28 de janeiro de 2019

Jogo de Milico

Esconde os dados do grande tabuleiro,
Um país inteiro à mercê de um exército de nada a ver.
Soldadinhos de chumbo, de estranho ou talvez nióbio,
Quantos deles serão suficientes para aplicar a tábua da solidão
A regulamentar a vida conforme liga de metais pesados, a lama e muito caos?

- Um grande tabuleiro! Um grande tabuleiro! -
Gritou o garoto entre os garotos que gritam dores,
Choram privilégios com lágrimas que pigam gota a gota
Numa conta do tamanho dos seus patrimônios.

Ah, eles também são especialistas em exorcizar demônios
Que vieram de outros cantos que não os cantos presbiterianos
Celebrados no cume da Trump Tower ou algum ponto dos vales de Davi!

Eu vi e ainda vendo a escola sendo criacionista dominada por terraplanistas
Cheios de ciência ortodoxa com uma pitada bem caprichada de liberalismo.
Fogo! Fogo!
Queimam todas essas bruxas marxistas,
Queimam as bichas ou usam o maior requinte de sua inteligência
Apagando diariamente um direito que evoluiu sob muito sangue negro,
Um peso grande chamado de arroba,
Como animais que não tardam em serem entregue às caças.

Olha, vão vir quantas medidas provisórias
Para ganhar-se tempo até comprar os outros soldados sem deus no coração?
Aqueles da bala e do boi...

Fazer um guisado com muita pólvora no tempero,
Que desprezo à diversidade...
Que despreparo no cozimento dos sufrágios!
Receberam uma intimação à moda das trincheiras,
Se não veio por disparos à queima-roupa, ainda,
Foi à queima-gramática, queima-qualquer-rubra incidência.
A decência dos homens  - cidaDÕES -
Se mistura com a tara dos mitos,
É um caldeirão de vísceras ruins,
Que não cabem numa bolsa, toda essa bosta..
A quem se limpe com mãos dadas, olhos fechados e oração.
Eu, não. Eu não participo do jogo.

10 de dezembro de 2018

Só Lázaro pôde ser feliz


Se há um pouco de maldade em mim, tive certeza por haver dor. Faz alguns dias. E a forma como encontrei no mal a libertação da qualidade de santo, homem bom que tento ser, não caio mais no conto da assunção. Nunca ascenderei, seja qual for o modo; qualquer passo acima, esse movimento vertical ascendente não é dignidade que condeno, é descrença total pela recompensa que não me vale a pena. Não obstante justo e bom vale ser pelo conforto no valor, cuja força que faço para que o calor social não faça derreter esse congelamento de ideia. Precisei transformar numa pedra firme de gelo para que não se talhe à inocência de que vai ser algo cultivado pelo roubo ou furto. Não será presente, senão objeto que cabe na mão fechada e fria, por não culto, por apenas deixar estar.
A quem eu vier a dar graças, seja lá qual dia for, sei lá, por medo ou por redenção, por esta bondade que, creio eu, não se finde, mas que permaneça na balança necessária que a dor me traz. Se dói, é melhor saber que há maldade, mesmo que pouca, mas endereçada a mim, para não fugir à realidade. Se eu vivesse cem anos presumindo a ingenuidade sobre o pilar de cem por cento bom e justo talvez não reivindicasse o mesmo tratamento com o qual lhes dou sem precedente, potencializado pela forma constitucional penal de presumir a inocência até a prova contrária.
A mim mesmo, já repetitivo, não é o culto que convence. Aliás, que esteja distante porque a espera delonga. E como prenunciei que a dor me fez ter certeza de qualquer maldade, mínima para sobreviver, já vou explicando, porque foi ao assistir à história fantástica de um protagonista, instante em que percebi que me machucou e, por mais empático que fosse eu, jamais toleraria tamanho sofrimento de ser tão bom e justo por tanto tempo e sob tantas circunstâncias. Obrigado, Alice.
Outra coisa a revelar que há maldade em mim, foi a tristeza, ela sempre advinha da insatisfação. Se há regra, e por mais que esta privilegie no topo de uma pirâmide uma parcela dos piores desastres, eu a confrontarei porque a noção de quão interior a mim está a oposição ao capital. Justamente porque optei em levar comigo a maldade com rechaço à maldade sob leis e essas regras que um sistema impôs há muito. Existe, então, boa maldade? Não sei. Mas sei que há a necessária, para álibi ou para que não se deixe toda cor absoluta infiltrar um pano branco e deixá-lo não ser tanto alvo quanto de outra única nuança. Há de ser tantas, ao menos duas, porque é necessário que haja no mínimo metade para se dividir - ou colorir - porque tudo que é absoluto nunca foi verdade. Assim, temo que estejam sempre emplacando absolutismos, com nomes diferenciados. O acordo, por mim, sempre será, no mínimo, meio a meio. Não é justo?
Foi por três vezes que vi a mesma obra que reconheci e ratifiquei a maldade, talvez para evitar empate, precisei de ímpar e, como se diz por aqui, a vera. Maldade justa de um homem justo. Maldade boa de um homem bom que me fiz ao reconhecer, ratificar e, até agora, desempatar. Continuar neste ponto de vista para caminhar mais horizontal do que verticalmente. Para mais além de cultuar qualquer santo, mas, de suas alegorias, tirar o suprassumo. Ninguém é bom, afinal. Totalmente bom, não. Ou totalmente feliz. A fome faz até lobo o homem lobo do próprio homem. Alguma situação faz o ladrão, já sabemos, e foi a maldade que fez outra alegoria chamar de pecado, mas tirar a inocência de um ser para que não se permita nem corromper-se tampouco enganar-se por outro. Serei, por fim, bom e justo, mas o suficiente. Há de ser feliz, quem não quer? Hei de ser feliz na proporção suficiente da bondade e da justiça. Contudo jamais serei feliz como Lázaro.


Este texto é uma crítica de cinema + eu lírico de Lazzaro Felice 

20 de outubro de 2018

Caminho

No álcool da noite, o efeito-sabote
E o café da manhã com gosto forte:
Eu quero mais um dia!
Eu quero a noite toda minha e só.

Se eu dormir durante a tarde
E o gás vazante da parede sufocar;
Asfixia para acordar aos últimos raios de sol.
A noite novamente sem propósito,
Sem amigos, sem sorte, sem querer...

Alô! - Quem está do outro lado?
Quem queira eu ainda que esteja.
Se não quiser, um silêncio pontual.
Eterno, talvez, caso queiramos:
Eu e o tempo, senhor tão bonito.

Fração de vida, 
Frações que perdi a conta.
Fortuna de quem perdeu aqui
E ganhou, ali, mais uns minutos
Em contas perdidas de novo.

Foi um pé direito à frente,
Mas atrás estava o outro
Segurando e equilibrando o destino
E foi mais um passo,
Mais um, mais um, mais outro...

Eu vou andar; por que não andaria?
Se à tarde sob leve sol das cinco horas
Eu quiser parar para descansar...
Logo às seis, continuo mais um e mais outro
Passo para entrar à noite e passar
Mais um dia caminhando.

25 de setembro de 2018

"Isso poderia ser o final de tudo." Ainda não é.

Comigo estavam pai, mãe e minhas duas tias. Estávamos sentados lado a lado naquela fileira de cadeiras diante de uma cerimônia sóbria demais, demagógica demais, mas com um significado pessoal para cada uma das vidas que estava ali.
Meio desalentado, eu estava com sintomas da falta de expectativas que um sistema me presentou. O mercado que me empurrou de um lado para o outro; sacudiu em mim promessas e ao mesmo tempo migalhas condecorativas, eu cansei, poucos compreenderam, e eu apenas larguei as mãos que apertam com crueldade: bolsos, estômago e até sonhos. Elas estrangulam. Tinha um peso, uma medida; dois pesos e duas medidas; eu tinha o equilíbrio distante de onde eu nunca pude chegar.
Cheguei ali com a força de umas palavras, umas agonias, textos, livros, trabalho, crença e mais uma vez descrenças. Cheguei porque me vinham da boca pra fora um hálito reforçado de praxe, de boa educação ou de cumprimento de agenda. Vinham também do lugar mais verdadeiro que só bastou eu olhar para trás e perceber que eu não estava sozinho. À frente, na fileira de cadeiras verde-escuras, nem atrás com o sinal de força que recebia com um silencioso "presente" e um sorriso desfechado. Muitos dos meus. Os mais verdadeiros, talvez. E depois tive a certeza.
Obrigado.
Eu não estava feliz, eu estava só neutro. Acho que neutralidade foi uma das maneiras mais estúpida e corajosa que consegui sobrepor à luta que não acabou, mas após minha última derrota, tantas possibilidades ficaram turvas. Escurece o amor, depois do espaço que dei para que mentiras me descreditassem como amigo, como amante, como qualquer ser humano verdadeiro que pudesse exercer uma atitude responsiva e vice-versa.
Eu não acredito mais em vice-versa.
Contudo há coisas para acreditar. Essas são bem melhores, valiosas.
Quem sabe estou aqui para ser o primeiro a discorrer sobre o pódio, seja o melhor ou o pior índice. Onde quer que eu esteja, estarei verdadeiro. E posso olhar para trás e ver aquela pessoa maravilhosa que a vida me apresentou. Que depois que eu fiz um monte de coisas desagradáveis e é possível que nos desagrademos. E depois nos perdoamos porque sabemos que em nenhum momento deixamos de ser verdadeiros um ao outro. Aliás, da minha parte sei que sempre agi em sua direção com a verdade, mesmo que ela fosse má. E sei que a sua verdade foi tão dolorosa quanto importante para eu entender o espaço que se criou entre o que um ou outro acreditou ser e não era.
Estas palavras não falam de amor eros. Eros não convém. Teve seu tempo numa mitologia, no Lácio.
As palavras que eu gostaria de dirigir àquele ser humano que estava encostado na porta com um sorriso, porque dos poucos amigos que tenho foi o que me deu prestígio. É o que nunca mediu nenhum abuso meu para determinar que estou certo ou errado. É o que o tempo já se vai em alguns anos e eu um dia fiz questão de quebrar o silêncio de um ano para agradecer por estar em outro lugar e estar ali com a oportunidade que sempre sonhei e consegui, a contrapartida de hoje em dia.
É bom sabermos que protestamos pelas mesma causas, lutamos cada qual à sua maneira, combinamos um tempo desses, sei lá, uma tequila para ver como mexicanos veem também a morte e saber que tempo é significados.
Obrigado novamente.
Nunca um capricho ultrapassou nossa amizade. Não seria uma parede mofada, uma cadeira velha, onde eu sento e caio. Tampouco um quadro com pintura estragada, um restauro de Cecilia Gimenez... E quando você aprendeu a lidar com meu pessimismo espirituoso e a também não retaliar meu timing. E aprendi que, sob quaisquer circunstâncias, nossa amizade é um lugar muito bonito "and if you have a minute, why don't we go? Talk about it somewhere only we know."
Obrigado, por fim.

18 de setembro de 2018

#EleNão

Desta manhã que um rio entrou no meu sonho com corpos boiando sem origem, sem nomes... sem entender, eu estava mergulhando diante do absurdo onírico. Uma estrela de Hollywood queria me seduzir com seus olhos tão lindos. Logo eu?! Não dei oportunidade. Havia uma mãe e um pai que também me seduziam com o olhar,  e a filha me seduzia com uma conversa. Sonho louco. Acordei quando preteri, era uma chance que iria dar a um pó-porvir da constelação.Que insano! Despertei sozinho e revoltado porque só no mundo dos sonhos eu tenho visto a sedução que vem à minha maneira, talvez um jeito que me dou de fazer as regras e contar com elas para mim, mesmo quando meu corpo descansa. O dia não foi em vão, mas foi tão nada a ver com o sonho que me entregava à uma segunda-feira com uma agenda mínima e umas objeções.
Tudo bem, tinha que encarar a cardiologista e receber notícias - foram animadoras. Não destruíram meu coração, desta vez. "Está tudo normal com você e tem apenas dois inimigos..." nomeadamente soltou uma piada e me deu um atestado para colocar o corpo em mais movimento. A piada veio porque há muito tempo que não chamo médicos por "doutores" e seus nomes são iguais ao meu, relação de paciente, cliente, de qualquer coisa que quebre essa doutrina de sobreposições sociais. Ela sorriu e se despediu; disse que próximo ano faríamos uma nova avaliação cardiológica.
Mas a boa notícia era sobre a saúde física. Eu ainda tinha de enfrentar uns textos perturbadores, quando vi que a Embaixada da Alemanha em Brasília tinha sido contraposta ao publicar um vídeo explicando o nazismo, enquanto muito compatriotas meus negavam o Holocausto, acredita? Um vídeo que expunha o reconhecimento do nazismo e sua relação com a política de extrema direita, o qual aquele país em suas escolas educam os adolescentes a não reverenciar um dos episódios mais horrendos do mundo para que não se repita. E do Hemisfério Sul, América Latina, nestas terras que, pouco mais de quinhentos anos atrás foi invadida e nativos dizimados, ao passo que outros foram obrigados por ideologia de supremacia racial a vir como escravos outros povos, servir ao eurocentrismo e colonizar. Fizeram aqui um cemitério de gente, de cor diferente, de outra língua, outra cultura e também distintas formas de se organizarem como sociedade: o que deu origem ao que é o Brasil, essa grande miscigenação de povos. Impuseram, sim, sob armas e medo, a civilização da qual, tanto tempo depois, faço parte com miscigenação a dar-me nome de brasileiro e não identificar minha etnia num simplismo de (e entre) três povos predominantes. Sou apenas brasileiro e tenho consciência de que nasci de uma mistura histórica. Sou do mesmo país que tenta reparar atrocidades com leis diversas e contrapostas por muita gente, normalmente insatisfeita por não reconhecer erros (direcionados a todos os lados) mas que remédios constitucionais fazem parte do trâmite para reparar nossos equívocos judiciários.
Uma discussão que chega ao terceiro poder a fazer reparações e recorrermos por admitirmos que erros são passíveis de acontecer.
Volto à discussão mundial que reconhecida pelo próprio Estado protagonista de uma grande catástrofe humana implica em suas medidas de não favorecer nenhum pesamento ou atitude que remonte a desgraça de diminuir pessoas por suas convicções e costumes. Eu li comentários odiosos, negando e considerando fraude ou mesmo combatendo, ao passo que responsabilizam uma corrente contrária, para minimizar o que o conservadorismo e a a supremacia étnica alucinada, causa de perdas morais e vitais.
Eu só tinha uma resposta contextual para me opor a essa evocação de ódio no ensejo de uma eleição presidencial em que faces do crime e do horror tentam acomunar com ideias retrógradas e novamente tentarem torturar e dizimar num século onde novas pautas precisam corrigir mais e mais os danos que ultrapassam o ódio, mas combinam com ele e reproduzem agressões a pessoas, a indivíduos e o ambiente que todos estão biologicamente adaptados, nunca finalizado como evoluções. Temas como sustentabilidade, direitos humanos, ambiente saudável, tecnologias a auxiliar desde o bem-estar de ecossistema a cura de mazelas com difíceis respostas e inalcançáveis até hoje: Aids, Alzheimer, outras doenças degenerativas, vírus que antes erradicados começam novamente a protagonizar mais tristezas às vítimas que perdem acesso por questões econômicas e até as mesmas denegações irresponsáveis em nome de conspirações sem fundamento.
Encerro aqui posicionando-me, é claro, contra o terror destemido de um nome oportunista, como dizemos: aquele cujo nome não devemos pronunciar num contesto de Inteligência Artificial que turbinam algoritmos, fomento da propaganda que não precisamos para se matar mais, para se oprimir mais, para segregar mais minha terra que já carrega uma mácula de discurso do descobrimento que não passou de uma supremacia racial detentora de muita ganância e maldade. Quando ela se aperfeiçoa com mecanismos cruéis, como as atuais redes sociais, onde a democratização era para favorecer diálogos, mas incita ódio. Aliado a isso, a tradicional imprensa sempre conectada com a face alva da hegemonia doente e aliciadora e tantos golpes disfarçado de revolução. O avesso dos ponteiros, as horas que tentam voltar no sentido anti-horário, o relógio-bomba que mete medo e tensão. Há um nome protagonizando este espírito na trajetória do tempo, que chega ao século 21, olhando e minimizando crueldade, Para isso, ainda temos opção, em que expresso na minha liberdade sem ódio e dizer apenas: ELE, NÃO.

24 de agosto de 2018

Bíblia, boi e bala

Jogaram a bíblia bem na minha cara,
Rasgou um pedaço da minha testa. 
Sangrou tanto que me senti um boi sacrificado.
Lógico, irritei-me.
Um homem qualquer chegou ao pé ouvido
E me disse:
- Logo terás uma arma e poderá responder em tua legítima defesa.-
Foi tanto desamor em cinco minutos de experiência que desacordei.
Pouco tempo depois uma chuva fina me fez levantar para a realidade;
Despertei.
Eu não havia sonhado.
Todos esses homens estavam sempre ali,
Sentados numa bancada legislando em nome do ódio. 
Só vi tristeza adiante, 
Enquanto a chuva se misturava ao sangue escorrendo no rosto.

7 de agosto de 2018

Mais nada


Deve ser uma morte horrível 
Essa de viver sem mais palavras:
Uma estrofe no meio de tudo
E não conseguir dizer mais nada.

26 de julho de 2018

Sem futuro do pretérito

Por que tão longe de mim? - eu tinha razões suficientes para acreditar que quatro dias foram assim suficientes; uma viagem de não demarcações e despretensão extraterritorial. Como se não bastasse o abismo entre mim - há uma rodovia para marcar quilômetros sem eixo - e um sorriso novo de novo. Das maneiras mais assertivas de um contato físico somado a horas de prosa além do que não se conhece bem e o desejo de conhecer alguém... Perdi o medo, olha só! Aquele medo de passar por idas e vindas, altos e baixos, opostos e, porque ela sempre vem, despedida.
Não tive desgosto, afinal, foi pouco, e foi tanto quanto precisei para ver além da zona confortável de uma sequidão na garganta e nos olhos. Não queria olhar mais para além, nem usar a força das minhas palavras em vão. Sabe que nada foi em vão? Sabe que não posso esperar mais que aquilo! Mas aquilo foi tudo e foi bom. Não tivemos vergonha, a certo instante, de demonstrar o que já estava esperando algumas horas sair de dentro de nós e ter uma plateia para assistir. É... não foi tanto assim, não foi ilusão, não. Foi real quanto surreal.
Tempo para aguardar com uma pequena ansiedade o compromisso com os outros e depois o tempo só nosso, para que? Para estar. Estar é uma decisão. Quando um homem é livre para decidir onde quer estar, já é uma vantagem tão grande de liberdade num mundo preenchido de cercas. Imagine quando são dois por decidir... Estar preso é uma situação grave, pode ser agravada ainda mais quando se é livre e não se aproveita a liberdade, ademais, naquela do silêncio, que foi minha última forma de ser livre.
Amiúde, era divertimento e ele se esgotava numa só brincadeira, uma brincadeira de adulto, mas tão sem graça que dá vergonha ao ver crianças ensinando a adultos que brincadeira é coisa bem valiosa. Engraçado é sentir graça nisso tudo, que já disse, contudo, foi pouco e foi mais que isso por ir além.
A certo ponto, pergunto o que pode ser além quando determinado momento da vida já se acredita ir longe demais com tudo isso. Retorno ao começo, que já teve fim e, portanto, só ficam lembranças que pingam feito rejunte líquido quando esse cobre numa dança escorregadia as lacunas entre peças e cacos amontoados de uma pessoa que se via aos pedaços, sem saber, o pior, que era o porquê.
Agora parece um chão rejuntado para pisar firme e, o melhor, em pé, uma vez mais, com certeza de que há muito chão ainda a caminhar e descobrir que não há cacos se, aos pedaços, não se vê tal qual um objeto partido. O mais interessante dessa experiência - boa e - nova transcende o desvalor que se fora na última limpeza de casa.
Quando templo se fez para cultuar fantasma e obscurantismo, quando não se precisa de mitos para viver de verdade. É uma fórmula simples: não ter regras e não olhar demais para o que não existe, como quem procura algo que é, às vezes, imaginação pura, pois que é um culto.
Sou agnóstico e parecia mais um embriagado de fé alguma em mitos, pretextos e objetivo final sem saber que começo tinha nem me importar com meio, meios de justificar testemunhas de dogmas, ritos e velas acesas sob o sol. A razão ilumina a todo instante uma cabeça consciente de sua importância. Boas e novas lembranças são muito melhor do que o que caiu no esquecimento e me fazia me importar demais por achar o que estava perdido. Consciência danada esta de que se se perdeu é porque não precisa, mesmo, ser achado. Ou leve demais que o vento levou. Ou pesado demais que não sai do lugar onde ficou bem lá atrás, onde não sei, onde talvez nem precise voltar.
A mente que perdeu a memória pode, enfim, celebrar um intervalo singelo de beleza: agora já não esquece enquanto nem podia se lembrar.

14 de julho de 2018

A minha língua não é morta


Pelo tamanho significado que deste a minha pequenez de ouvinte;
Pela consciência que aprendi com uma só canção sobre a responsabilidade que tenho,
Onde quer que o meu direito de ir e vir me faça querer estar,
Acima de qualquer julgamento, o corpo é meu e é somente ele que paga.
A António Variações, todo o mérito da travessia que faço:
Entre o desvario e a sanidade absoluta por uns instantes.
Pelo Norte descoberto e não explorado Trás-Os-Montes;
Pela Vera Cruz ainda não emancipada;
Pela Independência duvidosa e até comprada;
Por algumas outras lutas, em papéis ou até mais agres;
Pelo promontório preponderante de expansão dali de Sagres;
Por laços de língua e jardins - a dizer desta Última Flor do Lácio;
Pelo palácio onde reina, absoluto, todo imperialismo de todos os tempos;
Pelos ventos que fazem soprar velas e planar os motores da tecnologia;
Por essa travessia, por aquela maneira toda própria e menos anasalada em dizer ditongos de duas formas;
Pelos encontros vocálicos, os desencontros numa separação - este tipo, o hiato.
Pela quebra da regra monogâmica e em formar tritongo.
De uma vez por todas, do garbo do homem, animal alado,
Eu me recomponho e me expresso nesta língua, modéstia à parte, a mais bela,
Pronunciando cá e agora, por esta demora do translado.

22 de junho de 2018

Vazio gourmet

Veja só que coisa louca essa ideia de posse,
Essa ideia de propriedade e prévia determinação
Hoje, nossas casas, antes de serem casa
Já são terrenos murados.

Eu caminho pelas ruas e observo,
Todas as casas enfileiradas
E, entre elas, há casas que ainda não são casas;
Estão ali só os muros,
Cercando o que um dia será alguma coisa.
Sei lá... se pode chamar-se de lar.
Sei que essa ideia me perturba.

Não sei se ali terá um gato ou um cão
Ou um animal de estimação;
Se terá jardim ou quintal,
Como, de fato, será?
A arquitetura nos dias de hoje:
Faz espaços para não servir,
Faz de conta,
Faz aquilo que também há e não serve para nada.

As cidades estão cada vez mais
Parecendo com a cara da gente.
Lugares onde há mais muros para separar.
Lugares onde ambientes são desenhados
Talvez para se fotografar
Talvez para que sejam vendidos
Com uma leve impressão
Como a primeira impressão é a que fica:
Não fica ninguém e fica vazio.

Tem um vão enorme bem à frente de mim
Um espaço que caberia muita gente.
Não tem ninguém nele.

Que nome devo chamar?
Que espaço é esse?
Pode dizer, alguma-coisa-gourmet.
Não serve para nada.
Pode servir para uma fotografia, um dia.
Hoje, não serve para nada.
E eu nem sei se estarei aqui amanhã.