16 de janeiro de 2018

"Nesse cansaço da vida que passa por mim"

Ah, se acreditas ainda em alquimia, sorte a tua! Azar, mesmo, é estar na Medievalidade, onde a mística converte toda a sua sabedoria a fim de te prometer um derramamento dourado sobre tua vida cor de sabe-se-lá-o-quê! Teu destino é viver neste legado até o fim dos dias: banho-Maria. Limpa-te de toda a bijuteria presenteada por umas declarações momentâneas, à oportunidade valorosa da joia rara a qual está a pouco centímetros de uma miçanga.
"Não há almoço grátis", pensei nisto esses dias, até pelo teu trabalho te pagam para o compromisso imediato, para que tenhas à mão este escambo de papel ou plástico com um chip que, se tiveres sorte, vem reluzente e enganador, como tudo que reluz, sempre. Podes pensar nas pérolas, nas pedras preciosas ou no tesouro onde piratas há tempos esconderam dos donos obcecados e um tanto quanto danosos, tais quais os piratas, os sacerdotes eos alquimistas. Quem sabe ainda agradeças a Constantino por alguma coisa interessante para a posteridade, no caso, agora.
Se fores mais detrás da pedra filosofal, descobrirás que és um tribal metalizado. Esta obsessão constante, até antes de Constantinopla, por brilho, porque brilhar tem sido o sinal mais coerente desde a invenção do fogo. Dele, a luz veio para fazer sombras dos mitos, inebriar uma caverna inteira ou queimar senhoritas pagãs, um tempo depois, sob égide de um conhecimento materno de minha própria língua, esta última flor fascista com a qual fui doutrinado, dos escritos do Malleus Maleficarum Maleficat & earum haeresim, ut framea potentissima conterens, um assassino tão fascista, sexista, machista, racista, periculoso e opressor quanto a língua sobre a qual Barthes ensaiou. Ainda que eu falasse iorubá, como um nagô vencedor sobre o português escravista que aqui invadiu, matou também o tupi-guarani, disputou com a menos evoluída do Lácio na Península Ibérica, e nos deixou marcas além da nossa comum próclise, no português brasileiro. 
Qual seja o livro que reja uma vida rija de fonte, de contos e alucinações... Que tal acreditares que Davi derrotou Golias, mas hoje ninguém consegue derrubar Temer ou sair ileso após às dezoito horas? O cansaço da vida passa por todos os caminhos físicos que um sobrenatural aí criou ou, contradito, na Seleção Natural, que afinal, finda na mesma hereditariedade que me impôs a língua portuguesa para sobreviver ou pedir um x-burger [sic] antes de ser devorado por uma reprodução diferenciada. Antes que seja "voilá", haja  "top" entre nós para entender melhor Darwin. 
Amém? Saravá!

8 de janeiro de 2018

Feminino

Luciana,

Perdoa-me este sono tardio, perdão também por um português meio arcaico, que já me julgaram purista da gramática, como sabes. No entanto eu precisava escrever-te algo assim, do jeito mais debochado do fundo da minha arrogância quase morta para os confins de uma união de mais de uma década em que nos reconhecemos sempre um no outro da forma diferente que somos mas convém amar a diversidade desta maneira que nós tanto conversamos.
Pensar no feminino, sem consultar o substantivo sagrado, por fazer valer a força que ele tem em grande valorização, a me fazer pensar na minha mãe, na minha irmã e na minha sobrinha; a fazer continu; continuemos assim no meio deste trânsito oposto todo a soprar tanta estatística oprimente às mulheres, e também aos homens afeminados, por trazerem do gênero feminino características que, por aí, costumam dar menor valor no mercado, no antimercado, em todas as facetas que os negócios se nos chegam com um disfarce terrível e devorador, com o resumo a palavra "preconceito".
Sei - e nunca vou descordar de ti - que o patriarcado, junto às moedas de troca, tem feito de nós pessoas mais ansiosas e problematizadoras, porque é urgente. Porque dói e, sobretudo, mata. Na violência que pode começar com a voz e terminar nos atos de crueldade contra todas os sufixos geralmente terminados por "a". Já notaste que quando fazem dos grupos, quando a língua se refere a eles, deste último, mais comum, a fazer das aglomerações, de pessoas ou coisas, o substantivo masculino? Sejam eles, novamente eles, advogados, bandidos, monarcas (ainda que termine com a letra "a"), empregados, desempregados, servidores, mesmo que seja 99,99% mulheres e 0,01% homem, o gênero sempre será o feminino numa ditada e promulgada por: homens. Continua, Luciana. Mesmo que te bata o medo do assédio, da violência, fazer parte de uma estatística medonha, que denuncia ao passo que nada muda. Queima este sutiã todos os dias! Abra a boca com um bom "caralho!" pronunciado, ainda que te digam quão feio é um palavrão sair da boca de uma mulher. Fala como uma mulher, pensa como uma mulher e resiste sempre, porque é o que nos resta e eu me apoio sobre tua causa, que me carregue ela pelos caminhos de um homem melhor que eu possa sempre me tornar para meus... digo, minhas queridas pessoas - para usar o feminino - das quais neste últimos dias foi à tua presença que conversamos sobre futilidades, amenidades, mas nunca esquecemos das verdades políticas, nosso compromisso, por pensar e querer pensar sobre - e sim - em demasia, porque fica tarde em 2018 ainda estarmos em sei lá qual ano mental nesta sociedade! Eu sei que a dor de ser homem, nem sei se ainda usam o termo "terceiro-mundista", portador de várias dificuldades; poderia elencar todas elas e desnudar a real pessoa que sou, mas acadêmica, a palavra-símbolo de nosso orgulho, faz na gratidão que olhamos pelo retrovisor da vida e sabemos que somos hoje, balzaquiano e balzaquiana, eu, cá com minha melancolia de sempre, respiro um pouco nesta terra onde o calor me sufoca e me faz suar, querer um pouco de ar fresco sem tê-lo, sob efeito de dois miligramas de dignidade furtada da minha mãe. Sinto meu corpo descansar numa madrugada quente, sinto minha mente relaxar forçadamente. Sim, celebrando o teu sono anunciado duas horas atrás, venho cá, preencher-te numa caixa de texto branca com as ideias fluindo, cada vez mais lentas, desejar-te serotonina, continuação e parceria, uma tríade do gênero feminino para que alcancemos, quem sabe, não todo o fim de uma luta que já se arrasta com sangue, esôfagos cortados, cenas de estupros, mais estatísticas do governo e outras situações às cegas por muita ignorância aplaudida e cantada pelo próximo hit de carnaval que trará o evento mais uma depreciação em festa do corpo e da alma de uma dama. Fevereiro é já, já. Mas são vários dias do ano além de momesco letal, pagão e perpétuo nos mesmos erros.
Eu vou me deitar e pensar em ti. Neste dois dias em que, na minha solidão em casa, deste tua companhia tão inteligente, provocativa e risonha, mas com os dentes a ranger com este ódio,que comprometido, está em minhas ideias que articula a produção dos meus sons, no aparelho fonador, e nos dedos nervosos, que já se estressaram com rasos conceitos e sentimento, a completar e inciar o oitavo dia do anos 2018 com o símbolo infinito para a luta da finitude dessas questões que nossa companhia tanto partilhou do meu e do teu coração em confluência. Para todas as ideias, continuemos o fluxo, mas jamais por nada nem tão pouco, tampouco repetir olhares turvos às vítimas que se alinharam ao patriarcado e deixaram de viver, comigo e contigo, outro conceito muito além da felicidade de uma publicação numa rede social.
A guerra é para estar bem; a felicidade, já sabemos e deixamos para quem mergulhar no mercado que lhes vendem e embrulham para presente um mimo de ignorância.

31 de dezembro de 2017

"Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro"

Salve o último dia de nossas vidas! Para que tanto? A rotação continua seguindo a mesma lei há milhões de anos, mas tudo isso é um simbolismo mágico que nos embriaga de forma metódica, com os olhos grudados no ponteiro do relógio. Da minha parte, as mesmas regras, também. A saber:
Sigo o mesmo transtorno obsessivo-compulsivo dos meus números pares, talvez ser par, em mim, tenha um significado mais real por andar neste mundo de mãos dadas com a nuvem de algodão que acreditei na infância. "Por onde for, quero ser seu par", como já se cantava numa música aí. E mesmo que ser ímpar denote a sublimação de algum individualismo genuíno, a solidão ainda continua a fazer um dano que só eu sinto, ainda que algumas pílulas me façam esquecer delas durante certas horas de um dia.
Também tenho o mesmo ritual, que acredito ser minha religião anual, quando saio de casa: ponho a mesma música a tocar no fone de ouvido, por repetidas vezes, digerindo cada palavra de uma poesia cantada que parece, mesmo, ter sido, para mim, feita. Incrivelmente, a mesma que me sacode no caminho ao trabalho, à escola, como impulso ritualístico de sorte, fortuna, mas também, para encarar ritmadamente os percalços do caminho, seja qual for meu trajeto, geralmente sozinho, momento em que a música toma o lugar daquela nuvenzinha para me dar a mão e fazer presença.
Pés cansados, um deles dolorido por um tombo ao fim de novembro, que me rompeu uns ligamentos do tornozelo, que, assim, são alguns dias seguintes a sentir a dor no passo a passo que é outra regra ensinada na vida. Pisar dói. De um jeito ou de outro. Andar mediante a dor ou a ausência dela é este sentido direcionado para cumprir um papel de caminhante, de acompanhante, de filho, de irmão, entre os melhores títulos conquistados com o meu sangue ou meu sorriso, talvez até por minhas palavras ou meu silêncio que só poucos entendem.
Foi um ano difícil, de decisões favoráveis, desde este momento em que a ótica é outra e já consigo ser grato. Mas dias atrás, eram as lágrimas que não me deixavam ver a vida desta forma. Porque parecia que o oposto dela era quem vinha querer dar-me a mão em tantos momentos em que eu buscava qualquer elemento vital, no mundo quimérico que me restava, mas não encontrava a companhia; desaguava em mim o turbilhão de impaciência e visão turva. Se é possível, então, renascer, por simbolismo ou necessidade, quero multiplicar-me nesta vida, só uma, na companhia espontânea de quem acompanha atentamente cada passo meu e não mede seus passos para fazer-se par, quer para uma dança, quer para sentar num canto qualquer à exaustão. Aos presentes, o futuro nos reserva sempre, além de datas, desafios para entender a vida é um fluxo contínuo. Quem sabe haja filtros, e quem sabe o que seja naturalmente puro torne cada ano mais um, e único.

19 de dezembro de 2017

Cor de cinza

Restou-me o oxigênio de cada dia; na verdade, pela manhã, saber que estou respirando se tornou o pulsante reagente de todas as coisas que ficaram após o incêndio à noite. Porque normalmente estamos gratos por coisas habituais que de tão triviais já não mais pensamos: como o prazer de respirar. Seja profundamente ou leve como o que se inspira e expira tão comum, tão sem explicação. 
É muito doido pensar nos pormenores das coisas habituais, quase mecânicas. Às vezes, comer por ser a hora da refeição, andar porque existe uma direção rotineira todos os dias, no ir e vir banal de todas a gente. No entanto não ignoro eventos sórdidos como o combustível que se ateia no calor de uma ideia, pouco a pouco e sempre em frente quanto esta rotina de esperar, andar, ir, vir e reagir com o fogo. Deixar queimar, aquecer, consumir em chamas todo o rebento de cada explosão, um passo a mais, um caminho tomado pelo tantos graus elevados que o combustível produz de mim para alguém, e vice-versa, de nós. Deixar tudo fazer brasa, reluzir feito o mais puro brilhante com apenas coisas triviais: um acender, labareda luminosa, anti-escuridão e, ardente, tudo que solta de si em combustão. Depois virar cinzas, cinzas frágeis que qualquer vento parco leva daqui para acolá, faz seu caminho fuliginoso, um traçado gris, um percurso cinzento, vestígio do comburente, sei lá o quê mais... Já foi. 
Não há dívidas, não há saldo, crédito nos resíduos. É estar quite, também desquitado, renúncia do calor, pois acho que as cinzas é o que faz mais sentir frio do que o branco-gelo comercial das tinturas que vendem a alvura de um estado de paz ou o transparente, não se vê, não se sente, não aquece nem arrefece, só em si insignificante e sem notar... 
Uma vez me perguntei porque ficamos grisalhos, fica aquele aspecto cinza pra depois vir o branco e tomar tudo. Eu não sabia a ordem natural, nem sabia o que era bem o trivial, mas é. Hoje, sei. Bem assim: fica cinza, da frieza, para depois ficar branco e vender o símbolo da paz, do sossego, da velhice sem volta e à frente do tempo para depois, há que enterre no escuro do esquecimento e há quem creme, que pinte de cor num dia que parece nublado, cinzento como se o céu não fizesse mais ser teto num dia colorido. Foi assim quando perdi meu avô, foi assim quando perdi algum combustível, aquele exame, aquele teste, aquele vagão, dentre muitas perdas, que muitas ficaram no esquecimento e outras encheram-me de saudades, de cor vibrante, como esta que meu avô me deixa há tantos anos que ainda hoje me lembro e enubla ao passo que corrói. Eu raramente choro os meus mortos depois de algum tempo, mas eu sinto que quem morreu já precisava sair de cena, quer nuble o céu, quer o sol vibre forte e queime como um incêndio que deixará todas as cinzas logo mais. Eu quero sentir, realmente, falta de algumas coisas, algumas pessoas, entes; só não vou mais celebrar com fogo e combustível, liberar tanta energia, queimar tudo para depois ser nada, só cinzas. Não tornará meu avô de volta um dia sequer que eu caminhe à frente, eu ficarei cada vez mais grisalho, cabelos cinzas para depois ficar branco, a velhice me chegar e eu, quiçá, finalmente, saiba o sentido de uma grande paz dentro daqui. Depois disso, pode queimar. Deixe-me ser as cinzas no esquecimento e o vento soprar os rastros como o fio de cabelo que revela o cansaço e a desilusão por ser apenas cinza, ou branco, demais cansado. Que descanse em paz.

12 de dezembro de 2017

O afogamento

O nobre Pedro Seixas havia esvaziado o interior de sua casa. Deu toda a mobília para o bazar que acontecia no bairro todo primeiro domingo do mês. Não dissesse que ficou nada, não fosse um único exemplar de Todos Os Nomes que Púmice Vilela lhe deu três anos atrás. Relia em voz alta; o eco que batia nas paredes e parecia ressuscitar todas as pessoas anônimas, como se todo aquele espaço vazio servisse de moradia às quais um dia foram desconhecidas. Um labirinto de gente sem nome, dentro de uma ex-casa vazia.
Desde que Púmice deixou apenas as lembranças no sofá cinza que fora vendido a preço de banana no bazar, não fazia sentido qualquer utensílio que fizesse a gente renascida tropeçar ou escorar-se. Não fazia sentido ter dois corpos ocupando o mesmo espaço, como também não fazia diferença se aquela casa relembrasse um pessoa tão injusta com sua pouca densidade. 
Pedro Seixas toda manhã, às cinco, saía para ver o mar. Na volta, abria a caixa de correios enferrujada pela maresia, onde guardava todas as doações feitas pelos vizinhos de um velho cheio de ranço e desvontade, para que ele pudesse comprar a ração do dia, que consumia apenas à tarde: a única refeição entre o sol nascente e o poente. Ninguém se metia na opção que Pedro Seixas escolheu desde a última primavera. Aliás, dias antes dela, ainda no início do terceiro mês do calendário gregoriano, Púmice - conhecida como a espuma da rocha -, que passou do ápice da taça que brindava novos tempos para alguém de baixa densidade. Substância nenhuma, sem peso na vida, boiava na água, alva, vazia, sem cor. Desde ali, desde que Pedro Seixas procurou tirar dela tudo o que enxertou em sua porosidade constante.
Não se sabe ao certo quantos dias, quanto tempo, qual exato momento ou coisa assim, já não tinha calendário, a data era incerta desde o último primeiro domingo do mês, que só e era tudo que Pedro Seixas lembrava quando decidiu dar tudo o que tinha. 
No interior de sua residência, só se ouvia sua voz alta a reler ao sol poente, quando os meninos arruaceiros riam em alto e bom som, e repetiam juntos, como a maior piada do mundo: "Conheces o nome que te deram, não conhece o nome que tens." Era o início da vadiagem do dia, como evidência de que a noite que caía começava com graça e tristeza ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista. Eles se iam, e Pedro Seixas, à luz nenhuma, já não repetia mais nada, a escuridão cegava-lhe ou anunciava o silêncio e o fim do labirinto cotidiano. Já não via mais ninguém, adormecia até o outro nascer do sol. 
Neste próximo, às cinco e ponto, ao sair de casa, no caminho de dez passos até a praia... era o oitavo, quase a sentir a onda tocar seus pés; quando Púmice, de súbito, provoca o intercurso fatídico:
- Pedro, já faz tempo...
E os olhos do ranço testemunhados por anônimos de casa, por vizinhos batizados com três ou quatro substantivos próprios e talvez um pouco de compaixão, que a caixa de correios sempre acusava, intimidou a reticente Púmice por cinco segundos. 
- Pedro, precisei voltar. O que me diz?
As únicas palavras de Pedro Seixas eram aquelas lidas repetidas vezes, com o olhar de ranço sobre o livro, dentro de sua casa, sem culpa ou despreocupado com o tempo e tudo lá fora.
Então duplicou os últimos dois passos - agora quatro - para fazer desvio e chegar ao mar. 
Quando o mergulho lhe lavou o cumprimento de uma liturgia diária, ainda sem responder a ela, uma sequer palavra, mas os olhos confiados no gosto agre só admitia o horizonte à frente. Todo o mais, inclusive ela, fez-se transparente e provocativo, como vento agressivo 
Quando Púmice decidiu ir além da permissão dada por um olhar que a advertiu. Entrou no mar, provocou a dor - uma vez mais - sem dizer mais nada. 
Pedro afogou o que ainda restava do tudo de si permissível entre os poros dela que coubesse até ali. Sem dó, com densidade, enterrou na água salgada o que restava de si naquela vítima que as palavras, obrigatoriamente caladas, transformaram em bolhas de ar até se dissolver e integrar ao seu melhor lugar: o chão por baixo de maré mansa. 

10 de dezembro de 2017

Asseio

Já faz algum tempo que perdi a fé num lugar melhor,
numa conexão entre mim e uma força maior do que eu
e em tudo isso que deem o nome do que quiserem.

Tenho, mesmo, ocupado-me em perdoar templos arruinados
que fizeram esta poeira toda subir.
Tenho passado a mão no meu rosto suado todos os dias
e sentido que se lava desta forma.

É porque aqui dentro sujeira e limpeza são sempre discordantes,
e o bastante para formar ciclo de asseio.
Encerrar um e começar outro.

4 de dezembro de 2017

Café das pazes

Eu não consigo lembrar que estação do ano era aquela, pois realmente ela não importava. Se estava frio ou se estava calor era o de menos. Sei que fiz aquela viagem e, de repente, eu me encontraria naquele lugar outra vez, cheio de lembranças, medo e alguma coisa mal resolvida. A sensação era esta. Comigo estavam pessoas simpáticas falando de coisas que eu sequer sabia o nome. Enquanto eles falavam, eu observava aquelas casinhas charmosas e as ruas antigas construídas a um tempo que estava distante de tudo que eu imaginava e vivia. Fui. Fui àquela praça e o único rosto conhecido era de um colega que parecia sempre tramar uma armadilha, uma surpresa. "Que tipo de teste era aquele?", foi o que pensei à partida. Mas depois não me preocupei mais com isso, apenas andei. E foi, então, que me convidaram para o café mais fino da cidade. Só consigo me recordar da fachada em madeira escura com detalhes rococó. Do lado de fora, na esplanada, havia umas três ou quatro mesas juntas onde um pequeno grupo de jovens senhores e senhoras, sentados, riam de alguma situação que meu ouvido não conseguiu desvendar. Eu me aproximava daquela mesa e, de longe, já te avistei voltando de dentro do recinto para o lado de fora, e sentando na ponta sul da mesa, como uma cadeira de anfitrião. De costas para mim, eu ainda no movimento de aproximação. Fazia mais de um ano que não nos víamos e eu, preocupado com o movimento daquela cena, tentando imaginar quem dali poderia ser a primeira pessoa da qual eu tinha que me aproximar, puxar um assunto qualquer, talvez a viagem tão longa que eu tinha feito e, de repente, ter ali chegado como quem chegou sem mais nem porque. Cada passo que eu dava, e tu, de costas, sem me ver chegar... era o teu novo corte de cabelo que eu analisava e gostava. Achei moderno e queria que teus fios me dissessem que realmente que o tempo passou e era novo. Uma sensação sobressaltante! Foi quando cheguei, mesmo, à mesa e cumprimentei como uma pessoa estranha cumprimenta e tratei logo de procurar saber em qual lugar da mesa iria sentar: o mais distante possível de ti, era ameaça que meu coração, à medida que batia mais forte, codificava a mensagem, a informalidade e a estranheza do momento. Foi então que vi a oportunidade de sentar ao lado daquela menina, mas foi quando o rapaz disse: "há três cadeiras aqui para vocês sentarem". E ficavam na lateral bem próxima à ponta sul, em que estavas... Sem cerimônia, aproximei-me dali. Sentei. De toda maneira, por sorte, não ficaria inevitável o contato olho a olho, e eu fugiria de qualquer situação constrangedora de ter que olhar acidentalmente em direção ao teu rosto. Sentei-me na cadeira mais distante que encontrei, observando o rosto do rapaz que estava ao teu lado, observando o movimento de vocês dois... Quando te levantaste da ponta sul da mesa, foste para a lateral oposta a mim, onde havia uma cadeira vazia bem à frente da minha e te sentaste como quem resgatava o tempo e a intimidade só em olhar. Chamava meu nome da maneira mais informal para contradizer toda aquela situação. Olhaste nos meus olhos e...
Descobri que sonhar contigo ainda me deixa sem entender o significado deste novo tempo, sem perceber o que de verdade seria um reencontro fortuito e fazendo-me perder meu sono.
Levantei-me da cama para ver que a realidade pode ser diferente e perdi completamente as horas de descanso que ainda me restavam.
Paz para nós!

28 de novembro de 2017

Estado de Alagoas em matéria física

O futuro parece ter chegado um pouco tarde por aqui.
Nas ruas que ostentam seus vãos pedindo atenção a todo instante, para que se evite uma queda, um desatino. São passagem para quem tem pressa de chegar ao porvir e juntar seu patrimônio muitas das vezes cheios de arrogância - e é inexato - e uma característica cozida a vapor sob este sol que todos os dias ferve a cabeça de qualquer indivíduo com ou sem fé. Entre um Audi ou uma Mercedes, e vários carros populares comprados à época em que o Poder Público dava o IPI zero, sempre há uma carroça, com um ou dois, talvez três homens e mulheres a dominar um animal que puxa sua engenhoca de madeira sobre duas rodas. Parece-me cru. Parece-me o estado mais primitivo da nossa inteligência e soberba, também, por sacrificar bichos em nome de um ganha-pão. Eles carregam em seus veículos à tração animal, ajudado a rolar sobre estradas cheias de buracos, e pegar a velocidade com a sua própria pressa, com seus parcos recursos; eles e elas querem também ao futuro chegar, a algum lugar, transportando metralhas ou a desprezada sabedoria diante da tecnologia alemã, estadunidense ou outro gentílico que inventou seus automóveis, em certas ocasiões, assassinos.
Cada estrada está praticamente esmagada a cada meia década por uma nova construção que, por cá, muitos chamam de avanço. São escola bilíngue, consultório, apartamento com acabamento de primeira linha (mármore ou granito) e até casebres, que estão distante da brisa marinha, onde nós, o povo maceioense, costumamos chamar de periferia. Mas há uma só verdade, seja ainda de barro, seja pavimentada, as ruas são as artérias coagidas por tecido concreto, com esquadrias de alumínio ornamentados com os mais variados vidros e espelhos. Espelha-se no moderno sempre o dano venoso onde correm os passageiros, os condutores e até um menino que escolheu o lugar mais perigoso para jogar sua bola. Tecido dinâmico de uma cidade que se movimenta noite e dia... para onde? Toda a gente cozendo na maior parte do ano sob o mesmo sol que queima as cabeças ateias, cristãs, de matriz africana ou sem matriz, totalmente sem identidade local, querendo ser igual a outrem, bem além dali. Daqui. Em qualquer lugar sempre há um embrião gourmet, com prepotência universal, com boçalidade cosmopolita. Surgem espaços onde alimentos fornecem ao fetiche a intenção de transformar esse presente disperso naquelas vielas ou nas avenidas da moda uma torre de babel gastronômica, enquanto o homem que rege sua carroça do passado pode parar para tomar um caldo de cana com um pastel em um ambulante, de um mercado informal. São contradições do dia a dia, sob o mesmo sol que torra a cabeça da linda loira que saiu do salão de beleza com os fios de cabelo cada vez mais transgênico, cada vez mais fenotípico. Ela passeia sua beleza feminina da porta do local até o seu carro sei lá pensado onde! Ela veste uma grife italiana, ela é alagoana, como eu, mas ela está cozida como todos nós. Ainda que ela se vista com detalhes em "filé" ou "singeleza", de uma outra alagoana aí, popular entre os astros de constelação televisiva; ela continua cozida, enquanto, no Pontal da Barra, as genuínas mães ainda ensinam suas filhas o que é permanecer crua, andar na rua de cabeça erguida, sentindo a brisa lagunar de Mundaú.
Maceió tem em suas águas o paraíso de um slogan perene até o dia que o sol que ainda cozinha nossas cabeças faça mudar o estado físico da matéria. Já que se evapora o que fomos em nome do que nunca seremos, ainda que sigamos cozinhando os miolos com o olhar para o Hemisfério no qual jamais coube um pouco de nós.

22 de novembro de 2017

O nome dela

Lembro-me bem do dia em que eu estava no salão, onde Sônia, a cabeleireira, interrompeu o corte da tesoura para eu atender àquela chamada. Era minha irmã que trazia a notícia de que estava grávida, acabara de saber. Não contive as lágrimas, que Sônia e meu amigo Marcos presenciavam no estabelecimento no centro de Campinas, em São Paulo, onde eu morava.
Quando Ana Beatriz chegou ao mundo, eu estava em Maceió, comemorando com a família a chegada da minha primeira sobrinha. Acho que foi um dos momentos mais especiais da minha vida, eu nunca tinha experimentado esta sensação tão difícil de descrever com palavras.
Já se passaram mais de quatro anos, e acho que é o tempo determinante para escrever o quanto de significado esta vida tem à minha, da forma mais simples, sem lapidações, apenas com o que minha cabeça, neste momento, consegue formular. E por que não dizer que é um exercício de gratidão, sentimento reforçado a cada dia pelos motivos que só eu sei que existem para que jamais me esqueça desta presença. Além dos agradáveis e incontáveis momentos em que ela fez de vazios espaços cheios de vitalidade, de agonias fez apaziguarem instantes de dor e de perda de rumo deu-me a direção correta das minhas melhores e mais deliciosas escolhas.
Preciso lembrar-me do desenho esquisito no papel sobre minha mesa, ao chegar a casa, ter regalado de essência um dia cansativo e que parecia sem fim. Preciso também catar na lembrança qualquer singelo passeio que fizemos pelas ruas vizinhas a troco de nada, de passar o tempo e de fazê-lo tudo. Buscar no álbum da memória a imagem mais bonita que carrego comigo, quer meus olhos abram de atenção redobrada ao pânico causado pelo medo nesses dias insanos, quer meus olhos fechem para derramar lágrimas quando me sinto fraco nesses dias onde a força às vezes entra em colapso e diz... melhor não dizer. Muito melhor é encher meu peito de ar como quem respira o cheiro do seus cabelos loiros escuros e fixar o olhar na imaginação desses olhos verdes, tão lindos, que às vezes penso ter uma boneca para brincar, mesmo que o mundo diga que meninos não brincam de bonecas.
Quanta bobagem andei pensando, quantas consultas eu estive procurando para encontrar, com ajuda dos tais doutores, uma solução imediata para o que quatro anos já bastam por sentir-me curado no abraço dela. E quanto de mim se foi nos intervalos longos enquanto me fizeram triste e ela estava tão acercada, mas eu perdia meu tempo me distanciando daquele amor que só pedia carinho e atenção.
Não sei se por negligência minha, da que me fez tolo, mas compreendo tais perturbações que venho tendo, pois elas diminuem quando volto meu olhar sereno e firme ao âmago que nasce no ponto fixo, seja na parede do quarto ou na almofada recostada sobre a cama, esperando o dia em que ela volte aqui para contar as coisas de uma menina.
Fico a pensar se nesta idade que ela tem agora, nesta etapa da vida, é melhor do que viver à desconfiança do homem que mente e engana, e descobrir que as coisas não são exatamente como parecem. Que a imaginação é apenas um mundo de sonhos infantis que podemos criar livremente, embora existam à espreita interesses mais hostis querendo penetrar a camada mais frágil e chegar ao meio para vender qualquer coisa: uma ideia, uma situação, um brinquedo... Fazer lucro sobre a inocência de uma criança deveria ser crime hediondo, mas há leis em quais não posso intervir.  O tempo vai passando, como para todos nós, e logo ela descobrirá tantas duras verdades, como para mim foi choque, chegou a ser queda, física e mental. E para este tempo só projeto meu sonho de estar ao seu lado a contar sobre coisas minhas, que sua idade ainda não permite entender, até que ela saiba que amizade é algo bom, maior que nossos laços consanguíneos. Nesta ocasião, se a vida me permitir, ela saberá o quanto foi determinante o amor que nós construímos a cada oportunidade convivida e partilhada, sobre as quais foram erguidos tantos porquês à afeição rija, mesmo que amoleça meu coração só em pronunciar o seu nome.

20 de novembro de 2017

Lázaro de Betânia, Provença ou República dos Palmares

Uma conexão no Aeroporto de Marselha, duas horas, e sem cigarros no bolso. Um café e um croissant; depois, uma pequena caminhada até o outro terminal em busca de uma loja de tabaco e uns minutos de distração. O coração de quem, confundido com um leproso, tornou-se pobre numa Provença de riquezas marítimas, a cruzar a fronteira pelo céu de mendicância e saciedade. Sou Lázaro refugiado na intermitência do amor que se locomove entre o túmulo e a vida asséptica, um banho de sol e uma voz para ressuscitar do lugar em que faz de Betânia um pequeno espaço num oceano imenso de incertezas.
- Vem para fora! Levanta-te e anda...
As muletas que suportam o peso da minha consciência como quem intercambia de um posto a outro, entre são e salvo e um morto qualquer, confundido com alguns indigentes. Quem se tranca numa caverna, adormece ou morre, ou se fecha o armário das relíquias indecentes, ora de grande valor, ora tão sem nobreza como bilhete de companhia aérea low cost
O tempo é confuso, entre as tapas sevilhanas e os tapas universais - dores comuns a quem se deixa bater forte até cair, sem equilíbrio. Oferece outra face e guarda os estalos a cada golpe da ocasião. Conto "um", "dois", três"... quatro dias a cheiro mórbido de um lugar escuro onde descansa um corpo cansado e uma mente sadia, oscilando, mas sadia, ainda. Equilibrando a emoção na ponta do pé; e dos pés à cabeça, continuo sendo o amor daquela canção de 1971. 
Eu acredito, mas já não tenho fé. É tanta mentira que a morte parece se achegar todos os dias ao pé e subir às pernas num movimento de uma lagarta, em sua escalada de sobrevivência para se alimentar, deixando rastros de morte no verde que deu cor à vida e foi o xilema que fez chegar a esperança a todas as partes de um ser. Confundo-me com o estado vegetativo e a promessa do milagre, nesta cidade que jamais verá um morto ressuscitar. Ao contrário, estatística de violência faz levar vidas tão cedo, seja por fatalidade ou negligência de um pronto atendimento sonegado à população. Cá estou, na terra de Zumbi dos Palmares mas comandada por oligarquias terríveis, coronéis que mudam de profissão ou de partido a cada quatro anos.
Desde a América do Sul à Cisjordânia, e sim, aquela do Mar Morto... Desta mistura de exodus, o balsâmico, lenitivo, até o Sul da França, na costa, a sentir o cheiro de lavandas sobre corpos mediterrâneos, transeuntes, em apenas duas horas, comendo aquele croissant frio e bebendo o café forte, para despertar meu corpo para mais um voo, que melhor caísse sobre os Pirineus, do que encontrar farejantes fariseus remodelados e à espreita da minha má sorte por andar e querer amar, um pouco mais, ao dezembro último andaluz.