karina Buhr no site da Carta Capital, e depois dele a admiração política que tinha de um engajamento de um homem foi tudo pelo ralo mais próximo da fossa, por conta de sua atitude em usar seu pênis para intimidar e retrucar uma mulher. Foi, então, que me dei conta de que as "mulheres de casa" jamais usaram o verbete "pau" para se referir ao nosso órgão sexual, porque na boca de mulher os palavrões parecem alcançar dimensões mais feias, que minha mãe nem minha irmã ousam pronunciar. Como homem, sempre tive liberdade de falar coisas que, culturalmente, as mulheres da minha família estavam proibidas. Toda a minha reflexão cuspiu na minha cara, inclusive, quando eu mesmo censurei atitudes da minha mãe em relação ao meu pai e, felizmente, hoje entendo plenamente porque o belo pé na bunda que ela deu nele foi tão merecido que antes fosse isso do que o contrário, para cumprir a praxe reservada às famílias tradicionais.
Foram alguns anos convivendo com mulheres feministas, escutando-as, que me deram a dimensão de um problema muito mais grave, porque foge ao óbvio, foge à violência crua, foge à necessidade de intervenção judicial ou policial: é uma violência que está na língua materna, nos símbolos mais imperceptíveis e, por que não, no silêncio? 
Eu precisei de um grito e cada abuso de poder masculino meu serve como outro para enxergar que ser machista está arraigado, é como um vírus latente, que cedo ou tarde acorda no corpo e faz covardemente desencadear falta de noção, doentia, uma enfermidade silenciosa avançar para o estado crítico, gritante. Ainda bem que os gritos estão aí; que sejam agudos e graves, que sejam a união onde não prevaleça ninguém, mas que se divida igualmente tanto o alto quanto o bom som!