14 de julho de 2018

A minha língua não é morta


Pelo tamanho significado que deste a minha pequenez de ouvinte;
Pela consciência que aprendi com uma só canção sobre a responsabilidade que tenho,
Onde quer que o meu direito de ir e vir me faça querer estar,
Acima de qualquer julgamento, o corpo é meu e é somente ele que paga.
A António Variações, todo o mérito da travessia que faço:
Entre o desvario e a sanidade absoluta por uns instantes.
Pelo Norte descoberto e não explorado Trás-Os-Montes;
Pela Vera Cruz ainda não emancipada;
Pela Independência duvidosa e até comprada;
Por algumas outras lutas, em papéis ou até mais agres;
Pelo promontório preponderante de expansão dali de Sagres;
Por laços de língua e jardins - a dizer desta Última Flor do Lácio;
Pelo palácio onde reina, absoluto, todo imperialismo de todos os tempos;
Pelos ventos que fazem soprar velas e planar os motores da tecnologia;
Por essa travessia, por aquela maneira toda própria e menos anasalada em dizer ditongos de duas formas;
Pelos encontros vocálicos, os desencontros numa separação - este tipo, o hiato.
Pela quebra da regra monogâmica e em formar tritongo.
De uma vez por todas, do garbo do homem, animal alado,
Eu me recomponho e me expresso nesta língua, modéstia à parte, a mais bela,
Pronunciando cá e agora, por esta demora do translado.

22 de junho de 2018

Vazio gourmet

Veja só que coisa louca essa ideia de posse,
Essa ideia de propriedade e prévia determinação
Hoje, nossas casas, antes de serem casa
Já são terrenos murados.

Eu caminho pelas ruas e observo,
Todas as casas enfileiradas
E, entre elas, há casas que ainda não são casas;
Estão ali só os muros,
Cercando o que um dia será alguma coisa.
Sei lá... se pode chamar-se de lar.
Sei que essa ideia me perturba.

Não sei se ali terá um gato ou um cão
Ou um animal de estimação;
Se terá jardim ou quintal,
Como, de fato, será?
A arquitetura nos dias de hoje:
Faz espaços para não servir,
Faz de conta,
Faz aquilo que também há e não serve para nada.

As cidades estão cada vez mais
Parecendo com a cara da gente.
Lugares onde há mais muros para separar.
Lugares onde ambientes são desenhados
Talvez para se fotografar
Talvez para que sejam vendidos
Com uma leve impressão
Como a primeira impressão é a que fica:
Não fica ninguém e fica vazio.

Tem um vão enorme bem à frente de mim
Um espaço que caberia muita gente.
Não tem ninguém nele.

Que nome devo chamar?
Que espaço é esse?
Pode dizer, alguma-coisa-gourmet.
Não serve para nada.
Pode servir para uma fotografia, um dia.
Hoje, não serve para nada.
E eu nem sei se estarei aqui amanhã.

20 de junho de 2018

O esquecimento

As palavras têm me ajudado bastante desde o acidente. A tecnologia também favoreceu o caminho até eu estar aqui para resgatar um pouco de mim e da minha memória. A essa, eu nem preciso mais arrolar um esforço sequer, mas preciso me esforçar pelas palavras, porque foram elas que me trouxeram até o dia de hoje. Na minha mente confusa por perdas e danos, a bagunça que ficou  nas palavras salientes, a ponto de ferver o juízo, como recortes em papéis em chamas para um jogo de montar história: frases, parágrafos, as partes de um todo.
Havia aquela coisa inquieta para saber que muito mais do que as fotografias que algumas pessoas têm me mostrado; precisava reler tudo o que já escrevi para tentar encaixar, noutro jogo, a fim de formar alguma opinião. É sobre mim que deposito tudo e todos que passaram nas linhas escritas, ainda que eu me esqueça de nomes, lugares, coisas, sei lá... vou encaixando até me achar com todas as peças. Se tem alguém a que eu devo venerar, transformarei o verbo em carne e adorarei até o fim dos meus dias.
Quantos nomes ainda são estranhos a mim! Gente de sorriso sincero que, vergonhosamente, preciso retribuir com outro, mas peço desculpas por não me lembrar do nome. Sem vergonha, só tenho o perdão para distribuir. O pedido por ele, claro. Perdoo a mim mesmo e, assim, acho que consigo perdoar qualquer outra coisa ou pessoa. Está tudo perdoado.
Se eu esqueci até o meu nome uma semana atrás, todo o resto não será fácil lembrar. Mas há um esforço conjunto. O médico que me ajuda, uma senhora dedicada que me chama de filho, e eu sou seu filho por sorte! Aquele olhar dela não esconderia que jamais seria outro senão de uma mãe. Há outro olhar forte que, apesar do esquecimento, invade-me com ousadia e verdade junto a ternura de uma criança. Tem o cheiro mais gostoso que me faz reviver as melhores coisas que já não me lembro. O cheiro bom, como das rosas que ganhei hoje - não sei quem é porque me falha ainda a memória - de quem me trouxe outro perfume bom para este quarto inodoro. Eu ganhei rosas brancas e vim pesquisar o que elas significam. Alguém que me trouxe a pureza; eu gostei.
Bem, são alguns mimos que alguns me ofertam; como recusar oferta que traz cheiro, cor, sensação de bem-querer? Se eu não fui uma pessoa grata, só daqui por diante é o que mais devo ser. Então estou eu transformando tudo em retratos, mas não é minha intenção fotografar esse momento. Meu intuito, e volto a ele, é reverenciar as palavras. A quem as inventou, aperfeiçoou, enfim, a nós, humanidade, temos uma tecnologia crucial a meu favor nas atuais circunstâncias, vida longa!
Eu sei que iria a algum lugar onde saberia que lá mais estava eu; assim, caí aqui, por um empurrãozinho que deslancharia muita lembrança. Como dizer que não vivemos de passado? Nas palavras, encontrei o máximo, até aqui, onde minha identidade foi mais genuína diante de uma tragédia, que é esquecer.
Eu vi minha letra escrita em uns papéis avulsos, a força com que escrevo a fazer relevo na superfície da folha, achei bruto, acho que é a parte de mim grosseira. Gostei porque mostra a força que eu tenho no ato de escrever, dá para sentir do lado oposto a violência da minha expressão. Palavras são as minhas principais verdades, estou feliz por recuperar isso, com a selvageria de um letrado, irônico, não?! Mas a forma não ultrapassa o conteúdo e tive que entrar numa dimensão em que não faço ideia  por onde andei, mas os pés sempre estiveram em solo firme, outra coisa que consegui de mim descobrir: gosto de firmeza.
Firme no propósito de me encontrar, foi bom passear pelo passado escrito pelas minhas próprias mãos. Algo que já não lembro, mas me traz boas sensações, como o abraço que recebi de muitas pessoas e ali me senti acolhido. Aos poucos vou fazer mais do que imaginar, vou lembrar de cada coisa, cada conselho recebido, cada olhar que eu vejo e me transmite tudo o que por ora posso alcançar de bom. O que for de recordar para me fazer melhor, reconhecer-me em mim e em alguns que são parte de mim, vai ser meu esforço, como escrever mais memórias daqui em diante. O que for para ser esquecido - já consigo ver o lado bom disso - vai ficar no esquecimento. Eu só quero escrever um parágrafo, que seja, para que consiga firmar na minha história o que for suficientemente bom para ser lembrado. Agradeço a cada um que se lembra de mim mais do que eu possa fazer. E, por fim, vou me agarrar às memórias que me deem essa que é a melhor sensação: a história da gente é essa que a gente mesmo escreve, cada um com sua maneira de expressão.

27 de maio de 2018

Vamos viajar?

Trabalhar com o Turismo tem me rendido frutos de esperanças e desgostos ao ver todo o cenário político do País afundar nas contradições a que o Brasil aspirou nos recentes tempos. Olhar para a atividade econômica que envolve interdisciplinarmente questões de muitos vieses com uma capacitação para a indústria turística me dá um fôlego imenso, uma vez que tem sido um setor que vai na contramão da crise econômica. Não dá para vivenciar o fluxo de turistas sem se deparar com os entraves de planejamentos errados, golpe de Estado e com a carnificina capitalista que devora os estratos sociais de baixo para cima.
Num simples trajeto de casa ao trabalho, já tinha visto os seres humanos mais vulneráveis se multiplicarem velozmente nas esquinas e semáforos; pessoas com cartazes escritos em bom português desesperado e pouco educado, denúncia do desemprego crescente e a consequência que os levaram àquele posto de ambulantes quando o sinal vermelho anuncia um pedido de socorro. São famílias perdendo o trabalho e, em consequência disso, as expectativas que proporcionam a ocupação mental no setor produtivo: uma reação em cadeia com a velocidade de uma avalanche de amarguras. Primeiro, brasileiros perdendo seus postos de trabalho; depois tendo que se humilharem nos pedidos de socorro para quem ainda não foi devorado pelas consequências dos jogos nojentos do mercado. A criminalidade que atinge há muito tempo uma população predisposta à violência desde a colonização, agora recruta mais e mais meninos e meninas às drogas, à prostituição, aos desvios de caminhos, à mendicância... Para muitos, isso pode até passar despercebido, porque são os responsáveis pela desocupação dessa gente ao passo que são os mantenedores dessa relação exploradora e frágil para o globalizado escambo da informalidade, sem respeito aos direitos que vêm se afrouxando como desculpa de recuperação da economia brasileira.
Se pensarmos direitinho e questionarmos o serviço a dois senhores - como pode? - foi uma estratégia assertiva e perigosa, porque falhamos sempre no caráter, do mais rico ao mais pobre, mas vínhamos conciliando bem no sistema emoldurado pós-Revolução Industrial. Lembro-me bem do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, na sua estrutura, contemplava também a mobilidade urbana. Eu vinha sendo seduzido pela perspectiva de priorização do transporte coletivo, a atração de tecnologia para produção de energias renováveis, e esperando os resultados que pudessem ajudar a aliviar o caos das cidades cada vez mais abarrotadas de gente. Ficou a maioria na promessa, mas o projeto era elogiável, pois reduzia tempo e traria conforto e dignidade para se mexer no dia a dia já movimentado demais. Nunca tivemos o nosso trem-bala... os metrôs tiveram suas linhas reduzidas e muito dinheiro jogado fora, as obras ainda estão paradas; e eram promessa para um Brasil que se apresentaria ao mundo de um jeito diferente em dois grandes eventos: a Copa do Mundo de  e as Olimpíadas de 2016. Na combinação multifocal do PAC, apareceu o pré-sal nosso, fruto de muitas pesquisas, poderia nos trazer autossuficiência no combustível mais queridinho do mundo, e ainda daria para vender ao mundo e fazer dinheiro para acelerar ainda mais o nosso crescimento. Até que ele foi saqueado e fatiado, e oferecido, é claro, muito interessante para a poderosa Exxon. Vieram os leilões e deixou de ser nosso combustível e motor.
Então, agora, vivemos os dias mais alarmantes sob esses olhos mundiais pelas riquezas do mundo e defloração de quem precisa estar por baixo, subserviente. E começou a ferir a classe média, quem comprou carros novos ao custo de IPI zero com a vantagem dos subsídios governamentais para abastecer seus tanques com combustível mais barato. Já tem mais de uma semana que o preço da gasolina, etanol e diesel subiu, começou a faltar o líquido nas bombas. Já são tantas filas para abastecer e os preço subiram numa velocidade avassaladora. A gente já nervosa agora peleja para meter combustível no carro e sair por aí atropelando a mobilidade urbana e deixar nosso tráfego mais desconfortável.
Essa desestruturação não só afetou transporte individual e cotidiano para pequenas distância. Já chegou aos aeroportos e os aviões começaram a parar também. Voos cancelados, fim de férias (até o começo) com uma frustração de não poder sair de onde estar. Classe média que viaja nas férias, até os mais ricos que viajam sempre a negócios: todos afetados por falta de combustível. Confusão nos saguões dos aeroporto e hotéis, prorrogação de estada, prejuízos, amargos montantes por uma bagunça dos especuladores - tremendos abutres - e pela luta daqueles que pararam porque viver transportando o que move o País tem se tornado perigoso e antidemocrático. Protestos nas rodovias porque também tem gente que depende mais do que para se mover para negócios ou lazer, mas depende do movimento para manter sua vida cotidiana e suas férias, quando der: os operários do transporte.
Então eu volto ao meu dia a dia como operário do turismo, lidando com o estresse de todos, tentando esquecer o meu para sair de casa ao trabalho e melhor servir à agonia dos turistas e homens de negócios. Continuo a ver os pobres nas esquinas, abandonados e esmagados porque lhes fazem desimportantes. Chego ao meu local de trabalho - foi duro encontrar, certo?! - e vejo aqueles que se acham mais importantes sofrendo com o cansaço e a frustração de uma viagem toda interrompida por uma série de erros, mas culpam apenas os caminhoneiros e se esquecem de que a culpa é toda nossa. Por que não cobramos os projetos de aceleração como se deveria? Por que muitos apoiaram o lado que quer sempre ver o outro mais fraco cair do lado onde a corda arrebenta primeiro?
Foram às ruas tirar a presidenta Dilma manipulados pela mídia, e então onde ficou todo o resto mais fácil de resolver? Lula na cadeia, e tudo ainda está do mesmo jeito, como ele ainda estivesse solto, como acusam-no de mentor dessa corrupção, que, na minha modéstia leitura, existe desde os tempos de Brasil Colônia. Muita gente saiu comprado pelo "Fora, corruPTos", gritou e bateu panela. O PT saiu do governo, já tem dois anos, e todo mundo ficou em silêncio até a carne cortar no lobby de um hotel, a cara cansada e as feridas ardendo. Ainda nem acredito que estão gritando que é culpa só de um partido, com a cara cansada, quando estavam pintadas de verde e amarelo, vestindo a camisa da seleção brasileira, apenas produzindo essa situação atual. Agora continuam procurando outros culpados ou culpando quem nem está mais no Poder. E o turismo brasileiro que poderia e vinha sinalizando um fortalecimento tem seus dias mais pesados, enquanto eu ainda estou cansado, mas apenas fazendo parte da equipe operacional. Também estou cansado, mas não frustrado pela minha viagem empacar. Mas com a mesma esperança de ir trabalhar amanhã e tentar ajudar quem está cansado também.

25 de maio de 2018

Terra adorada

Uma bala perdida. Uma pátria amada. Um peso, uma medida, um olho por olho, dente por dente; talvez um homem que plantou semente, semeou-a como quem pacientemente esperava que longos dias, estações adversas, várias delas, tudo sob a lei e a mais importante da honestidade: o fruto de sua semeadura. Justa. Correta. O que vem depois, será por lei, sempre, um filho.
O País que em pecado, no passado, herdou de si mesmo a terra roubada, há séculos, dos filhos que fogem a luta enquanto sofrem os que se armam de fé e remissão, dívida herdada por tabela, pisam forte o chão, uma vez que aperta o coração, e produz a lavoura para alimentar os mesmos caras-de-pau que cometem tudo que são de cometer por tempos, em tempos e tempos.
Filho órfão da União, do terceiro setor, de quaisquer adoções; são filhos cegos, geneticamente influenciados por estúpidas vezes que se deixaram, em nome deles, o pão ir-se esfarelando numa vitrina onde, aqueles que podem e não querem, aqueles que sofrem com fome e não podem, o ar seco e a luz que oscila degradar o alimento de quem plantou e não pôde escolher.
Estou vendo o Brasil há poucas décadas sentir coragem e travar escolhas mais certas, e voltam a repetir o mesmo erro com nuanças de uma moda que passa por colônia, império, república, ditadura e democracia, no pote de mistura, a batedeira faz da força colorida da nossa etnia uma lama escura e horripilante. Estou vendo há três décadas os erros se repetirem conforme minha leitura um dia me mostrou que toda aquela ganância só passar hereditariamente para uns nomes cuja bênção é promulgada por quem se levanta como sacerdote pronunciando seus ritos.
Faz algum tempo que quero, na agonia, partir, vejo mãos por aí, dadas furtivamente, das premeditadamente... vejo mãos separadas, não alcanço de tão longe que estejam aquelas em que um dia achei, por ingenuidade, querer com as minhas andar, dadas, em nossas forças. Faz algum tempo que olho minhas mãos trêmulas quererem apertar as mãos verdadeiras de homens íntegros, que queiram como eu, não fugir à luta, mas sentir um aperto de mão forte e digno. Faz algum tempo que perdi um pouco da memória de ir ou ficar, e permanecer entre aqui e acolá, ligado aos irmãos cujos nomes são tão simples como o meu. Foi na simplicidade que encontrei a solução: eu estendo a mão e a mão que, se a minha se junta, quer andar para onde for sem questões banais de terras em meu ou seu nome, porque a terra fica para todos, afinal. Todos terminam por escolher como tratar a terra sem perceber que a escolha tem feito, do chão, propriedade, sem jamais querer que outro semelhante, seja filho, seja irmão, seja amigo, seja querido ou não, tenha a mesma oportunidade de caminhar num lugar seguro, como um porto em que se lança e se volta, quantos homens passarem e quiserem desbravar. É aqui um lugar seguro? Temos aqui um porto para ancorar nossas barcas desbravadoras de bons corações? Não tenho a resposta, infelizmente, mas tenho um posto e nele aposto com um aperto de mão e, talvez, abraço sem patriotismo medíocre, sem a ganância por terra que o vento leva tão fácil quando poeira.

16 de maio de 2018

Alcunha para um bandido à espreita

Ladrões! Ladrões! Ladrões! Por todas as partes, em qualquer lugar do mundo. É preciso redobrar a atenção, é preciso ter noção e firmeza nas suas palavras. Não reagir, porque, a um passo, são assassinos, pois que estão doentes. Infiltram-se nos escritórios, nas escolas, no Congresso e, sem perceber, sob o olhar doce da dissimulação, lá está o ladrão na sua vida. Roubam projetos, sonhos, dinheiro, paz, fazem pirâmides, fazem qualquer geometria analítica porque tem dimensão de sobra para enganar até satisfazerem suas necessidades. É preciso estar atento, sim; é preciso não se deixar atentar. As tentações são muitos, jogam de todo o jogo da sorte e do azar, usam palavras cheias de emoção, quiçá com um sorriso de felicidade forçada ou um choro de quem pede pena porque precisa da sua, mas não é mais que um ladrão, e se for, adoece e contamina.
Há aqueles que roubam merenda das escolas; outros saciam suas fomes de mentir em busca do que, até pouco que se tenham, impiedosos, tira-o com a mão leve que afaga, quando se há duas, para a segunda, num movimento de distração, retiram a paz, o dinheiro ou a vida.
Há ladrões de ideias, jamais confie nas promessas; nunca se deixe iludir por uma colaboração, pois normalmente eles já têm comparsas. A não ser que sua vocação também esteja para o trabalho sem brilho, com apenas um querer egoísta de se dar bem e passa a perna numa rasteira de qualidade duvidosa. São treinados ao custo de suas vidas dedicadas às sombra e frieza de atos a querer a vantagem sobre todas as coisas. O País está cheio deles; o Planeta é povoado por gente assim. Já levaram ouros, pedras preciosas, mulheres inocentes, homens igualmente ingênuos, dizimaram tribos... A cada época, possuem uma alcunha relativa: ratos, sea dogs, ministros, mestres, até.
À esquina da rua, eu vi um amontoado de gente desfavorecida, repercussão do roubo; a taxa de desemprego nada mais é que o resultado do mesmo caminho terrível de suas práticas. Conheço vários tipinhos, Aparecem na televisão, estampados em outdoors, mesmo ainda o que entram em seu coração com a querência do sossego dele mesmo, mas bagunça cada átrio levantado com uma arma infalível no percurso da História: o discurso. A fala pode ser calma, os olhos podem brilhar como quem se solidariza, mas, não se engane, não... É tudo ladrão, é como um arte equivocada, mas existente. Acima de qualquer suspeita, guarde seus nomes para que não se vingue, mas que se proteja, porque até, essa cega porque já lhe levaram os olhos - que tristeza! - está também infectada com o mesmo mal... Pobre Justiça. Dê-lhe uma alcunha, porque numa lista, isso aprendi com eles, estão todos escondendo seus rostos, seus nomes, mas apelidados de alguma referência. Refira-se a ele, sobretudo, como ladrão, nada além disso, só mudam de tempo em tempo, o nome. Fixe-se nas alcunhas. Esteja à espreita da sua correção.

18 de abril de 2018

O Brasil não é para principiantes

Se calhar, o apartamento pode ser meu.
Eu adoro quando a imprensa internacional decide repercutir sobre os acontecimentos no Brasil. Não por ser melhor que a nossa, mas por ser mais imparcial do que se tivesse negócios sombrios dentro do mercado brasileiro; aliás, fomento político há tanto tempo. Acho que a piada sobre "burrice" pode ser invertida em tempos líquidos. Continuaremos apenas sambando, só que sob o compasso dos outros, a melodia dos outros, até que sejamos mais nós mesmos, quando reduzidos a nada. Falta quanto?
Adeus, daqui a pouco terra que passou de Vera Cruz para  MediaCorporation by US rules e 15 + 45 que nunca digitei numa urna.
Segue a reprodução do texto divulgado ontem no Jornal de Notícias:

De tanto ouvir dizer que Lula da Silva tinha sido condenado sem provas decidir ler a sentença.

A lei brasileira ensombra o julgamento imparcial pois permite que Sérgio Moro seja o juiz na instrução e no julgamento. A falta de distanciamento mostra-se na sentença de Moro, sendo vários os momentos em que se diz "ofendido" com a defesa, ou se refere a "interferências inapropriadas do defensor", denotando ânimo e falta de distanciamento indesejáveis num juiz.

A decisão de Moro suscita várias perplexidades. A mais notável é porque não estão claramente identificados os factos provados. Toda a decisão é uma redonda motivação. Lula desconhece rigorosamente as circunstâncias em que lhe dizem que praticou o crime. É ler para crer.

Outra perplexidade: as notícias da Globo são consideradas matéria probatória. Aliás, dão-se por provados factos noticiados pela Globo - sem qualquer confirmação da sua veracidade, e só porque foram noticiados pela Globo. No ponto 376 diz-se: "Releva destacar que, no ano seguinte à transferência do empreendimento imobiliário para a OAS Empreendimentos, o Jornal O Globo, publicou matéria da jornalista Tatiana Farah, mais especificamente em 10/03/2010, com atualização em 01/11/2011, com o seguinte título "Caso Bancoop: tríplex do casal Lula está atrasado (...)". E no ponto seguinte: "a matéria em questão é bastante relevante do ponto de vista probatório".

Notícias da Globo são convocadas noutros pontos da sentença como determinantes para prova da propriedade do apartamento, sedo-lhes mesmo atribuído o valor de documentos.

Isto não é de somenos, se pensarmos que se trata de um dos jornais mais lidos no Brasil. Ora, Sérgio Moro atribuiu grande peso ao facto de funcionários do prédio, sem nunca justificarem porquê, terem declarado que viam em Lula o proprietário do apartamento. Impor-se-ia ao julgador perguntar se não poderia ser assim em virtude das sucessivas notícias da Globo que repetidamente o afirmaram.

Um outro eixo central da condenação são as mensagens transcritas.

As duas primeiras conversas são de fevereiro de 2014. A primeira decorreu entre Léo Pinheiro e Paulo Gordilho, respetivamente o empreiteiro e o engenheiro da OAS e ambos arguidos:

Paulo Gordilho: "O projeto da cozinha do chefe tá pronto se marcar com a Madame pode ser a hora que quiser".

Léo Pinheiro: "Amanhã as 19h. Vou confirmar. Seria bom tb ver se o de Guarujá está pronto".

Paulo Gordilho: "Guarujá também está pronto".

Léo Pinheiro: "Em princípio amanhã as 19h".

Paulo Gordilho: "Léo. Está confirmado? Vamos sair de onde a que horas?".

Léo Pinheiro: "O Fábio ligou desmarcando. Em princípio será as 14h na segunda. Estou vendo. Pois vou para o Uruguai"

Paulo Gordilho:" Fico no aguardo. Leo Pinheiro: OK" .

A segunda decorreu entre pessoa não identificada e Leo Pinheiro:

- Ok. Vamos começar qdo. Vamos abrir 2 centro de custos: 1.º zeca pagodinho (sítio) 2.º zeca pagodinho (Praia)

-Ok.

- É isto, vamos sim.

- Dr. Léo o Fernando Bittar aprovou junto a dama os projetos tanto de Guarujá como do sítio. Só a cozinha Kitchens completa pediram 149 mil ainda sem negociação. Posso começar na semana que vem. E isto mesmo?

- Manda bala.

- Ok vou mandar.

- Ok. Os centros de custos já lhe passei?

- Conversando com Joilson ele criou 2 centros na investimentos. 1. Sítio 2. Praia. A equipe vem de SSA são pessoas de confiança que fazem reformas na oas. Ficou resolvido eles ficarem no sítio morando. A dama me pediu isto para não ficarem na cidade.

- Ok.

A terceira mensagem é de agosto de 2014, e foi trocada entre o empreiteiro e um executivo da OAS:

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. A previsão de pouso será por volta das 9.40, alguma orientação quanto ao horário do compromisso. Obs.: Reinaldo acredita que chegará no local que o Senhor indicado por volta das 10.30".

Leo Pinheiro: "Avisa para a Cláudia (sec) do nosso Amigo para que o encontro passe para as 10.30 no mesmo local".

Marcos Ramalho: "Ok. Leo Pinheiro: Avisou?".

Marcos Ramalho: "Falei com Priscila. Ela tentou transferir no celular de Claudia, mas ela está no banho e ficou de me ligar em 15 minutos. Pelo horário ela já deve está me ligando. Aviso o Senhor assim que falar com ela".

Leo Pinheiro: "É urgente".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. Alterado para 10.30. Falei com Claudia e agora falei o Fábio (filho)".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo. Segue o celular de Dr. Fábio. 04111999739606".

Leo Pinheiro:" Avisa para o Dr. Paulo Gordilho".

Marcos Ramalho: "Acabei de avisar Dr. Paulo Gordilho".

Marcos Ramalho: "Dr. Léo, Dra. Lara só pode atender o senhor as 14.30. Deixei confirmado e fiquei de dar OK pra ela assim que falasse com o Senhor".

O teor das mensagens é simplesmente anódino. A segunda delas será a mais comprometedora. Mas Sérgio Moro não explica por que razão conclui que Lula da Silva é "zeca pagodinho", limitando-se a concluir que é assim. De todo o modo, estas mensagens não são suficientes para se concluir que o apartamento foi oferecido a Lula da Silva, que nem sequer intervém em nenhuma daquelas comunicações.

O elemento de prova crucial foi o depoimento de Léo Pinheiro, que aceitou colaborar com a investigação para ter a sua pena reduzida. Fê-lo perante a perspectivava de passar, pelo menos, mais 26 anos preso.

Este arguido foi detido pela primeira vez em novembro de 2014. Em junho de 2016, já em prisão domiciliária, dispôs-se à colaboração premiada. Esta disponibilidade é contemporânea com a sua primeira condenação, por sinal ditada por Moro, em 16 anos e 4 meses de prisão efetiva. A proposta de colaboração foi rejeitada.

Em setembro de 2016, Sérgio Moro ordena a prisão carcerária de Léo Pinheiro, que entretanto também vira a sua pena agravada para nada menos do que 26 anos de prisão. Em abril de 2017 Léo Pinheiro muda de advogados e propõe nova colaboração, desta vez confessando ter oferecido a Lula da Silva o apartamento tríplex. A proposta de colaboração foi, então, aceite.

Atualmente, e ainda sem qualquer acordo de colaboração premiada concluído, a pena de Léo Pinheiro no processo Lula passou de 10 anos a 3 anos de prisão - em regime semi-aberto e grande parte da qual já cumprida. A colaboração trouxe-lhe enorme benefício, sendo a diferença entre passar o resto da sua vida preso ou apenas uma pequena parte. Quando o prémio é desta grandeza será muito tentador contar o que a acusação quer ouvir. O julgador não pode deixar de ter presente esta lei da vida.

Em termos de documentos, a prova queda-se com a cópia carbono de "Proposta de adesão sujeita à aprovação" assinada por D. Marisa em 12/04/2005 relativamente à aquisição do apartamento 174 (o "apartamento tipo"); e com o original daquele documento, que foi rasurado para o numero 141 (correspondente ao tríplex), ambos apreendidos em casa de Lula.

Entre 2009 e 2014 o apartamento foi visitado duas vezes pela família de Lula de Silva, que não acompanhou os trabalhos de remodelação. Não será plausível que as remodelações tenham sido feitas para seduzir o ex-presidente à aquisição do imóvel? Na altura, Lula era uma figura de prestígio mundial, cuja presença garantiria valor não só ao imóvel, mas até a toda a área. Por outro lado, não sendo Lula, em 2014, presidente do Brasil, por que razão haveria o empreiteiro de se sentir obrigado a remodelar-lhe o apartamento?

Tenho para mim que Sérgio Moro levou o conceito de prova indiciária demasiado longe. Nenhuma das provas é suficientemente consistente e conclusiva. Não afirmo a inocência de Lula. Mas entendo que a sua culpa não ficou suficientemente demonstrada para a condenação. E, tal como muitas vezes se repete pelos tribunais, melhor fora um culpado em liberdade do que um inocente preso.

Rita Mota Sousa - magistrada do Ministério Público de Portugal

15 de abril de 2018

Curriculum vitæ

Enquanto um governo golpista acaba com as esperanças da população brasileira a cada canetada que dá; decreta o infortúnio na vida das minorias que sempre alimentam as estatísticas favorável e desfavoravelmente neste solo fértil que se degrada a cada pilastra que se levanta em nome da fortuna de bem poucos, eu jamais desisti do caminho mais justo, para mim e para seguir a regra que determinei para minha passagem por este terreno com muita injustiça. Frequentei faculdade, não foi uma apenas, não foi fácil, mas foi meritocracia. Consegui concluir uma faculdade há uma década, frustrei-me na profissão que um dia sonhei para mim. Escrevo cada vez pior, escrevo mal, eu tenho motivos para me desmotivar com o jornalismo de caras lindas, de bons contatos, como se chama fontes, mas das que envelhecem e apodrecem uma desvergonha que não me permiti: escrever mentiras ou dizer por alguém sob a cara-e-pau que se chama imparcialidade da mídia. Sou um jornalista fraco, apenas tenho um registro do ministério do trabalho que me deu um carimbo na carteira, mas nunca consegui assinatura para trabalhar para homens de bens, políticos com seus muitos bens: Mercedes-Benz e coisinhas, mimos acumulativos angariados com muita publicidade e sangre alheio.
Então tentei provocar em mim um novo desejo, o de me tornar parte da mão de obra da população economicamente ativa do Brasil, fazer algo por mim e pelo mercado, e mais uma vez me profissionalizei no nicho do Turismo, no qual em pouco tempo estarei graduado, e já alcancei algumas metas no País que há pouco tempo parecia andar por caminhos mais gentis. Capacitei-me ali, nas cadeiras e estrutura ruindo de uma universidade pública, tentei e consegui ter o melhor coeficiente de rendimento do corpo discente; com isso tive oportunidade, que muito podem julgar sortilégio, privilégio, mas eu me dou por satisfeito de conseguir por métrica curricular: as chamadas notas. Em primeiro lugar, em 2016, logrei uma bolsa de estudos para cursar um semestre fora do Brasil, fui com muito medo e com aquela expectativa de adolescente sonhando com eiras e beiras mais ornamentadas. Nem tudo foi de graça, mas foi com a graça de permanecer com meus valores intactos que frequentei cadeiras mais confortáveis e entendi o quão meu país segue aquém da qualificação necessária neste globo bem globalizado; só tentei acompanhar. Consegui um estágio depois de voltar, mas não foi fácil, mesmo primando o currículo, só três meses depois do meu retorno do velho mundo cheio de coisas novas, como sempre europeizadas, fiquei nove meses servindo ao patrimônio dos outros e aprendi o máximo que pude, ao custo de tão pouco pela minha capacitação: uma bolsa, um almoço muitas vezes mal cozido, até podre (tive infecção intestinal, inclusive), um auxílio para transporte. Eu aprendi tanto e fui algumas vezes desmotivado, mas fui. Fui cansado, choroso, medonho, irritado, mas fui. Voltei mais entristecido com a desesperança que até ofuscou o que aprendi de novo, por dia, e pela noite, muita insônia e mais choro. Acabou, e onde estava o reconhecimento por tudo que deixei em troca de aprender e dominar a técnica? Estava apenas num "obrigado" bem formal como se formalizam as relações de trabalho. Saí reclamando, eu sou de reclamar, ao passo que procurava uma oportunidade, mesmo que de peão fosse para servir, porque minha casta só é de serventia quando se tem saúde e disposição.
Então...
Consegui que assinassem minha carteira de trabalho, passo a semana atrás de um balcão, com a mesma dignidade de sempre e o desejo incansável de mais aprender e servir, e tentar melhorar tanto para mim quanto para a quem precisa de melhoria em serviços.
Ontem, estava indo trabalhar e, no caminho, algumas lágrimas que eu derramava por algumas questões que ainda persistem na minha rotina de pensamento, sonhando com o dia em que essas, por esses motivos, não mais haja, em toda a qualidade do verbo "haver", embora o sentido de existir não tenha um efeito sequer na existência. Debrucei-me no labor com uma satisfação incrível de mente ocupada por algumas horas boas. No final da jornada, ao contrário do choro da ida ao trabalho, um sorriso por saber que, honestamente, consegui mais um passo à frente, enquanto o governo golpista acaba com as esperanças. Eu só tinha gratidão dentro de mim, por ser honesto, por estar ocupado, por não chorar na volta a casa por motivos banais, que definham no caminho de volta, diminuindo constantemente e dando espaço a novos projetos.
Este texto é de gratidão. Acho que viver com gratidão tem me ajudado a encontrar uma resposta satisfatória para todas as indagações que tenho quando me deparo com injustiça. Grato e satisfeito é melhor do que o estado vulnerável das coisas e das pessoas inúteis que nutrem sensação de mal-estar.
Tenho todos os nomes na memória, e um dia escreverei nominalmente a cada um deles que ajudaram nesta sensação. Ainda que eu escreva cada vez pior, mas não carrego mais a culpa de ser jornalista.

8 de abril de 2018

Usuário em defeito

Esquece o dia de ontem,
Anteontem e todas as semanas atrás.
Perde-te de mim nas horas das tuas fraquezas;
Esquece a franqueza com que eu sorri com força
Mesmo com o pranto entalado no cerne da minha metástase.

Tua doença não é mais minha, 
Não posso absorver angústias pessoais
E saudações impessoais depois de ter sido pessoa,
Casa, pilar, terreno e raiz concretada.
Minha cura vem por minha dúvida,
Minha palavra jamais será equivocada.

Desvios de sentidos, força esvaída no caos da Revolução
Patos amarelos em meio ao fogo de artifício
E bons dias artificiais, praxe dos covardes de plantão,
Etiqueta e opinião brandas como ondas de mar sereno,
Como dívidas a longo prazo e, custe o que custar,
Saberás, assim, o valor de uma demolição.

Esquece rotas e ruturas, de supetão, tuas
Tontas passagens por lado qualquer, lado a lado
Ponte entre mim e coisa nenhuma, unha encravada,
Dedo doído de apontar para o horizonte
Em que uma linha escura abastece o transtorno.

Deita-te ao som da fúria das gaivotas,
Cortando o silêncio de um ecrã frio e dissimulado, 
À palma da tua mão gélida sem saber por onde começar,
Emudeço num clique obstinado por novo lar.

Estou calado; saio lesado; caio caiado; marco ousado
De quem está em pé para sorrir novamente a quem estiver à frente.
- Bom dia, senhora. Seja bem-vinda... 
Gastei todo meu dicionário por um doentio e supeito
Utente de um hospital onde nem são nem salvo
Adoece completamente para remédio nenhum fazer efeito.

6 de abril de 2018

Pragmático

Um homem, quer por instinto de sobrevivência,
Quer, com o passar da vida e aquisição de consciência desintoxicada,
Aprende, além de mudar seu rumo,
Não seguir os rumores daqueles que se deixam levar por desvios de tudo quanto é ordem,
Percebe que o destino é uma praga rogada,
Uma arma roubada ou uma espécie de gás poluente e estratégico.
Lave seus olhos com a verdade que aprendeu nas páginas da vida.
O contexto faz de qualquer um arquiteto e também quem põe a mão na massa.
Tem massa de sobra, ela pode estar contaminada;
Quando esta falta, é hora de angariar novos insumos.
É o momento de fazer da sintaxe e da semântica apenas parâmetro.
Sobre melhor construtor, ele mesmo se constrói,
Não sob argumentos, mas sobre o terreno da coerência.