8 de janeiro de 2018

Feminino

Luciana,

Perdoa-me este sono tardio, perdão também por um português meio arcaico, que já me julgaram purista da gramática, como sabes. No entanto eu precisava escrever-te algo assim, do jeito mais debochado do fundo da minha arrogância quase morta para os confins de uma união de mais de uma década em que nos reconhecemos sempre um no outro da forma diferente que somos mas convém amar a diversidade desta maneira que nós tanto conversamos.
Pensar no feminino, sem consultar o substantivo sagrado, por fazer valer a força que ele tem em grande valorização, a me fazer pensar na minha mãe, na minha irmã e na minha sobrinha; a fazer continu; continuemos assim no meio deste trânsito oposto todo a soprar tanta estatística oprimente às mulheres, e também aos homens afeminados, por trazerem do gênero feminino características que, por aí, costumam dar menor valor no mercado, no antimercado, em todas as facetas que os negócios se nos chegam com um disfarce terrível e devorador, com o resumo a palavra "preconceito".
Sei - e nunca vou discordar de ti - que o patriarcado, junto às moedas de troca, tem feito de nós pessoas mais ansiosas e problematizadoras, porque é urgente. Porque dói e, sobretudo, mata. Na violência que pode começar com a voz e terminar nos atos de crueldade contra todas os sufixos geralmente terminados por "a". Já notaste que quando fazem dos grupos, quando a língua se refere a eles, deste último, mais comum, a fazer das aglomerações, de pessoas ou coisas, o substantivo masculino? Sejam eles, novamente eles, advogados, bandidos, monarcas (ainda que termine com a letra "a"), empregados, desempregados, servidores, mesmo que seja 99,99% mulheres e 0,01% homem, o gênero sempre será o feminino numa ditada e promulgada por: homens. Continua, Luciana. Mesmo que te bata o medo do assédio, da violência, fazer parte de uma estatística medonha, que denuncia ao passo que nada muda. Queima este sutiã todos os dias! Abra a boca com um bom "caralho!" pronunciado, ainda que te digam quão feio é um palavrão sair da boca de uma mulher. Fala como uma mulher, pensa como uma mulher e resiste sempre, porque é o que nos resta e eu me apoio sobre tua causa, que me carregue ela pelos caminhos de um homem melhor que eu possa sempre me tornar para meus... digo, minhas queridas pessoas - para usar o feminino - das quais neste últimos dias foi à tua presença que conversamos sobre futilidades, amenidades, mas nunca esquecemos das verdades políticas, nosso compromisso, por pensar e querer pensar sobre - e sim - em demasia, porque fica tarde em 2018 ainda estarmos em sei lá qual ano mental nesta sociedade! Eu sei que a dor de ser homem, nem sei se ainda usam o termo "terceiro-mundista", portador de várias dificuldades; poderia elencar todas elas e desnudar a real pessoa que sou, mas acadêmica, a palavra-símbolo de nosso orgulho, faz na gratidão que olhamos pelo retrovisor da vida e sabemos que somos hoje, balzaquiano e balzaquiana, eu, cá com minha melancolia de sempre, respiro um pouco nesta terra onde o calor me sufoca e me faz suar, querer um pouco de ar fresco sem o ter, sob efeito de dois miligramas de dignidade furtada da minha mãe. Sinto meu corpo descansar numa madrugada quente, sinto minha mente relaxar forçadamente. Sim, celebrando o teu sono anunciado duas horas atrás, venho cá, preencher-te numa caixa de texto branca com as ideias fluindo, cada vez mais lentas, desejar-te serotonina, continuação e parceria, uma tríade do gênero feminino para que alcancemos, quem sabe, não todo o fim de uma luta que já se arrasta com sangue, esôfagos cortados, cenas de estupros, mais estatísticas do governo e outras situações às cegas por muita ignorância aplaudida e cantada pelo próximo hit de carnaval que trará o evento mais uma depreciação em festa do corpo e da alma de uma dama. Fevereiro é já, já. Mas são vários dias do ano além de momesco letal, pagão e perpétuo nos mesmos erros.
Eu vou me deitar e pensar em ti. Neste dois dias em que, na minha solidão em casa, deste tua companhia tão inteligente, provocativa e risonha, mas com os dentes a ranger com este ódio que comprometido está em minhas ideias que articulam a produção dos meus sons, no aparelho fonador, e nos dedos nervosos, que já se estressaram com rasos conceitos e sentimento, a completar e inciar o oitavo dia do anos 2018 com o símbolo infinito para a luta da finitude dessas questões que nossa companhia tanto partilhou do meu e do teu coração em confluência. Para todas as ideias, continuemos o fluxo, mas jamais por nada nem tão pouco, tampouco repetir olhares turvos às vítimas que se alinharam ao patriarcado e deixaram de viver, comigo e contigo, outro conceito muito além da felicidade de uma publicação numa rede social.
A guerra é para estar bem; a felicidade, já sabemos e deixamos para quem mergulhar no mercado que lhes vende e embrulha para presente um mimo de ignorância.

Nenhum comentário:

Postar um comentário