16 de maio de 2010

Uma coisa depois da outra

O começo da noite parecia bem triste quando eu olhei na carteira e tudo o que eu tinha eram 11 reais. Isso é dinheiro pra que? Aí, comecei a rir da minha pobreza monetária. E o pensamento irônico não escondia a realidade que eu tinha de encarar num fim de semana (finalmente um dia para descanso da pós-graduação e do trabalho) e não poderia fazer um dos meus programas favoritos nas horas vagas: ouvir uma boa música, conversar com as pessoas à mesa e 'encher a cara'. Então vem uma sucessão de memórias terríveis, como um mal, puxando outro. Lembrança de amor traído, estacionado no passado sem sentido, crueldade à doação, malvadeza com um coração que agora está vazio.
Então, precisava usar (sei lá) a neurolinguística, ou a obviedade... qualquer coisa positiva que me desse maior garantia de mudança de pensamento. Algo que precisasse mudar o foco da melancolia de um sábado à noite sem muita badalação nem distração a rigor da esbórnia-nossa-de-cada-fim-de-semana.
No tocador de música, overdose de Sinéad O'Connor, cantarolando It's All Good para fluir a imaginação da bondade na qual minha vida mergulha, dia após dia... enfim, foi uma boa tática para o dia de hoje.
Na fase transitória da má lembrança para a imersão no pequeno rio que a vida corre há quase dez meses, inevitável que eu não passasse pela memória dos primórdios, da fase de adaptação, onde tudo era estranheza e mal gosto; piada deslocada inapropriadamente para uma vida que necessitava de seriedade e meta. Pensar o lugar onde o outro é incômodo, mas que, na verdade, o outro sempre fui eu, a incomodar.
Como se brincasse com um controle remoto, a tecla fast forward foi o que me libertou da fase transitória e me trouxe aqui, aparentemente sem arranhões, porque, deveras, não era em suas direções que meus olhos observam.
Queixei-me, confesso, da dificuldade de passar a semana toda, estudando Rede Metro Ethernet, Rede ATM, etc, no trabalho e, no fim de semana, ter de saber comparar a criação visual minimalista com a do expressionismo abstrato, na manhã anterior; e pós-almoço, poder entender a intertextualidade que está presente na história da fotografia.
Ah, muita informação! Mas compensa.
Tenho consciência do quanto que tenho aprendido, diferentes coisa; sobretudo, coisas novas! Um olhar voltado às visualidades d'antes não reparadas com empolgação. E saber que ainda nesse comboio que aprende, eu posso descobrir, nos companheiros de excitações mentais, um sorriso de interesse (ao que é, de fato, interessante) ou o beijo no rosto que o amigo da sala de aula cumprimenta, na despedida até o dia 29/05. Memórias simples, presas a detalhes que, como protagonista, eu tenho direito de julgar importante para uma nova etapa, determinante para os dias que passarão do vigésimo nono deste mês: expectativa, com perspectiva de valor sublime, ainda que seja simplório aos que não possam conhecer o gozo desta data que escrevo.
Ainda melhor, para concluir, é poder dizer a alguém, que a cidade na qual vivo - na dúvida do trânsito ou da permanência incontável - que Tudo Está Bom, como minha cantora favorita repete aqui no Media Player do computador.


Video: Hand Catching Lead (1969), Richard Serra (Mão Agarrando Chumbo). Vídeo que conheci, neste sábado, na aula de História da Arte, da professora Fátima Couto, no qual o autor com seu gesto repetitivo, pode dizer um pouco desta minha estada em Campinas, recusando qualquer ideia de composição entre partes e, sobretudo, denotando meu interesse pela continuidade deste meu caminho, sem rumo previamente acertado. Quase uma vida minimalista, e eu estou adorando! Rá!

11 de maio de 2010

3 de maio de 2010

As novas roupas do Imperador*


Lembrei-me de quando fiz aniversário, não exatamente quando, mas creio que na minha adolescência, que meu pai perguntou o que eu queria de presente de aniversário. Eu respondi sem pestanejar: - Quero roupas.
Era meu début, assumindo a vaidade com a qual começamos a querer nos apresentar ao mundo, pela imagem que passamos aos outros.
Hoje, a Casa do Cristiano faz seu primeiro aniversário, já um pouco mais vaidosa, querendo roupas novas. Então, dei-lhe as roupas novas de que ela precisava. E a ideia foi deixar tudo mais claro.
Através deste espaço, conheci muita gente bacana, com quem pude trocar ideias e aprender. Gente que advém da blogosfera, com textos maravilhosos e imagens de excitar a imaginação, causando influência benéfica, construindo laços que vão além da permuta intelectual.
Espero que o tempo continue proporcionando este prazer em escrever um pouco de cada coisa que me vem à cabeça e me trazendo, também, o que for preciso absorver para continuar crescendo.

* The Emperor's New Clothes era a canção de minha cantora favorita, que eu escutava, antes desta postagem. O título também é um conto de fadas de Hans Christian Andersen (1937).
A tradução do título foi o que me veio à mente para transportar homonimamente para celebrar o aniversário do meu blog que, garanto, tem muito mais do que uma nova roupa: tem muito de mim.

2 de maio de 2010

Uma tal da cultura do m²

Cada um no seu espaço.
Você, quando precisa de mim,
Não vê empecilho.
Quando eu preciso de você,
Há um aperto imenso,
Até um cisco no olho,
A incomodar para não me ver.

Você não pode atender minha ligação;
Jamais teve tempo para aquele papo-em-dia;
Conta, em breves linhas, que 'tudo vai bem'.

Eu hesito em responder.
Para que?
Você já espera que 'tudo esteja bem'.
Fica complicado para dizer:
"Tudo certo como dois e dois são cinco",
A quem não terá tempo para compreender.

Não vou lhe pôr a culpa pela morte de Clarice.
Não lhe darei, também, explicações sobre a mesmice.
Pois tudo vai a seu modo, então,
Como Deus queira, enfim.
Em mim, a ideia da fita, da régua, da reta...
Em si, a geometria da isenção.

Por enquanto, só insisto em dizer a mesma coisa:
É tão injusto... que pena!
Você delimita muito a expansão cardíaca,
Alcançando os limites do mediastino, apenas.

Imagem capturada de Artesanato Natal

1 de maio de 2010

A sinfonia das armas e a projeção do silêncio criminoso



Não vou levantar aqui uma discussão materialista. Quero apenas opinar sobre o impacto das imagens com obviedade e a inerência da violência nas relações humanas, onde a digestão é completa e passa desapercebida por tamanha sutilidade.
Assisti ao videoclipe de M.I.A, cantora britânica que, há poucos dias, lançou seu video (acima) com cenas fortes, de causar impacto a ponto de retirarem o seu trabalho de circulação na grande mídia. Recebi a sugestão do vídeo por e-mail. E assim que o vi, pude perceber que realmente as imagens chocam por tamanha violência que trazem tão escancarada.
Acho que essas produções audiovisuais devem ser veiculadas, sim, da forma mais aberta possível. Se se trata de um conteúdo austero e de provocação intensa, ainda que seja no cenário musical, a sociedade precisa de choques com apelo visual fortíssimo para, no mínimo, acordar à possível reflexão.
Entretanto, o trabalho árduo é fazer com que as pessoas, cada vez mais alienadas, entendam as metáforas que, normalmente, os artistas politicamente engajados apresentam em seus trabalhos. A sociedade perdeu acuidade dos sentidos; apenas consome tudo que é jogado, como se vivesse em mendicância e aceitasse qualquer alimento que lhe pareça, a priori, comestível.
Eu fico pensando por que será que as pessoas não se chocam com esses programas sensacionalistas? Eles agridem a dignidade humana, de forma a tornar afetação de trejeitos de homossexual, ou a embriaguez, ou drogadição, ou intempéries emocionais num grande circo televisionado para se fazer risos e piada da insensatez de gente desfavorecida de, sobretudo, interpretação da comicidade beirando ao ridículo. E essas pessoas menos favorecidas são as que, pelo andar da carruagem, jamais perceberiam a metáfora da crítica, diante do sistema capitalista (ratificando que não me firmo como materialista) que acentua a violência nas relações humanas, onde, por exemplo, as relações trabalhistas, tantas vezes exercem a faceta da violência, a oprimir os que não detém o poder e a autoridade.
Então, essas visualidades que chacoalham opiniões e causam horror ao público terminam por se tornar evidências fortes ao despertar de mentes; ganham espaço (ou perdem pelo forte conteúdo e atentado à moral vigente) e se consagram como frenética comoção popular, abrindo discussão para as demais vertentes dentro desse contexto.
Eu só tenho a agradecer à vida por essa vocação artística que ela me deu...
Não me considero um artista, porque tenho pouco talento para isso, no entanto, a minha afinidade com as abordagens, as discussões e perspectiva de resultados é bastante prazerosa. E, agradecer, também a esses artistas os quais levam às telas, aos quadros, às plataformas que sustentam o toque artístico, para trazer à tona questões que precisam provocar, nessa massa apática, o incômodo por estar tudo fora de ordem, ainda que se tente maquiar, por diversos interesses imperialistas.
Meu intuito é compartilhar minha noção sobre essa tonalidade sangrenta que diferencia a violência manifesta da silenciosa; esta última, tanto quanto cruel, perceptível apenas a quem tem o privilégio de notar a hábil maquilagem de uma minoria, que está longe de sofrer exclusão, e que detém autoridade para perpetuar a covardia que a legislação discriminatória lhe confere impunidade.

Born Free por M.I.A.
Diretor : Romain Gavras
Diretor de Fotografia: André Chemetoff
Produtor : Mourad Belkeddar
Produção Executiva : Gaetan Rousseau / Paradoxal

29 de abril de 2010

Parti do Alto



Excelência em tanto questionamento,
Incongruência na busca das respostas:
Fico sem saber
Fico perguntando a todo tempo -
Vou duvidar?
E canso, no fim do dia, à obscuridade.
Sonho, ao porvir, entre ficar sabendo
E continuar perguntando:
É melhor subir ou ficar aqui embaixo,
Questionando?
E minha mãe, aflita,
Lá em cima, no mapa...
Nesta data,
Eu, aqui, ao Deus dará.

28 de abril de 2010

Destino: Universo Paralelo

Não é porque minhas malas estão espalhadas pela sala que eu deva achar que sempre é hora de ir. Há um bom tempo não tenho estado permanentemente num lugar onde eu possa dizer: que bom lugar para ser meu e, oportunamente, julgar nosso, quando eu queira oferecer gentileza! As paredes têm sido companhia mais presente, no entanto minha relação com elas, sempre conturbada, impõe, a mim, o rigor da subserviência, obedecendo à ordem de silêncio. Então, não tenho como compartilhar uma palavra falada, presencial. Meus dedos, mediante o regime escravocrata da dor e, à soberania das divisórias concretas, ficam nervosos, sonhando com a alforria diante de uma página em branco. Então, sendo assim, tenho voz.
Sou escravo branco - dotô Emerson contestaria: "onde você é branco, rapaz?" -, de obrigações nômades e, contradito, libertado ao ir-e-vir obrigatório, à luz de um lassez faire, laissez aller, laissez passer quimérico, aplicado às relações humanas muito além do que se reduz à moeda de troca: minha condição fica mais à deriva do que eu queria.
Para fugir de mais um horizontal expurgamento familiar, nada mais atenuante que o empuxo feminino, fortemente sentido como golpe: baixo de onde advinde. Perto da data limite, pensar, sob pressão de prazo estipulado com tolerância à mercê da boa vontade, é ruído estrondoso na mente que precisa mais-que-silêncio-das-paredes-companheiras. Então, parti.
Este abril despedaçado, então, é outro marco que me arremessa à posteriori, antecipa meu inicio de demarcação de espaço pela grana com destino inerente - minha antessala com malas espalhadas, quando eu bem queira - e minha imersão no Universo Paralelo.
Estou em 'Barão', posso me cuidar. Aqui, os escravos do café já fizeram história. Remeto à memória de muitos que não puderam, como eu, agora, brincar com todas as ironias do destino, escrevendo prosa, satirizando História e, com o humor que a vida me deu, pedindo a Deus um brinde com Pepsi-Cola.

Foto: Distrito de Barão Geraldo, Campinas-SP (fonte: divulgação)

27 de abril de 2010

Barão e ângulo raso

Olhando o céu democrático,
Há tanto espaço,
Ainda que a lua cheia resplandeça.
Desistindo deste ângulo...
Entre o chão e a inclinação da cabeça,
O olhar paralelo vê o concreto
A esmagar a perspectiva da outra leitura,
Diante de tanta hierarquia sobre o asfalto.

Imagem capturada de Esta Lua Nova

23 de abril de 2010

Trágico sem catarse

Sou um brasileiro médio. Estou fadado à esta concepção de reducionismo.
Estar ao meio, não referido ao centro, mas no meio das escalas, impostas pelos índices de vergonha e controle social a encontrar nossa identidade em números escalonados, ligeiros e diretos. Identificando, assim, nossa natureza.
Fui educado em boas escolas, com sacrifício da minha geração anterior, sob o discurso da mobilidade social através dos papéis que se acumula, porque ninguém, em tempos atuais, chegará a reconhecer talentos, se não lhe deram, na vida, os mecenas contemporâneos.
O óbvio do reconhecimento a curto prazo, ao meu ver, vem: ou você nasce muito bonito (ou feio o suficiente para ser achincalhado); ou você tem talento para o futebol ou é artista nato. E não se pode pensar na genética em favor de dons que a nação ovaciona; - se alguém souber, grita, por favor, que é preciso catalogar. Há outro talento que não vale ovacionar - diante das educações cristãs familiar e escolar que recebi -, no entanto não pode passar em branco: é bom lembrar aqueles que circulam nas rodas da fama, mas por trás deles está a esperteza do roubo institucionalizado, porque não dá para circular, pomposo, se você é ladrão médio.
O Brasil tem ídolos que são uma verdadeira tragédia para quem consegue olhar com aval da consciência crítica.
Eu optei por estudar, seguir a herança da honestidade e peleja por um espaço, que só se compra com papéis. Estudar por obrigação tem sido difícil, mas aos poucos vamos identificando afinidades com as leituras e a coisa pode ficar mais prazerosa. Ultimamente tenho lido sobre a tragédia, porque estou projetando uma pesquisa sobre o trágico (mimético) no cinema de um contemporâneo do cinema pernambucano.
Face à preguiça, há um prazer em ver a tragédia nas relações humanas, algo inerente à qualidade de nordestino que vive tão próximo à realidade que vai parar nas telonas e faz sucesso (por vezes, polêmica) entre a crítica, dando ao tal cineasta reconhecimento por sua arte.
O irônico de tudo isso é, que nos estudos que tenho lido, saber o tanto que me identifico é a parte mais cruel e, de certa forma, paradoxal: "O surpreendente progresso científico e técnico que nos torna 'senhores e possuidores da natureza', como queria Descartes, nos dá ao mesmo tempo a sensação de que beiramos a catástrofe a todo instante."

Imagem: Medeia, de Paul Cézanne (capturada em: http://www.paul-cezanne.org)

6 de abril de 2010

Não guardo rancor; guardo nomes

Sinto na alma o privilégio de ter pessoas em minha volta que acreditam no meu potencial e depositam todas as gotas de seu sacrifício ou mesmo a fé numa palavra sustentação (que vem por telefone, e-mail, recado, etc). Esses atos, mais do que o símbolo de uma crença e apoio, são vigas que ergem e seguram a passarela da coragem onde passeio neste lugar.
De alguns, escutei frases emotivas, muitas delas concomitantes às lágrimas que pareciam ser presságio da vitória coletiva desses corações que batem a fim de um pouco mais de segurança na vida. De repente, deparo-me com ledo engano... eu já não conseguia acreditar que aquela mão que afagou é a mesma que apedreja. Deparei-me com duas forças de expurgo que pareciam me jogar à esparrela onde se fundem o efervecente fracasso e o morno espírito de desistência. Uma delas, eu captei na minha própria família, na minha cidade natal, de onde surgiam os primeiros comentários deturpados sobre minha vida forasteira. O cuspe na cara. Palavras escutadas por informantes despretensiosos e sentidos pela minha vergonha que estava distante daqueles laços e chão. E eu escutava tudo por um aparelho de celular, enquanto a tristeza assolava minhas coragem e saudade, parecendo, mais uma vez, chamar-me ao retorno, com as mãos, abanando. A outra força que tenta subtrair minha energia vital, frente ao novo mundo, espreitou por um bom tempo minhas atitudes; frequentou o meu chão cedido; observou meu medo, algumas derrotas e a persistência; e, aproveitando o tempo que ainda tardia, deu o pulo do gato, saindo em disparada na minha frente, na frente que eu ainda não vejo, ainda que não esteja atrás de nada.
Essas forças negativas atendem por três nomes, dos quais não vale rancor guardado, mas sim todos os nomes postos dentro de uma caixinha para que eu jamais esqueça.