20 de outubro de 2018

Caminho

No álcool da noite, o efeito-sabote
E o café da manhã com gosto forte:
Eu quero mais um dia!
Eu quero a noite toda minha e só.

Se eu dormir durante a tarde
E o gás vazante da parede sufocar;
Asfixia para acordar aos últimos raios de sol.
A noite novamente sem propósito,
Sem amigos, sem sorte, sem querer...

Alô! - Quem está do outro lado?
Quem queira eu ainda que esteja.
Se não quiser, um silêncio pontual.
Eterno, talvez, caso queiramos:
Eu e o tempo, senhor tão bonito.

Fração de vida, 
Frações que perdi a conta.
Fortuna de quem perdeu aqui
E ganhou, ali, mais uns minutos
Em contas perdidas de novo.

Foi um pé direito à frente,
Mas atrás estava o outro
Segurando e equilibrando o destino
E foi mais um passo,
Mais um, mais um, mais outro...

Eu vou andar; por que não andaria?
Se à tarde sob leve sol das cinco horas
Eu quiser parar para descansar...
Logo às seis, continuo mais um e mais outro
Passo para entrar à noite e passar
Mais um dia caminhando.

12 de outubro de 2018

Todos são iguais

Um avanço dos ideais da Extrema Direita na é um evento exclusivo no Brasil, que está em pleno processo eleitoral com pleito marcado para definir representantes no próximo dia 28. Este avanço é visto em todas as partes do mundo contemporâneo, mas o que me intriga é porque aqui teve grande adesão, visto que somos um país onde as desigualdades sociais são perceptíveis e minadas por abismo que engolem pessoas mais vulneráveis a todo tempo. É um assunto recorrente e urgente para que não vivamos o retrocesso de algumas conquistas experimentadas ao longo deste período de redemocratização brasileira.
Em contrapartida, há uma voz ecoando em combate ao que chama de privilégios, ressaltando preconceitos ainda que as ações afirmativas não sejam apenas uma política determinada por um candidato ou um partido específico.

Ações afirmativas

O termo Ação Afirmativa se refere a um conjunto de políticas públicas de uma determinada sociedade para a proteção de minorias e grupos discriminados no passado. A ação afirmativa tem o objetivo de remover as barreiras, formais e informais, que impeçam o acesso de certos grupos ao mercado de trabalho, a universidades e a posições de liderança.
O termo foi cunhado pelo ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy. Seu intuito era reparar os danos causados pela discriminação racial,quando as feridas deixadas pela escravidão ainda estavam expostas naquela sociedade. Disse o ex-presidente de sua motivação em 1961: “A criança negra nascida nos Estados Unidos hoje, independentemente do local do estado que ela nasce, tem metade da chance de completar o ensino básico quando comparada com uma criança branca, nascida no mesmo lugar e no mesmo dia, e um terço da mesma chance de terminar a faculdade”. Kennedy justificava assim a necessidade para se conduzir o equilíbrio para promover a equidade de oportunidades.
No Brasil, Humberto Laudares, que é PhD em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). O pesquisador fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo, e escreveu um artigo no qual menciona os princípios de um estudo em conjunto com com Felipe Valencia (Universidade de Bonn) e Thomas Fujiwara (Universidade Princeton), em que usaram a descontinuidade da Linha de Tordesilhas e dados do Censo Imperial (1872) e atuais para provar que a escravidão brasileira causa de 7% a 20% da desigualdade atual observada nos municípios brasileiros. Chegaram à conclusão de que há uma persistência histórica significativa da desigualdade originária no período escravista que perdurou até hoje. O argumento principal para este dado é que nos 150 anos do término da escravidão no Brasil houve um canal de transmissão da desigualdade advinda de um essencial mecanismo de mobilidade social: o acesso à educação.

Desigualdades por todos os lados

Obviamente, a desigualdade não é um fator exclusivo que afeta afrodescendentes. Outros grupos sociais também estão imerso numa segregação que os distancia do acesso a quaisquer direitos onde a dignidade da pessoa humana sofra ameaça e os impossibilite de circular equitativamente ao passo que preponderantemente são jogados à margem de um sistema excludente.
É importante mencionar a discriminação social das mulheres, uma vez que já foi comprovado que o mercado de trabalho privilegia homens. A misoginia é uma realidade. Os salários das mulheres, se comparados aos dos homens, são menores, e aí não está todo o problema. Há, portanto, um elenco de abusos em face da desigualdade de gênero, e ela não está só no mercado de trabalho. O acesso ao emprego e renda ajudaria bastante na tomada de decisão de busca por liberdade dentro de um mundo capitalista. Possibilitaria que, por exemplo, a partir do momento que uma mulher sofresse algum dano, conseguisse transpor a barreira da dependência financeira e tocasse a vida adiante de acordo com seus sonhos.
Mulheres são as maiores vítimas da violência doméstica, do assédio sexual em ambiente público ou privado. O Brasil já conseguiu criminalizar a violência em 2006, com a Lei Maria da Penha - Lei nº 11.340; após esta lei, outra foi sancionada pela presidente Dilma: “O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante”, conceitua em seu relatório final a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher. A lei que inclui o feminicídio no rol dos crimes hediondos foi sancionada em 2015.
Outro grupo, que além da violência estúpida por questões de orientação sexual e identidade de gênero, vive esta discriminação no cotidiano, é o LGBTQI+ (sigla que incorpora Lésbicas, Gays, Bissexuais Transexuais e Travestis, Queers, Intersexos e pessoas não cis). Esta semana eu conversava com um amiga negra que questionava uma ação afirmativa proposta certa vez pela Prefeitura de São Paulo, onde transexuais e travestis ganhavam uma auxílio financeiro, e ela dizia que viu uma travesti dizer que ela não queria dinheiro, apenas respeito. Eu consegui desconstruir essa ideia isolada com simples perguntas: o mercado de trabalho está preparado a empregar travestis e investir na sua qualificação? Você pode me apontar um empresário (que não seja no ramo da indústria do salão de beleza) que empregue uma travesti no seu quadro de colaboradores? Claro, não há. As travestis e transexuais, por exemplo, já são retaliadas no seu processo de redesignação, condenadas por argumentos religiosos e por instrumento moral da heternormatividade desde jovens. Há situações que ficam latentes sobre esse preconceitos. Conheço gays que sequer conseguem ter uma relação homoafetiva estável porque a família ou amigos não podem saber de sua orientação sexual. Vivem à margem, também. Vivem com medo e, ao mesmo tempo, sujeitam-se às relações sinistras de sigilo absoluto sem poder expor sua orientação sexual por temerem ser prejudicados nas relações interpessoais. Arriscam-se em relações secretas e muitas vezes perigosas, sempre com o risco iminente de violência. Isso é incoerente. E podemos chegar ao nível mais cruel, pois há lugares onde a orientação homossexual é considerada crime.


Há muitas minorias que estão nas suas lutas diariamente por visibilidade e respeito, mas as ações afirmativas fortalecem a autoestima como também mobilizam esses grupos a ocuparem os espaços sociais em quantidade necessária para que seja uma voz ouvida. Um certo candidato à presidência do Brasil há um bom tempo coloca essas questões como um privilégio exigido por ativistas. No entanto essa questão não se trata de querer medidas que os privilegiem, mas que reparem os danos causados, que, como já tinha dito, vão de uma retaliação até o assassinato, da vulnerabilidade social até a cooptação ao crime e por aí vai... A resistência sinaliza a necessidade de olhares. O Estado tem o poder e ele deve garantir a igualdade como premissa. As ações são mecanismo de fortalecimento. O debate sempre será oportuno até o dia em que todos se sentirem incluídos e equiparados. A máxima Aristotélica que diz igualdade é tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade, assim, numa democracia não é nenhum privilégio. Estou de acordo com Pacto e San José da Costa Rica sobre direitos humanos, que tem por base a Declaração Universal dos Direitos Humanos, defendendo o ideal do ser humano livre, isento do temor e da miséria e sob condições que lhe permitam gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos. Portanto, jamais vou admitir qualquer violação aos direitos humanos. Declaro aqui meu repúdio à candidatura de Jair Bolsonaro, por suas atitudes e declarações que vão na contramão das medidas que garantem o progresso de nossa sociedade.

25 de setembro de 2018

"Isso poderia ser o final de tudo." Ainda não é.

Comigo estavam pai, mãe e minhas duas tias. Estávamos sentados lado a lado naquela fileira de cadeiras diante de uma cerimônia sóbria demais, demagógica demais, mas com um significado pessoal para cada uma das vidas que estava ali.
Meio desalentado, eu estava com sintomas da falta de expectativas que um sistema me presentou. O mercado que me empurrou de um lado para o outro; sacudiu em mim promessas e ao mesmo tempo migalhas condecorativas, eu cansei, poucos compreenderam, e eu apenas larguei as mãos que apertam com crueldade: bolsos, estômago e até sonhos. Elas estrangulam. Tinha um peso, uma medida; dois pesos e duas medidas; eu tinha o equilíbrio distante de onde eu nunca pude chegar.
Cheguei ali com a força de umas palavras, umas agonias, textos, livros, trabalho, crença e mais uma vez descrenças. Cheguei porque me vinham da boca pra fora um hálito reforçado de praxe, de boa educação ou de cumprimento de agenda. Vinham também do lugar mais verdadeiro que só bastou eu olhar para trás e perceber que eu não estava sozinho. À frente, na fileira de cadeiras verde-escuras, nem atrás com o sinal de força que recebia com um silencioso "presente" e um sorriso desfechado. Muitos dos meus. Os mais verdadeiros, talvez. E depois tive a certeza.
Obrigado.
Eu não estava feliz, eu estava só neutro. Acho que neutralidade foi uma das maneiras mais estúpida e corajosa que consegui sobrepor à luta que não acabou, mas após minha última derrota, tantas possibilidades ficaram turvas. Escurece o amor, depois do espaço que dei para que mentiras me descreditassem como amigo, como amante, como qualquer ser humano verdadeiro que pudesse exercer uma atitude responsiva e vice-versa.
Eu não acredito mais em vice-versa.
Contudo há coisas para acreditar. Essas são bem melhores, valiosas.
Quem sabe estou aqui para ser o primeiro a discorrer sobre o pódio, seja o melhor ou o pior índice. Onde quer que eu esteja, estarei verdadeiro. E posso olhar para trás e ver aquela pessoa maravilhosa que a vida me apresentou. Que depois que eu fiz um monte de coisas desagradáveis e é possível que nos desagrademos. E depois nos perdoamos porque sabemos que em nenhum momento deixamos de ser verdadeiros um ao outro. Aliás, da minha parte sei que sempre agi em sua direção com a verdade, mesmo que ela fosse má. E sei que a sua verdade foi tão dolorosa quanto importante para eu entender o espaço que se criou entre o que um ou outro acreditou ser e não era.
Estas palavras não falam de amor eros. Eros não convém. Teve seu tempo numa mitologia, no Lácio.
As palavras que eu gostaria de dirigir àquele ser humano que estava encostado na porta com um sorriso, porque dos poucos amigos que tenho foi o que me deu prestígio. É o que nunca mediu nenhum abuso meu para determinar que estou certo ou errado. É o que o tempo já se vai em alguns anos e eu um dia fiz questão de quebrar o silêncio de um ano para agradecer por estar em outro lugar e estar ali com a oportunidade que sempre sonhei e consegui, a contrapartida de hoje em dia.
É bom sabermos que protestamos pelas mesma causas, lutamos cada qual à sua maneira, combinamos um tempo desses, sei lá, uma tequila para ver como mexicanos veem também a morte e saber que tempo é significados.
Obrigado novamente.
Nunca um capricho ultrapassou nossa amizade. Não seria uma parede mofada, uma cadeira velha, onde eu sento e caio. Tampouco um quadro com pintura estragada, um restauro de Cecilia Gimenez... E quando você aprendeu a lidar com meu pessimismo espirituoso e a também não retaliar meu timing. E aprendi que, sob quaisquer circunstâncias, nossa amizade é um lugar muito bonito "and if you have a minute, why don't we go? Talk about it somewhere only we know."
Obrigado, por fim.

18 de setembro de 2018

#EleNão

Desta manhã que um rio entrou no meu sonho com corpos boiando sem origem, sem nomes... sem entender, eu estava mergulhando diante do absurdo onírico. Uma estrela de Hollywood queria me seduzir com seus olhos tão lindos. Logo eu?! Não dei oportunidade. Havia uma mãe e um pai que também me seduziam com o olhar,  e a filha me seduzia com uma conversa. Sonho louco. Acordei quando preteri, era uma chance que iria dar a um pó-porvir da constelação.Que insano! Despertei sozinho e revoltado porque só no mundo dos sonhos eu tenho visto a sedução que vem à minha maneira, talvez um jeito que me dou de fazer as regras e contar com elas para mim, mesmo quando meu corpo descansa. O dia não foi em vão, mas foi tão nada a ver com o sonho que me entregava à uma segunda-feira com uma agenda mínima e umas objeções.
Tudo bem, tinha que encarar a cardiologista e receber notícias - foram animadoras. Não destruíram meu coração, desta vez. "Está tudo normal com você e tem apenas dois inimigos..." nomeadamente soltou uma piada e me deu um atestado para colocar o corpo em mais movimento. A piada veio porque há muito tempo que não chamo médicos por "doutores" e seus nomes são iguais ao meu, relação de paciente, cliente, de qualquer coisa que quebre essa doutrina de sobreposições sociais. Ela sorriu e se despediu; disse que próximo ano faríamos uma nova avaliação cardiológica.
Mas a boa notícia era sobre a saúde física. Eu ainda tinha de enfrentar uns textos perturbadores, quando vi que a Embaixada da Alemanha em Brasília tinha sido contraposta ao publicar um vídeo explicando o nazismo, enquanto muito compatriotas meus negavam o Holocausto, acredita? Um vídeo que expunha o reconhecimento do nazismo e sua relação com a política de extrema direita, o qual aquele país em suas escolas educam os adolescentes a não reverenciar um dos episódios mais horrendos do mundo para que não se repita. E do Hemisfério Sul, América Latina, nestas terras que, pouco mais de quinhentos anos atrás foi invadida e nativos dizimados, ao passo que outros foram obrigados por ideologia de supremacia racial a vir como escravos outros povos, servir ao eurocentrismo e colonizar. Fizeram aqui um cemitério de gente, de cor diferente, de outra língua, outra cultura e também distintas formas de se organizarem como sociedade: o que deu origem ao que é o Brasil, essa grande miscigenação de povos. Impuseram, sim, sob armas e medo, a civilização da qual, tanto tempo depois, faço parte com miscigenação a dar-me nome de brasileiro e não identificar minha etnia num simplismo de (e entre) três povos predominantes. Sou apenas brasileiro e tenho consciência de que nasci de uma mistura histórica. Sou do mesmo país que tenta reparar atrocidades com leis diversas e contrapostas por muita gente, normalmente insatisfeita por não reconhecer erros (direcionados a todos os lados) mas que remédios constitucionais fazem parte do trâmite para reparar nossos equívocos judiciários.
Uma discussão que chega ao terceiro poder a fazer reparações e recorrermos por admitirmos que erros são passíveis de acontecer.
Volto à discussão mundial que reconhecida pelo próprio Estado protagonista de uma grande catástrofe humana implica em suas medidas de não favorecer nenhum pesamento ou atitude que remonte a desgraça de diminuir pessoas por suas convicções e costumes. Eu li comentários odiosos, negando e considerando fraude ou mesmo combatendo, ao passo que responsabilizam uma corrente contrária, para minimizar o que o conservadorismo e a a supremacia étnica alucinada, causa de perdas morais e vitais.
Eu só tinha uma resposta contextual para me opor a essa evocação de ódio no ensejo de uma eleição presidencial em que faces do crime e do horror tentam acomunar com ideias retrógradas e novamente tentarem torturar e dizimar num século onde novas pautas precisam corrigir mais e mais os danos que ultrapassam o ódio, mas combinam com ele e reproduzem agressões a pessoas, a indivíduos e o ambiente que todos estão biologicamente adaptados, nunca finalizado como evoluções. Temas como sustentabilidade, direitos humanos, ambiente saudável, tecnologias a auxiliar desde o bem-estar de ecossistema a cura de mazelas com difíceis respostas e inalcançáveis até hoje: Aids, Alzheimer, outras doenças degenerativas, vírus que antes erradicados começam novamente a protagonizar mais tristezas às vítimas que perdem acesso por questões econômicas e até as mesmas denegações irresponsáveis em nome de conspirações sem fundamento.
Encerro aqui posicionando-me, é claro, contra o terror destemido de um nome oportunista, como dizemos: aquele cujo nome não devemos pronunciar num contesto de Inteligência Artificial que turbinam algoritmos, fomento da propaganda que não precisamos para se matar mais, para se oprimir mais, para segregar mais minha terra que já carrega uma mácula de discurso do descobrimento que não passou de uma supremacia racial detentora de muita ganância e maldade. Quando ela se aperfeiçoa com mecanismos cruéis, como as atuais redes sociais, onde a democratização era para favorecer diálogos, mas incita ódio. Aliado a isso, a tradicional imprensa sempre conectada com a face alva da hegemonia doente e aliciadora e tantos golpes disfarçado de revolução. O avesso dos ponteiros, as horas que tentam voltar no sentido anti-horário, o relógio-bomba que mete medo e tensão. Há um nome protagonizando este espírito na trajetória do tempo, que chega ao século 21, olhando e minimizando crueldade, Para isso, ainda temos opção, em que expresso na minha liberdade sem ódio e dizer apenas: ELE, NÃO.

24 de agosto de 2018

Bíblia, boi e bala

Jogaram a bíblia bem na minha cara,
Rasgou um pedaço da minha testa. 
Sangrou tanto que me senti um boi sacrificado.
Lógico, irritei-me.
Um homem qualquer chegou ao pé ouvido
E me disse:
- Logo terás uma arma e poderá responder em tua legítima defesa.-
Foi tanto desamor em cinco minutos de experiência que desacordei.
Pouco tempo depois uma chuva fina me fez levantar para a realidade;
Despertei.
Eu não havia sonhado.
Todos esses homens estavam sempre ali,
Sentados numa bancada legislando em nome do ódio. 
Só vi tristeza adiante, 
Enquanto a chuva se misturava ao sangue escorrendo no rosto.

7 de agosto de 2018

Mais nada


Deve ser uma morte horrível 
Essa de viver sem mais palavras:
Uma estrofe no meio de tudo
E não conseguir dizer mais nada.

26 de julho de 2018

Sem futuro do pretérito

Por que tão longe de mim? - eu tinha razões suficientes para acreditar que quatro dias foram assim suficientes; uma viagem de não demarcações e despretensão extraterritorial. Como se não bastasse o abismo entre mim - há uma rodovia para marcar quilômetros sem eixo - e um sorriso novo de novo. Das maneiras mais assertivas de um contato físico somado a horas de prosa além do que não se conhece bem e o desejo de conhecer alguém... Perdi o medo, olha só! Aquele medo de passar por idas e vindas, altos e baixos, opostos e, porque ela sempre vem, despedida.
Não tive desgosto, afinal, foi pouco, e foi tanto quanto precisei para ver além da zona confortável de uma sequidão na garganta e nos olhos. Não queria olhar mais para além, nem usar a força das minhas palavras em vão. Sabe que nada foi em vão? Sabe que não posso esperar mais que aquilo! Mas aquilo foi tudo e foi bom. Não tivemos vergonha, a certo instante, de demonstrar o que já estava esperando algumas horas sair de dentro de nós e ter uma plateia para assistir. É... não foi tanto assim, não foi ilusão, não. Foi real quanto surreal.
Tempo para aguardar com uma pequena ansiedade o compromisso com os outros e depois o tempo só nosso, para que? Para estar. Estar é uma decisão. Quando um homem é livre para decidir onde quer estar, já é uma vantagem tão grande de liberdade num mundo preenchido de cercas. Imagine quando são dois por decidir... Estar preso é uma situação grave, pode ser agravada ainda mais quando se é livre e não se aproveita a liberdade, ademais, naquela do silêncio, que foi minha última forma de ser livre.
Amiúde, era divertimento e ele se esgotava numa só brincadeira, uma brincadeira de adulto, mas tão sem graça que dá vergonha ao ver crianças ensinando a adultos que brincadeira é coisa bem valiosa. Engraçado é sentir graça nisso tudo, que já disse, contudo, foi pouco e foi mais que isso por ir além.
A certo ponto, pergunto o que pode ser além quando determinado momento da vida já se acredita ir longe demais com tudo isso. Retorno ao começo, que já teve fim e, portanto, só ficam lembranças que pingam feito rejunte líquido quando esse cobre numa dança escorregadia as lacunas entre peças e cacos amontoados de uma pessoa que se via aos pedaços, sem saber, o pior, que era o porquê.
Agora parece um chão rejuntado para pisar firme e, o melhor, em pé, uma vez mais, com certeza de que há muito chão ainda a caminhar e descobrir que não há cacos se, aos pedaços, não se vê tal qual um objeto partido. O mais interessante dessa experiência - boa e - nova transcende o desvalor que se fora na última limpeza de casa.
Quando templo se fez para cultuar fantasma e obscurantismo, quando não se precisa de mitos para viver de verdade. É uma fórmula simples: não ter regras e não olhar demais para o que não existe, como quem procura algo que é, às vezes, imaginação pura, pois que é um culto.
Sou agnóstico e parecia mais um embriagado de fé alguma em mitos, pretextos e objetivo final sem saber que começo tinha nem me importar com meio, meios de justificar testemunhas de dogmas, ritos e velas acesas sob o sol. A razão ilumina a todo instante uma cabeça consciente de sua importância. Boas e novas lembranças são muito melhor do que o que caiu no esquecimento e me fazia me importar demais por achar o que estava perdido. Consciência danada esta de que se se perdeu é porque não precisa, mesmo, ser achado. Ou leve demais que o vento levou. Ou pesado demais que não sai do lugar onde ficou bem lá atrás, onde não sei, onde talvez nem precise voltar.
A mente que perdeu a memória pode, enfim, celebrar um intervalo singelo de beleza: agora já não esquece enquanto nem podia se lembrar.

14 de julho de 2018

A minha língua não é morta


Pelo tamanho significado que deste a minha pequenez de ouvinte;
Pela consciência que aprendi com uma só canção sobre a responsabilidade que tenho,
Onde quer que o meu direito de ir e vir me faça querer estar,
Acima de qualquer julgamento, o corpo é meu e é somente ele que paga.
A António Variações, todo o mérito da travessia que faço:
Entre o desvario e a sanidade absoluta por uns instantes.
Pelo Norte descoberto e não explorado Trás-Os-Montes;
Pela Vera Cruz ainda não emancipada;
Pela Independência duvidosa e até comprada;
Por algumas outras lutas, em papéis ou até mais agres;
Pelo promontório preponderante de expansão dali de Sagres;
Por laços de língua e jardins - a dizer desta Última Flor do Lácio;
Pelo palácio onde reina, absoluto, todo imperialismo de todos os tempos;
Pelos ventos que fazem soprar velas e planar os motores da tecnologia;
Por essa travessia, por aquela maneira toda própria e menos anasalada em dizer ditongos de duas formas;
Pelos encontros vocálicos, os desencontros numa separação - este tipo, o hiato.
Pela quebra da regra monogâmica e em formar tritongo.
De uma vez por todas, do garbo do homem, animal alado,
Eu me recomponho e me expresso nesta língua, modéstia à parte, a mais bela,
Pronunciando cá e agora, por esta demora do translado.

22 de junho de 2018

Vazio gourmet

Veja só que coisa louca essa ideia de posse,
Essa ideia de propriedade e prévia determinação
Hoje, nossas casas, antes de serem casa
Já são terrenos murados.

Eu caminho pelas ruas e observo,
Todas as casas enfileiradas
E, entre elas, há casas que ainda não são casas;
Estão ali só os muros,
Cercando o que um dia será alguma coisa.
Sei lá... se pode chamar-se de lar.
Sei que essa ideia me perturba.

Não sei se ali terá um gato ou um cão
Ou um animal de estimação;
Se terá jardim ou quintal,
Como, de fato, será?
A arquitetura nos dias de hoje:
Faz espaços para não servir,
Faz de conta,
Faz aquilo que também há e não serve para nada.

As cidades estão cada vez mais
Parecendo com a cara da gente.
Lugares onde há mais muros para separar.
Lugares onde ambientes são desenhados
Talvez para se fotografar
Talvez para que sejam vendidos
Com uma leve impressão
Como a primeira impressão é a que fica:
Não fica ninguém e fica vazio.

Tem um vão enorme bem à frente de mim
Um espaço que caberia muita gente.
Não tem ninguém nele.

Que nome devo chamar?
Que espaço é esse?
Pode dizer, alguma-coisa-gourmet.
Não serve para nada.
Pode servir para uma fotografia, um dia.
Hoje, não serve para nada.
E eu nem sei se estarei aqui amanhã.

20 de junho de 2018

O esquecimento

As palavras têm me ajudado bastante desde o acidente. A tecnologia também favoreceu o caminho até eu estar aqui para resgatar um pouco de mim e da minha memória. A essa, eu nem preciso mais arrolar um esforço sequer, mas preciso me esforçar pelas palavras, porque foram elas que me trouxeram até o dia de hoje. Na minha mente confusa por perdas e danos, a bagunça que ficou  nas palavras salientes, a ponto de ferver o juízo, como recortes em papéis em chamas para um jogo de montar história: frases, parágrafos, as partes de um todo.
Havia aquela coisa inquieta para saber que muito mais do que as fotografias que algumas pessoas têm me mostrado; precisava reler tudo o que já escrevi para tentar encaixar, noutro jogo, a fim de formar alguma opinião. É sobre mim que deposito tudo e todos que passaram nas linhas escritas, ainda que eu me esqueça de nomes, lugares, coisas, sei lá... vou encaixando até me achar com todas as peças. Se tem alguém a que eu devo venerar, transformarei o verbo em carne e adorarei até o fim dos meus dias.
Quantos nomes ainda são estranhos a mim! Gente de sorriso sincero que, vergonhosamente, preciso retribuir com outro, mas peço desculpas por não me lembrar do nome. Sem vergonha, só tenho o perdão para distribuir. O pedido por ele, claro. Perdoo a mim mesmo e, assim, acho que consigo perdoar qualquer outra coisa ou pessoa. Está tudo perdoado.
Se eu esqueci até o meu nome uma semana atrás, todo o resto não será fácil lembrar. Mas há um esforço conjunto. O médico que me ajuda, uma senhora dedicada que me chama de filho, e eu sou seu filho por sorte! Aquele olhar dela não esconderia que jamais seria outro senão de uma mãe. Há outro olhar forte que, apesar do esquecimento, invade-me com ousadia e verdade junto a ternura de uma criança. Tem o cheiro mais gostoso que me faz reviver as melhores coisas que já não me lembro. O cheiro bom, como das rosas que ganhei hoje - não sei quem é porque me falha ainda a memória - de quem me trouxe outro perfume bom para este quarto inodoro. Eu ganhei rosas brancas e vim pesquisar o que elas significam. Alguém que me trouxe a pureza; eu gostei.
Bem, são alguns mimos que alguns me ofertam; como recusar oferta que traz cheiro, cor, sensação de bem-querer? Se eu não fui uma pessoa grata, só daqui por diante é o que mais devo ser. Então estou eu transformando tudo em retratos, mas não é minha intenção fotografar esse momento. Meu intuito, e volto a ele, é reverenciar as palavras. A quem as inventou, aperfeiçoou, enfim, a nós, humanidade, temos uma tecnologia crucial a meu favor nas atuais circunstâncias, vida longa!
Eu sei que iria a algum lugar onde saberia que lá mais estava eu; assim, caí aqui, por um empurrãozinho que deslancharia muita lembrança. Como dizer que não vivemos de passado? Nas palavras, encontrei o máximo, até aqui, onde minha identidade foi mais genuína diante de uma tragédia, que é esquecer.
Eu vi minha letra escrita em uns papéis avulsos, a força com que escrevo a fazer relevo na superfície da folha, achei bruto, acho que é a parte de mim grosseira. Gostei porque mostra a força que eu tenho no ato de escrever, dá para sentir do lado oposto a violência da minha expressão. Palavras são as minhas principais verdades, estou feliz por recuperar isso, com a selvageria de um letrado, irônico, não?! Mas a forma não ultrapassa o conteúdo e tive que entrar numa dimensão em que não faço ideia  por onde andei, mas os pés sempre estiveram em solo firme, outra coisa que consegui de mim descobrir: gosto de firmeza.
Firme no propósito de me encontrar, foi bom passear pelo passado escrito pelas minhas próprias mãos. Algo que já não lembro, mas me traz boas sensações, como o abraço que recebi de muitas pessoas e ali me senti acolhido. Aos poucos vou fazer mais do que imaginar, vou lembrar de cada coisa, cada conselho recebido, cada olhar que eu vejo e me transmite tudo o que por ora posso alcançar de bom. O que for de recordar para me fazer melhor, reconhecer-me em mim e em alguns que são parte de mim, vai ser meu esforço, como escrever mais memórias daqui em diante. O que for para ser esquecido - já consigo ver o lado bom disso - vai ficar no esquecimento. Eu só quero escrever um parágrafo, que seja, para que consiga firmar na minha história o que for suficientemente bom para ser lembrado. Agradeço a cada um que se lembra de mim mais do que eu possa fazer. E, por fim, vou me agarrar às memórias que me deem essa que é a melhor sensação: a história da gente é essa que a gente mesmo escreve, cada um com sua maneira de expressão.