22 de junho de 2018

Vazio gourmet

Veja só que coisa louca essa ideia de posse,
Essa ideia de propriedade e prévia determinação
Hoje, nossas casas, antes de serem casa
Já são terrenos murados.

Eu caminho pelas ruas e observo,
Todas as casas enfileiradas
E, entre elas, há casas que ainda não são casas;
Estão ali só os muros,
Cercando o que um dia será alguma coisa.
Sei lá... se pode chamar-se de lar.
Sei que essa ideia me perturba.

Não sei se ali terá um gato ou um cão
Ou um animal de estimação;
Se terá jardim ou quintal,
Como, de fato, será?
A arquitetura nos dias de hoje:
Faz espaços para não servir,
Faz de conta,
Faz aquilo que também há e não serve para nada.

As cidades estão cada vez mais
Parecendo com a cara da gente.
Lugares onde há mais muros para separar.
Lugares onde ambientes são desenhados
Talvez para se fotografar
Talvez para que sejam vendidos
Com uma leve impressão
Como a primeira impressão é a que fica:
Não fica ninguém e fica vazio.

Tem um vão enorme bem à frente de mim
Um espaço que caberia muita gente.
Não tem ninguém nele.

Que nome devo chamar?
Que espaço é esse?
Pode dizer, alguma-coisa-gourmet.
Não serve para nada.
Pode servir para uma fotografia, um dia.
Hoje, não serve para nada.
E eu nem sei se estarei aqui amanhã.

20 de junho de 2018

O esquecimento

As palavras têm me ajudado bastante desde o acidente. A tecnologia também favoreceu o caminho até eu estar aqui para resgatar um pouco de mim e da minha memória. A essa, eu nem preciso mais arrolar um esforço sequer, mas preciso me esforçar pelas palavras, porque foram elas que me trouxeram até o dia de hoje. Na minha mente confusa por perdas e danos, a bagunça que ficou  nas palavras salientes, a ponto de ferver o juízo, como recortes em papéis em chamas para um jogo de montar história: frases, parágrafos, as partes de um todo.
Havia aquela coisa inquieta para saber que muito mais do que as fotografias que algumas pessoas têm me mostrado; precisava reler tudo o que já escrevi para tentar encaixar, noutro jogo, a fim de formar alguma opinião. É sobre mim que deposito tudo e todos que passaram nas linhas escritas, ainda que eu me esqueça de nomes, lugares, coisas, sei lá... vou encaixando até me achar com todas as peças. Se tem alguém a que eu devo venerar, transformarei o verbo em carne e adorarei até o fim dos meus dias.
Quantos nomes ainda são estranhos a mim! Gente de sorriso sincero que, vergonhosamente, preciso retribuir com outro, mas peço desculpas por não me lembrar do nome. Sem vergonha, só tenho o perdão para distribuir. O pedido por ele, claro. Perdoo a mim mesmo e, assim, acho que consigo perdoar qualquer outra coisa ou pessoa. Está tudo perdoado.
Se eu esqueci até o meu nome uma semana atrás, todo o resto não será fácil lembrar. Mas há um esforço conjunto. O médico que me ajuda, uma senhora dedicada que me chama de filho, e eu sou seu filho por sorte! Aquele olhar dela não esconderia que jamais seria outro senão de uma mãe. Há outro olhar forte que, apesar do esquecimento, invade-me com ousadia e verdade junto a ternura de uma criança. Tem o cheiro mais gostoso que me faz reviver as melhores coisas que já não me lembro. O cheiro bom, como das rosas que ganhei hoje - não sei quem é porque me falha ainda a memória - de quem me trouxe outro perfume bom para este quarto inodoro. Eu ganhei rosas brancas e vim pesquisar o que elas significam. Alguém que me trouxe a pureza; eu gostei.
Bem, são alguns mimos que alguns me ofertam; como recusar oferta que traz cheiro, cor, sensação de bem-querer? Se eu não fui uma pessoa grata, só daqui por diante é o que mais devo ser. Então estou eu transformando tudo em retratos, mas não é minha intenção fotografar esse momento. Meu intuito, e volto a ele, é reverenciar as palavras. A quem as inventou, aperfeiçoou, enfim, a nós, humanidade, temos uma tecnologia crucial a meu favor nas atuais circunstâncias, vida longa!
Eu sei que iria a algum lugar onde saberia que lá mais estava eu; assim, caí aqui, por um empurrãozinho que deslancharia muita lembrança. Como dizer que não vivemos de passado? Nas palavras, encontrei o máximo, até aqui, onde minha identidade foi mais genuína diante de uma tragédia, que é esquecer.
Eu vi minha letra escrita em uns papéis avulsos, a força com que escrevo a fazer relevo na superfície da folha, achei bruto, acho que é a parte de mim grosseira. Gostei porque mostra a força que eu tenho no ato de escrever, dá para sentir do lado oposto a violência da minha expressão. Palavras são as minhas principais verdades, estou feliz por recuperar isso, com a selvageria de um letrado, irônico, não?! Mas a forma não ultrapassa o conteúdo e tive que entrar numa dimensão em que não faço ideia  por onde andei, mas os pés sempre estiveram em solo firme, outra coisa que consegui de mim descobrir: gosto de firmeza.
Firme no propósito de me encontrar, foi bom passear pelo passado escrito pelas minhas próprias mãos. Algo que já não lembro, mas me traz boas sensações, como o abraço que recebi de muitas pessoas e ali me senti acolhido. Aos poucos vou fazer mais do que imaginar, vou lembrar de cada coisa, cada conselho recebido, cada olhar que eu vejo e me transmite tudo o que por ora posso alcançar de bom. O que for de recordar para me fazer melhor, reconhecer-me em mim e em alguns que são parte de mim, vai ser meu esforço, como escrever mais memórias daqui em diante. O que for para ser esquecido - já consigo ver o lado bom disso - vai ficar no esquecimento. Eu só quero escrever um parágrafo, que seja, para que consiga firmar na minha história o que for suficientemente bom para ser lembrado. Agradeço a cada um que se lembra de mim mais do que eu possa fazer. E, por fim, vou me agarrar às memórias que me deem essa que é a melhor sensação: a história da gente é essa que a gente mesmo escreve, cada um com sua maneira de expressão.